
Capítulo 683
Advento das Três Calamidades
Não sabia quanto tempo tinha dormido.
O único detalhe que tinha certeza era que acordei me sentindo uma merda. Meu corpo inteiro doía, e meu olho... meu olho. Dói pra caramba. Era como se uma pedra em brasas estivesse alojada onde antes ficava meu olho.
O fato de não ter acordado apesar da dor já era um milagre por si só.
— Acho que estava mesmo tão cansado assim.
Passando a mão no rosto, forçando-me a sair da cama, fui até o banheiro, onde o espelho me recebeu com um olhar vazio.
Então, não só me sentia uma bosta, como também tinha aparência de uma.
— Talvez leve um tempo pra me adaptar de novo a essa aparência... —
Não, mas o mais importante era que, ao apertar os olhos e inclinar a cabeça mais perto do espelho, observando meu olho.
— Que diabos... —
Embora sutil, a cor do meu olho direito tinha mudado. Se olhasse com mais atenção, podia ver traços tênues de branco girando dentro dele.
Senti um arrepio estranho ao ver aquilo.
Felizmente, não era algo extremamente perceptível. Contudo, dava pra perceber claramente que ainda estava em desenvolvimento. Achei que não demoraria muito até toda a pupila ficar branca.
A ideia de ter um olho branco e outro cor de avelã me deixava desconfortável. Ia ficar estranho. Talvez... até um pouco assustador.
— Por que eu tô me incomodando com uma coisa dessas? —
Soltei um suspiro silencioso, desisti de olhar no espelho e voltei para a sala principal. O lugar era modesto, com uma cama simples e uma mesa. As cortinas estavam fechadas, deixando o ambiente sombrio. Sentei na beirada da cama e peguei um pequeno recipiente cheio de um líquido espesso e negro.
Assim que toquei nele, uma pressão primal e aterrorizante percorreu o cômodo, pressionando tudo como se fosse um peso invisível.
— ...!?
Se não fosse pelo fato de eu ter sido rápido em esconder a pressão, teria atraído a atenção de toda a cidade.
Olhei ao redor, e um sorriso amargo se formou nos meus lábios.
— Talvez não seja o melhor lugar pra fazer isso, mas acho que não posso esperar muito mais. —
Planejava fundir-me ao osso. Aqui e agora. Sentia que não tinha escolha. Era como se estivesse carregando uma bomba prestes a explodir a qualquer momento.
Talvez estivesse paranoico demais, mas não queria adiar a decisão.
Além disso, estava extremamente animado para fazer isso. Era um osso de nível primordial. O poder que continha era imenso, e mal podia esperar para adquirir uma nova habilidade.
Que tipo de habilidade eu obteria de um osso de nível primordial?
Salivei só de pensar, e justamente quando ia alcançar o osso para fundi-lo, uma figura apareceu.
— Espere.
— Hm...? —
Parando, virei a cabeça para ver a figura de uma coruja.
Ela encarava o osso com uma apreensão profunda.
'Agora que penso nisso, a Coruja-Poderosa também estava presente quando Lazarus passou por toda aquela tortura. Contudo, provavelmente não se lembra de nada.'
Quem realmente se lembrava de tudo era Pebble.
Ao contrário da Coruja-Poderosa, Pebble era a única que ainda tinha ligação com minha alma. Era a única que tinha visto todas as 'regressões' de Lazarus.
Wobbles também desconhecia.
— O que aconteceu? Tem algo errado com o osso? Será que eu... —
— Não, não é isso. —
A Coruja-Poderosa balançou a cabeça enquanto seus olhos penetrantes se fixaram no líquido viscosa na minha frente. Parecia analisá-lo cuidadosamente até, por fim, olhar de volta pra mim. Sua expressão estava séria ao me observar.
— A alma dentro do osso é extremamente fraca. —
— Hm? —
Alma fraca? Espera, isso quer dizer—
— É provável que, ao fundir-se com o sangue, não haja uma vontade. Parece que a mulher de antes também apagou completamente a existência de Xa'hurl, eliminando até sua vontade. A alma que sinto no osso é bem fraca. Mesmo que tente formar uma vontade, provavelmente não vai funcionar. Talvez futuramente, mas isso não é muito provável. —
— Ah.
Então era isso...
Não tinha certeza de como me sentir com essa notícia. Fiquei triste? Com raiva...? Não sabia ao certo. Na verdade, nem tinha pensado na vontade. Meu único foco era fundir com o osso e ganhar uma nova habilidade.
— Espere... —
De repente, um pensamento me ocorreu.
— Se não há vontade, isso quer dizer que fundir-se ao osso será bem mais fácil? —
Lembrei da vez em que tentei fundir-me ao osso do Pebble. Demorou meses para lutar contra a vontade dele antes de conseguir me fundir completamente.
Nesse caso, se a vontade estivesse tão fraca que tivesse praticamente desaparecido, não seria muito mais fácil fundir-se a ela?
— Acho que sim. —
As palavras da Coruja-Poderosa foram tudo o que precisei para confirmar meus pensamentos, e meu coração pulou de excitação enquanto eu apertava a mão e canalizava minha mana para o osso.
'Embora seja uma pena que talvez não haja vontade, o fato de ser mais fácil fundir-se a ela é ótimo. Vai me poupar muito trabalho.'
VOOOM!
De repente, uma pulsação poderosa percorreu todo o cômodo, expulsando as cortinas e jogando a cadeira no chão, junto com a mesa. Felizmente, tinha restringido todo o barulho, então não me preocupava de chamar atenção desnecessária.
Mas a pressão saindo do osso era extremamente forte.
Foi tão intensa que, por um momento, a barreira que tinha criado quase se quebrou.
— Kh.
Pressionando ainda mais minha mão, circulei minha mana com mais velocidade, assistindo o osso se enfiar na minha pele, rastejando como um verme por baixo da superfície até penetrar nos músculos e chegar ao interior do meu corpo.
O processo não machucou muito, mas o visual foi difícil de suportar.
'Concentre. Concentre. Concentre.'
Precisava me lembrar constantemente de manter o foco. Essa próxima etapa era crucial, pois lidava com um osso de nível primordial.
Seria o osso mais forte que já enfrentei, e embora ele não tivesse mais vontade, o poder contido nele ainda não era algo trivial.
Com os dentes cerrados, foquei toda minha atenção no osso que atravessava meu corpo. Eu ainda não tinha controle total sobre ele. Não sabia qual osso iria substituir. A única coisa que podia fazer agora era aguentar a dor que sentia.
Felizmente, a dor era suportável.
O único problema era a imensa pressão que vinha junto com o osso. Meu peito ficava pesadíssimo, e minhas mãos e corpo começaram a tremer sem controle.
Por um momento, quase perdi a concentração devido à situação.
Era vital que mantivesse o foco.
Se perdesse o foco, era bem provável que a pressão acumulada explodisse junto comigo. E a imagem... Não seria nada bonita.
'Concentra, concentra...'
Suor escorria das têmporas, pingando no chão e evaporando instantaneamente em vapour de água.
Chisporroteando! Chisporroteando!
Mais vapor de água formava-se ao redor, deixando o ambiente semelhante a uma sauna. Respirar começava a ficar difícil, e minha concentração quase falhou algumas vezes, mas consegui me manter firme.
Estava quase lá.
Só mais um pouco de foco, e everything estaria bem.
— Kh…! —
Com os dentes ainda mais cerrados, senti o osso viscoso finalmente agarrar-se numa determinada parte do meu corpo, e ambos meus olhos se arregalaram.
Agora!
Sabia que esse era o passo mais importante. Sem perder tempo, canalizei toda minha mana na direção do osso, forçando-o a ficar fixo no lugar.
— —!
Dessa vez.
Dessa vez… eu realmente senti a dor.
Se antes eu consegui suportar, essa foi diferente. A dor era aguda e intensa, roubando o ar dos meus pulmões. Minha boca se abriu instintivamente, mas nenhum som saiu. Por um momento, minha mente ficou completamente vazia. Pensamentos foram apagados pela força da dor.
Thud!
Mesmo sentindo meu corpo cair no chão, começando a tremer de forma convulsiva, não consegui pensar direito, e comecei a me debater pelo chão, agarrando qualquer coisa que estivesse ao meu alcance.
Bang! Bang!
Ouvi barulhos de objetos quebrando, mas tudo parecia distante e abafado.
Continuei lutando no chão, agarrando e procurando algo que me ajudasse. Contudo, quanto mais lutava, mais difícil tudo ficava.
…!…
A escuridão tomou minha visão logo depois disso.
Quando acordei novamente, estava deitado no chão, olhando fixamente para o teto acima de mim.
— Haa… Haa… —
Um forte solavanco pulsou na cabeça enquanto lutava para manter os olhos abertos. Pontinhos estranhos dançavam na minha visão, e cada movimento parecia descoordenado. Fora de ritmo. Minha cabeça tava tão leve que parecia que ia flutuar de um momento pro outro.
Mesmo assim, forcei-me a levantar, piscando algumas vezes pra tentar me orientar.
Foi então que percebi o estado do quarto.
— …..
Estava uma bagunça tão grande que nem dava pra chamar de bagunça. A cama tava quebrada ao meio. A janela estilhaçada. A cadeira… Onde diabos ela tinha ido? Só via pedaços de madeira espalhados por tudo quanto é canto.
'Ainda bem que não foi nada caro. Se fosse…'
Segurando a cabeça, levantei-me aos tropeços e caminhei até o banheiro, o único lugar que ainda estava inteiro na sala.
Devagar, me aproximei da pia, coloquei as mãos nela pra descansar, e levantei o rosto pra me olhar. Foi nesse instante que percebi o que tinha acontecido.
— …
Meus olhos.
Um vermelho. Um branco.
— …Ah —
Abri a boca, fechei rapidamente depois, pois uma enxurrada de informações começou a invadir minha mente, me deixando paralisado por um instante.
[Olho da Existência]