Advento das Três Calamidades

Capítulo 664

Advento das Três Calamidades

'Que tipo de...'

Lázaro estreitou os olhos para a água quebrada à sua frente. Ela se espalhava em fragmentos, como um espelho partido em milhares de cacos, cada um refletindo sua imagem de um ângulo diferente.

De dentro dos fragmentos, Lazarus viu várias dezenas de cenas até que seus olhos focaram em um determinado fragmento onde ele viu uma silhueta. A princípio, ele ficou perdido, mas ao observar melhor, reconheceu a silhueta.

Era a de Noel.

Embora estivesse de costas, na direção dele, Lazarus tinha certeza de que a figura dentro do fragmento era Noel. Ele estava acima do mar carmesm, sua presença parecia distorcer o espaço ao redor enquanto outra figura ficava ao seu lado.

Ela era radiante.

Só de vê-la, Lazarus sentiu vontade de desviar o olhar.

Ela parecia demasiado luminosa.

Quase como se estivesse encarando o próprio sol.

As duas flutuavam sobre o mar escarlate, olhando numa direção específica.

Lazarus não conseguia dizer o que eles estavam observando.

Na cena diante deles, parecia não haver ninguém ou nada à frente.

'É isso…?'

O fragmento permaneceu assim.

Mostrava apenas eles dois em cima da água, com ondulações se formando sob eles.

Lazarus observou ao redor, seus olhos caíram sobre os outros fragmentos.

Dentro de cada um, ele via vários tipos de imagens.

Desde águas calmas, até vários monstros pulando fora delas e devorando tudo o que surgia pelo caminho. Também mostrava vários barcos passando.

Em geral…

Muitos detalhes inúteis.

'Se meu palpite não estiver errado, tudo que aconteceu antes da formação do Vilho está sendo mostrado.'

Esses fragmentos abaixo… Todos eram registros do que aconteceu no passado.

Nesse caso, Lazarus tinha certeza de que, se procurasse bastante, encontraria um fragmento que lhe daria uma ideia melhor do que aconteceu e sobre o olho.

'O olho se perdeu durante a luta, então, se procurar com atenção, talvez eu ache algo…?'

Lazarus achava seu plano sólido, mas logo percebeu o quão errado tinha estado.

Uma hora passou até que ele percebesse isso.

Nessa hora, ele não conseguiu encontrar nada. Tudo que viu foram cenas entediantes e banais. Desde águas tranquilas, monstros e barcos. Nada que pudesse ajudá-lo de fato.

"Isso é mais difícil do que imaginei."

Ele olhou ao redor, fixando o olhar na Coruja ao longe, junto com o gato e o caranguejo. Em algum momento, também pediu ajuda a eles para encontrar algo.

O fato de os quatro, juntos, ainda não terem encontrado nada mostrava o quão difícil era achar o que ele queria.

Simplesmente, havia muitos deles.

E mais, a escuridão também dificultava uma visão mais à frente.

Por sorte, o Wobbles conseguiu produzir luz suficiente para que todos enxergassem ao redor, e não demorou até que alguém finalmente avistasse algo.

"Eu achei algo!"

O primeiro a encontrar alguma coisa foi surpreendentemente Pebble, que parecia bastante convencido enquanto Lazarus se aproximava dele.

"Aqui."

Pebble deu uma batidinha com a pata na superfície da água, e Lazarus cuidadosamente olhou na direção da pata, até que finalmente avistou uma nova cena da luta que aconteceu entre os dois deuses e o Ser Exterior.

'O quê…?'

Mas, ao olhar dentro do fragmento, Lazarus ficou completamente surpreso.

Não pelo quão intensa parecia a batalha, mas porque…

"Cadê o Ser Exterior? Não consigo ver nada."

Noel e a Panthea pareciam estar lutando contra o ar na frente delas. Lazarus… não conseguia ver o Ser Exterior de jeito nenhum. Era como se toda sua presença tivesse sido apagada dos fragmentos.

Explosões aconteciam e sangue escorria para o mar.

A luta parecia bastante intensa, mas ao mesmo tempo, muito difícil de acompanhar. Não só por causa da escala esmagadora dos ataques, mas porque todos eram extremamente rápidos.

O fato de elas parecerem lutar contra o ar só complicava ainda mais a cena.

Isso tornava muito difícil acompanhar a batalha. Mas então… ao observar com atenção, Lazarus percebeu algo.

'Sombra! Consigo ver uma sombra…!'

De fato, ao olhar a superfície do mar carmesm, ele viu uma sombra enorme. A expressão de Lazarus mudou ao ver a sombra. Não porque a figura parecia assustadora ou algo assim, mas porque…

A sombra estava borrada.

Era exatamente como a figura borrada no mural da igreja.

Será…?

A mente de Lazarus piscou segundos depois, ao perceber uma mudança no fragmento. Quando Noel e Panthea uniram forças, o que mais chamou a atenção de Lazarus foi a longo cetro de ouro na mão de Panthea, com um grande olho embutido no topo, sua pupila brilhando sob o sol branco acima.

Lazarus prendeu a respiração ao ver o olho.

'Olho da oráculo.'

Ele tinha quase certeza de que o olho no topo do cetro era justamente aquilo que procurava, enquanto Panthea levantava o cetro e atacava a sombra.

Seus ataques eram ferozes e rápidos, diferente de Noel, que era um pouco mais lento. Contudo, as duas pareciam coordenar bem, aproveitando os pontos fortes uma da outra e cobrindo as fraquezas.

Não demorou para conseguirem ferir a sombra, fazendo o sangue negro escorrer para o mar.

Foi a cena seguinte que deixou Lazarus Boquiaberto.

Assim que o sangue atingiu a água, em vez de se fundir a ela como o sangue de Noel e Panthea, o sangue parecia se expandir na superfície, formando uma espécie de película de tinta preta que lembrava assustadoramente um vazamento de óleo.

'O que está acontecendo? Por que o sangue está se expandindo?'

A cena deixou Lazarus completamente perdido. Mas, antes que pudesse entender o que estava acontecendo, o fragmento parou, e as cenas se reiniciaram exatamente de onde tinham começado.

"Espera… é só isso…?"

Ele achava que não tinha visto tudo.

Que nem ao menos tinha visto o cetro da Deusa quebrar.

Era para ter quebrado na luta. Mas a cena em que isso aconteceu não apareceu.

"Deve ter mais alguma coisa."

Lazarus olhou na direção da Coruja e do restante, abrindo a boca para pedir que continuassem procurando. Mas, bem na hora em que abriu a boca, percebeu uma mudança sutil vindo da água sob seus pés, e ao olhar para baixo, viu várias centenas de dentes afiados surgindo ao seu redor, formando um círculo ao seu redor, com um grande buraco negro no meio deles.

Sua expressão calma mudou discretamente ao pressionar o pé na superfície da água.

[Passo da Supressão]

O que quer que estivesse vindo contra ele parou de se mover de repente, enquanto Lazarus olhava para baixo com uma expressão séria.

Então…

Ele tapou o chão novamente com o pé, e um monstro gigantesco surgiu de repente das profundezas.

Estouro!

Água espirrou por toda parte, e Lazarus olhou para cima, avistando uma enorme criatura parecida com um tubarão, cuja presença parecia dominar o espaço ao redor.

Era gigantesco, e Lazarus parecia insignificante diante dele.

E ainda assim…

Sob o olhar frio de Lazarus, a criatura parecia completamente indefesa, tentando se debater no ar. Mas, por mais que tentasse, o controle de Lazarus sobre ela não vacilava nem um pingo.

Fixando o monstro flutuante à sua frente, Lazarus sorriu levemente ao ver Pebble surgir pouco depois.

"Finalmente…"

O pequeno dragão falou, seus olhos fixos em Lazarus.

"…Não posso acreditar que demorou tanto para você conquistar esse controle todo sobre a habilidade. Você realmente negligenciava ela!"

Ah, lá estava.

A insistência de Pebble.

Desde que evoluiu [ Véu de Engano ] para [ Lamento das Mentiras ], a inveja de Pebble não tinha limites. Reclamava todo dia, dizendo que sua habilidade era melhor e que Lazarus não a usava direito.

Lazarus nunca teve tempo de dominar de fato o [Passo da Supressão], por causa de tantas coisas que precisava treinar, mas nos últimos meses dedicou-se a treinar a habilidade corretamente, e agora… conseguiu controlá-la bastante bem.

Um novo mundo se abriu para ele depois disso.

Não só passou a controlar melhor a gravidade de pequenas áreas e círculos específicos, como agora… também podia revertê-la.

De alguma forma, passou a usar a 'Telecinesia'.[1] Apesar de não estar no nível máximo, com mais prática, talvez chegasse a um patamar quase equivalente.

O único problema com a habilidade era Pebble.

Ela tinha ficado um pouco mais arrogante por causa disso.

"Kekeke."

Olhar para a Coruja com uma expressão provocativa, Pebble cruzou as patas. Lazarus balançou a cabeça e virou seu olhar para o monstro, invocando fios de energia e, imediatamente, o matou com um golpe direto.

"Oh…?"

Alguns instantes após matar, Lazarus planejava jogar o corpo fora, mas ficou chocado ao perceber algo dentro do corpo da criatura enquanto o recuperava.

"Um osso? Um osso de nível terror? Realmente… muito bom."

Não, aquilo era, de fato, extremamente valioso.

Lazarus sabia que podia vendê-lo por um bom preço. Seu humor melhorou instantaneamente, e ele jogou o monstro de lado antes de continuar procurando pelo fragmento certo.

Assim ficou por várias horas.

De vez em quando, apareciam monstros, e ele os derrotava sempre.

Tudo parecia normal à primeira vista, mas, em determinado momento, Lazarus parou. Abaixou a cabeça para olhar para os inúmeros ossos na mão e firmou-se ali.

Que tipo de…

Ele tinha um total de quinze ossos na mão, exatamente a quantidade de monstros que havia matado. Cada vez que derrotava um, encontrava um osso dentro do corpo do monstro.

No começo, Lazarus pensou que fosse sorte.

Mas, após a terceira vez, percebeu que algo estava errado.

Quando coletou os quinze, ficou bem claro que tinha algo estranho, e finalmente entendeu por que tantos piratas adoravam aquele lugar.

Este lugar…

Era um enorme tesouro escondido.

Com tantos monstros contendo ossos, como não poderia ser? Não era de admirar que os sete senhores quisessem monopolizar o local.

"Mas como é possível que todos os monstros tenham um osso? Como isso faz sentido?"

Lazarus franziu a testa, pensando na situação, mas logo sua expressão se iluminou.

De repente, ele percebeu algo.

"Este lugar não é comum. A sangue de um Ser Exterior e de dois deuses caiu aqui. Será que essa é a razão de todos os monstros terem ossos?"

Coração de Lazarus deu um salto.

Baixando a cabeça e pegando um pequeno ovo do anel, lambeu os lábios enquanto olhava para um dos corpos que havia jogado fora.

Uma ideia repentina surgiu ao seu lado ao ver Pebble, que parecia compartilhar a mesma suspeita.

"Acho… que pode funcionar."

"…É possível, humano."

Lazarus lambeu os lábios de novo, observando o ovo e pegando um espelho.

Talvez.

Somente talvez.

Ele finalmente conseguiria dar à Pebble seu próprio corpo.

Comentários