Advento das Três Calamidades

Capítulo 653

Advento das Três Calamidades

"...O quê?"

Lazarus olhou para o espelho à sua frente, seus pensamentos congelados.

Levando a mão, tentou enxergar algo, mas ficou chocado ao perceber que o espelho diante dele permanecia sem reflexo.

"Que tipo de...?"

Levando os lábios à boca, Lazarus virou o olhar para outro lado.

Ele se dirigiu ao banheiro para verificar o espelho lá, mas...

"Aqui também?"

O espelho do banheiro também não refletia sua imagem.

Shiiiinn!

Ele abriu a torneira e fechou a cuba, esperando ver algum reflexo na água, mas também não obteve resultado.

Seu reflexo...

Sumiu completamente.

'Como isso faz sentido algum?'

Lazarus estendeu a mão, e um gato preto apareceu sobre seu ombro, encarando fixamente a água.

"Pedregulho, você notou alguma coisa nesses últimos dias? Algo aconteceu comigo?"

"...Não."

Até Pebble parecia confuso, enquanto uma coruja se materializava do nada.

Pliim!

"Também não percebi nada."

"Nem você?"

Coruja-Poderosa era extremamente perceptiva como monstro do tipo [Mente]. Para que uma criatura como ela não detectasse nada de estranho...

'A situação pode ser bem mais grave do que eu imaginava inicialmente.'

A expressão de Lazarus se fechou enquanto ele encarava o espelho e a água.

Por mais que tentasse, seu reflexo simplesmente não voltava. Sumiu.

Desde quando?

'Será que desde que voltei do Estreito? Mas não lembro de nada acontecer lá...'

A opção mais sensata seria perguntar a An'as se ele tinha passado por alguma mudança. Mas, justo quando pensava nisso, uma caranguejo apareceu por trás do seu ombro.

Ele encarou a água por alguns segundos antes de murmurar,

"Que estranho."

Os olhos de Lazarus se arregalaram ao ver o caranguejo.

Ele ainda não estava acostumado a ver o caranguejo. Desde o incidente no Templo, e ao trazê-lo para o navio, o caranguejo — ou melhor, o coral — decidiu ficar com eles por enquanto.

Algo relacionado ao fato de não estar totalmente recuperado do incidente e de estar longe demais de seu antigo lar.

...Já se passaram vários meses desde então.

Certamente ele tinha se recuperado.

'Não que eu esteja reclamando, já que é bastante útil.'

Mais do que tudo, ele achou seu nome especialmente estranho. Era Wobbles? É? Ele não entendeu muito bem, mas era algo que ele mesmo havia dado, então só podia aceitar.

'Que péssimo senso de nomenclatura.'

"Você notou alguma coisa?" Lazarus perguntou enquanto encarava o caranguejo.

"Não."

O caranguejo balançou o corpo.

"É a primeira vez que vejo um fenômeno assim. Contudo, parece algo que aconteceu recentemente. E..."

Subindo mais pelo meu ombro, Wobbles deu um sinal com a mão na água, cujo reflexo também desapareceu.

"Parece que também estou afetado por isso."

"O quê..."

Era verdade.

Os únicos que apareciam no espelho eram Pebble e Owl-Mighty.

Wobbles e eu estávamos desaparecidos.

Mas como...?

"Acredito que isso esteja relacionado ao que aconteceu no Templo."

Eu disfarcei, levando os lábios à boca.

"Mas eu conseguia ver meu reflexo até pouco tempo atrás."

"O mesmo acontecia comigo, mas não fui contigo na sua última expedição. Isso pode ser uma agravante do que já nos aconteceu anteriormente."

"Você está certo..."

As palavras do caranguejo faziam sentido.

Mas então...

O que exatamente estava acontecendo?

Por que ele estava sem seu próprio reflexo, e o que aconteceu de fato no templo?

"Acredito que os rumores anteriores não estavam errados. De fato, fomos alvo do grande primordial."

"O quê...?"

Parecia como se toda a fôlego tivesse sido sugada de seus pulmões.

Ele abriu a boca para afastar essa possibilidade, mas quanto mais pensava nisso, mais percebia que não conseguia.

Isso...

Sua mente acelerou enquanto aquela descrição do grande primordial piscava em sua cabeça.

Porém...

"He?"

Ele piscou lentamente.

"Por que não consigo me lembrar?"

As sobrancelhas de Lazarus franziu enquanto tentava recordar as informações que leu sobre o grande primordial. Ele lembrava do básico: onde residia, o que era, mas ao mesmo tempo...

Parecia ter esquecido vários detalhes cruciais.

"Espere, o quê?"

O peito de Lazarus se apertou ao lhe ocorrer uma possibilidade, e ele tocou seu anel, puxando um livro específico.

[Xa'ruhl, aquele que descansa abaixo]

Ele tinha a lembrança clara de ter lido aquele livro antes, e enquanto seus dedos folheavam as páginas, elas eventualmente pararam numa determinada folha.

———

Aqueles que cruzavam com Xa'ruhl não conseguiam recordar sua forma, como se cada traço de sua aparência tivesse sido apagado de suas memórias. Era como se nunca tivessem encontrado com ele de verdade. Somente muito tempo depois a verdade começava a vir à tona. Mas já era tarde demais.

———

"H-há."

O rosto de Lazarus ficou tenso ao ler a passagem.

De repente...

Tudo.

Tudo começou a fazer sentido para ele.

"Durante todo esse tempo... eu estive sob a influência dele."

Embora estivesse ciente da possibilidade, ela nunca tinha realmente lhe ocorrido. Principalmente... porque ele tinha se esquecido de uma peça-chave dessa informação. Como se tivesse sido arrancada de sua mente.

Por isso que a ideia nunca passou por sua cabeça.

Quando veio à tona, a noção de que uma criatura tão poderosa estivesse colocando ele como alvo não fazia sentido, e embora as coisas parecessem um pouco estranhas naquela época, ele não notou com atenção.

Suas memórias do incidente haviam sido todas apagadas.

...Mas agora ficou claro para ele.

Algo ocorreu no templo, e provavelmente foi resultado das ações de Sylas.

'Ele deve ser o responsável por tudo.'

Lazarus ainda não tinha certeza das motivações de Sylas ao fazer tudo isso, mas sabia que ele planejava algo.

...E não era nada pequeno.

"Preciso avisar os outros sobre a situação."

Lazarus não foi o único afetado naquele dia.

An'as e Anne também foram atingidos.

Eles... todos estavam marcados.

Lazarus não perdeu tempo e saiu imediatamente da cabine, correndo até a direção do cais.

Enquanto a luz forte do sol branco atravessava seus olhos e o céu cinzento se estendia, Lazarus viu outra figura correndo na direção dele.

"An'as?"

Como se percebendo seu olhar, An'as virou a cabeça, com o rosto pálido.

Vendo sua expressão, Lazarus entendeu.

'Ele também deve ter percebido a situação.'

An'as abriu a boca para dizer algo, mas Lazarus o interrompeu.

"Não se preocupe. Eu entendo. Eu também percebi a situação. Vamos conversar com Anne sobre isso. Estou começando a entender por que não notamos a presença dos sete senhores na nossa jornada..."

Não é como se a recompensa nunca tivesse sido colocada.

Muito pelo contrário.

...Provavelmente porque aqueles que vieram até eles foram eliminados, ou nunca chegaram até eles.

Eles...

Eram presas de Xa'ruhl.

Ninguém além dele podia tocá-los.

O pensamento deixou Lazarus tenso enquanto ele olhava rapidamente ao redor e avistou Anne parada na proa do navio. Ela parecia absorta em pensamentos, com o cabelo ao vento, olhando para a distância.

Lazarus e An'as não perderam tempo e foram em direção a ela.

Porém, assim que fizeram...

Anne virou a cabeça para encarar os dois.

"Chegamos."

"He?"

"O quê..."

Anne deu um passo para o lado, e foi então que eles perceberam.

A gigantesca sombra ao longe, que se estendia por toda a visão deles.

"...Chegamos ao Sul Remanescente."


Ao mesmo tempo.

"Alguém conseguiu alguma coisa?"

"Bem..."

Leon coçou a cabeça com uma expressão embaraçada. Olhando para Amell, ele não sabia bem como responder.

"Quer dizer, conseguimos alguma coisa, mas..."

"Aqui."

Toc!Bum!

Kiera jogou um pedaço de carvão preto no chão, deixando Amell sem palavras ao encará-lo.

"Isso é?"

"O que sobrou do que conseguimos pegar."

"Que...?"

Amell olhou para Leon, que rapidamente virou o rosto para outros lados. Leon não tinha palavras... nenhuma que mudasse algo, na verdade. Tudo que podia fazer era fixar o olhar ao redor, fingindo indiferença, como se evitar sua presença pudesse, de alguma forma, apagar sua presença naquele momento.

"Quantas vezes já aconteceu isso?"

Amell olhou para o pedaço de carvão e suspirou.

Ele já tinha desistido de esperar algo do grupo de Leon. Eles sempre voltavam com pedaços assim. Felizmente, os monstros que seu grupo conseguia caçar eram suficientes para alimentar todos.

Amell observou o acampamento improvisado em que se encontravam.

Barracas estavam espalhadas por toda parte, enquanto uma grande fogueira ardia no centro.

No geral, a situação tinha se estabilizado bastante desde os primeiros dias na Zona Vermelha. Apesar de ainda estar longe do ideal, era gerenciável.

Agora eles podiam dormir direito, sem se preocupar em serem emboscados a cada momento.

As tensões também estavam bem menores, com todos mais relaxados e atentos ao ambiente.

'Se as coisas continuarem assim, talvez até seja tranquilo.'

Amell realmente achou que as coisas iam seguir por esse caminho, mas...

Acabou se dando mal por pensar assim cedo demais.

"Arrumem tudo."

"O quê?"

Olho fixo em Caius, que parecia não demonstrar muita expressão, Lazarus e os demais olharam uns para os outros confusos.

Antes que alguém pudesse questionar, Caius falou:

"Não podemos ficar no mesmo lugar por muito tempo. Isso nos torna presas fáceis para os monstros. Precisamos nos mover a cada dois dias."

"Mas—"

"Essa é a informação mais básica que aprendemos no nosso Império. Tenho certeza de que todos aqui também aprenderam na Academia."

Apesar das muitas reclamações, ele não estava errado. Todos sabiam, de alguma forma, e tudo que podiam fazer era embalar suas coisas e partir.

"Para onde vamos?"

Enquanto pensavam na próxima rota, uma figura apareceu logo acima, com o cabelo ao vento.

"He?"

"Cônsul? Por que você...?"

Assim que Delilah apareceu, todos ficaram tensos.

Por que ela estava ali? Embora soubessem que ela deveria acompanhá-los, ela só apareceria se uma ameaça grande surgisse.

Será que...!

"Não se preocupe."

Delilah pousou suavemente no chão, encarando uma determinada direção.

"Como vocês vão se mover, eu vou decidir o próximo destino de todos."

Sua mão atingiu o espaço à sua frente.

E então—

Riiip!

Sob o olhar atento de todos, o próprio tecido do espaço à sua frente rasgou-se ao ela puxar com as mãos nuas.

Os cadetes apenas podiam olhar assustados enquanto um portal se abria diante deles.

"Vão."

Delilah deu um leve empurrão com a cabeça.

"A próxima fase do seu teste está aqui."

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