Advento das Três Calamidades

Capítulo 647

Advento das Três Calamidades

BOOOM!

As ondas se chocavam violentamente, elevando-se a vários metros de altura antes de bater com força explosiva. Água espirrava ao redor, molhando o comerciante e An'as, que ambos recuaram instintivamente, como se o próprio mar tentasse empurrá-los para trás.

— Isso é loucura! — exclamou An'as, cobrindo o rosto com o braço enquanto olhava adiante, esforçando-se ao máximo para enxergar através das densas gotas de água que voavam no ar.

A cada vez que uma onda atingia a rocha, um estrondo esteril se fazia ouvir no ar, e as expressões de An'as e do comerciante ficavam cada vez mais sombrias.

Finalmente, An'as levantou a cabeça em direção às imensas falhas negras e jaggedas nas falésias ao longe, e, pensando em algo, sugeriu:— Que tal, ao invés de irmos pelo Estreito, subirmos direto e verificarmos como está a situação lá em cima? Também podemos ter uma vista do Estreito de cima.

A ideia era excelente e fazia sentido.

Além disso, parecia muito menos perigosa.

— E, se os outros senhores estão armando uma emboscada, acho que seria o lugar perfeito para isso. Com certeza, eu escolheria lá.

An'as achava sua lógica sólida. Então, ao olhar para Lazarus, esperava que ele concordasse, mas...

— Não. — respondeu o comerciante sem hesitar, balançando a cabeça enquanto fitava o Estreito.

An'as imediatamente protestou.

— O quê? Por quê? Se—

— A embarcação não vai subir. Ela vai direto para o Estreito. Além disso, tem a neblina, que dificulta ver o que acontece lá embaixo. Subir seria simplesmente uma perda de tempo. — explicou Lazarus.

— Mas... — insistiu An'as.

— Não precisamos nem ir lá diretamente. — Lazarus levantou a mão, fazendo um coruja aparecer.

O rosto de An'as escureceu ao ver Lazarus levantar a mão e o coruja voar ao ar.

— Tenho alguém mais que pode fazer esse trabalho perfeitamente. — declarou Lazarus.

— ... —

Olhar para o coruja, o que An'as poderia dizer?

Ele... só queria subir realmente.

Parecia bem melhor do que qualquer coisa que estivesse dentro do Estreito.

'Não consigo ter um momento de paz com esse cara...'

— Vamos. Não há tempo a perder. — declarou An'as, relutante, seguindo o comerciante rumo ao Estreito, enquanto ondas residuais espirravam ao redor deles, indiferentes à águas escarlate que se projetavam em sua direção.

BOOM! BOOM—!

O rugido incessante das ondas ficava cada vez mais alto e mais forte quanto mais se aproximavam do Estreito. Quando cruzaram sua entrada, o estrondo quase cegava, como se alguém estivesse batendo um tambor bem perto de seus ouvidos.

Era desconfortável, mas ambos conseguiram ignorar enquanto entravam no Estreito, deixando a neblina consumi-los lentamente.

Então—

A escuridão.

Tudo escureceu, com An'as apenas conseguindo enxergar ao longe, distinguindo a sutil silhueta do comerciante.

— Fique perto. Não se afaste de mim. — avisou Lazarus.

À medida que o som das ondas se tornava abafado, a voz de Lazarus ficava mais clara.

— Não pretendia sair do seu lado. — respondeu An'as, cauteloso.

O nevoeiro ficava mais denso enquanto davam passos na direção à frente, a água ondulando sob seus pés.

Um frio percorreu seu corpo, fazendo An'as estremecer um pouco. A sensação de frio veio acompanhada de um cheiro desagradável que permanecia no ar.

Era diferente do usual cheiro de ferro.

Esse cheiro...

Parecia mais podre.

Mas o que exatamente seria esse cheiro?

An'as olhou ao redor, mas tinha dificuldades para enxergar além, pois o nevoeiro era incrivelmente espesso.

A escuridão também os engolia por todos os lados.

Ele tinha acabado de dar mais um passo quando Lazarus parou, sua mão se movendo no ar enquanto dobrava a intensidade de [Lament of Lies] — [1].

Enquanto Lazarus ainda não notava nada, algo no ambiente o deixava completamente desconcertado.

Ele não conseguia explicar exatamente, mas a sensação fazia um calafrio involuntário percorrer seu corpo, cada respiração saindo como uma leve névoa, como se o próprio ar ao redor refletisse essa inquietação enraizada nos ossos.

— ... —

Lazarus observava ao redor, com os olhos estreitados, inclinando-se levemente para tocar a água.

'Está frio...'

Muito mais frio do que a água fora do Estreito.

Ele franziu os lábios, observando adiante.

Não percebia nenhuma presença por perto.

Apesar do nevoeiro espesso, seu [Sentido de Mana] funcionava perfeitamente. Assim, ele tinha plena consciência da ausência de seres vivos na área, sejam humanos ou monstros.

Ele... não sentia nada.

'Será que eles estão escondendo a mana?'

Essa era uma estratégia para dificultar a detecção pelo seu talento. Já tinha acontecido antes com aquele monstro estranho que encontrou se escondendo nas águas...

Talvez um caso semelhante estivesse acontecendo aqui?

Os olhos de Lazarus se estreitaram ainda mais ao pensar nisso. Se fosse realmente o caso, teria que ser mais cuidadoso, atento a tudo ao redor, sem deixar passar nenhum detalhe.

Respirando silenciosamente, Lazarus seguiu adiante enquanto An'as o acompanhava de trás, e Owl-Mighty voava acima, comunicando-se com Pebble, que repassava tudo a Lazarus.

Assim, Lazarus e An'as atravessaram o Estreito, observando tudo ao redor.

Quanto mais avançavam, mais silencioso ele ficava.

O silêncio...

Era tão pesado que parecia pressionar seus ouvidos, quebrado apenas pelas ondulações excessivamente altas de seus passos nas águas.

Os dois perceberam que estavam lentamente diminuindo a velocidade.

Durante todo esse tempo, Lazarus mantinha [Sentido de Mana], ao mesmo tempo em que enviava fios ao seu redor para fazer uma varredura na rota à frente.

Foi só depois de mais algum tempo que os olhos de An'as se arregalaram ao avistar algo ao longe, e ele colocou a mão no ombro de Lazarus.

— Aqu… Você vê isso?

— Sim. — respondeu Lazarus, em silêncio, parando por um momento para respirar fundo.

As tensões aumentaram, com os dois fixando o olhar na água distante, onde avistaram algo flutuando acima dela.

Pararam e ficaram olhando ao longe, tentando identificar o que era o objeto ali suspenso.

— Deveríamos… — começou An'as.

— Espere. — Lazarus o segurou, usando seu [Sentido de Mana] para detectar qualquer coisa. Porém, parecia que aquilo não continha mana. Então, usou seus fios para mover suavemente a água ao redor e enrolar-se ao redor do objeto flutuante antes de trazê-lo para perto.

Enquanto começava a puxá-lo, a água se abriu suavemente —

O som do objeto arrastando na água ecoou de forma assustadora, e o corpo de An'as se tensionou sem pensar.

Eventualmente, Lazarus chegou até eles com o objeto na mão.

Splash!

No instante em que fez isso, o rosto de An'as mudou drasticamente.

— ...! —

An'as deu um passo para trás, com a face pálida, encarando algo que parecia ser a mão de uma pessoa, pendurada pelo fio, com a imagem grotesca do membro amputado gravada em sua mente.

An'as sentiu seu coração bater descontroladamente dentro do peito enquanto olhava para o comerciante, que parecia não demonstrar emoções diante da visão.

…E fazia sentido, considerando que eles tinham visto coisas muito piores na luta anterior.

No entanto, o motivo pelo qual An'as ficou tenso não era porque achava a imagem repulsiva, mas porque o local em que estavam parecia ainda mais inquietante.

Olhar para a mão cortada, ela ainda parecia fresca, o que indicava que a origem daquela cena ainda estava por ali.

— Precisamos ir. Acho—! — começou An'as, mas não conseguiu terminar a frase ao ver o comerciante olhar ao longe, com uma expressão extremamente grave.

Quando An'as virou a cabeça, sua expressão também mudou ao perceber várias 'objetos' flutuando na superfície da água ao longe.

Quanto mais caminhavam, mais apareciam, e Lazarus os observava fixamente, e An'as sentiu o ar sair de seus pulmões.

Porque…

'Outra mão. Desta vez uma perna... Outra mão... É diferente. Uma cabeça…'

Todos pareciam os vestígios de pessoas.

Tantos, e todos tão recentes… O sentimento de inquietação crescia a cada momento, e An'as olhava para o comerciante, sua urgência ficando cada vez mais evidente.

— Precisamos sair. Algo estranho nesta situação toda não está certo. Acho que——

Splash!

Quando Lazarus puxou mais um 'objeto' das águas, An'as parou.

Seu rosto... Não, não foi só o rosto.

Seu corpo inteiro congelou.

Ao ver a cabeça sendo levantada pelo comerciante, An'as piscou lentamente, na esperança de que aquilo fosse apenas uma ilusão.

Mas, ao piscar novamente e o rosto permanecer igual, o medo que vinha crescendo antes atingiu o auge, e ele virou-se rapidamente, agarrando o ombro do comerciante e puxando-o.

— Temos que ir, agora! — a voz dele trêmula denunciava o medo, assim como seu corpo completamente tenso.

— Vá rápido, se apressa! — insistiu.

Ondas se formaram na superfície da água enquanto ele corria ao máximo em direção à entrada do Estreito.

— Temos que correr, temos que correr!! — pensou An'as, desorientado, respirando com dificuldade, cada fio de cabelo eriçado, enquanto um peso invisível parecia pressioná-lo.

A sensação de perigo avançava como dedos gélidos deslizando pela sua coluna, vindo de trás, invisível, porém, claramente próximo, como se algo apenas fora do alcance visível estivesse se inclinando para agarrá-lo.

— Não há dúvida, é ele! Tenho certeza de que é ele! — pensou An'as, já fora de si.

Correndo para frente, An'as pensou na cabeça, e depois em todos os corpos dispersos na água.

No começo, ele ainda tinha dúvidas, mas agora tinha certeza.

Esses corpos.

Era deles que se tratava.

Eram restos do Vulpoon Raiders, uma das sete maiores tripulações piratas que vagavam os Mares Carmesim, liderados pelo infame Deadbolt Vulpoon.

E aquela última cabeça que viu...

Aquela ali pertencia à própria pessoa de Deadbolt Vulpoon, um dos sete senhores do mar.

'O-oh, não...'

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