
Capítulo 591
Advento das Três Calamidades
—"O que aconteceu aqui?'
Escaneei a sala com confusão. Marcas profundas estavam espalhadas pelo espaço de treino, algumas mais irregulares e severas que outras. Mas o mais chocante era que ao meu redor tudo permanecia intocado, pristine, como se nada tivesse acontecido.
A visão me deixou completamente perdido.
—"Como as coisas chegaram a esse ponto?"
...E por que eu não conseguia lembrar de nenhuma lembrança?
Vazio.
Na hora em que tentei recordar algo, minha mente ficava completamente em branco.
A última coisa que me lembro foi de Leon assumindo uma postura antes de a cena mudar para a atual.
Como isso fazia sentido?
Não, o mais importante: onde estava o Leon?
Fuzilando a testa, meu olhar finalmente se fixou na figura lutando ao longe. Meus olhos se arregalaram ao vê-lo segurar a cabeça com ambas as mãos, retorcendo-se no chão de dor.
—"Ele não parece bem."
Leon estendeu a mão na minha direção.
"Me-ajude."
"Sim, ele definitivamente não parece bem."
Rapidamente, ergui-me e corri em direção ao Leon que lutava. Ele estava tão desligado que mal parecia perceber minha presença, suas respirações eram ofegantes, desesperadas.
—"Ukh...! Ukh!"
—"O que foi que aconteceu?"
"Q-quê... Eu...."
Era clara a tentativa de Leon em explicar a situação, mas, infelizmente, tudo que acontecia com ele impedia que falasse, enquanto agarrava a cabeça a cada poucos segundos.
—"Ukh!"
Uma expressão de dor escapava dele a cada esforço, a testa tensa, as veias pulsantes sob a pele.
Demorou um minuto até ele finalmente se acalmar, e, à medida que sua respiração se regularizava, ele falou,
"...Eu... realmente não sei."
—"Como assim, não sabe?"
Olhei ao redor.
"Então, e o que aconteceu ao nosso redor? Tenho certeza de que foi você quem fez isso."
"Fiz."
"E...?"
"Eu... não sei."
"Mas você não disse que foi você? Como pode não saber?"
"Então... você também não viu?"
"Eu..."
Não sabia como responder aquilo. Não vi. A única explicação que veio à minha cabeça era que ele tinha sido tão rápido que não consegui perceber seus movimentos; no entanto, refletindo com mais clareza, sabia que, provavelmente, essa não era a razão.
Por algum motivo, minha mente apagou no momento em que ele começou a realizar aquela técnica estranha com a espada.
—"Por que? Por que eu apaguei...?'
E mais uma coisa,
"Por que você está assim, Leon? Você se esforçou demais durante o movimento?"
"Ughh..."
Soltando mais um gemido, Leon lentamente conseguiu se levantar, respirando fundo várias vezes.
"V-você poderia dizer que sim, mas..."
"Mas?"
As sobrancelhas de Leon se franziram intensamente, seu rosto pálido voltando-se para mim.
"Eu... aconteceu algo estranho naquele momento. Eu realmente... não sei bem explicar, mas entrei num transe estranho. De repente, o mundo ao meu redor desapareceu, substituído por estrelas. Foi... estranho. Cegante, mas ao mesmo tempo parecia que eu estava lentamente desaparecendo."
"O quê...? Desaparecendo?"
Pousei uma respiração profunda, processando suas palavras. Por algum motivo, elas começaram a me lembrar da conversa recente que tive com Jackal. A respeito daquela 'fonte' estranha.[1] - Referência a alguma energia ou fenômeno misterioso.
Mas a única coisa que me lembro dele ter dito foi que se sentia como se estivesse 'perdendo' a si mesmo. A descrição de Leon agora — soava assustadoramente similar.
No entanto, ele nunca mencionou estrelas ou qualquer coisa assim.
'Será que estou pensando demais? ...Ou o que Leon experienciou pode estar relacionado ao que Jackal mencionou antes?'
Aquela coisa da fonte...?
Mas aquilo não fazia muito sentido... Como ele poderia de repente manifestar isso logo após Jackal falar sobre?
Não só isso, parecia que isso não era a primeira vez que via algo assim acontecer.
Na verdade, Kiera...
Ela também poderia ter passado por algo assim?
"Hmm."
Não tinha como saber ao certo. Nunca tinha vivido fenômeno semelhante antes, e sabendo que o domínio de Leon tinha relação com estrelas, achei que talvez as coisas não estivessem relacionadas.
Não tinha tanta certeza sobre Kiera.
Porém, a menção de Leon sobre 'se perder' fazia meu coração ficar desconfortável. Continuava rondando na minha cabeça, sempre lembrando das palavras que Jackal tinha dito antes.
'Não há realmente ligação, certo?'
"Hhaa..."
Enquanto Leon respirava com dificuldade, seu olhar se desfez do meu e foi até sua espada, espalhada alguns metros adiante.
"Você... pode pegar a espada?"
"Ah, claro."
Saindo dos meus pensamentos, expirei fundo e corri até a espada dele. Pegando-a, ela era surpreendentemente leve ao toque. Sentia diferente da espada que Leon costuma usar.
'Acho que faz sentido, considerando que é só uma espada de treinamento.'
Aliás...
Olhei ao redor, para as marcas e cicatrizes que cobriam as paredes.
Meu coração afundou ao ver aquilo.
"Tomara que não peçam para consertar isso."
Senti que não seria barato. Felizmente, o isolamento do local era ótimo, e ninguém tinha vindo ainda. Mas não podia garantir que eles não tivessem percebido algo, então era melhor irmos embora logo.
Swoosh!
Brinquei casualmente com a espada no ar e dei um passo à frente.
"Sim, ela é bem leve."
Gostei do jeito que ela se sentia.
Swoosh!
Balancei a espada novamente.
Dessa vez, o movimento foi mais preciso que o anterior.
Um sussurro suave e agradável ecoou no ar.
Swoosh, swoosh—
Continuei a balançar mais algumas vezes, e os movimentos ficaram ainda mais fluidos.
'É estranho.'
A cada golpe, uma sensação esquisita surgia. Algo diferente de tudo que tinha sentido ao balançar uma espada antes. Isso... parecia um pouco diferente, e minha expressão mudou ao perceber a mudança.
Swoosh!
Balanceei novamente.
Por alguma razão, cada movimento parecia ainda mais diferente. Mais afiado, mais preciso, mais implacável.
O que é isso...
SWOOOSH!
—"...!?"
Quando cortei com a espada pela enésima vez, senti uma mudança enorme, e ao olhar para cima, vi isso...
Mais de uma dúzia de linhas douradas cobriam minha visão.
—"O que... que é isso?"
Fiquei completamente perdido ao ver aquela cena diante de mim. Linhas se estendiam em todas as direções, cada uma traçando um caminho diferente, quase como se a espada tivesse viajado por eles. As possibilidades eram infinitas — poderia escolher qualquer uma.
Não só isso, parecia que cada caminho reagia ao outro, revelando novas bifurcações a cada golpe que dava.
Meus olhos tremeram ao ver aquilo, e enquanto minha pegada na espada relaxava um pouco, as palavras de Leon ecoaram forte na minha cabeça.
—"Julien?"
—".....!?"
Eu voltei à realidade de repente, as linhas douradas sumindo completamente da minha visão.
—"...Ah."
Como se tudo tivesse sido uma miragem, as linhas douradas desapareceram, deixando-me encarando em branco a sala de treino à minha frente, com o peito pesado de forma estranha.
—"Julien?"
Quando Leon me chamou novamente, lentamente virei a cabeça na direção dele.
—"O que foi...?"
"Minha... minha blusa."
Leon murmurou, com a expressão pálida, olhando ao redor.
—"Onde... onde está minha blusa?"
"Sua blusa?"
Parei por um momento e olhei para baixo. Foi então que notei um pedaço de pano preto no chão e, instintivamente, estiquei a mão para pegá-lo.
—"Este?"
"...."
O rosto de Leon virou ainda mais pálido, o desespero lentamente tomando conta dele.
Então,
—"Você pode... pode pegar a espada?"
"Ah, posso."
Saí dos meus pensamentos, respirei fundo e corri até a espada dele. Pegando-a, ela era bem leve ao toque. Sentia-se diferente da espada que Leon normalmente usava.
'Deve fazer sentido, já que é só uma espada de treino.'
Aliás...
Olhei ao redor e observei as marcas nas paredes.
Meu coração afundou ao ver aquilo.
"Tomara que eles não peçam pra arrumar isso."
Senti que não ia ser barato. Felizmente, o isolamento aqui era excelente, e ninguém tinha vindo ainda. Mas não podia garantir que não tivessem percebido algo, então era melhor sair logo.
Swoosh!
Passeei a espada no ar e dei um passo adiante.
"Sim, ela é bem leve."
Gostei do peso.
Swoosh!
Balanceei novamente.
Dessa vez, o movimento saiu mais preciso e forte.
Um zumbido suave e agradável percorreu o ar.
Swoosh, swoosh—
Continuei a treinar mais algumas vezes, e cada movimento ficou mais fluido que o anterior.
'Que coisa estranha.'
Com cada golpe, uma sensação esquisita me invadia. Algo diferente de tudo que tinha sentido antes ao empunhar a espada. Isso... parecia um pouco diferente, e minha expressão mudou ao perceber isso.
Swoosh!
Balanceei novamente.
Por algum motivo, cada movimento parecia ainda mais distinto. Mais afiado, mais preciso, mais implacável.
O que...?
SWOOOSH!
—"...!?"
Quando cortei com a espada pela enésima vez, senti uma grande mudança, e ao olhar para cima, percebi...
Mais de uma dúzia de linhas douradas cobriam minha visão.
—"O que...é isso?"
Fiquei completamente paralisado ao ver tal cena. As linhas se espalhavam em todas as direções, cada uma traçando um caminho diferente, quase como se a minha espada tivesse viajado por elas. As possibilidades eram infinitas — podia seguir qualquer uma delas.
Além disso, parecia que cada trajeto mudava conforme a minha escolha, revelando novos caminhos a cada golpe que dava.
Meus olhos tremiam de susto, e enquanto minha mão na espada se soltava um pouco, as palavras de Leon ecoaram forte na minha cabeça.
—"Julien?"
—".....!?"
Voltei à realidade repentinamente, as linhas douradas desaparecendo por completo.
—"...Ah."
Como se tudo fosse uma ilusão, as linhas douradas sumiram, e eu fiquei ali, olhando fixamente para a sala de treino à minha frente, com o peito estranho, pesado.
—"Julien?"
Leon chamou de novo, e lentamente virei a cabeça na direção dele.
—"O que foi...?"
"Minha... minha jaqueta."
Leon murmurou, com a expressão pálida, olhando ao redor.
—"Onde... onde está minha jaqueta?"
"Sua jaqueta?"
Parei por um momento e olhei para baixo. Foi então que avistei um pedaço de pano preto no chão e, instintivamente, estendi a mão para pegar.
—"Este?"
"...."
O rosto de Leon ficou ainda mais pálido, o desespero tomando conta dele lentamente.
Depois,
—"Você pode—"
"....Nem pense nisso."
***
No dia seguinte.
Era o terceiro dia do Congresso, e os representantes de hoje eram do Império Verdante. Como a maior parte dos tópicos importantes já tinha sido discutida pelo Nurs Ancifa e pelo Império Aether, o Império Verdante parecia mais à vontade, seus vassalos menos tensos do que antes.
...Ou pelo menos assim deveria ser.
No entanto, naquele dia, a tensão dentro das câmaras reais do Império Verdante estava alta.
—"Todas as preparações estão feitas?"
"Sim, estão."
—"Ótimo."
O imperador, falando com seu conselheiro pessoal e estrategista, um velho com barba curta branca e um monóculo dourado pendurado sobre o nariz afiado, assentiu sério, com expressão firme.
—"Algum movimento dos vassalos? A notícia de nossas ações vazou?"
"Houve alguns movimentos, mas nada suspeito. Ainda estão focados em Amell."
—"Hmm."
O imperador franziu a testa, as sobrancelhas unidas.
—"Ainda assim, mantenha um olho atento neles. Não podemos permitir que algo dê errado com o anúncio."
"Entendido."
Com uma reverência, o conselheiro se despediu e saiu silenciosamente, deixando o imperador e a imperatriz na sala.
A imperatriz acompanhou sua saída com o olhar, depois se virou para o marido, mordendo delicadamente a parte de cima dos lábios.
—"O que acha? Vai acontecer alguma coisa com V—quer dizer, Leon? Você acha que eles vão agir assim que o segredo sobre sua origem for revelado?"
—"...Não sei."
O imperador balançou a cabeça, seu rosto menos rígido agora.
—"Certamente haverá muitos olhos sobre ele, mas o que mais me preocupa é se ele vai nos resentir por termos imposto esse peso de repente, sem aviso prévio."
—"Mas tem que ser assim. Caso contrário, ele estará ainda mais em perigo."
—"Sei disso."
O imperador suspirou, os ombros caindo, e caminhou até um sofá próximo, afundando-se nele. Naquele momento, o imperador, imponente e autoritário, parecia desaparecer, dando lugar a um pai cansado e preocupado.
—"Questionei Amell para se aproximar de Leon, para entender como ele se sentia em relação aos pais biológicos — entender como poderia reagir quando revelássemos essa verdade."
—"E?"
"Haa..."
Rondo o braço no descanso do sofá, o imperador soltou uma respiração pesada.
—"Disse que não conseguiu compreender. Leon parece extremamente reservado quando o assunto é o passado. Ele sugeriu que falássemos com Julien se quiséssemos respostas."
—"Julien?"
A imperatriz pensou por um momento, depois se lembrou.
—"Gosto bastante daquele garoto."
Ela tinha uma impressão profunda e favorável de Julien, após conhecê-lo há algum tempo.
—"Se for preciso, podemos incomodá-lo, mas me preocupa ele nem saber de nada. Será que sofreu algum trauma? O fato de não se lembrar de nós sugere que..."
A imperatriz tampou a boca, com expressão preocupada. Ao vê-la assim, o imperador estendeu a mão, mas logo parou.
Gradualmente, as sobrancelhas dele se franziram.
Suas ações não passaram despercebidas pela imperatriz, que perguntou, preocupada,
—"Algo errado? Você está preocupado com a reação do Leon amanhã? Se for isso—"
—"Não, não é isso."
"Então...?"
—"Tenho mais preocupação com outra coisa."
—"O que seria?"
—"Estou... mais preocupado sobre como Leon chegou até o Império Nurs Ancifa."
A sobrancelha da imperatriz se franzia de confusão.
—"Wha—"
—"Pense bem."
O imperador cortou firme.
—"Nossa casa não fica nem perto do Império Nurs Ancifa. Após o incêndio em nossa residência e seu desaparecimento repentino, como ele foi parar lá?"
A expressão do imperador ficou séria, a voz baixando para um sussurro tenso.
—"Não parece... suspeito? Que algo aconteceu com ele, algo feito de propósito, e que aconteceu bem debaixo do nosso nariz?"
—"Ah."
A mão da imperatriz foi à boca, seu choque evidente. Ela já tinha considerado essa hipótese antes, mas ver Leon prosperar tinha eliminado tais dúvidas. Ainda assim, naquele momento, a verdade começava a fazer sentido.
—"Isto..."
O aperto do imperador no descanso da mão ficou mais firme, os dedos ficando brancos.
—"Tem mais coisa por trás do desaparecimento do Leon do que nos disseram. Alguém deve ter tramado isso, e se foi capaz de fazer bem debaixo do nosso nariz..."
Os olhos do imperador escureceram de preocupação crescente.
—"Provavelmente, eles são muito mais poderosos do que podemos imaginar."