Advento das Três Calamidades

Capítulo 586

Advento das Três Calamidades

O que acontecerá quando a barra de experiência atingir 100%?

Foi um pensamento que me passou pela cabeça por um instante. Na verdade, já vinha assombrando minha mente por mais de um ano.

Esse pensamento agora parecia ainda mais relevante do que nunca. O que exatamente ia acontecer? Se eu completasse essas quests, chegaria ao fim? E quanto às outras quests que ainda não tinha feito? Como é que elas continuam lá?

Na verdade, se eu concluísse aquelas quests, a barra não ultrapassaria 100%?

O que fazer então...?

Mas...

Tudo isso desapareceu rapidamente, recolhido à parte do meu pensamento neste exato momento.

Neste momento.

Eu não me importava com a barra de experiência.

Havia uma única coisa que ocupava minha mente.

E essa coisa era...

'Ele roubou de mim. Ele realmente... levou minhas recompensas.'

Fiquei parado, encarando em branco a janela da missão à minha frente, minhas mãos tremendo. Tornava-se cada vez mais difícil segurar minha raiva.

No entanto, eu tinha que conter minha ira.

Não podia deixá-la sair.

Pelo menos, por enquanto.

'Foque, mantenha a clareza.'

Sabia que poderia apagar minhas emoções neste exato momento para me acalmar. Contudo, se havia uma coisa que aprendi nos últimos seis meses treinando minha Magia Emotiva, era que o controle sobre ela refletia justamente na minha capacidade de me dominar para evitar que ela escapasse.

Não podia deixar minha raiva dominar quem eu sou.

Eu tinha que reprimi-la e, depois, saboreá-la.

De certa forma, evitar que a raiva me consumisse e gerenciar minhas emoções era uma forma de aprimorar meu controle sobre elas.

"-Ding—!"

Uma notificação apareceu diante da minha visão, e eu respirei fundo, fazendo a raiva anterior dissipar-se como nada.

"Tudo bem, melhor assim."

Oxenei a cabeça e olhei ao meu redor.

Parece que o primeiro dia do Congresso tinha acabado até então.

Todos pareciam surpresos, e os guardas que estavam de plantão estavam em alerta total, checando cada pessoa que deixava o salão com olhares atentos e dispositivos de varredura específicos.

Considerando o que tinha acontecido, inicialmente pensei que eles cancelariam todo o evento, mas isso não parecia ser o caso.

Será que estavam tão confiantes de que poderiam impedir qualquer nova situação que surgisse? Ou seria a informação que pretendiam revelar tão importante?

Seja qual for o caso, eu descobriria amanhã.

Por ora, planejava voltar à hospedaria para descansar.

...Ou pelo menos, esse era o plano original.

"Julien."

Uma voz quente, porém familiar, chegou até meus ouvidos.

Parei lentamente de caminhar, e um par de olhos amarelos brilhantes cruzou com os meus enquanto Atlas se aproximava de longe.

Ao vê-lo chegar, um nó se formou na minha garganta, e abaixei a cabeça em sinal de cumprimento.

"Que bom te ver—"

"Vamos guardar as despedidas para depois, Julien. Preciso que você me acompanhe por um instante."

"Eh?"

Levantando novamente a cabeça, olhei para ele.

Meu corpo se tensionou levemente, e curvei os lábios em um sorriso contido.

"Você precisa de mim?"

"Sim."

Atlas sorriu, mas não explicou, apenas se virou e fez um gesto com o dedo.

"É algo bastante importante, então seria melhor você se apressar."

"...Ah."

Sera que...?

Ele descobriu alguma coisa?

Meu estômago virou, e lutei para manter o couro em mim mesmo.

"Julien?"

Mas não tinha escolha.

Endireitando as costas, assenti novamente e o acompanhei por trás.

***

"Para que a investigação prossiga de forma justa e eficiente, vamos revisar cuidadosamente toda a situação antes de uma audiência. Se a participação dos Cavaleiros Templários teve relação com a Igreja de Oracleus ou não, será decidido durante os tribunais."

Depois dos acontecimentos do primeiro dia do Congresso, Jackal, junto de vários outros membros da Igreja de Oracleus que se ofereceram para acompanhá-lo—including o Cardeal—foi conduzido até um prédio específico.

O local era desconhecido, mas parecia possuir um subsolo oculto, e ali eles foram levados.

Pouco tempo depois, foram levados a várias salas, onde receberam informações sobre a situação antes de serem separados em diferentes ambientes.

Claro, sendo suspeitos de tentar 'assassinar' o Imperador, dado seu status e prestígio atuais, nenhum deles foi tratado com crueldade.

Pelo menos, eram considerados com certo respeito.

Por isso, o Cardeal e Jackal puderam compartilhar a mesma sala.

No entanto, além de uma grande mesa e várias cadeiras, o cômodo estava vazio.

"Hmm."

Jackal passou o dedo pela mesa, depois olhou para ela.

"... Está bastante limpa."

Apesar da situação em que se encontrava, ele parecia extremamente calmo.

De forma quase assustadora.

Isso não passou despercebido ao Cardeal, que observava ao redor do cômodo.

"Existem runas gravadas em cada canto deste lugar. Receio que, a menos que um Zenith apareça, ou que o Chanceler de Haven esteja presente, escapar daqui seja impossível."

"E por que destruiríamos o local?"

Jackal levantou a sobrancelha, observando as feições envelhecidas do Cardeal.

"Somos inocentes, então por que deveríamos nos preocupar com o que vai acontecer conosco?"

"...Isso não é o que me preocupa. Apenas estou fazendo uma observação simples sobre o cômodo. Tenho curiosidade sobre o lugar onde nos trouxeram."

"Bem... parece interessante."

Jackal puxou uma das cadeiras para trás e sentou-se, sorrindo de forma animada. Parecia até um pouco eufórico.

'Por que ele está tão feliz?'

O Cardeal percebeu isso desde que saíram do local, mas, ao contrário de parecer aflito ou até confuso, Jackal...

Ele parecia feliz?

Por quê? Seria por sua revelação súbita, ou havia algo mais por trás? Faria sentido se fosse a Iluminação, mas sua expressão era um pouco distorcida.

Era quase assustador.

"Jackal, alguma—"

"Estou quase lá."

Jackal interrompeu abruptamente o Cardeal, batendo impacientemente a perna no chão. Com a mão no peito tremendo, ergueu finalmente a cabeça para olhá-lo, seus olhos agora vermelhos de intensidade.

"Cardeal, eu sinto que estou chegando lá. Quase completo."

"Quase...?"

Primeiro, o Cardeal ficou confuso, mas logo seus olhos se abriram de espanto ao entender tudo que começou a fazer sentido em sua mente.

"Sim, estou quase lá. Estou para me tornar completo. Sinto que posso aguentar. Tem uma coisa que ainda me falta."

O Cardeal avançou em direção ao Jackal, com uma expressão extremamente séria.

"Diga. Do que você precisa?"

Jackal lambeu os lábios, a face tremendo enquanto tentava ao máximo impedir que sua expressão se torcesse.

"O fragmento falso."

Murmurou,

"...Preciso dele. Assim que ele for destruído, poderei herdar tudo completamente."

Por um breve instante, Jackal conseguiu extrair algo além da compreensão do fragmento falso—e, naquele breve momento, viu algo que não poderia explicar.

Era difícil colocar em palavras, mas parecia que tinha sido puxado para a vastidão do espaço.

Estrelas, incontáveis e brilhantes, giravam ao seu redor—distantes, mas atraentes, quase ao alcance.

Naquele instante, Jackal sentiu como se tivesse penetrado o véu da existência, tocando um plano de poder que nunca ousara imaginar.

Porém, como um sonho que se esvai ao amanhecer, essa sensação desapareceu quase assim que veio.

Antes que pudesse entender totalmente, foi arrancado daquele reino sobrenatural e puxado de volta ao salão onde o caos tinha se instaurado. Queria voltar lá, mas sabia que era impossível.

Pelo menos... por enquanto.

Com o gosto daquele poder ainda na memória, Jackal não conseguia se livrar do desejo por ele. Queria controlá-lo, fazê-lo seu.

Ele precisava...

"Pegue ele... Precisamos pegar ele."

Alcançar novamente aquele reino estranho.

***

"Quanto tempo faz que não nos vimos? Parece que já faz bastante tempo. Com o Congresso chegando, estive bastante ocupado, e não tive tempo de te ver direito."

"...Tudo bem. Tenho me segurado bastante bem."

"Percebo isso."

Atlas parecia realmente me eloger.

Só podia aceitar seus elogios na boa. Não tinha como saber exatamente o que se passava na cabeça dele, então, tinha que tomar cuidado ao máximo.

"Cresceu bastante desde a última vez que nos vimos. É bom ver isso."

"Obrigado."

"Estamos aqui."

Por fim, Atlas me levou até uma porta dentro do palácio. Era uma grande porta de madeira, e ao olhá-la, senti meu corpo se mover.

'Que tipo de...?'

Clank—

A porta se abriu, revelando uma sala vasta. Um tapete vermelho vibrante se estendia pelo chão de mármore branco, Contrastando com o ambiente elegante.

Pinturas adornavam as paredes, e sofás estavam alinhados ao longo das laterais. Uma estante enorme ficava ao lado de uma grande mesa de mármore, atrás da qual uma figura—que eu conhecia muito bem—estava sentada.

"Ah, trouxe-o."

Com olhos amarelos agudos e rosto grisalho, era ninguém mais que o Imperador.

Imediatamente tentei saudá-lo, seguindo a etiqueta que me ensinaram, mas antes que pudesse falar, Atlas me interrompeu, impedindo que eu avançasse.

"Eh?"

"...Só há duas pessoas a quem você deve se curvar."

Engoli nervoso, acertando o olhar nele.

Ele respondeu logo depois.

"Eu e Sithrus. Não há mais ninguém que devesse fazer você se curvar."

"Ah."

Olhei na direção do Imperador, mas, sem perceber nada estranho nele, só consegui assentar com a cabeça.

"Bom."

Foi só então que Atlas pareceu satisfeito e voltou a focalizar sua atenção no Imperador.

"Você me pediu para trazê-lo aqui. O que deseja conversar com ele? Não é porque quer conhecê-lo, certo?"

"...Claro que não."

Respondendo com expressão calma, o Imperador estudou-me com olhos piercing amarelos.

Tentei não reagir sob seu olhar, mas ele transmitia uma sensação desconfortável.

Quando a sensação atingiu seu ápice, ele finalmente desviou o olhar de mim e puxou um dispositivo.

"Farei isso rapidinho, respeitando o Atlas."

O Imperador tocou no dispositivo, exibindo uma imagem.

Meu coração quase saiu do peito ao ver a imagem, que logo mudou de cena, e um vídeo começou a ser reproduzido.

—O Imperador está sendo atacado!!

Quando minha voz ecoou pelo alto-falante, o Imperador pausou o vídeo e olhou para mim.

"Aprecio que tenha defendido assim, mas tenho me perguntado..."

De repente, seus olhos se estreitaram, e o vídeo voltou a iniciar, sendo reproduzido novamente.

—O Imperador está sendo atacado!!

Mais uma vez.

—O Imperador está sob ataque!!

E assim de novo.

—O Imperador está sob ataque!!

Até que, por fim, o vídeo parou.

"...."

Uma pesada expectativa tomou conta do ambiente, com todos os olhares fixos na tela. A tensão era sufocante. E, justo quando achei que podia respirar, o olhar do Imperador voltou a se fixar em mim, com uma intensidade que me fez travar de forma instintiva.

"Posso estar pensando demais, mas por que parece que você sabia que algo ia acontecer antes de acontecer?"

Seu sobrancelha se levantou.

"...É só porque é esperto, ou há algo mais que você não está dizendo?"

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