
Capítulo 578
Advento das Três Calamidades
“Já que parece que você sabe para onde ir, onde devemos ir?”
Meu olhar involuntariamente foi parar no livros espesso que Delilah segurava. Desde que saímos da pousada, ela parava, olhava o livro e aí seguia numa direção específica.
Esse padrão tinha se repetido pelo menos cinco vezes.
Normalmente, eu não me importaria, mas ao ver as pessoas ao meu redor encarando a Delilah, não pude deixar de sentir o sorriso quase escapar dos meus lábios. Ela não fez com que as pessoas não olhassem para ela? Mesmo assim, sua presença por si só já era suficiente para chamar atenção.
Que tipo de poder era esse?
Parecia que estávamos em algum zoológico.
Onde quer que passássemos, olhares se voltavam na nossa direção. Bem, na direção da Delilah. Diferente dela, eu sabia bem como esconder o rosto.
'Droga. Parece que alguém finalmente está ganhando coragem para falar com ela.'
Olhar só um pouco na direção dele já dava para perceber que era alguém com algum status. Como se não bastasse, parecia poderoso o suficiente para notar algo errado na Delilah.
"Encontrei um lugar bacana. Quer dar uma olhada?"
"Ei...?! Mas a gente quase—"
segurei Delilah pelos ombros e a arrastei para dentro da loja mais próxima.
Olhei ao redor. A loja era espaçosa, mas tinha um aroma agradável, uma fragrância que acalmava os sentidos. Logo na frente, várias prateleiras com roupas diferentes, todas únicas e diferentes do que eu estava acostumado.
E então percebi—era uma loja de roupas.
'Ué, ele está aqui.'
Ao olhar para trás, peguei alguns trajes na fila e, rapidamente, puxei a Delilah em direção aos provadores antes de fechar a cortina atrás de nós.
Ela vinha agindo de forma estranhamente obediente desde que a puxei pra dentro da loja.
"Bem, você deveria experimentar essas. Acho que não são—"
parei na metade da frase ao ouvir a respiração dela. Estava um pouco acelerada.
Nesse momento, percebi que tínhamos nos enfiado numa enrascada.
Engoli em seco e olhei para a cortina fechada.
"Eu... estava com pressa, então... não pensei muito ao entrar."
Meus palavras ficaram no ar, silenciando tudo. Olhei para baixo e notei o olhar fixo de Delilah no meu nariz. O espaço entre nós era apertado, e com o menor movimento, estaríamos a centímetros de se tocar.
Procurei mover minha cabeça para trás, tentando criar um pouco de distância, mas, como se minha cabeça fosse um ímã, a dela seguia na mesma direção.
Pro[...]que os lábios, tentei iniciar uma conversa.
"...Até onde fica o lugar de sightseeing? Não deve ser longe, né?"
"Já estou perto."
"Hã?"
O que ela acabou de dizer?
Delilah puxou o manual para trás e acrescentou:
"Tem outro, mas é longe."
"Não, tenho certeza de que você disse que era perto só há alguns minutos."
"Você escutou errado."
"Então é o que você diz."
"Não, é perto."
"Claro."
"Vai levar bastante tempo, então podemos ficar aqui."
"....."
Era isso! A verdadeira motivação dela. Mas o que eu poderia dizer? Como ela estava tão insistente, decidi ficar quieto. Contudo, o olhar de Delilah continuava fixo no meu rosto, e eu senti um nó na garganta.
Por quanto tempo ela iria me encarar assim?
Era bastante desconfortável.
As notificações que piscavam na minha frente estavam começando a ficar extremamente irritantes.
Por sorte, esse inferno não durou muito. Antes que eu ficasse completamente certo de que o “estranho” tinha ido embora, saí do provador e lembrei a Delilah de experimentar as roupas antes de irmos embora.
Ela, no entanto, nunca experimentou as roupas, dizendo algo como: “Não ficam lá essas coisas. Você devia ter escolhido outra. Mas se você também usar a mesma, aí então...”
Bem, é verdade que escolhi de forma aleatória, mas era por causa da situação.
No final, ao sair da loja, decidimos ir para uma rua mais isolada para evitar atenções.
Acabamos parando no lugar que Delilah queria ver, e como era de se esperar, ficava a poucos minutos de caminhada.
Nem me dei ao trabalho de mencionar isso a ela, sabendo que ela simplesmente mudaria de assunto ou fingiria ignorância. No geral, o lugar era bem agradável. Tinha uma vista bonita, e eu consegui relaxar um pouco.
Infelizmente, logo veio a noite.
Antes que percebesse, passaram-se três horas, e não tive escolha a não ser me despedir de Delilah, que ficava olhando para o seu relógio de bolso, murmurando coisas como: “Ganho de causa? Será que me enganaram? Como assim...?”
Vendo o quanto ela parecia preocupada, olhei para o meu relógio de bolso e ri.
"Igual pra gente. Acho que também fui enganado."
***
Sede Evenus.
"Pai, posso entrar?"
"...Pode."
Ao entrar no escritório do chefe da família, Linus logo viu o patriarca sentado atrás da mesa, com sua expressão habitual séria.
Embora soubesse da presença de Linus, Aldric manteve o foco nos documentos à sua frente.
Escrita~
Assim, Linus ficou na sua frente com uma expressão desconcertada.
A cada segundo que permanecia ali, parecia uma eternidade; e justo quando não conseguiu aguentar mais, Aldric quebrou o silêncio.
"Ouvi dizer que ficou em terceiro lugar geral neste ano."
"...Ah, sim!"
A cabeça de Linus se levantou instantaneamente ao ouvir as palavras do pai.
Desde o incidente com Julien na Dimensão Espelho, parecia que algo havia se partido dentro dele. Isso provocou um avanço significativo em suas habilidades e na maneira como os outros o percebiam.
Como resultado, conseguiu subir até o terceiro lugar.
Ele ainda não era a Estrela Negra, mas com o ritmo de crescimento, provavelmente não chegaria lá no segundo ano.
"Hmm, não está ruim."
"Sim!"
Ao ouvir as palavras de Aldric, as orelhas de Linus se eriçaram.
Sentiu uma sensação estranha de empolgação. Isto... embora não fosse exatamente um elogio, era muito melhor do que qualquer coisa que seu pai tivesse dito antes.
Ele claramente parecia satisfeito, e Linus ficou tocado.
Mas, claro, a empolgação durou pouco.
"Soube que seu irmão, Julien, retomou o primeiro lugar recentemente."
Aldric fez uma pausa, colocou a caneta ao lado e levantou a cabeça.
"O que você acha disso?"
"Eu..."
Um olhar complicado passou pelo rosto de Linus.
Ele ainda odiava e desprezava seu irmão, mas, de uma forma estranha, também ajudara seu crescimento até aquele ponto. Houve momentos em que seu irmão parecia uma pessoa completamente diferente daquela que via nos pesadelos e que conhecia.
Por outro lado, não conseguia esquecer o momento em que seu irmão revelou quem realmente era.
Estava fingindo, ou havia algo mais por trás disso...?
De qualquer forma, uma coisa ele não podia negar: seu irmão era um monstro. Seu ritmo de crescimento era absurdamente rápido, e suas conquistas, incomparáveis.
Não seria exagero dizer que ele era atualmente o cadete mais conhecido.
Mas, ao mesmo tempo, também era o mais assustador.
'Rei Demônio de Haven' era como o chamavam, mas o boato foi rapidamente abafado quando Julien descobriu e começou a espancar quem dissesse esse nome.
Considerando que ele nunca reagiu assim ao seu antigo apelido, "As Twins Estelares da Sede Evenus", é provável que amasse seu antigo nome.
Com um suspiro, Linus voltou a olhar para o pai.
"Dentro da Academia, ninguém tem mais prestígio do que Julien. Eu vi a força dele de perto, e não há nada suspeito nisso. Nesse sentido, não tenho nada a comentar sobre seus feitos. Ele os conquistou."
"Entendo."
Aldric assentiu, mas por um breve instante, Linus sentiu que havia percebido um sorriso quase imperceptível nos lábios dele.
Porém, durou só um instante, desaparecendo tão rápido quanto apareceu, deixando Linus com a dúvida se aquilo tinha sido real ou apenas sua imaginação.
Infelizmente, nunca descobriu, pois foi rapidamente dispensado do cômodo, deixando Aldric sozinho, recostado na cadeira.
"....."
Ele ficou em silêncio por um breve momento, até que uma figura apareceu ao seu lado.
"Chefe da Família."
"Hm."
Aldric apenas acenou com a cabeça na resposta, enquanto a figura começava a falar.
"O acordo comercial entre a Kasha está progredindo bem. A família Verlice concordou em atuar como intermediária entre nós, e nos últimos meses temos obtido lucros consideráveis. Devemos reinvestir esses lucros no território?"
"Ainda não."
"Mas se não, nossas famílias vizinhas vão ficar inquietas. Como estão agora, vão começar a nos atacar alegando que não estamos administrando bem nossas terras."
"Justamente, como deveriam."
"Hã...?"
Surpreso, o figura cruzou o olhar com Aldric, seus olhos escuros e profundos, como piscinas negras que pareciam se estender até o abismo.
Esses olhos...
Não pareciam os olhos de apenas um chefe de família.
Que tipo de—
Antes que pudesse concluir, a voz fria do Chefe da Família interrompeu seus pensamentos.
"Você precisa fazer o que lhe ordenarem. Nada mais, nada menos."
Então surgiu uma oportunidade.
Parece que seus olhos ganharam vida; eles se contorceram de forma inquietante, quase como se quisessem engoli-lo inteiro.
Por sorte, a sensação durou apenas um breve momento, antes que Aldric se virasse e o dispensasse.
"Haa... Haaa..."
"Pode ir."
A figura não esperou nem um segundo antes de desaparecer do local.
Só depois que saiu, Aldric voltou sua atenção ao trabalho.
Escrita~ Escrita~
Continuou lidando com os papéis por várias horas, até que de repente se lembrou de algo.
'Ah, é verdade.'
Olhou para o relógio.
"Julien e Leon já devem ter chegado na Assembleia."
A Assembleia era um evento de extrema importância, do qual a maioria das pessoas não pensaria em faltar. No entanto, Aldric não tinha intenção de comparecer, enviando Leon e Julien no seu lugar.
Havia várias razões, mas principalmente pelo fato de que ele estava ocupado demais cuidando da situação dentro de seu território. Era uma questão que exigia toda a sua atenção.
Ela tinha um emblema dourado, símbolo do Império Verdejante.
"...Acho que eles finalmente vão fazer o movimento."
O objetivo era claro: Leon.
O Imperador e a Imperatriz provavelmente iriam revelar a origem de Leon na Assembleia.
Deve ser um espetáculo à parte.
Por mais que fosse interessante, parecia até cômico que só recentemente eles tivessem descoberto a origem e o paradeiro de Leon, considerando seu poder e conexões.
"Como dizem, é muito mais difícil esconder aquilo que está à vista do que algo escondido sob um véu."
Pat. Pat. Pat.
Aldric bateu na mesa de madeira, murmurando:
"Leon... Leon... Leon..."