Advento das Três Calamidades

Capítulo 577

Advento das Três Calamidades

— Por que eu estaria de mau humor? Passamos a maior parte do dia só sentados num trem. E, com seu comportamento estranho por cima, como poderia estar de bom humor?

— Bem, o que você diz faz sentido, mas...

— Não há ‘mas’! Vamos logo.

Eu interrompi Leon antes que ele começasse a fazer uma das suas divagações estranhas. Com um último olhar para trás, segui em direção à pensão mais próxima.

Depois de fazer algumas pesquisas antes, eu sabia exatamente onde ir. Saindo da rua principal, em direção a uma área mais tranquila, logo me deparei com um grande prédio de madeira.

O edifício era bem grande, com vários vasos de flores e plantas adornando as janelas, suas folhas descendo em cascata.

Na fachada, havia uma placa grande que dizia: [Pensão Luz da Lua].

— Acho que é aqui.

Com base nas informações que consegui reunir, era um lugar relativamente barato e confortável. Ignorando o olhar de Leon, entrei na pensão e me dirigi até a recepcionista.

— Dois quartos, por favor.

— Serão 67 Rend por noite. Para dois, dá 134.

— Dá pra fechar por menos?

— Não, o preço é fixo. Estamos quase lotados.

— ...Tudo bem.

Tentei negociar o preço na pensão, mas, com tanta gente por perto, não consegui diminuir nada.

'Que pena, mas acho que não tenho opção.'

— Hm?

Pausing, olhei para Leon. Ele me encarava com uma expressão estranha, uma mistura de desgosto e decepção.

Era um olhar que não combinava com um cavaleiro.

— Por que você—

— Você sabe que é multimilionário, né?

Fiquei piscando, surpreso.

— ...Sim.

Eu tinha mais ou menos 70 milhões de Rend guardados.

Mas pra onde ele queria chegar com isso?

— Você sabe que o dinheiro que está usando foi dado pelo chefe da família pra cobrir a hospedagem pra gente, né?

— Sim.

De fato, o chefe da família tinha me dado algum dinheiro para essa viagem.

Era cerca de 20 mil Rend.

'Miserável.'

— Ele me deu um pouco, mas não é muito. Enfim, qual é a sua—?

Não podia ser que ele estivesse querendo meu dinheiro, certo?

De jeito nenhum.

— .....

Leon só me encarava sem dizer uma palavra. Mas seu olhar dizia mil palavras. Era tão intenso que eu, instintivamente, comecei a justificar minhas ações.

— Tá bom, preciso economizar bastante.

— Você também pode vender se as coisas ficarem difíceis.

— Certo?

Apesar de concordar, dava pra perceber que suas palavras estavam cheias de sarcasmo.

Mas não estava brincando. Se as coisas dessem errado, ele desapareceria.

— Cada Rend conta, sabe? Pode parecer pouco, só 67 Rend, mas se gastar tudo de uma vez, vai acumulando.

— Certo.

— É verdade que posso ficar com tudo que sobrasse, mas não é por isso que faço isso. É que só quero te ensinar o valor do dinheiro.

— Sim.

— É meu dinheiro...

— Eu sei.

— Que droga.

— Tá bom.

Compus minha expressão. Por que parecia que eu era quem estava perdendo a discussão?

— Tsc.

Humedecei os lábios, virei o rosto para longe de Leon e peguei a chave do meu quarto, sem esperar por ele. Subi para o terceiro andar.

Para uma pensão pequena, o quarto era bem decente. Com um tema predominantemente de madeira, seu minimalismo se destacava, enquanto as paredes brancas proporcionavam um contraste perfeito com o piso e os móveis de madeira.

Deixei minhas coisas no chão e sentei numa cadeira de madeira.

Com as pernas cruzadas, olhei meu relógio de bolso.

— Em breve...

Sabendo da importância do congressista, entendia que era melhor chegar cedo. Assim, mesmo com possíveis atrasos, estaria na hora. Claro que seria melhor ainda se tivesse ido mais cedo, mas recebi a notícia agora há pouco, então não tinha como me preparar com antecedência.

De qualquer forma, agora tinha algumas horas só pra mim.

E tinha certeza de que não era o único.

— Você está esperando alguém?

Uma voz suave sussurrou ao vento, e logo apareceu uma figura diante de mim. Olhei pra cima e lá estava Delilah, com a mesma roupa de antes.

Levantei-me e guardei meu relógio de bolso.

— Na verdade, sim.

— Quem?

— Você.

— Eh...? Eu?

Sorri para ela. Conhecia o suficiente para saber quais eram seus padrões. Nesse sentido, sabia que ela viria me encontrar quando tivesse um tempo.

— Então, está livre agora?

— ...Um pouco.

Ela piscou, aparentemente sem compreender muito bem a conversa.

— Quanto tempo?

— Dez minutos.

O tom dela soava resignado. Bem, dez minutos é praticamente nada.

— Ah, entendi. Uma pena.

— Por que pergunta?

— Bem, tenho um tempo livre, e tava pensando em dar uma volta para visitar—

— Eu vou!

Delilah elevou a voz.

— Hã? Mas você não—

— Tenho tempo livre.

Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, ela desapareceu do lugar.

— Ha.

Fiquei olhando para o espaço vazio e cocei o lado do pescoço.

'As coisas aconteceram como eu esperava.'

Nos últimos seis meses, ela só trabalhou. Como sua assistente de meio período, vi de perto o quão ocupada ela era. Naqueles momentos, frequentemente ouvi ela dizer: “Quero uma pausa. Não aguento mais fazer isso.”

Mesmo ficando um pouco preocupado ao vê-la recusar chocolate de mim. Nesse sentido, pensei que seria bom ela tirar uma folga do trabalho.

Foi ótimo que ela gostasse da ideia, pois reapareceu na minha frente dez minutos depois, vestindo roupas diferentes. Mais casuais e leves.

Ela também parecia estar segurando algo.

— Já estou pronta!

— O que é isso na sua mão? É um livro? Por que é tão grande? Espera...

Olhei mais de perto e vi o título: “Guia Nezurat: Lugares para visitar e turismo.” Mas não só isso, percebi também que o livro estava um pouco gasto.

'Espera, não me diga que ela já planejava tudo desde o começo?'

Senti um calafrio, mas, antes que pudesse me recuperar completamente, senti um puxão no meu braço enquanto ela me arrastava para a porta.

— Confie em mim, sei exatamente onde ir!

— Não, não é isso que importa...

— Então, o que é?

Delilah parou e olhou para mim, com uma expressão claramente impaciente — “Vamos logo, o que você está esperando? Não fica enrolando.”

— Só estou dizendo que não temos muito tempo. No máximo umas três horas. Pelo tamanho do livro, acho que não vamos conseguir—

— Pode deixar comigo! Vamos aproveitar essas três horas como se fossem três semanas!

— E isso...

Por que eu não confio nela de jeito nenhum?

— Apresse-se.

— Certo.

Percebendo a impaciência dela aumentando, decidi não enrolar mais.

Deixando de lado Delilah, cujos lábios faiscavam numa curva que ela tentava disfarçar, caminhei até o próximo cômodo e bati na porta.

Leon abriu a porta logo depois.

— O que é-i—

Ele congelou quando seus olhos pousaram em Delilah, e rapidamente limpou-os como se quisesse garantir que não estava vendo coisas. Mas, ao olhar para nós novamente, sua expressão se torceu.

Ao ver sua reação, segurei minha risada e observei as horas.

— Então, vamos. Não temos muito tempo só pra gente.

— Ele vem?

— Hã? Claro.

Assim que concordei, Delilah finalmente deixou de falar, sua expressão virou uma carranca — sim, uma carranca. Ela parecia pronta para matar alguém.

Eu até fechei a boca na hora.

Por outro lado, Leon deu um passo para trás.

Ele olhou apressadamente para mim.

'O que está acontecendo? Por que ela...'

Balancei a mão de forma despreocupada.

— Vamos lá, vamos! Não perca tempo.

Leon apertou os lábios com força, me encarou e abaixou a cabeça na direção de Delilah, como se estivesse fazendo uma reverência.

Todo mundo recebeu um olhar frio e mortal.

Essa expressão permaneceu enquanto saíamos da pensão.

Embora seu rosto mantivesse uma expressão séria, eu via claramente por trás da fachada dela, enquanto sua expressão passava por várias emoções — tristeza, raiva, decepção — ela parecia ainda mais abatida do que quando estava sobrecarregada, como se questionasse suas escolhas de vida e convincesse a si mesma de que o mundo era contra ela.

'Que divertido... Se ao menos pudesse tirar uma foto dela assim.'

Meus dedos coçaram ao pensamento, mas preferi não arriscar demais.

Quando finalmente saímos da pensão, a expressão de Delilah mudava de uma de assassina para a de uma massacradora.

Parecia que ela deixava um rastro de sangue por onde passava.

Seu rosto tão aterrorizante que as pessoas ao redor automaticamente recuaram, criando uma brecha. E isso mesmo quando ela havia feito questão de passar despercebida.

— Bem...

Parando em frente à pensão, olhei para Leon.

— Divirta-se. Lembre-se de pegar suas coisas.

— ...Sim.

Como se estivesse louco para escapar, Leon acenou rapidamente e se afastou, sumindo nas ruas movimentadas.

Eu continuei a acenar até que seu vulto desaparecesse de vista.

Ao mesmo tempo, percebi o olhar tonto de Delilah sobre mim. Parecia que tinha muitas perguntas na cabeça. Foi então que expliquei.

— O Leon não tem roupa formal para o evento. Ele vai numa loja pegar alguma coisa pra ele.

— ....!?

As sobrancelhas de Delilah levantaram-se e, logo depois, ela me olhou atônita.

— Por que você—

— Hm? Tem algum problema?

— Ah.

Delilah rapidamente negou com a cabeça.

— Não, nada de mais.

— Então, tudo bem.

Eu me aproximei um pouco mais dela, deixando ela surpresa.

— Tem muita gente, podemos nos perder. Você não se incomoda, não?

Vibrou. Vibrou. Vibrou.

Delilah confirmou apressadamente com a cabeça.

Parecia querer dizer algo, mas parecia incapaz, sua boca formando um 'X'. Bem, não exatamente, mas era mais ou menos assim.

— Então, vamos?

— Sim!

Ela se aproximou de mim e avançou, com passos rápidos.

Eu a segui de trás e, em pouco tempo, entramos nas ruas principais da cidade, completamente invisíveis para todos ao nosso redor.

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