
Capítulo 560
Advento das Três Calamidades
—O que...?
Um par de olhos cor de avelã me encarava de volta.
Era o mesmo par de olhos de avelã que eu estava acostumada a ver... os meus próprios.
A sensação do diário pesava nas minhas mãos enquanto eu exalava silenciosamente, tentando me acalmar. Devagar, estendi a mão em direção ao meu reflexo, observando meu rosto parecer crescer diante de mim.
Segurando a arma de metal do espelho, encontrei-me em um estado de distração.
—...Este é, sem dúvida, o espelho.
Desde os padrões intricados até a conexão estranha que senti com ele.
Sim, tinha certeza de que era realmente o Espelho Astral.
Mas...
—Está aqui? Tão fácil assim?
Fiquei mais surpresa com a facilidade de encontrar o espelho. Pelo que entendi, Rose tinha buscado em cada canto do lugar sem sucesso. Embora ainda não tivesse procurado nesta área, certamente o faria.
Claro, o espelho estava escondido dentro deste estranho diário, mas ela provavelmente teria conseguido encontrá-lo.
A menos que...
—Alguém conseguiu chegar antes dela e esconder ou pegar o espelho.
—Hah.
Não sabia se devia rir ou bater na minha própria cabeça.
No final das contas, será que a razão de ela nunca ter conseguido achar o espelho era eu o tempo todo?
—Por que estou surpresa agora?
Deveria ter percebido isso no instante em que me encontrei aqui.
Mas isso levantava uma questão...
—Consigo trazer o espelho de volta para o presente?
Teoricamente, parecia possível, mas eu nunca tinha tentado algo assim antes. Nem mesmo sabia como voltar. Geralmente, eu era forçada a retornar após certo ponto.
—Na verdade, talvez seja melhor esconder o espelho primeiro.
Incertsa se conseguiria trazê-lo de volta comigo—ou mesmo se me deixariam voltar—decidi que o mais seguro seria escondê-lo. Assim, se não conseguisse recuperá-lo depois, ao menos teria um plano de contingência, caso algo desse errado.
Mas havia uma coisa sobre a qual tinha curiosidade.
—Se eles sabem que um intruso entrou aqui, por que ainda não ouvi Rose mencionar isso antes?
Ela sempre parecia determinada de que ou Kiera tinha o espelho, ou ele estava escondido em algum lugar na casa.
Por que ela nunca pensou que alguém pudesse tê-lo roubado?
—Algo não faz sentido.
Infelizmente, não tinha muito tempo para pensar. Sintindo várias presenças se aproximando do meu local, rapidamente escondi o espelho e o diário na minha aliança e apaguei a luz.
Clique—
Ao mesmo tempo, certifiquei-me de cobrir todos os véus novamente.
Fiquei apoiada no canto da sala, escondida na escuridão.
Esperei o que pareceu uma eternidade, até...
Clank!
A porta se abriu e várias figuras entraram.
—Procurem nesta sala. Ainda não foi revistada.
As luzes piscaram e, diante de mim, várias figuras desembainharam suas armas, procurando freneticamente por tudo ao redor, rasgando tudo que podiam alcançar.
Permaneci no canto, esperando pacientemente o momento certo para partir.
Por estar no porão, sabia que não podia simplesmente atravessar as paredes como antes. Minha única opção era a porta da frente, mas até ali eu hesitei.
...Atlas.
Apesar de ele ainda não estar aqui, o fato de ele ter me visto antes foi suficiente para me fazer hesitar.
A lembrança daquele momento persistia, e não conseguia tirar a sensação de que ele poderia estar ciente de onde eu estava, apenas me observando.
Todo o meu corpo suava frio só de pensar nisso.
— Eu realmente prefiro quando ele está do meu lado do que do oposto.
A presença dele era sufocante demais.
Swoosh, swoosh—
Naquele momento, os véus foram levantados, expondo as pinturas que estavam escondidas até então. As figuras pararam por um instante para observar os quadros.
—São bastante bem feitos.
—...Quem teria pintado isso?
—Provavelmente o Visconde, e se não, a esposa dele.
Eles começaram a conversar entre si, suas vozes casuais enquanto examinavam as pinturas. Parecia que não se importavam com nada.
Permaneci no canto, perfeitamente escondida, ouvindo atentamente a conversa deles.
—Talvez eu consiga entender melhor como sair daqui...
—Você acha que o vício do Visconde fez essas obras?
—Por que não?
—...Ela —
—Shh, não fala isso.
Uma das figuras rapidamente colocou o dedo na boca.
—Ah, por quê?
—Não mencione a esposa do Visconde. Da última vez que alguém falou dela, o comandante pirou.
—Sim, ouvi falar disso, mas ela não foi quem matou ela?
—É o que dizem, mas...
—Mas?
—Pelo que ouvi, ela não teve nada a ver com isso. Na verdade, parece que ela...
Ficando em silêncio, a figura olhou ao redor antes de cortar seu pescoço com o polegar. O significado do que ela dizia era claro, e franzi a testa ao ver aquilo.
Embora eu já soubesse, ainda assim...
—A coisa que acho mais estranha nessa situação é como começamos a busca logo antes mesmo da notícia se espalhar.
—Hã? Como isso é surpreendente?
—...Não sei.
A figura deu de ombros.
—Provavelmente estou pensando demais na situação, já que ficou claro que o objetivo é encontrar a relíquia, mas uma parte de mim sente que há mais por trás disso.
Mais por trás?
Meus ouvidos se aguçaram com as palavras da figura.
Pensei na oportunidade e em tudo o que tinha visto antes. Uma ideia se formou na minha cabeça, e minhas sobrancelhas se franziram ainda mais.
—Se for assim, por que ela...?
—Tem certeza de que não está interpretando demais?
—Provavelmente sim... só acho tudo um pouco estranho. Ainda mais porque o comandante e a esposa do Visconde são parentes.
—É verdade, mas—!
De repente, todos pararam e olharam na direção da porta, onde apareceu uma figura, seus olhos Vermelhos como sangue varreram a sala com uma frieza que fez todos pararem no ato.
Por sorte, ela parecia alheia à conversa que se desenrolava ao redor dela. Completamente absorta, ela fixou o olhar nas pinturas no centro, como se estivesse perdida nas cores delas.
O ambiente ficou silencioso por um instante.
Por um breve momento, vi o rosto de Rose mudar ao ver as pinturas, e as palavras que ouvira antes ecoaram na minha cabeça mais uma vez.
—Provavelmente estou pensando demais na situação, já que ficou claro que o objetivo é encontrar a relíquia, mas uma parte de mim sente que há mais por trás disso.
Fechei os olhos.
A ideia que tinha se formado antes ficou ainda mais clara, e eu senti meus lábios se esforçando silenciosamente.
—Tudo está começando a fazer sentido.
Exatamente aqui...
Rose louca, descontrolada... era tudo uma encenação.
Não, talvez ela fosse mesmo louca, mas ficou claro para mim depois de juntar todas as peças.
Ainda havia partes do quebra-cabeça que não se encaixavam perfeitamente, como a participação do Céu Invertido nisso tudo. Mas uma coisa era certa: Rose tinha deliberadamente assumido a responsabilidade pela morte da irmã dela.
Ela fez isso para proteger Kiera ou por alguma outra razão?
As coisas não eram tão simples quanto ela fazer tudo isso para não marcar a criança com o suposto suicídio da mãe. Certamente havia mais por trás, e era evidente que tinha a ver com o espelho.
Seria mais uma maneira de proteger a própria ela?
Não tinha certeza, mas, pelo menos, as coisas estavam começando a ficar mais claras para mim.
Respirei fundo em silêncio e olhei ao redor.
O ambiente ainda estava em silêncio, enquanto Rose parecia hipnotizada pelas pinturas. Aproveitei a oportunidade para me mover lentamente, em direção à porta.
Este era o momento ideal para sair daquele lugar.
Contornando as figuras que permaneciam na sala, fui me aproximando cada vez mais da porta. Ao passar por Rose, segurei a respiração, fazendo o melhor para manter minha presença o mais discreta possível, rezando para que não me percebesse.
Estava quase na porta quando...
— Você vai embora tão cedo?
Meu coração afundou.
Devagar, girei a cabeça, e um par de olhos amarelos me encarava diretamente.
O que veio depois foram os olhos de todos presentes, enquanto todos olhavam na minha direção.
—.....
Permaneci em silêncio, mas meu corpo inteiro tremia enquanto minha mente tentava encontrar uma saída para aquela situação.
Para piorar, o espaço ao meu redor parecia me imobilizar, impedindo qualquer movimento, enquanto o sorriso caloroso do Atlas permanecia na minha visão.
Ainda conseguia perceber que aquilo não era seu corpo real, e mesmo assim...
— Não consigo me mexer de jeito nenhum.
A única esperança era que ainda pudesse manter [Lament of Lies] ativo, impedindo que alguém visse meu rosto. Porém, não sabia por quanto tempo conseguiria sustentar isso.
Toda a minha coluna suava frio, minhas fibras musculares tencionando-se ao máximo.
Corrí para encontrar uma saída, e justo quando minha mente decidiu por um plano, uma grande mão agarrou meu pescoço.
—!
Meus olhos se abriram de horror ao perceber que não conseguia respirar de jeito nenhum.
Quando olhei para baixo, um par de olhos vermelhos como sangue me encarava diretamente. Comecei a sentir uma queimação no pescoço, e antes que pudesse pensar na minha próxima ação, ouvi um estalo alto.
Cra Crack!
Foi...
O som de algo se quebrando.
—Hua!
Rapidamente puxei minha mão de volta, agarrando meu pescoço.
—Haa...! Haa!
A dor ainda queimava na minha cabeça, enquanto meu peito arfava rapidamente, e de repente percebi que tudo ao meu redor havia mudado. Estava de volta na mesma sala familiar em que tinha estado poucos instantes antes, mas agora, dois pares de olhos vermelhos fixavam-se em mim.
—Você...
Kiera parecia surpresa, assim como Rose, que olhou para mim espantada.
Rápido, prendi a respiração, me recompondo, mas exatamente na hora em que fiz isso, Kiera levantou a mão e apontou para mim.
...Ou mais especificamente, para meu pescoço.
— O que aconteceu com você?