
Capítulo 553
Advento das Três Calamidades
O que... falsamente?
Fiquei encarando a névoa negra à minha frente, com uma expressão perdida. O que de fato estava acontecendo? Isso fazia parte do teste?
Mas, como exatamente aquilo ia me deixar irritado?
...Se for por isso, tudo que eu sentia era confusão, não raiva.
Tak—
O som de passos silenciosos ecoou pela igreja enquanto eu recuava um pouco.
'Huh?'
Ao levantar a cabeça para olhar para a névoa distante, senti minha mão começar a tremer. Era um tremor involuntário, algo que não conseguia controlar.
'O que está acontecendo?'
Como se estivesse passando por algo semelhante, a névoa distante parou e me encarou.
"Você sente isso?"
Sua voz profunda, porém rouca, ecoou mais uma vez.
"...É a ressonância de nossas linhagens."
O quê?
"Pois ambos possuímos a linhagem do Sábio Sagrado."
"!?"
As palavras dele fizeram minha mão tremer mais uma vez, e eu recuei novamente. Meu rosto torceu de dor quando meu braço direito de repente começou a latejar.
Eu abaixei a cabeça, meus olhos caíram sobre a tatuagem de trevo de quatro folhas, e meu coração apertou enquanto ela de repente começou a brilhar.
"Kh—!"
Um suspiro inevitável escapou dos meus lábios.
"Ha."
Como se percebesse minha luta, a névoa negra de repente soltou uma risada suave.
"Como suspeitava, você é uma falsificação. A densidade do sangue que você ingeriu é claramente diferente da minha. Você também está lutando para controlá-lo. Não vai demorar muito para que seu corpo comece a desintegrar."
O quê?
Mais uma vez, fiquei chocado com as palavras proferidas.
"O poder de um deus está além do alcance de uma impostora como você. Você não consegue compreendê-lo, nem usá-lo. A maioria das falsificações que tenta reivindicar a linhagem acaba tendo sua força vital drenada por isso."
"Kh—!"
Outro gemido escapou dos meus lábios.
A dor que vinha do meu braço direito intensificou ainda mais, me obrigando a ajoelhar. Enquanto isso, tentei processar as palavras que saíam da névoa negra.
Especialmente, lembrei-me do papa.
Será que...
"Por seu bem, desista da linhagem e me entregue. Se me der, prometo não perseguir mais essa questão. Na verdade, farei questão de garantir que você viva bem. Ainda não é tarde."
Que tipo de besteira esse cara estava dizendo?
Estava com dor, mas não por causa do que ele mencionou. Era simplesmente porque o trevo de quatro folhas estava reagindo de forma estranha à névoa à minha frente.
Era quase como se estivesse me dizendo para...
'Engolir.'
Sim, era isso que ele queria que eu fizesse: devorar quem estava ali diante de mim.
"O que acha? Seu corpo claramente não consegue aguentar tal poder, e não vai demorar para eu te encontrar. Com o respaldo da Igreja de Oracleus ao meu lado, não demora nada para extrair seu sangue. Que tal resolvamos isso de forma amigável?"
Quanto mais eu ouvia as palavras da névoa, mais desconfortável ficava.
Era como se cada parte do meu corpo estivesse coçando e me mandando saltar em direção à névoa para rasgá-la, enquanto tomava o sangue do corpo dela.
'Ah, merda...'
Quanto mais eu olhava para a névoa, mais insuportável se tornava a coceira.
Sentia no fundo da minha mente que, no momento em que absorvesse o restante do sangue daquele que estava atrás da névoa, todas as peças perdidas que obscureciam meus pensamentos finalmente se encaixariam.
Isso...
Eu me integraria totalmente ao Emmet do passado.
"Então, o que diz? Está disposto a aceitar minha oferta?"
A névoa estendeu a mão quase como estivesse me chamando.
Encarei a névoa por alguns segundos antes de sorrir.
"...S-sim."
Com prazer.
*
'Ótimo, vou agir em breve. Não tente fazer nada de maluco. A diferença entre nós dois não é algo que você possa entender.'
Havia se passado trinta minutos desde aquele encontro estranho com a névoa negra.
Deitado na cama, olhando fixamente para o teto acima, pisquei devagar.
"Ele vai aparecer pra mim logo mais."
Ele parecia poderoso.
E, ainda assim, eu não estava assustado.
Já tinha estado na presença de verdadeiros Arcângeles. Um falsificador de deus não era algo que me assustava. Ainda mais quando ele estava tão iludido com a ideia de ser eu.
Mais do que tudo, eu só tentava entender aqueles poucos pedaços da conversa.
"A linhagem de Oracleus é venenosa para quem a consome."
O melhor exemplo disso é o Papa.
E, mesmo assim...
"Por que nada acontece comigo? E com o da igreja de Oracleus? Por que nada acontece com eles? Linus...?"
Algo não fazia sentido.
'Posso atribuir a Linus o fato de que a quantidade de sangue que ele ingeriu foi quase insignificante. Mas e o que afirma ser o verdadeiro eu? Por que ele está bem?'
Esses pensamentos pareciam consumir minha mente nas próximas horas.
Fiquei rolando na cama, tentando encontrar uma resposta, mas quanto mais pensava, menos chegava a alguma conclusão.
Porém, uma coisa eu tinha certeza: a resposta traria uma grande revelação para toda essa situação — e, no passado, eu tinha insistido em entender tudo isso desesperadamente.
"De qualquer forma, logo vou descobrir."
No final, decidi deixar pra lá. Eu sabia que quem estivesse por trás da névoa me encontraria logo mais.
...E eu estava bem com isso.
Entendia que a confiança deles vinha do poder e da influência, mas eles subestimaram algo grave.
Eu também tinha um poder ao meu lado.
Um que não se dava bem com a Igreja de Oracleus, aliás.
O que aconteceria se colocasse os dois um contra o outro?
De repente, percebi um sorriso surgindo.
"Vai ser divertido."
Sim, exatamente.
Seria uma cena interessante de se ver.
***
Ao mesmo tempo.
No Templo da Visão Desperta, o Cardeal Ambrose se dirigiu em direção à figura sentado perto da estátua principal.
Com os olhos fechados, ele ficou com as pernas cruzadas.
"Como foi?"
Ao abrir os olhos, revelando seu olhar vago e quase apático, Jackal balançou a cabeça.
"...Ele concordou em me dar o sangue, mas dá pra ver claramente que ele não está disposto a fazer isso. Espero que ele tente alguma coisa durante esse tempo."
"Que pena."
O cardeal parecia realmente arrependido.
"Ia ser bem mais fácil se ele fosse mais cooperativo."
"De fato, mas tudo bem também."
Encostando o braço no pescoço, Jackal se levantou, ajustando suas vestes brancas.
"Assim economizamos recursos. Só é uma pena que precisaremos achar o momento certo antes de avançar."
"Sim, pelo que sei, ele é um cadete de Haven. Vai ser difícil alcançá-lo lá. Ainda que tenhamos meios e força para lutar, irritar 'ela' não nos trará vantagens."
"Você tem razão."
Jackal assentiu, seu olhar caindo sobre o topo da igreja, onde apareceu um mural grande.
Mostrava a imagem de um olho, que observava tudo silenciosamente lá de cima.
Jackal ficou imóvel, encarando o olho.
"Jackal?"
"...Ah, sim."
Saindo de seus pensamentos, Jackal olhou em direção ao cardeal, soltando uma longa respiração.
"Diga-me quando encontrar mais informações sobre o cadete. Ainda não há pressa. Preciso de um tempo para ajustar meu corpo antes de consumir o restante do sangue."
"Entendido."
Baixando a cabeça, o cardeal se afastou, deixando Jackal seguir em frente.
Esse cenário vinha acontecendo cada vez mais na Igreja de Oracleus. Com a recente morte do Papa, Jackal vinha assumindo sozinho o poder da igreja, mesmo sendo relativamente jovem na posição.
Com o Cardeal Ambrose ao seu lado, ninguém podia enfrentá-lo.
Ele era o atual herdeiro da Igreja de Oracleus e o verdadeiro Oracleus.
Em breve, ele despertaria.
Numa época, a Igreja de Oracleus realmente se ergueria entre as sete igrejas.
***
Para Tok—
"Acorde."
Acordei cedo de manhã ao som de alguém batendo na porta. Reconheci a voz quase imediatamente e rolei de volta na cama.
Dormi bem tarde ontem. Precisava de mais sono.
Além disso, seria um dia de folga. Como ia acordar tão cedo?
Para, Tok—
"Acorde."
"Vai chingar, né?"
"...Ok."
"...."
"...."
"Sério mesmo?"
Sentei, olhei na direção da porta.
Ele realmente foi embora?
Curioso, levantei-me da cama, coloquei a mão na maçaneta e abri a porta.
Para minha surpresa...
"Eu pensei que você tinha dito que sim."
"...E eu tinha pensando que você queria dormir mais."
"Hum."
Baixei a cabeça e fiz biquinho.
'Isso funciona?'
"Troque de roupa. O Visconde já fez o café."
"...Certo."
Massaguei meu estômago. Acho que tava com um pouco de fome mesmo.
Virei-me para pegar minhas roupas quando ouvi o som da porta ao lado se abrindo.
Ao espiar, fiquei surpreso ao ver Kiera saindo.
Pensando na crise de birra dela antes, não imaginava que ela saísse assim. Ainda assim, ia cumprimentá-la quando percebi que parei.
Isso...
Minha força quase travou no lugar.
"Bom dia."
Como se percebendo o olhar de nós dois, Kiera virou-se e acenou com a mão.
"Bom dia..."
"Hum, oh... bom dia."
"Você disse que o café está pronto?"
"Sim, seu pai acabou de fazer."
"Ah, que legal."
Kiera começou a esfregar a barriga.
"Na verdade, não consegui comer muita coisa ontem. Vou pegar alguma coisa agora."
"Deveria mesmo."
Leon conversou com ela com um sorriso.
Por fim, Kiera se despediu e saiu. Vendo ela partir, Leon virou-se para olhar para mim.
"Parece que ela está bem melhor do que ontem. Acho que finalmente está começando a processar melhor a situação."
"Ah, sim."
Mesmo sem entender exatamente como Leon deixou passar, para mim era cristalino.
Isso...
'Não é a Kiera.'
Era outra pessoa completamente.
Alguém que já tinha visto algumas vezes antes.
'...Essa é a tia dela.'
Quando foi que...