Advento das Três Calamidades

Capítulo 552

Advento das Três Calamidades

A cama era confortável.

'Você não acha esse espelho tão bonito?'

Era macio, exatamente como ela se lembrava.

'Posso ver meu próprio reflexo tão bem. Venha, dê uma olhada, Ki.'

Também aquecido.

...Assim como ela se lembrava.

'Uau, olha você. Parecemos irmãs.'

Não havia outra cama tão cómoda quanto aquela.

E mesmo assim...

'Ei, Ki.'

Por quê?

'O que você faria se eu simplesmente sumisse de repente?'

Por que ela não conseguia dormir de jeito nenhum?

"Droga..."

Kiera encarava o teto de modo vazio. Uma atividade que ela vinha fazendo cada vez mais nos últimos dias.

...Mas não era estranho pra ela.

Isso costumava acontecer sempre que a primavera estava para chegar.

Como um relógio, ela se via presa em um ciclo de pesadelos que a assombravam a todo momento. Não era algo ruim. Ao menos, ela ainda podia ouvir a voz da mãe uma última vez, mas era só isso... ela simplesmente não conseguia se lembrar de como ela era.

Havia fotos que poderiam ajudar a refrescar sua memória, mas toda vez que tentava olhar, ela sentia que não conseguia seguir em frente.

"...Tenho que montar um quebra-cabeça na cabeça."

Virando a cabeça, viu que já estava escuro lá fora.

Perdeu mais da metade da tarde.

Revirando a nuca, saiu da cama e foi até a porta do quarto, descendo até a sala e à cozinha.

Quando sua mão segurou o corrimão de madeira da escada, o som de risadas veio do andar de baixo.

"Hum?"

Reconhecia algumas das risadas.

'Ainda estão acordados? Sobre o que estão rindo?'

Kiera checou a hora, esfregou o olho direito e desceu as escadas, seguindo a origem do barulho.

No momento em que ia atravessar a porta da sala, a voz do pai parou ela no ato.

"Sim, na verdade, preparei esse prato eu mesma. Mesmo com uma convidada tão ilustre vindo, resolvi cozinhar. A Ki sempre gostou da minha comida, sabe. Uma pena que..."

Que tipo de besteira era aquela...?

"Bem, isso é problema dela."

A voz de Aoife de repente entrou nos ouvidos de Kiera. Parecia estar falando entre mordidas.

"...A comida está tão deliciosa que ela que se dane."

"Hahaha, que ótimo ouvir isso."

A atmosfera parecia alegre e descontraída.

De pé atrás da porta que dava para a sala, Kiera permaneceu imóveis, os pés parecendo presos por correntes invisíveis. Ela não conseguia se mexer, por mais que tentasse.

"Ah, certo, como ela está na escola? Essa menina nunca me conta nada sobre a vida dela. Como estão as notas?"

"Quero saber também..."

Aoife respondeu de novo, com uma voz aparentando irritação.

"Acho que ela foi bem, mas aquela bi... Keum, ela apagou as notas antes que pudéssemos ver."

"Ela fez isso?"

"Sim, Evelyn estava comigo. Você viu, né?"

"...Infelizmente."

"Hoo... Acho que ela não mudou tanto assim. Ainda assim, saber que ela tem amigos como vocês me deixa mais à vontade. Eu estou..."

Bum!

De repente, a porta se abriu com força e todas as cabeças se voltaram na direção ao ver Kiera aparecer.

"Kiera?"

"...Você acordou!"

Com um sorriso, o visconde Mylne tentou dizer algo, mas antes que pudesse, Kiera foi até a mesa, sentou-se na única cadeira vazia, que ficava ao lado de Julien, que apenas a olhou de relance.

De repente, o clima virou tenso.

Percebendo a tensão, Kiera olhou para todos os alimentos na mesa, do peru ao pão recém-assado, e às guloseimas.

Seu olhar foi lentamente se desviando para o pai, até parar na mulher ao seu lado. A mulher mantinha os olhos baixos, como se tentasse evitar o olhar de Kiera. Ela era inegavelmente bonita, com cabelo loiro longo e olhos verdes marcantes.

Kiera também conseguiu ver um leve ventre arredondado enquanto ela se sentava.

Como se percebendo o olhar de Kiera, os olhos da mulher despencaram ainda mais. Kiera não pôde deixar de fazer uma cara de ironia, pegando uma perna de peru com as mãos nuas e dando uma mordida bem grande.

Ela mastigou algumas vezes, até...

"Trecho!"

De repente, cuspindo no chão, surpreendendo a todos presentes.

"Ki—"

"Detestei."

Kiera jogou a perna de peru na mesa, limpando as mãos com um papel por perto. Durante toda a cena, seu olhar nunca se desviou do pai.

"Desculpe o chef. Ele é ruim."

Pressionou as mãos contra a mesa, levantou-se e olhou ao redor do cômodo, percebendo as expressões de surpresa e choque dos outros, até finalmente parar no pai, que encarava ela com os lábios comprimidos.

Não via sinais de raiva em seu rosto.

Apenas tristeza.

E isso...

Isso...

P###tarra ela de raiva.

'Covarde.'

Clang—!

O silêncio deixado por ela era quase sufocante, quebrando por completo o clima festivo anterior.

***

Após a breve aparição de Kiera, a noite foi encerrada precocemente. Ainda em choque, todos voltaram para seus dormitórios.

Durante toda a noite, mantive o olhar fixo no visconde e sua nova esposa.

Parece que ela quase foi à loucura, mas conseguiu se manter firme até que todos fossem dispensados. Seus soluços logo chegaram aos meus ouvidos assim que saí.

"...E achava que nossa família era disfuncional."

"Tá vendo?"

Ao ouvir as palavras de Leon, acenei com a cabeça.

Nossa família era maluca, mas não tanto assim.

"Err..."

Na verdade, talvez não. A mãe de Julien era bem louca, assim como o pai dele. Até o Julien já foi completamente louco antes mesmo de eu assumir. Linus provavelmente era o único normal na família.

"Na verdade, talvez sejamos um pouco mais loucos."

"...É, acho que você tem razão."

"O que há de estranho nas suas caras?"

De trás, Amell apareceu, piscando os olhos ao nos olhar. Ah, que cara boba...

"A gente tá fazendo careta?"

"Sim. Parece que vocês dois comeram bosta."

"O quê...?"

Olhei para Leon, que também me olhava, piscando perdido. Será que estávamos fazendo esse tipo de careta? Agora que penso, fazia sentido, porque quase parecia mesmo, mas...

"Deixe-os em paz."

De repente, Aoife interveio.

"Eles sempre têm esse tipo de cara."

"Sério?"

"...Sim. Acontece de vez em quando. Na maioria das vezes por besteira."

"Como o quê?"

"Alguma coisa relacionada a uma cara idiota, essas coisas."

"Eu não faço careta idiota."

De repente, Leon também falou, fazendo com que eu levantasse uma sobrancelha.

'Ele realmente tem vergonha do próprio rosto...'

Depois, olhei para Amell e balancei a cabeça. Que genes lamentáveis.

"Enfim, vou dormir."

Como já era tarde, decidi aproveitar para ir ao meu quarto. Os outros também fizeram o mesmo e, logo após, cada um seguiu para seu canto.

'Não é tão ruim.'

Meu quarto era bem bom. Nada de excepcional, mas tinha tudo o que precisava, e o mais importante: era limpo.

Apertei o ambiente ao redor, sentei na cama e fechei os olhos.

Ao mesmo tempo em que fazia isso, levantei a mão e peguei a primeira folha. Imediatamente, fui transportado para um mundo escuro. Um lugar onde apareceu uma roda familiar.

Trrr—

Rapidamente, a roda começou a girar.

'Faz tempo que não venho aqui.'

Desde o que aconteceu comigo no ano passado com Pebble, comecei a sentir uma certa resistência à primeira folha. Era simplesmente demais pra mim, e achava que minha mente não conseguiria aguentar.

Mas isso foi passado.

As coisas estavam diferentes agora. Minha mente estava em outro lugar, e me sentia mais confortável comigo mesma.

Já não tinha medo da primeira folha, e o mais importante: estava estacionado.

Minha Magia Emotiva.

'Tenho usado bastante o cubo para melhorar meu controle, mas sinto que ainda não é suficiente.'

Quem melhorou foi só meu controle, não minha magia emotiva.

No passado, recebia notificações a toda experiência que conquistava. Desde pequenas coisas, como sentir felicidade após uma boa pontuação, até rir de uma piada engraçada. Embora a experiência fosse mínima, ela sempre se fazia presente.

Mas agora...?

Extremamente raro.

Precisava acontecer algo muito grande para uma notificação aparecer, e minha magia emotiva ficava estagnada por causa disso.

Não gostava disso.

...Queria alcançar o quinto nível de magia emotiva.

Porém, sabia que isso era difícil de conquistar. Na verdade, quase impossível.

Parecia haver uma barreira que eu não conseguia superar.

Era frustrante, e eu queria derrubar aquela muralha.

Por isso decidi usar a primeira folha novamente. Porque queria avançar de nível.

Tak—

Levantei a cabeça e vi a roda parar.

[Raiva]

'Raiva?'

Queria suspirar, mas só pude fechar os olhos, impotente, enquanto o mundo ao redor mudava.

Lembrando de todas as experiências passadas com raiva, a sensação não era das melhores, mas quem sou eu para reclamar? Era o caminho que escolhi, e só podia seguir em frente.

'...Só espero não ficar preso por muito tempo como na primeira vez.'

Ainda arrepiava só de lembrar daquele episódio.

Graças a Deus, o tempo congelou enquanto eu usava a primeira folha. Senão, eu estaria mesmo na pior.

À medida que tudo ao meu redor se deslocava, de repente me encontrei no meio do que parecia uma igreja.

Uma igreja...?

"Parece um lugar meio estranho para uma provação."

Bem, não era eu que ia julgar. O lugar até que parecia ok. Pelo menos, melhor do que alguns outros lugares que tinha visitado no passado.

Encontrei um assento perto, sentei e esperei pacientemente o início da prova. Enquanto isso, olhava ao redor.

O espaço era bastante amplo, com uma estátua peculiar no centro.

Era de um olho...

'Oracleus?'

Será que essa era uma das igrejas de Oracleus?

Parecia interessante, mas não dei muita atenção. Estava mais preocupado com a prova.

'Nunca se sabe o que pode acontecer.'

Esperei.

Esperei.

...E esperei.

Mas...

"Uh?"

Nada aconteceu.

"Algo errado?"

Olhei ao redor, quase me levantando, quando do canto da visão percebi algo e imediatamente fiquei em alerta.

O alarme só aumentou quando percebi que aquilo que via era uma névoa negra familiar.

Uma que parecia delinear a silhueta de uma pessoa.

A névoa parou, encarando-me fixamente.

Então...

"Eu te achei."

Uma voz ecoou repentinamente pelo interior da igreja.

"...O fragmento falso."

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