
Capítulo 490
Advento das Três Calamidades
Ao mesmo tempo, na Casa de Myron.
Enquanto todos voltavam para seus quartos após concluírem suas tarefas do dia, Aoife olhou ao redor.
"...Alguém viu o Julien?"
"Julien?"
Eva inclinou a cabeça, também olhando ao redor antes de fixar o olhar em Kiera, que coçava a nuca.
"Err... não sei. Já faz um tempo desde que ele saiu."
"Você acha que ele foi investigar a situação? Bem, quem se importa? Ele sai assim o tempo todo. Você já devia estar acostumada."
"Sim, você tem razão."
Com as palavras de Kiera, Aoife parou e assentiu. Certo, certo... Nada era surpreendente no desaparecimento de Julien. Era algo comum.
"O que me surpreende mais é o fato de que esses dois... err... Kyle e Camelion desapareceram."
"É Caius e Kaelion."
Aoife corrigiu Kiera, que coçava a nuca enquanto dizia, 'Ah, droga. É, isso...'
Ela não era muito boa com nomes.
"Espera, eles desapareceram?"
Foi a vez de Aoife parecer surpresa.
Leon olhou de forma estranha para ela.
"Você não é a líder do grupo? Como é que você não sabe?"
"Ah, não, isso..."
O rosto de Aoife caiu enquanto ela começava a lançar uma desculpa após outra.
"Tem muitos estudantes e eu não consigo ficar de olho em todo mundo. Especialmente na Kiera, que às vezes faz alguma coisa que pode nos botar em confusão. Se eu precisar cuidar dela, não consigo prestar atenção em todo mundo, né?"
"Ei."
Kiera franziu a testa, mas não repreendeu Aoife.
Pensando bem, as palavras de Aoife não eram sem motivo.
Kiera inflou o peito.
'Eu sou causa de problema, mas pelo menos sei que faço isso.'
Leon olhou para Kiera e balançou a cabeça, depois voltou seu olhar para Aoife.
"Se você está tão preocupada com alguém que possa aprontar, devia ter ficado de olho no Julien."
"Isso é impossível."
"Por quê?"
"Ele é mais forte do que eu. Se ele realmente quiser sair do meu alcance, não posso fazer nada."
"...."
Leon tentou argumentar de volta, mas ao abrir a boca percebeu que não tinha palavras para contestar qualquer coisa. E isso o incomodava.
"Viu? Até você sabe que não posso fazer nada em relação a ele."
"....."
Leon tampou a boca, com os olhos passeando pela sala. Justamente quando pensou em pedir ajuda ao Professor, um movimento chamou sua atenção. Sua cabeça se virou rapidamente para a janela mais próxima, onde uma sombra tênue piscava, logo avistando uma coruja.
"Coruja?"
Observando melhor, Leon percebeu que conhecia aquela coruja.
Não era a mascota de Julien?
"Isso..."
De repente, todos se viraram em direção à Coruja-Poderosa, que estava do lado de fora da janela. Sem hesitar, Leon deu um passo à frente e abriu a janela, deixando o ar seco e frio entrar, varrendo o corredor.
"O que você faz aqui? Julien está perto?"
"Não."
A Coruja-Poderosa balançou a cabeça, olhando ao redor do grupo com olhos frios.
Com sua mirada gélida, começou a falar.
"Ele está com duas outras pessoas."
"Onde?"
Ao fazer essa pergunta, a Coruja-Poderosa virou silenciosamente, com os olhos brilhando na escuridão, e apontou com a asa para a enorme estrutura branca ao longe.
"Lá."
"Ah."
Todos presentes tiveram sua expressão ao mesmo tempo cair.
Fechando os olhos, Aoife massageou o rosto enquanto murmurava: 'Mas que azar. Tentei fingir que não era, mas eles não estavam errados. Ele é uma praga.'
Olhar fixo na distância, os olhos de Leon se estreitaram.
"Deixe-me adivinhar."
Ele virou o olhar para a Coruja-Poderosa.
"Ele está em perigo, não está?"
"....Sim."
***
A minha cabeça era um verdadeiro caos.
Recordando a visão tênue que tinha acabado de acontecer, minha boca ficou repentinamente seca.
Tum! Tum!
Ao fundo, os tambores continuavam a ecoar enquanto eu forçava para manter a estabilidade.
'No fim... Sithrus era alguém que eu conhecia?'
Tentei lembrar a voz, mas minha mente estava em branco. Não conseguia rememorar alguém assim no passado. Pela entonação, parecia alguém que me conhecia bem.
Mas por que não me lembro...?'
'Tenho quase certeza de que minhas memórias não foram manipuladas. Não, é mais provável que uma grande parte delas tenha sido apagada.'
Poderia ser que eu mesmo tivesse feito isso?
....Ou havia alguma outra razão para tudo isso?
Porém, uma coisa eu tinha certeza: eu me via encarando a minha própria imagem. Ele... Não, eu... vi a mim mesmo. Ele não reagiu, mas eu sabia que me via.
Isso me fez pensar.
'E se no passado eu me vi assim?'
Passei a língua nos lábios, pensativo.
Era uma ideia louca, mas fazia sentido.
Oracleus, Emmet, eu...
Eu vi o futuro antecipadamente e me preparei para ele. Tinha certeza disso. Agora, entendi mais uma coisa.
O futuro que Emmet viu era o futuro que eu criei.
'Que confusão isso tudo.'
Tudo parecia uma bagunça na minha cabeça, mas comecei a compreender. Tudo que fiz estava interligado com o passado, presente e futuro. Isso definitivamente parecia algo que um 'Oráculo' conseguiria fazer.
Mas, mesmo assim, ainda havia muitas coisas que não entendia.
E, neste caso específico, minha relação com Sithrus.
'Quão próximos éramos no passado?'
Essa dúvida me despertava curiosidade, mas sabia que não tinha tempo para ficar pensando nisso. Havia questões mais urgentes a resolver.
"Hoo."
Respirando fundo, foquei minha atenção na aba de habilidades à minha frente. Especialmente, numa habilidade específica—[Olhos do Vidente].
Já não estava cinza.
Agora, podia usar a habilidade.
Meu peito tremia ao vê-la, mas não avancei imediatamente. Ainda não tinha certeza de quanto tempo ela duraria. Ela iria durar até eu morrer, ou tinha um limite de tempo definido?
Continuava inseguro sobre isso, então precisei planejar com antecedência. Se houvesse um limite de tempo, não podia perder tempo.
'Tenho duas opções: encontrar uma saída ou ir ao velho.'
Meu coração indicava que eu devia procurar uma saída, mas, ao lembrar das últimas experiências, sabia que era quase impossível encontrar uma. Quem criou esse cenário inteiro não queria que escapássemos.
O velho parecia uma opção mais confiável de momento.
Pelo menos, por enquanto.
'Ainda tenho duas ampolas. Mesmo que eu acabe gastando a primeira, tenho duas tentativas restantes. Prefiro não usá-las, mas não tenho muita escolha.'
Não podia esperar reforços chegarem.
Até lá, quem sabe eu não me tornasse marionete como os outros aqui? O tempo escorria entre meus dedos, e eu não podia vacilar.
Com um olhar discreto para meu relógio de bolso, conferi o horário.
Tik, tik—
Era 0h12min12s.
Sabendo disso, ativei a habilidade.
'Está ativo.'
Observando a habilidade ficar cinza, fuzilei o olhar para Pedregulho e abri minha boca.
"Diga a Caius e Kelion para seguirem na direção oposta à anterior. Diga que preciso que eles atraíam a atenção de todos os bonecos."
Era uma espécie de simulação.
Não precisava me preocupar com a segurança de Caius e Kelion. Por isso, planejava usá-los como isca para que pudesse entrar na mesma sala de antes.
"...Tem certeza, humano? Eles vão achar que você os abandonou?"
"Diga a eles que tenho um plano."
"Ok."
Pedregulho não questionou mais e foi na direção de Caius e Kelion. Ao ouvirem minhas palavras, ambos me olharam com feições fechadas.
Encontrei seus olhares e assenti levemente com a cabeça.
'Confie em mim.'
Suas expressões relutantes mudaram, mas acabaram cedendo e avançaram.
Sssshh—!
Como esperado, todas as cabeças de boneco se viraram em sua direção com uma união perturbadora. A visão me arrepia até o âmago, mas desta vez, não era eu quem estava sob o olhar inquietante deles.
Os tambores pararam e o silêncio opressivo tomou conta do ambiente.
Segurando a respiração, observei enquanto as pessoas ao redor começavam a se mover, seus braços e pernas se movendo de forma irregular, puxados pelos fios presos a eles lá de cima.
Como marionetes sem controle, correram na direção de Kelion e Caius.
Os dois ainda estavam cansados da luta anterior, assim como eu, mas já tinha passado tempo suficiente para podermos lutar. Quando Kelion e Caius dispararam na direção oposta, duas oubs apareceram na minha mente e os fios acima de mim se romperam, enquanto eu corri na mesma direção de antes.
Swoosh—
Minhas pernas doíam, mas ignorei a dor e arrombei a porta do prédio, focando minha atenção nas escadas enquanto fechava os olhos e imaginava um espaço escuro.
Ao abrir os olhos novamente, todo o espaço tinha ficado escuro, com o contorno sutil das escadas e do andar superior visível. mãos roxas surgiram do chão, alcançando as muitas pessoas presentes, e as prendendo no lugar.
"Huu."
Segurando o peito, corri até as escadas e ignorei os bonecos.
Conforme meu mana se esgotava rapidamente, senti meu corpo fraquejar, mas consegui me manter firme enquanto seguia o caminho familiar de antes.
Tik, Tik—
Era 0h12min15s.
'Lá.'
Finalmente, ao chegar ao limite do mana, forcei minha passagem até a escotilha, abri-a com força e desci sem hesitar.
Clank!
Estava escuro e mal podia enxergar, mas continuei correndo para baixo.
Tik, Tik—
Era 0h12min17s.
Esse foi o momento em que finalmente cheguei na sala familiar. Entrando, meus passos ficaram lentos e minha respiração parou.
Dang, da~
"Hm?"
Uma nota certa soou no ar.
Era algo familiar, vindo de um piano, e parecia estar por toda parte na sala.
Olhar ao redor, o quarto estava quase vazio, exceto por uma grande caixa de madeira no final da sala. Fora isso, não percebi nenhum outro instrumento.
Então, como...?
'Não, cadê o velho?'
Procurando pelo velho, minha expressão caiu ao perceber que ele não estava lá.
"Que droga—Uh?!"
Mas logo parei, dando um chute forte no chão, jogando-me para trás ao perceber alguém atrás de mim.
"Você chegou mais rápido do que eu... esperava."
Bem atrás de mim estava o mesmo velho de antes. Vestindo roupas rasgadas que destacavam seu enorme porte, ele me olhou por um breve momento antes de virar o rosto novamente.
"E seus dois amigos? Abandonou eles?"
"Ah, isso..."
Pensei por um momento e então menti.
"...Eu não."
"Mhm."
O velho assentiu, seu olhar penetrante atravessando-me.
"Está mentindo pra mim?"
"Não."
Na verdade, não estava, já que aquilo não era real.
"Se diz que sim."
O velho deu de ombros, sem olhar direto para mim.
Ao encará-lo, senti uma pressão avassaladora emanando dele. Era sufocante, dificultando minha respiração, como se sua presença estivesse apertando o ar dos meus pulmões.
Pra eu sentir uma pressão assim...
Quem seria esse homem?
Tum, tum—
De repente, o som abafado de passos vindo de cima encheu o ar. Olhei para cima e soube imediatamente que os bonecos estavam chegando.
Foi quando olhei diretamente para o velho.
"Você pediu pra eu voltar após o reset. Você... conhece alguma maneira de parar isso?"
"Parar? Quer dizer, os bonecos?"
"Sim."
Assenti rapidamente, olhando na direção das escadas, enquanto o suor começava a escorrer pelo lado do meu rosto.
Eles estavam vindo.
Tik, Tik—
Era 0h12min18s.
"Eu tenho."
O velho apontou para a melodia no ar.
"...A música mantém os bonecos afastados."
"O quê—"
"Eu teria deixado você ficar, mas você mentiu pra mim."
"Huh?"
Olhei para o homem com nervosismo.
Antes que pudesse entender o que acontecia, uma força poderosa me arremessou na parede ao lado, minha visão escureceu e me encontrei de volta ao lugar de onde vim.
"Huaa."
Respirando profundamente, meu peito tremia.
Tik, Tik—
Era 0h12min12s.
Eu tinha morrido.