The Water Magician

Volume 5 - Capítulo 11

The Water Magician

A caminho de casa, vindos do Principado de Inverey, os aventureiros do Reino só sentiram a tensão diminuir quando cruzaram a fronteira. Eles não estavam muito longe de Redpost agora, uma cidade na fronteira leste de Knightley.

— No final, não fizemos muita coisa — Ryo murmurou baixinho.

— Bem, você destruiu o Terceiro Batalhão Independente Federado. Praticamente sozinho, devo acrescentar — respondeu Abel enquanto caminhava ao lado do mago da água.

— Bem, o que posso dizer! Quero dizer, eu queria estar no meio da ação, usando magia chamativa para dizimar o inimigo! Afinal, eu sou um mago.

— Uh, feliz que seu desejo se realizou?

Aparentemente, as aspirações do mago eram totalmente incompreensíveis para um espadachim. Ele não estava totalmente sozinho, no entanto.

— Eu entendo perfeitamente, Ryo! — Sue, a batedora de Switchback, interveio. — Varra todos eles com um feitiço! Esmague-os com outro! Algo assim, certo?!

Rah, espadachim e líder de seu grupo, concordou com a cabeça ao lado dela.

— Camaradas! — Ryo exclamou, apertando firmemente as mãos deles.

— É, claro, o que te fizer feliz... — Abel desviou o olhar de Ryo e da preocupação com magia que parecia ter dominado a Divisão Sul.

Algo ainda incomodava Ryo. Ele havia usado o Sonar Passivo para localizar Loris depois que ele e sua comitiva se mudaram para a caverna, mas só conseguiu porque ele e o resto de seus companheiros aventureiros estavam escondidos nos arredores da cidade na época. Mas como a princesa imperial e seu mago do fogo sabiam exatamente para onde ir? Outro mistério não resolvido foi adicionado à lista cada vez maior de Ryo.

Redpost era um lugar movimentado. Com a destruição do Principado praticamente garantida, mais pessoas haviam fugido para o Reino. A força expedicionária escolheu acampar fora da cidade. Amanhã, eles se dispersariam. A compensação e outros detalhes seriam fornecidos depois que cada indivíduo retornasse à sua cidade base. Embora continuassem viajando com suas divisões regionais, alguns grupos planejavam parar em outras vilas e cidades pelo caminho; então, para todos os efeitos, eles estavam se dispersando em Redpost.

A força expedicionária não teve um momento de descanso enquanto caminhava pelo antigo Principado de Inverey. Agora que seus soldados estavam de volta ao Reino, eles podiam finalmente respirar. Com Redpost incapaz de conter a enchente de refugiados, um bom número também dormia do lado de fora das muralhas da cidade, o que significava que beber em excesso era proibido para evitar problemas. Beber com moderação, no entanto, estava tudo bem. Os aventureiros foram proibidos de beber em Inverey, então com essa restrição suspensa, todos desfrutaram de uma noite muito animada.

Ryo gostava de álcool, mas não conseguia beber muito. Ele ainda era tecnicamente menor de idade na Terra e nunca havia bebido lá, então o álcool foi algo que ele descobriu em Phi. A cerveja tipo ale era a norma no Reino, mas ultimamente a cerveja comum também vinha crescendo em popularidade e oferta.

Mais tarde, Ryo engoliu a água que havia criado para ficar sóbrio, a uma curta distância dos outros. Por causa de sua intoxicação e do grande número de pessoas ao redor, ele havia desligado completamente seu Sonar Passivo. Mesmo assim, ele pôde sentir alguém se aproximando.

— Faz um tempo, Ryo — disse Gekko, um comerciante do antigo Principado de Inverey.

Ryo também o conhecia como o empregador de seus alunos, bem como um assessor próximo do príncipe de Inverey, responsável por todo tipo de tarefas. Ryo estava preocupado com a segurança do homem, então ficou encantado em vê-lo.

— Gekko, estou tão feliz que você está são e salvo!

A alegria e o alívio na voz de Ryo fizeram Gekko sorrir. — Agradeço sua preocupação. Como pode ver, estou forte e saudável.

Então ele levantou o braço e flexionou os bíceps. Ryo se perguntou se o gesto também era comum em Phi, mas não deixou seu rosto trair sua curiosidade.

— Ah, certo! Enviei as crianças para Lune com as pessoas mais confiáveis que conheço, então tenho quase certeza de que chegaram em segurança.

— De fato, chegaram. Recebi um relatório recentemente de minha equipe de que eles e os três membros da Espada Carmesim chegaram sem incidentes. Muito obrigado. Essas crianças, e todos os outros que vieram para o Reino, continuarão a trabalhar como funcionários da Companhia Gekko de Knightley.

— Ótimas notícias!

Mesmo que seu país tivesse sido destruído, os negócios precisavam continuar. Ele tinha uma responsabilidade para com seus funcionários e suas famílias, bem como para com os clientes que aguardavam seus produtos e serviços.

No entanto, algumas palavras específicas chamaram a atenção de Ryo. — O que você quer dizer com aqueles que ‘vieram para o Reino’? — ele perguntou.

— Bem, meu irmão mais velho originalmente administrava uma empresa comercial dentro da Federação Handalieu. Separadamente, como resultado deste incidente, também adquirimos uma filial em Inverey. Meu irmão mais novo vai fundar uma na Monarquia de Joux e meu irmão caçula estabelecerá outra filial no Emirado de Kew, ao norte de Joux.

Assim como a família Rothschild...

No início do século XIX, o banqueiro alemão Mayer Amschel Rothschild teve cinco filhos. À medida que envelheciam, cada um administrava um negócio em cinco cidades europeias: Frankfurt, Viena, Londres, Nápoles e Paris. Eles às vezes colaboravam através das fronteiras e alcançaram um sucesso tremendo. Algumas teorias da conspiração dizem que a dinastia Rothschild controlou secretamente o mundo dos séculos XIX ao XX, formada e expandida durante o reinado desses cinco homens. A propósito, “root-schilt” é a pronúncia alemã de Rothschild. Entre os cinco grandes châteaux que produzem o vinho tinto Bordeaux, dois são o Château Lafite Rothschild e o Château Mouton Rothschild — e ambos pertencem a esta família.

Ah, sim, Mouton era o vinho favorito do meu pai. Embora ele mal aguentasse a bebida... “Premier je suis, Second je fus, Mouton ne change.” Essa era a única frase em francês que ele conhecia.

— ‘Primeiro, eu sou. Segundo, eu fui. Mouton não muda’ — Ryo murmurou.

— Você disse alguma coisa? — Gekko perguntou.

— Desculpe, eu estava apenas relembrando. De qualquer forma, estou realmente muito feliz que você esteja seguro.

Como de costume, Gekko lembrava Ryo de seu pai. O homem não se parecia em nada com ele, e eles também não eram próximos em idade, mas havia algo sobre ele... Sua aura? Talvez fosse por isso que ele se lembrou da palavra francesa, “mouton”.

Então Ryo olhou para as duas pessoas paradas atrás de Gekko. O primeiro era Max, o capitão de sua guarda. Sua presença fazia sentido. Mas o segundo—

— Cohn? — Ryo chamou.

De fato, era o aventureiro de rank C do Principado de Inverey, o mesmo que havia guardado o Príncipe Willie da Monarquia de Joux.

— Ei, Ryo. Faz um tempo.

— Como? O quê? Por que você está com Gekko?

Claro, ambos os homens eram de Inverey, mas não se conheciam exatamente. Eles nem sequer se cumprimentaram quando se cruzaram nos corredores do castelo de Aberdeen...

— Bem, muita coisa aconteceu — Cohn respondeu, coçando a cabeça. — Ele foi gentil o suficiente para me levar com ele.

— Ele também estava planejando se mudar para Knightley, então pedi a ele para fazer parte da minha escolta até então — explicou Gekko. — A segurança na parte leste do Reino deixa muito a desejar.

Tudo soou muito oficial para Ryo, mas ele suspeitava que havia mais por trás disso. No entanto, seria rude insistir. Como um membro respeitável da sociedade, ele sabia que algumas perguntas era melhor não serem feitas.

— Isso significa que você vai focar sua atenção no sul?

Era natural para Ryo fazer essa pergunta, considerando o que ele acabara de saber sobre o estado precário da lei e da ordem na região leste. Ele sabia que Gekko planejava abrir uma loja principal em Lune, onde as crianças estavam, e uma filial em Acray. Ambas as cidades ficavam na parte sul do reino.

— Esse é o plano. Claro, eu teria que obter a permissão dos respectivos lordes. Mas tanto o Margrave Lune quanto o Marquês Heinlein são administradores sábios de seus domínios. Na minha opinião, um nível acima dos outros nobres. — Gekko sorriu para ele.

Embora Ryo chamasse Lune de lar, ele não tinha ideia de que tipo de pessoa era o margrave. Sera, que morava em sua propriedade, ocasionalmente o mencionava de passagem, mas era claro que ela respeitava o homem. O mesmo não podia ser dito de seu sucessor. Ela havia quebrado o ombro do jovem e o esfaqueado com uma espada para lhe ensinar uma lição que ele nunca esqueceu...

— O Reino como um todo está enfrentando desafios, mas o sul é particularmente estável, tornando-o o melhor lugar para estabelecer uma base.

Essas palavras trouxeram à mente de Ryo uma imagem da princesa imperial e do mago do fogo. Ele pensou em sua pergunta: Como eles sabiam que deveriam aparecer naquele local exato, naquele momento exato? A resposta de repente o atingiu. Todas as informações necessárias para desencadear um lampejo de inspiração se uniram na mente de Ryo.

— Gekko, foi você... — ele deixou escapar, arrependendo-se no momento em que as palavras saíram de sua boca.

O comerciante silenciosamente pressionou o dedo indicador nos lábios e sorriu, dizendo a Ryo para ficar quieto.

Gekko havia organizado o esconderijo do Príncipe Inverey, o que significava que ele poderia vazar a informação para o Império. Ele provavelmente não queria que Loris buscasse asilo no Reino por causa de sua segurança precária, indicativo de um declínio na capacidade de governar e menor estabilidade política... Então, o que aconteceria se o Príncipe Inverey e sua família migrassem para tal lugar? No mínimo, eles não poderiam esperar um futuro feliz.

Mas e o Império? Eles certamente usariam Inverey como uma ferramenta política. Um dia, ele poderia até se tornar o pretexto que Debuhi precisava para atacar a Federação. Mas pelo menos Inverey e sua família sobreviveriam. O imperador não era tolo o suficiente para executá-los.

Não era um resultado ideal, mas não havia um resultado ideal agora que seu país havia sido ocupado. Era simplesmente uma questão de qual era o melhor, e assim Gekko havia sugerido o Império. Fora o próprio Inverey quem fizera a escolha. Ele pesou suas opções entre o Reino e o Império, para si e sua família, e escolheu o último. Naturalmente, Loris só teve a escolha porque Gekko havia providenciado para que Debuhi os aceitasse como exilados. Caso contrário, ele teria ido para Knightley.

Quando um país caía, seu povo geralmente entrava em desespero. Mesmo após o fim do Principado, no entanto, ele ainda tinha cidadãos leais comprometidos com sua pátria e com o líder que a representava — como o homem parado bem na frente de Ryo.

Ele inclinou a cabeça.

— Pare — disse Gekko, perturbado. — Não faça isso. Dez anos se passaram desde que conquistamos nossa independência. Sabíamos que a Federação estava nos mirando. O príncipe e aqueles ao seu redor fizeram o melhor para organizar e governar. Infelizmente, não foi o suficiente. Claro, eu sou apenas um comerciante, então não posso me comparar àqueles no coração de nossa nação que serviram com tanta devoção altruísta. Não consigo nem começar a imaginar seus arrependimentos e frustração... — Ele parecia refletir sobre uma memória, uma pitada de tristeza nublando sua expressão.

— Eu me pergunto se aqueles que permaneceram em Inverey estão sofrendo — disse Ryo, como se soubesse do que estava falando.

Gekko balançou a cabeça. — Lorde Aubrey é um homem capaz. Embora excêntrico e que usa quaisquer meios para atingir seus objetivos, ele não é do tipo que oprime as massas.

Ele parou por aí, relutante em dizer que poderia viver uma vida melhor agora do que como cidadão de Inverey.

Depois disso, Gekko disse a Ryo que ele e sua caravana de mercadores fariam paradas em várias cidades do Reino, com seus destinos finais sendo Lune e Acray. Prometendo se encontrar novamente em sua cidade natal, Ryo se despediu deles e se afastou.

Agora que estava sóbrio, Ryo estava prestes a voltar para a festa quando se virou abruptamente para encarar outro visitante.

— Ryo, eu gostaria de uma palavra.

Uma bela mulher com chifres pretos e uma cauda preta estava sob o luar — uma mulher que Ryo nunca esqueceria.

— Leonore... — ele murmurou.

— Sou eu, sim. Agora, agora, não precisa ficar tão tenso. Vim pedir seu conselho... Bem, se estou sendo honesta, um favor. Mas se é uma luta que você quer, então ficarei feliz em atender. — Um ar de excitação começou a irradiar dela.

— Não, uma conversa está ótima. Prossiga — disse Ryo com um aceno rápido de mão.

Leonore sentou-se em uma rocha próxima. — Como eu disse, na verdade vim aqui para lhe pedir um favor.

— Um favor?

Essa akuma, que podia transcender o espaço através de sua técnica de “cl claustro”, extrair objetos do subespaço e sobreviver à decapitação, queria pedir um favor a Ryo?

Ele ficou pasmo, mas então uma ideia surgiu em sua cabeça. — Ah, você quer que eu forme um contrato com você para que possa obter minha alma, certo?

Ele estava começando a se sentir como o Dr. Fausto — não o mago da terra da Federação, mas o personagem da obra-prima de Goethe.

— Não entendo bem o que você quer dizer com ‘alma’... De qualquer forma, não. O que eu preciso são as gotas feéricas que transbordam do seu corpo.

— Gotas feéricas? — Ryo inclinou a cabeça.

— Sim. É como as chamamos, embora eu veja que você não tem conhecimento das suas. Talvez você não tenha notado, já que dizem que elas não têm efeito sobre a humanidade.

— Ah, você quer dizer como a coisa que elfos e bestas guardiãs podem sentir?

Ryo se lembrou do que Sera, a Matriarca e a besta guardiã da aldeia de Nils haviam dito sobre a substância que emanava de seu corpo.

— Sim, sim, é isso. O que funciona nos elfos é o que eu preciso. — Leonore bateu palmas de alegria. — Na verdade, mantemos elfos como animais de estimação. Hmmm, a palavra ‘animal de estimação’ pode dar aos humanos a ideia errada... Hm, como dizer...

Enquanto observava Leonore tentar pensar em uma nova frase, Ryo presumiu que ela queria dizer que “animal de estimação” implicava propriedade ou escravidão, o que não seria apropriado para um elfo, já que eram quase idênticos aos humanos. Na Terra do século XXI, no entanto, muitas pessoas mantêm cães e gatos como animais de estimação queridos. Nesse sentido, o termo “animal de estimação” não é necessariamente algo ruim. No mínimo, são criaturas vivas que as pessoas às vezes consideram parte da família.

— Já sei! Os elfos não são animais de estimação, mas propriedade da comunidade.

Família não deveria ser propriedade...

— A-Acho que entendi a ideia — disse Ryo, conseguindo organizar seus pensamentos. — Então o que aconteceu com essa elfa?

— O nome dela é Elizabeth, e ela está em um estado terrível. Nossa cura não é muito eficaz naqueles de linhagem feérica, como os elfos...

— Linhagem feérica? Como aqueles que possuem uma faceta feérica?

— Faceta feérica! Sim, é como os elfos a chamam. Muito mais fácil de entender. Aqueles com a faceta feérica não se adaptam bem ao nosso habitat, e é por isso que ela está em grave perigo.

Embora Ryo estivesse um pouco curioso sobre onde Leonore e seu povo viviam, ele hesitou em invadir a privacidade deles.

— Por que não a mudam para outro lugar?

— Você acha que ainda não tentamos isso? Infelizmente, a saúde dela se deteriorou tanto que não foi o suficiente para ela se recuperar naturalmente... — Leonore balançou a cabeça sombriamente.

— Uau... Ela deve estar muito mal então. Mas o que eu posso fazer para ajudá-la?

Ele não era médico nem biólogo. Claro, ele tinha realizado algo parecido com cirurgia quando essa akuma cortou seu braço, mas no final foi a poção de Kenneth que reconectou os nervos rompidos. A única coisa que ele sabia com certeza sobre essa misteriosa faceta feérica era que sua presença estendia a vida da besta guardiã e confortava quaisquer elfos próximos... Era isso. Ah, e por alguma razão, também exorcizava o mal. Embora Ryo não tivesse certeza do que “mal” englobava.

— Honestamente, eu também não sei. Pessoas como você são incomumente raras. Dito isso, se você não funcionar como solução, posso desistir. Tentei tudo o mais que pude pensar, e tudo falhou. Nós já tínhamos desistido, na verdade, incluindo a própria Elizabeth, mas então me lembrei de você, então por que não tentar? — Leonore inclinou a cabeça.

Ryo achou estranho que a akuma tivesse até mesmo uma cultura de se curvar, mas descartou esse pensamento. Pelo que ele podia dizer, não havia risco para ele. Acima de tudo, ele estaria ajudando alguém.

Sim, ele tinha lutado com ela antes, mas não era como se ele a odiasse. Além disso, ele estava incrivelmente em dívida com os elfos, especialmente com Sera. Embora não fosse impossível que essa Elizabeth fosse hostil a Sera e aos outros que ele conhecia, Ryo não podia abandonar alguém que ele sabia que podia ajudar.

— Tudo bem, eu vou tentar.

— Viva! Depositei minhas esperanças em você, e você não decepcionou! Como sinal da minha gratidão, concedo a você o direito de lutar comigo—

— Não, obrigado — disse Ryo. — Então, qual é o próximo passo? Se você vai me levar a algum lugar, preciso avisar Hugh ou Abel primeiro. Caso contrário, eles vão se preocupar...

— Abel... Ah, seu companheiro da nossa última luta. Não tema. Trarei Elizabeth aqui.

Leonore estendeu a mão direita e disse: — Claustro.

Instantaneamente, como se o espaço tivesse sido esculpido, uma parede negra como piche apareceu. Era a mesma visão que Roman, o Herói, e seus companheiros haviam encontrado no altar artificial e que Ryo e Abel haviam testemunhado no templo escondido de um mago das trevas.

Leonore atravessou a parede. Ela retornou vinte segundos depois, carregando uma elfa no colo.

— Ryo, esta é Elizabeth. Elizabeth, este é Ryo, o homem de quem lhe falei antes.

Leonore deitou a mulher no chão.

Elizabeth tinha a mesma beleza incomparável de Sera e dos outros elfos que Ryo havia visto. Enquanto a beleza de Sera era mais digna, a de Elizabeth era mais delicada. Sua terrível condição — rosto abatido e dificuldade para respirar — apenas enfatizava sua fragilidade.

— Eu... descul— — Apesar de seu estado, ela tentou se desculpar.

— Por favor, não diga nada. Leonore, vou tocar na testa dela. Tudo bem?

— Sim. Faça o que for preciso.

Com o consentimento de Leonore, Ryo estendeu a mão e colocou a palma da mão direita na testa de Elizabeth. Ele não sabia o que realmente tinha que fazer, mas talvez sua presença por si só tivesse algum efeito. Afinal, ele havia estendido a vida útil da besta guardiã sem tocá-la, mas tinha um palpite de que colocar a mão fisicamente em Elizabeth funcionaria melhor. Provavelmente vinha de todas as vezes que ele assistiu clérigos como Eto e Rihya curarem ferimentos. Tocar não era um grande problema — contanto que não fosse assédio sexual, é claro!

Quando a mão de Ryo tocou sua testa, Elizabeth estremeceu levemente. Após cerca de um minuto, a cor começou a voltar às suas bochechas, e ela parou de ofegar tanto. Mesmo para um olho não treinado, ela estava melhorando.

Leonore observou em silêncio, seus olhos arregalados de espanto.

Aproximadamente cinco minutos depois, Ryo removeu a mão direita da testa de Elizabeth. Ele teve a sensação de que ela estava completamente de volta ao normal. A própria elfa provavelmente também estava ciente da mudança. Ela abriu os olhos, fechados por tanto tempo, olhou para Ryo, e então se curvou graciosamente.

— Obrigada.

Quando ouviu essas palavras, Leonore correu para Elizabeth e a abraçou.

— Oh, graças a Deus... Graças a Deus você está bem, Elizabeth.

— D-Dói... Dói, Lady Leonore. Você está me apertando com muita força.

Com lágrimas nos olhos, Leonore não conseguia conter sua felicidade. Elizabeth sorriu feliz e a abraçou de volta. Ryo os observou, balançando a cabeça em satisfação. Ele estava feliz por ter conseguido ajudar — ela? Elas? Um momento depois, Leonore se virou para encará-lo.

— Ryo, você tem meus agradecimentos. — Ela se curvou profundamente.

— Não se preocupe com isso. Eu não fiz muito, exceto tocar na testa dela.

Mesmo que tivessem lutado até a morte duas vezes, ver a akuma tão grata o deixava sem jeito. Ele definitivamente não se sentiria assim se um certo mago do fogo se curvasse para ele... Era apenas uma troca estranha em todos os sentidos.

— Agora, não seja tão modesto. Você realizou algo que apenas você poderia ter feito, e que feito impressionante foi. Então, mais uma vez, como sinal da minha apreciação, eu lhe concedo o direito de lutar comigo!

— Não, obrigado — ele respondeu secamente.

Leonore franziu os lábios em insatisfação.

— Seja honesta e admita que é você quem quer lutar, Lady Leonore — acrescentou Elizabeth, com ênfase.

— Tudo bem. Não vou negar. — Leonore assentiu obedientemente. — Mas eu sei que Ryo também deseja, em algum lugar profundo de sua mente. Tenho certeza absoluta.

— Por que você assume isso? — Ele suspirou profundamente.

— Porque você pareceu gostar tanto de nossas lutas. — Leonore emburrou ainda mais, o desprazer crescendo mais forte em seu rosto.

— Mas nem a pau — Ryo resmungou, surpreso.

— O quê, não me diga que você não sabia? Devo lhe dizer como você praticamente irradia durante uma luta? Você não tem outros parceiros de treino? Pergunte a eles. Tenho certeza que eles dirão o mesmo — disse ela com confiança.

Ryo ponderou sobre o que ela disse.

Agora que penso nisso, Sera luta com um leve sorriso no rosto... Espere, talvez eu também faça isso?

— De qualquer forma, depois de tudo que você fez por mim, não posso simplesmente deixá-lo ir sem agradecer apropriadamente. Ryo, há algo que você deseja? Concederei quantos de seus desejos eu for capaz.

Alguém poderia facilmente ter interpretado mal suas palavras como algum tipo de pacto faustiano...

— Você realmente espera que eu pense em algo assim de repente?

— Justo. Então deixe-me pensar... Talvez um país para governar? Se for o caso, eu poderia massacrar a família real de Knightley e lhe dar o Reino?

— Por favor, por favor, não faça isso.

A proposta de Leonore não era apenas ultrajante, era positivamente diabólica. Ele não precisou pensar duas vezes antes de rejeitá-la, especialmente porque não tinha interesse em governar um país no momento.

— Hmm... Uma companheira, então? Dizem que heróis amam mulheres, afinal. Trarei para você as melhores e mais belas mulheres de todo o mundo.

Ryo hesitou, imaginando Leonore como uma das mulheres no harém que ela oferecia. Mesmo sendo uma akuma, ela ainda era deslumbrante. — Por favor, não faça isso também.

— Oh? Eu? — Com as bochechas levemente coradas, Leonore olhou coquetemente para Ryo como se tivesse lido sua mente. — Bem, se é isso que você realmente deseja, suponho que eu poderia lhe dar dez anos da minha vida. O que me diz?

— Não, você está errada! Eu não estava pensando nisso de forma alguma! — Ryo respondeu apressadamente.

— Sem país, sem mulheres... — Ela inclinou a cabeça. — Então o que você quer?

No ritmo que essa conversa bizarra estava indo, ela poderia ter outra ideia estranha — então Ryo decidiu se antecipar.

— Eu quero que você responda às minhas perguntas.

— O quê? É só isso que você quer?

— Sim. Conhecimento é poder. Há coisas que eu quero saber, mas parece que não consigo encontrar nenhuma informação sobre elas.

— Bem, é verdade, conhecimento é poder... No entanto... Seria um desperdício te dar todas as respostas, não seria? — Leonore fez uma pausa por um momento, depois levantou dois dedos em direção a Ryo. — Responderei a duas de suas perguntas. No entanto, devo avisá-lo de que há algumas coisas que simplesmente não posso discutir.

Alguns minutos se passaram, mas Ryo permaneceu em silêncio, pensativo. Ele só tinha duas perguntas. Vários tópicos vieram à mente imediatamente, mas estava demorando para ele decidir.

Leonore se mexeu impacientemente. — Ryo—

— Entendi! — ele interrompeu.

— Muito bem. Prossiga.

— Certo, a primeira: O que eu sou?

— Perdão? — Leonore perguntou, piscando em confusão.

Elizabeth, que observava a troca de lado, inclinou a cabeça.

Ryo, por sua vez, parecia bastante satisfeito consigo mesmo por finalmente ter reduzido suas perguntas. No entanto, ele certamente não tinha previsto que Leonore não entenderia sua pergunta, isso era óbvio.

Por trinta segundos, ninguém disse uma palavra.

— Perdoe-me, Ryo, mas não sei o que você quer dizer. — A expressão de Leonore era de desculpas. Quando viu o quanto sua resposta o chocou, ela se apressou em continuar. — Corrija-me se eu estiver errada, mas talvez você pergunte sobre as gotas feéricas que transbordam de você — sobre por que você possui uma constituição tão única? Algo desse tipo?

Ryo inclinou a cabeça, pensativo. — Mais ou menos. O que eu quis dizer exatamente era se sou humano ou não...

— Ah, entendo. Bem, isso depende da sua definição de humano. Mas... Sim, acho que você é.

— ‘Depende da sua definição’? Pode elaborar?

Que resposta vaga.

— Humanos têm duas pernas e dois braços, e cabeças montadas em pescoços. Assim como nós — explicou Leonore. — No entanto, ao contrário de nós, eles não têm chifres ou caudas, e falam uma língua que apenas outros humanos podem entender. Essas condições não são únicas para os humanos?

— Ah, hm, agora que você mencionou... — Ryo não pôde deixar de concordar com a explicação de Leonore, embora não estivesse totalmente convencido.

— Isso me lembra. Houve pessoas no passado que, como você, exalavam gotas feéricas.

— Hã? — Seus olhos se arregalaram de surpresa.

— Eu diria que há cerca de dez mil — não, cinquenta mil anos. De qualquer forma, há muito tempo.

A civilização mais antiga da Terra é dita ser a Mesopotâmia, centrada nos sumérios. A primeira dinastia de Ur, que incluiu o famoso Rei Gilgamesh, data de 4000 a.C. Isso é seis mil anos antes do século XXI.

Então, a menção de Leonore a um tempo de dez mil anos atrás deu a Ryo uma ideia de quão incrivelmente antigo deve ter sido. Francamente, algo tão distante no passado pareceria nada mais do que lenda ou mito na Terra... No entanto, muitas raças diferentes habitavam Phi. Embora ele ainda não tivesse conhecido um deus, uma akuma estava diante de seus olhos. Os elfos eram longevos, e ele pensou que os dragões na Floresta de Rondo provavelmente também eram. O que ele conheceu falou de um tempo que abrangia centenas de milhares de anos... Desnecessário dizer que o tempo era um pouco diferente em Phi.

— Bem, se são dez ou cinquenta mil anos, não importa. Qualquer um dos dois é muito tempo para mim.

Por enquanto, Ryo achava que provavelmente era humano. Segundo Leonore, pessoas “como ele” existiram no passado. Claro, aprender tudo isso não significava muito, já que nada mudaria. Ainda assim, ele não queria negligenciar sua curiosidade — ele queria apreciá-la.

— Certo, agora minha segunda pergunta.

— Fico feliz que você esteja satisfeito com minha resposta à primeira. Continue, então.

— Onde fica o país dos vampiros?

— Maldição... — Leonore murmurou. Desta vez, ela demorou ainda mais para responder — ela provavelmente não esperava essa pergunta também. — Devo dizer, esta não tem nada a ver com a sua primeira. Você deseja saber onde os vampiros vivem, eh? Bem, não tenho certeza se tenho permissão para responder a isso. Deixe-me perguntar algo em troca, Ryo: Por que você tem tanta certeza de que ele existe?

— Hum, sobre isso... Nós lutamos contra um vampiro outro dia. Ele deixou escapar que era um conde ou algo assim...

— O-Oh... Entendo... — Leonore suspirou e balançou a cabeça. — É tudo especulação, veja bem, mas acredito que os vampiros não gostariam que os humanos soubessem de sua existência. Você conhece a história do conflito entre as duas raças?

— Um pouco. Aparentemente, foi especialmente ruim nas Províncias Ocidentais?

— De fato. Portanto, embora eu tenha uma dívida com você, Ryo, minha consciência não me deixaria em paz se eu divulgasse a localização de sua terra natal.

— Entendido. Então não se preocupe com isso. Sério.

Ele decidiu não insistir mais. Na verdade, essa conversa apenas solidificou sua suspeita.

É em algum lugar nas Províncias Centrais.

Se tivesse sido nas Províncias Ocidentais, Leonore provavelmente teria mencionado o “Extremo Oeste” ou algo assim para que pudesse manter sua resposta vaga o suficiente para proteger os vampiros, mas boa o suficiente para satisfazer sua necessidade de retribuir por salvar Elizabeth. Mas o fato de ela não ter dito isso sugeria que era perto... Um lugar que ele poderia até visitar no futuro. Em outras palavras, em algum lugar nas Províncias Centrais.

Além disso, não era como se ele fosse agir com base no conhecimento. Ele não tinha planos de caçar vampiros. Ele só queria satisfazer sua curiosidade. Embora, em retrospecto, ele agora se perguntasse se tinha sido uma boa ideia usar um dos dois preciosos espaços de pergunta apenas para satisfazer sua curiosidade...

— Obrigado, Leonore.

— De forma alguma. Lamento não poder oferecer respostas mais claras, especialmente para a segunda pergunta. Certo, então. É hora de voltarmos. Criamos este claustro unindo todas as nossas forças, mas parece que estamos chegando ao nosso limite.

— Entendido. Obrigado novamente por compartilhar informações tão valiosas comigo.

Ryo curvou-se educadamente novamente.

— Não, sou eu quem deveria agradecer por salvar Elizabeth.

Leonore curvou-se educadamente de volta, e a elfa ao seu lado também.

Que cena verdadeiramente japonesa.

E então, as duas desapareceram.

Na manhã seguinte, depois que Ryo a ajudou — elas? — ele sentiu um certo arrependimento. Leonore havia dito que lhe daria qualquer coisa que ele quisesse, então por que ele não pediu um golem?

Observando Ryo suspirar desanimado, Abel murmurou: — Aposto que você está pensando em algo estúpido de novo, algo que não vai ajudar ninguém ou tornar o mundo um lugar melhor.

Pobre Ryo, sempre subestimado.

“O Estudo”, como era comumente chamado, era uma biblioteca particular repleta de uma enorme coleção de livros. Hoje, seu dono estava absorto em um dos tomos quando detectou um certo aroma que o fez levantar a cabeça. Chegaria em breve, colocado bem na mesa diante dele: preto como o diabo, quente como o inferno, puro como um anjo e doce como o amor...

— Ahhh. Obrigado.

Ele alcançou o café recém-preparado e inalou o aroma rico.

— Meu senhor, Lorde Dras deseja fazer um relatório — anunciou o mordomo depois de servir seu mestre.

— Muito bem — disse o dono com um aceno de cabeça. — Pode mandá-lo entrar.

— Tenho duas notícias, meu senhor. Primeiro, o príncipe de Inverey aceitou formalmente a oferta de asilo do Império Debuhi. Segundo, identificamos os indivíduos envolvidos na aniquilação do Conde Haskill.

— Conte-me mais sobre o segundo.

— Claro. O Conde Kalinikos Haskill desapareceu na região sul do Reino de Knightley. Especificamente, em um território sob controle direto da família real. Os presentes no momento de sua morte foram Hugh McGlass, mestre da guilda de aventureiros de Lune, um grupo de rank D de quatro pessoas, e o Herói, Roman, e seu grupo.

O mestre do prédio inclinou a cabeça, curioso. — Não apenas o Mestre McGlass, mas também o Herói? Um elenco de personagens bastante impressionante. Acho extremamente difícil acreditar que foi apenas uma coincidência.

— Concordo. Evidentemente, o grupo do Herói estava hospedado em Lune na época, o que explica o acompanhamento do Mestre McGlass à vila de Kona.

— Interessante.

O mestre da propriedade olhou com carinho para o café à sua frente. Hoje, ele estava bebendo uma infusão de Kona em vez do Café Blue Mountain cultivado localmente.

— Questiono se a Astarte do Herói é sequer capaz de destruir Kalinikos. O mesmo vale para a Galahad do Mestre McGlass. Suas habilidades únicas como espadas sagradas poderiam... Hmm, talvez uma tenha impedido o poder de regeneração? Seja qual for o caso, nenhum dos dois homens é um oponente comum. Um sozinho pode ter sido demais para Kalinikos lidar — o homem elegante murmurou impassivelmente.

— De fato. No entanto, estou preocupado com o clérigo no grupo do Herói... — Seu subordinado parou, hesitando pela primeira vez.

— Oh? Sempre houve um membro do clero no grupo do Herói. Quem é agora?

— Arcebispo Graham — disse seu subordinado, com os dentes cerrados de frustração.

— O próprio Inquisidor-Chefe...? Ora, ora. — O homem sorriu gentilmente. Ele não carregava a raiva que Kalinikos sentia por Graham ou a frustração que seu subordinado rangia entre os dentes; em vez disso, seu sorriso não mostrava nada além de uma tristeza pura e simples.

— Graham... — ele murmurou, a voz baixa demais para ser ouvida. — Que pena...

Uma semana se passou desde que a Divisão Sul da força expedicionária do Reino retornou a Lune. Qualquer arma — tanto as de fogo na Terra quanto as espadas em Phi — precisava de manutenção regular. Embora aventureiros e cavaleiros mantivessem suas próprias armas, também era comum que as pessoas levassem suas lâminas para um ferreiro conhecido uma vez a cada um ou dois meses.

Lune, a maior cidade da fronteira, abrigava muitos ferreiros. O bairro dos artesãos, que sediava suas oficinas, ficava perto do portão oeste.

No momento, Sera e Ryo estavam parados em frente a uma dessas oficinas — a do Mestre Doran.

— Olá, Mestre! — Sera chamou enquanto abriam a porta e entravam.

— Já vou — respondeu uma voz masculina e grave vinda do fundo da loja. Alguns segundos depois, um homem baixo, robusto e barbudo, na casa dos cinquenta anos, apareceu.

Ele se parece com Berlocke do grupo do Herói! Um ferreiro anão, um clichê de isekai! Será que há algum conflito entre elfos e anões... Ou será que esse anão teimoso nos expulsará da loja com um “Não vendemos nossas armas para gente como vocês!”? Estamos prestes a nos envolver em uma briga?!

Por alguma razão, a empolgação de Ryo tomou um rumo estranho.

— Olá, senhorita Sera. Hora da manutenção de novo, eh?

— De fato. Como sempre, conto com você.

Ela colocou sua espada embainhada sobre a mesa.

— Pode deixar. — Mestre Doran olhou para Ryo. — E quem é o mago?

— Ah, este é Ryo — respondeu Sera. — Ele está me acompanhando.

— Não me diga. Bem, odeio desapontar, mas só tenho armaduras de metal, sendo um ferreiro e tal. Nem cajados, mas... Espere, você nem tem um.

Ele olhou Ryo de cima a baixo, confirmando que ele estava de mãos vazias. Sua surpresa era justificada, já que magos geralmente carregavam cajados. Sem um, um mago supostamente precisaria de dez vezes mais mana para lançar um feitiço que era um décimo tão eficaz. É por isso que magos e cajados eram considerados inextricavelmente ligados.

— Minha filosofia é não usar um cajado... — Ryo respondeu com um aceno de cabeça.

— Bem... Leva-se de tudo para fazer um mundo, eh?

— Ryo também se destaca em combate corpo a corpo. Sou da opinião de que ele é melhor com uma espada do que com um cajado. Sua esgrima está no mesmo nível que a minha — disse Sera como uma mãe orgulhosa.

Os olhos do Mestre Doran se arregalaram.

— Um grande elogio vindo de você, senhorita Sera. Isso me lembra... Ouvi na mansão sobre um aventureiro que treina com você todos os dias. Deve ser ele, hein?

— De fato. — Sera sorriu e assentiu ansiosamente.

Ryo parecia intrigado. — A mansão?

— Certo, você não sabe. Mestre Doran faz parte do ateliê especial do margrave. Ele é um ferreiro muito habilidoso, veja bem. Sua Senhoria não deixaria um talento tão excepcional por conta própria.

— Pare, ou minha cabeça vai ficar duas vezes maior. — O rosto do Mestre Doran estava vermelho vivo. Ele era um bom homem e não o anão teimoso e mal-humorado que Ryo esperava. Ele até se dava muito bem com Sera, uma elfa...

— Falando no ateliê do meu senhor, temos um novo membro, um artesão altamente qualificado. Eu estava justamente falando com ele antes de vocês dois entrarem. Mestre Abraham!

Um momento depois, um velho saiu.

— O que posso fazer por você? — ele disse.

Ryo estudou por um momento. — Sr. Abraham Louis? — ele perguntou, reconhecendo-o. — O relojoeiro?

— Sou eu mesmo. Oh ho, nos encontramos de novo, e pela terceira vez. Quando foi a primeira vez mesmo? Certo, você estava com o jovem que comprou a besta de tiro rápido em Whitnash.

— Você tem uma memória excelente. Nunca lhe disse meu nome. Sou Ryo, um mago da água.

Abraham Louis era um velho que originalmente administrava uma loja especializada em arcos e bestas em Whitnash. Desde o primeiro encontro lá, ele se mudou para Lune e abriu uma nova loja perto do portão leste.

— Senhorita Sera, vejo que seu amigo de manto conhece o Mestre Abraham.

— Isso mesmo. Um dos meus amigos comprou uma arma dele.

— O que significa que você está familiarizado com as habilidades dele, certo? — Doran perguntou.

— Estou, e elas são bastante impressionantes — disse Ryo.

Abraham corou. — Caramba, isso é embaraçoso.

— Certo então, senhorita Sera, sua espada deve estar pronta à tarde. Agora, Ryo, era isso? Você cuida bem da sua lâmina? — Mestre Doran perguntou a ele.

— Sabe, acabei de perceber que nunca vi sua espada antes, Ryo. — Sera olhou para ele também, curiosa.

Embora eles treinassem quase todos os dias, ele usava uma arma de treino sem corte do arsenal do campo de treinamento.

— Não acho que preciso de manutenção na minha, mas seria bom ter a opinião de um profissional. Aqui estão.

Ryo tirou Murasame e a faca feita por Michael de sua cintura e as colocou sobre a mesa.

— Puta merda... — Mestre Doran murmurou, espantado.

— Não pode ser... — disse Abraham.

Um instante de silêncio se passou, então Doran balançou a cabeça. — Mas... Não... Isso é real? Não estou sonhando, estou? — ele murmurou para si mesmo. — Nunca pensei que veria isso em minha vida...

Sera ignorou ambos os ferreiros e sorriu para Ryo. — A espada do Rei das Fadas também?! Entre isso e seu manto, ele obviamente gostou de você!

— Então esta é a espada do Rei das Fadas... — disse Doran. — Eu só tinha ouvido rumores sobre ela, então não tinha certeza.

Abraham assentiu vigorosamente. — Todo esse tempo, pensei que fosse uma lenda.

— Ryo, ela pode produzir uma lâmina? Por favor, eu quero ver! — Sera implorou, com o rosto cheio de empolgação.

— Peça e receberá. — Ryo, não totalmente avesso ao seu apelo, pegou Murasame e gerou uma lâmina de gelo.

— Uau. Que linda... — Sera estava meio enfeitiçada pela lâmina de gelo azul brilhante.

Ryo, por sua vez, estava encantado com a expressão dela.

Doran e Abraham olharam primeiro para a elfa e o mago da água, depois para Murasame e, finalmente, gemeram em uníssono.

O olhar de Doran de repente mudou para a faca feita pelo Falso Michael. Ele ficou imóvel, seus olhos arregalados de choque, mas ninguém notou seu comportamento estranho.

Ryo desfez a lâmina de Murasame e guardou a espada de volta na cintura, depois pegou suavemente a faca sobre a mesa e a guardou também.

— Minha nossa, que espetáculo visual absoluto. Certo, Ryo, decidi onde vamos almoçar hoje. Mestre Doran, nos vemos mais tarde.

O ferreiro permaneceu congelado, e os dois saíram da oficina, ainda alegremente inconscientes de seu estado.

— Eu também deveria ir para casa, Mestre. Vejo você na mansão.

Então Abraham Louis também saiu da loja.

Quanto a Doran, ele ainda não havia se movido um centímetro...

As vozes de Sera e Ryo filtravam de fora.

— Depois da confusão na capital, um restaurante abriu perto do portão oeste. Aparentemente, eles servem um prato delicioso chamado ‘hambúrguer’.

— ‘Hambúrguer’? Não... Poderia ser... Bifes de hambúrguer?!

— O chef é da Terra do Crepúsculo. É logo na esquina, então avante!

Não demorou muito para a vida de Ryo voltar ao normal depois que ele retornou do Principado de Inverey. De manhã, ele acordava com o nascer do sol, fazia seus alongamentos e praticava seus golpes. Ele fazia e comia o café da manhã, passava a manhã trabalhando em alquimia e magia, e almoçava em um dos restaurantes perto do portão leste, principalmente no Posto de Abastecimento.

À tarde, ele treinava com Sera nos campos de treinamento dos cavaleiros e ocasionalmente passava na biblioteca ou na filial de Lune da empresa de Gekko. Ele jantava a caminho de casa, certificava-se de estar de volta em sua casa antes de ficar muito tarde, tomava um banho e ia para a cama.

As forças que interrompiam a rotina regular de Ryo podiam ser divididas em duas categorias. A primeira eram os membros do Quarto 10, também conhecidos como seus ex-colegas de quarto. A outra era Abel, que havia ganhado os pontos necessários na expedição a Inverey para finalmente se tornar um aventureiro de rank A.

Isso significava que a Espada Carmesim agora era oficialmente de rank A também. A propósito, o único outro grupo de rank A ativo no Reino estava baseado na capital real, tornando a Espada Carmesim apenas a segunda a atingir esse rank.

Uma semana se passou desde o almoço de hambúrguer de Ryo e Sera. Ryo e o Quarto 10 compareceram à cerimônia de promoção de rank de Abel. Nils ficou comovido até as lágrimas. Ao lado dele, Eto fez o possível para acalmá-lo. Amon, por sua vez, pensou em como um dia realizaria a mesma coisa que Abel.

E Ryo? Ele ficou lá com os braços cruzados e acenou com entusiasmo, como um pai feliz por ver seu filho crescido. Ele poderia até estar pensando que criou Abel.

Obviamente, esse pensamento nunca passou pela cabeça de Abel.

Em uma manhã, alguns dias após a cerimônia, Abel visitou a casa de Ryo.

— Talvez eu esteja um pouco adiantado... — ele murmurou. Ele pegou seu relógio de bolso e verificou a hora. Ainda eram apenas oito horas. Ele sabia que Ryo provavelmente estaria acordado, mas Abel hesitou em frente à casa, sem saber o que fazer.

Enquanto ele hesitava, a porta dos fundos à direita se abriu e Sera apareceu.

— Oh, olá, Abel — ela chamou. — Você está adiantado.

— Uh, bom dia, Sera...

— Quase me esqueci. Parabéns por atingir o rank A. Sua Senhoria ficou bastante satisfeito, sabe.

— Obrigado.

— Bem, estou com pressa, então nos vemos. — Com isso, Sera desapareceu em uma rajada de vento.

Demorou alguns momentos para Abel perceber que ela havia usado magia do vento para viajar em alta velocidade.

Quando Abel voltou a si, a porta pela qual Sera havia saído se abriu e, desta vez, Ryo saiu.

— Pensei ter ouvido uma voz. Ah, era você, Abel. Incomum para você estar por aí tão cedo, hm?

— S-Sim. Quer dizer, não. Espere, eu... — Abel respondeu, gaguejando.

— O que foi? Se tem algo a dizer, apenas diga.

— Bem, acabei de encontrar Sera saindo e...

— E?

— Ela passou a noite aqui? — Abel perguntou, com o rosto vermelho vivo. Ele parecia desacostumado a esse tipo de coisa, apesar de ser um homem adulto na casa dos vinte e poucos anos.

— Abel, Abel, Abel... — Ryo suspirou e voltou para dentro sem responder.

— Ei, espere um segundo! — Ele o seguiu apressadamente.

O cheiro de algo delicioso cozinhando pairava no ar, mas Abel não conseguia ver nenhuma comida na mesa — apenas uma pilha de papéis. O brasão do margrave era visível na folha de cima.

— Sera trouxe isso há pouco tempo — explicou Ryo. — Também tomamos café da manhã juntos. Os cavaleiros têm um treinamento surpresa de caça a monstros hoje e, claro, como professora deles, ela tem que estar lá para a avaliação. Ela veio me dizer que não haveria batalha simulada esta tarde.

Enquanto falava, ele moía rapidamente grãos de café em um moinho feito pela empresa de Gekko. Comparado ao pilão e almofariz que ele vinha usando até agora, funcionava muito melhor, tornando-se sua ferramenta favorita recentemente.

— E-Entendi. — Agora que ele sabia que Sera não tinha passado a noite, o rubor desapareceu do rosto de Abel e sua tez voltou à cor normal.

— Então, o que são estes? Posso dar uma olhada?

— Claro, mas você provavelmente não vai entender. Eles têm a ver com alquimia.

— Ei, não me subestime. Admito que não sei usar alquimia, mas eu sei — Uh, eu sei um pouco... um pouco, uh... — Sua voz foi sumindo, ficando cada vez mais baixa enquanto ele lia os papéis. Ele não conseguia entender muito do que estava escrito. As únicas palavras que ele conseguia decifrar eram “Barão Kenneth Hayward” e “Vedra”.

Enquanto isso, Ryo despejou o café pronto em xícaras feitas de gelo. Ele colocou uma na frente de si e a outra na frente de Abel.

— Esses documentos contêm informações sobre a arma arcana que vimos ser usada em Inverey.

— Aquela que disparou aquela luz verde da torre?!

Abel também se lembrava. A Divisão Sul estava observando tudo do topo do penhasco acima da passagem estreita.

— Precisamente. Aparentemente, aquela era uma réplica do original chamado ‘Vedra’, que Kenneth fez no Centro Real de Alquimia.

— Droga. Eu sabia.

Abel finalmente descobriu a resposta para a pergunta que estava em sua mente desde que viu a arma pela primeira vez no Principado.

— Infelizmente, parece que a tecnologia foi roubada. Claro, não de Kenneth. Ele não é tão estúpido. Muito provavelmente alguém do Ministério de Assuntos Internos, já que tem jurisdição sobre o Centro. Esses detalhes específicos também estão no relatório.

Ryo tomou um gole de seu café Kona, satisfeito com o sabor. A incongruência entre suas palavras e a expressão indiferente era suficiente para dar um nó na cabeça de alguém.

— Como diabos você tem acesso a esse tipo de informação, em primeiro lugar?

— Beeem... Você se lembra dos golens que neutralizaram a cópia da Vedra? Eu enviei um relatório ao margrave sobre como eles fizeram isso. Fui pela guilda, no entanto, não diretamente. E em troca, pedi qualquer informação que ele pudesse fornecer sobre a luz verde, e foi isso que eles entregaram.

A luz que os golens emitiram de suas mãos era baseada no mesmo conceito do camarão-pistola que havia nocauteado Ryo no oceano. Apesar da memória humilhante, isso lhe deu uma tremenda visão sobre o mecanismo.

— Certo, você disse algo sobre pequenos raios.

Abel só conseguia se lembrar de fragmentos da explicação de Ryo. Mesmo tendo dito ao amigo que entendia, ele não entendeu na época e não entendia agora.

— Abel... Não se preocupe. Você tem sua espada, então vai ficar bem. Mesmo que não consiga fazer mais nada.

— Ryo, meu velho amigo, meu caro. Um dia desses você vai se arrepender de me subestimar.

Ryo piscou, atordoado. — Como você sabia o que eu estava pensando?

— E quando esse dia chegar, vou fazer você chorar como um bebê!

— Ah, certo. — Ryo bateu palmas alegremente. — Tenho uma pergunta que eu realmente gostaria de fazer a um espadachim de rank A.

Abel o olhou de soslaio. — Você tem muita coragem de me dizer isso logo depois de tirar sarro de mim.

— Abel, sabe, a capacidade de mudar rapidamente sua mentalidade é vital.

— E de quem você acha que é a culpa de eu me recusar?!

— Sua, claro. Dizem que a atitude é tudo. Então você realmente precisa trabalhar na sua, Abel.

— Sim, sim, tanto faz. — Abel suspirou, derrotado. — Então qual é a sua pergunta?

— É sobre as Habilidades de Combate. Ouvi dizer que apenas aqueles que não podem usar magia podem dominá-las. Isso é verdade?

Abel arqueou uma sobrancelha. — Não esperava por essa. Quem te disse?

— Sera e Phelps.

Sera do Vento e Phelps da Brigada Branca eram aventureiros de rank B baseados em Lune.

— Sim, provavelmente é verdade.

Provavelmente?

— Sim. Supostamente, você não consegue nem aprender uma Habilidade de Combate a menos que seja muito forte. É por isso que não há muita informação disponível. Além disso, elas só se tornaram difundidas há cerca de cem anos. Eu te falei sobre isso antes, certo?

— Sim, quando meu braço foi cortado.

Abel havia mencionado isso no caminho de volta para Lune da capital, depois que Leonore cortou o braço de Ryo.

— Você é o único que eu conheço que riria contando essa história. Devo dizer — você tem coragem, meu amigo. — Abel balançou a cabeça em divertida exasperação. — De qualquer forma, depois da nossa conversa, fiquei curioso e fiz minha própria pesquisa. Aparentemente, as Habilidades de Combate vieram do oeste.

— Do oeste?

A oeste do Reino ficava a Floresta Ocidental, onde os elfos viviam. Além disso, uma cadeia de montanhas se erguia. Ninguém viajava para lá.

— Sim, eu sei o que você está pensando. Não acho que os elfos estejam envolvidos. Exemplo disso, Sera. Ela é incrível com uma espada, mas não usa Habilidades de Combate.

— Hmm... E os mistérios se aprofundam.

Outro quebra-cabeça para Ryo adicionar à sua lista cada vez mais longa.

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