The Water Magician

Volume 4 - Capítulo 1

The Water Magician

A Segunda Estrada Real do Reino ia da capital real, Palácio de Cristal, passando por Wingston, a maior cidade da região leste, até a cidade de Redpost, na fronteira leste do país. Redpost fazia fronteira com o Principado de Inverey e a Federação de Handalieu.

Ryo, o Príncipe Willie, Rodrigo, seus quatro guardas e os seis aventureiros liderados por Cohn seguiam para o oeste pela Segunda Estrada Real em direção à capital. A carruagem em que o Príncipe Willie e seus companheiros viajavam era relativamente grande e bem-feita, e havia sido comprada em Wingston. O príncipe havia perdido todas as suas cartas de crédito durante o ataque da Seita dos Assassinos ao seu grupo, então Ryo adiantou os fundos para ele. Afinal, uma vez que entraram no Reino, Ryo era basicamente um homem rico.

Atualmente, ele estava atuando como guia do Príncipe Willie.

— O que foi aquilo que comemos ontem à noite? Gratinado, você disse? Devo dizer que estava delicioso. Nunca imaginei que uma pousada em uma cidade tão pequena serviria algo assim... Lembro-me mais uma vez de como o Reino de Knightley é uma potência. — O Príncipe Willie elogiava o jantar que tiveram na noite anterior em uma das paradas durante a viagem.

— Eu sei, não é? Concordo plenamente — disse Ryo, assentindo com entusiasmo ao lado dele, como se ele pessoalmente tivesse algo a ver com a refeição.

O resto do grupo — Rodrigo, os quatro guarda-costas e os seis aventureiros, incluindo Cohn, que os liderava — observava a dupla com sorrisos indulgentes.

— Na verdade, sinto que estou pronto para dar o meu máximo hoje à noite durante nosso treinamento mágico! — declarou o príncipe ansiosamente.

— Vossa Alteza, por favor, não se esforce demais... — Ryo se apressou em advertir. Como guia do garoto, impedi-lo quando necessário também era parte de seu trabalho. Se você estivesse curioso para saber o porquê, era porque...

— Eu sei, eu sei. Fiquei sem magia ontem à noite. Mas! Tenho um forte pressentimento de que estarei bem hoje à noite.

— Respeitosamente, eu tenho um forte pressentimento de que a mesma coisa acontecerá hoje à noite, já que você tem a tendência de se esforçar demais...

O Príncipe Willie estava gostando muito de seu treinamento de magia da água. Até Ryo ficou surpreso com o entusiasmo do garoto. Consequentemente, na maioria das vezes, ele desmaiava por esgotar suas reservas de mana devido ao seu zelo.

Todos em seu grupo, incluindo Ryo e Willie, entendiam que, com o problema da Seita dos Assassinos resolvido, não precisavam mais temer ataques surpresa. E isso explicava por que o jovem príncipe treinava até o ponto de — bem, na verdade, além do ponto de exaustão. Os outros ficavam felizes em tolerá-lo, com a maior ameaça eliminada.

Rodrigo era o atendente do príncipe desde o seu nascimento e se deliciava ao ver as mudanças no garoto agora. Como o oitavo filho da linhagem real da Monarquia de Joux, o Príncipe Willie havia sofrido muito durante sua vida no palácio. Sua personalidade inerentemente gentil era provavelmente a razão pela qual ele passou tanto tempo sendo atencioso com tantos. Como resultado, aqueles ao seu redor passaram a vê-lo como fraco e esquecível, o que, de fato, era o consenso geral sobre Willie até ele deixar Joux para seus estudos no exterior.

No entanto, ele era diferente quando menino. Sua bondade perdurava, mas ele também mantinha sua força de coração. Além disso, ele também era um trabalhador árduo que se dedicava de corpo e alma a cada empreendimento.

Então Rodrigo estava exultante ao ver o príncipe recuperar gradualmente traços de seu antigo eu nesta viagem. Ele estava bem ciente de que o catalisador da mudança não era outro senão o sósia e guarda-costas do Príncipe Willie, o mago da água chamado Ryo. E por essa razão, ele era grato a Ryo do fundo de seu coração.

Naquela noite...

— Só mais um pouquinho. Só um pouquiiinho. Por favor. Só mais um tiquinho.

— Vossa Alteza, você sabe o que acontece toda vez que diz isso...

— Estou bem... Ah...

— Odeio dizer que eu avisei... mas eu avisei...

Naquela noite, assim como nas noites anteriores, o Príncipe Willie adormeceu depois de esgotar toda a sua magia e Ryo suspirou com o resultado totalmente esperado. Ninguém mais comentou, já acostumados com a cena.

Ainda assim, Ryo se preocupava um pouco com ele. Idealmente, o garoto deveria parar logo antes de sua mana se esgotar e então ir para a cama. Com o tempo que passaram juntos, Ryo de alguma forma passou a entender quando o príncipe estava prestes a cruzar o limite e sempre tentava pará-lo. No entanto... Willie simplesmente continuava avançando. E então, eventualmente, desmaiava por ficar sem magia.

É difícil para um servo ter um mestre que se esforça demais.

De qualquer forma, com tantos de seus problemas agora resolvidos, o grupo continuou na estrada para a capital real.

Em uma aldeia a cerca de três quilômetros do Palácio de Cristal, a capital do Reino de Knightley, quatro aventureiros visitaram sua igreja à noite. O padre que abriu a porta pareceu um pouco surpreso, mas os acolheu sem dizer uma palavra. Ele acenou para que um deles o seguisse até seu escritório.

O padre colocou a mão na lateral de uma estante de livros situada mais ao fundo da sala e entoou algo. A estante deslizou para o lado, revelando a parede atrás dela. Havia um buraco grande o suficiente para uma única pessoa passar. Quando o homem passou por ele, o padre colocou a mão mais uma vez na estante e, depois de devolvê-la à sua posição original, deixou seu escritório.

O homem que havia passado pelo buraco imediatamente colocou a mão em uma pedra próxima e entoou algo. A luz iluminou o buraco até o fundo com suas palavras. Um corredor muito longo se estendia tão à frente que era difícil estimar seu comprimento.

Exalando silenciosamente, o homem começou a caminhar pelo caminho.

Depois de trinta minutos de caminhada, ele chegou a um ponto onde o caminho se dividia em três. Ele, sem hesitar, escolheu o da direita. Depois de mais caminhada, ele alcançou uma escada em espiral, que subiu. Uma porta de pedra estava em seu destino. Ele colocou a mão sobre ela e entoou algo novamente. A porta se abriu sozinha e o homem passou. Ele andou mais cinquenta metros antes de encontrar outra porta de pedra.

Ele desembainhou sua espada pela metade e bateu na porta três vezes com o pomo do cabo. Pouco tempo depois, ouviu três batidas vindas do outro lado. Esse era o seu sinal para bater mais sete vezes.

Então, finalmente, vieram os sons da fechadura sendo desfeita e do ferrolho sendo desprendido, após o qual a porta se abriu.

— Bem-vindo, Albert.

— Peço perdão, Vossa Alteza Real, Príncipe Herdeiro do Reino de Knightley.

O homem que o recebeu, tratado como o príncipe herdeiro, parecia ter cerca de trinta anos com uma aparência doentia. E o homem que entrou na sala, tratado como Albert, era... Abel, o aventureiro de Rank B de Lune.

— Somos só nós. Além disso, faz um tempo que não te ouço me chamar de ‘Irmão’, então me conceda esse prazer, pode ser? — Com um sorriso melancólico, o príncipe herdeiro sentou-se lentamente na cama.

— Como desejar, Irmão — disse Abel um pouco envergonhado.

O príncipe herdeiro assentiu feliz em resposta. — Infelizmente, esta não é uma visita social. Pedi que você viesse às pressas sob o mais absoluto sigilo porque temos um problema sério em mãos. — O Príncipe Herdeiro ofegava enquanto falava, provavelmente devido ao esforço físico excessivo.

— Sua Majestade renunciou à sua chave do Salão dos Campeões.

— O quê...? — Abel não conseguiu dizer mais nada em resposta ao anúncio do príncipe herdeiro.

O Salão dos Campeões. Conhecido como o verdadeiro cofre do tesouro, era um lugar localizado nas profundezas da casa do tesouro oficial da família real. O Rei Ricardo, que restaurou as fortunas do Reino de Knightley, construiu-o várias centenas de anos atrás durante seu reinado no extremo norte do país. Era protegido por todas as magias elementares, bem como por salvaguardas alquímicas.

Desde a época do reinado do Rei Ricardo, vários tesouros que se dizia serem capazes de destruir o equilíbrio do mundo repousavam lá dentro. Além disso, como parte de seu último desejo, ele exigiu que tudo dentro do Salão dos Campeões não caísse nas mãos das classes sociais mais baixas. Tais eram as coisas inimagináveis contidas no Salão, coisas que não deviam ser liberadas para o mundo. E apenas dois indivíduos específicos tinham permissão para abri-lo.

— Por gerações, o rei e o príncipe herdeiro foram encarregados das chaves... — disse Abel, lembrando-se da informação que aprendera uma vez no castelo real.

— Exatamente. E Sua Majestade renunciou ao seu direito de abrir o Salão dos Campeões.

Nesse ponto, o príncipe herdeiro se levantou, pegou uma jarra de água em uma mesa próxima e serviu-se de um copo. Ele tomou um gole.

— Se uma das duas pessoas com a chave a abandona ou morre, a outra saberá. Então, eu fiquei ciente do que aconteceu, mas... não sei por que Sua Majestade fez tal coisa. Embora eu possa ter um palpite.

— O que você quer dizer? — Abel perguntou ao seu irmão mais velho.

— Nestes últimos dois anos... não sei como descrever, mas... é como se nosso pai tivesse perdido seu espírito, seu ímpeto... Ele está frequentemente... atordoado? É como ele me parece... No entanto, também há momentos em que ele volta a ser seu antigo eu, animado. Em resumo, ele está muito instável.

— Isso não pode ser... Ele está doente? Isso explicaria?

Essa foi a primeira possibilidade que Abel pensou ao ouvir a explicação do príncipe herdeiro.

— É possível. Mas também há outra possibilidade.

— Como qual?

— Veneno ou magia controlando sua mente.

Os olhos de Abel se arregalaram de choque então.

— Não seja ridículo! Todos nós da família real nunca tiramos nossos colares da tranquilidade. Isso também deveria ser verdade para Sua Majestade. Esses colares são projetados especificamente para proteger contra todos os venenos e magias de controle mental conhecidos pelo homem. Seria absurdo ele estar sob a influência de um desses enquanto o usa...

— Sim, tudo isso seria verdade se ele estivesse usando um colar verdadeiro. — Em contraste direto com a agitação de Abel, o príncipe herdeiro falou calmamente. — Dito isso, ao contrário de nós, Sua Majestade tem que participar de todo tipo de cerimônias, algumas das quais ele deve realizar sem usar roupa alguma.

— Ah...

Foi fácil para Abel imaginar a cena como seu irmão apontou. O pai deles definitivamente tirava o colar durante cerimônias como essa. Então, se alguém o trocou por um falso...

— Essa possibilidade nunca me ocorreu...

— Para ser claro, ainda é apenas uma possibilidade. Porque ainda há uma chance de ele estar simplesmente doente. Mesmo que o sumo sacerdote do templo central tenha visitado o Pai várias vezes para lançar Cura.

O feitiço Curar sarava feridas e Cura sarava venenos e doenças.

— O mesmo que o Pai conhece há anos...?

— Sim. Ele visita apesar de sua agenda lotada. Embora haja melhora em seu estado após o uso de Cura pelo sumo sacerdote, ele regride em questão de dias. Como Cura não é nem de perto tão poderoso quanto Curar, é difícil determinar se é veneno ou doença que está em ação... — observou o príncipe com uma carranca.

Se for veneno, então alguém próximo a Sua Majestade é o responsável...?

Com esse pensamento, Abel olhou para o príncipe herdeiro. Seu irmão mais velho inclinou a cabeça um pouco. Claro, o príncipe herdeiro já havia considerado isso e agido.

— De qualquer forma, ele evidentemente entregou sua chave durante um de seus períodos mais animados. — O príncipe herdeiro tomou outro gole de água. — É por isso que eu te chamei aqui, Albert. Eu sou o único no momento com uma chave para o Salão. E é por isso que vou te registrar como o segundo portador.

Eu...?

— Sim. Sua Majestade entregou a sua quando estava lúcido. É impossível de outra forma entregar uma chave e registrar outro portador. Eu não entendo muito bem o mecanismo por trás disso, mas a alquimia aparentemente é obra do Rei Ricardo. E uma vez que uma chave foi renunciada, o mesmo portador não pode ser registrado novamente. Isso faz de você a única escolha lógica, já que você é o segundo na linha de sucessão ao trono, Albert. Não temos um momento a perder. — Então o príncipe herdeiro deu de ombros e continuou brincando. — Com meu corpo sendo o que é, quem sabe quando vou me livrar deste corpo mortal, hein?

— Irmão, nem brinque com isso, está me ouvindo?! — Abel ergueu a voz, seu rosto contorcido em uma carranca de raiva.

— Perdoe-me, perdoe-me — disse o príncipe herdeiro, ignorando a raiva de seu irmão mais novo. Então sua expressão tornou-se um pouco grave novamente enquanto continuava. — Outra coisa que eu queria discutir... Não será imediatamente, mas... você pode ter que voltar para casa mais cedo do que o planejado.

— Eu... entendo. — Abel deu ao príncipe herdeiro um leve aceno. Ele suspeitava que este tópico poderia surgir depois de receber a convocação de seu irmão.

— Você já alcançou seu objetivo original de se tornar um aventureiro famoso. Afinal, não há muitos na nação que não conhecem o nome de Abel, o aventureiro de Rank B de Lune, hein?

O príncipe herdeiro riu baixinho enquanto as bochechas de Abel coravam um pouco.

— Desde o reinado do Rei Ricardo, o Reino tem sido um país de aventureiros. Eles são uma força de combate poderosa para nossa defesa nacional. Nesse caso, como alguém que um dia liderará nosso exército, devo aprender como um aventureiro pensa. E é por isso que desejo que você retorne à família real, porque você tem a experiência necessária como aventureiro. Quando o fizer, estou confiante de que os aventureiros do Reino se dedicarão ainda mais apaixonadamente pelo bem de nosso país e de seu povo... Uma vez, você me disse exatamente isso, Albert, e eu acreditei em você. Como eu poderia não acreditar, quando meu irmão mais novo é um prodígio? — Radiante, o príncipe herdeiro recordou de memória as palavras que o segundo príncipe havia declarado em sua juventude.

— Irmão, por favor, pare de me provocar... — E o dito segundo príncipe corou furiosamente ao tê-las repetidas para ele.

— Mas eu não estou. Eu realmente acredito na sua visão. — O príncipe herdeiro olhou para Abel gentilmente. — Eu cuidarei do lado político das coisas e você cuidará do militar... Esse era o nosso sonho, não era?

— Sim. Sim, era...

Por um tempo, um silêncio confortável se estendeu entre os dois irmãos. Talvez cada um estivesse pensando em suas memórias do passado.

O príncipe herdeiro quebrou o silêncio primeiro.

— Bem, aí estão todos os detalhes sórdidos. Neste momento, preciso que você venha comigo ao Salão dos Campeões para que eu possa registrá-lo como o segundo guardião da chave.

— Você tem certeza absoluta? No momento, tecnicamente não faço parte da família real. Não acha que Harold seria uma escolha melhor?

Harold era o filho do príncipe herdeiro.

— Ele tem apenas doze anos. Muito jovem para um fardo tão grande. Uma vez que você volte para casa, será reintegrado à linha de sucessão, Albert. Depois de mim e de você, ele será o terceiro na linha de sucessão ao trono. Exceto que ele ainda é apenas uma criança. Logicamente, seria melhor registrá-lo depois de você, caso algo aconteça a um de nós.

Abel respondeu após uma breve e pensativa pausa. — Eu entendo. — Ele faria o que seu irmão mais velho lhe pedira. No entanto, algo o incomodava. — Eu estou bem com você me registrando como o segundo guardião, Irmão, mas estou preocupado com sua saúde...

— Hoje é na verdade um dia relativamente bom. Contanto que você me dê seu ombro, consigo me esgueirar para o Salão dos Campeões e voltar sem que ninguém perceba.

Nesse ponto, o príncipe herdeiro pegou duas vestes e entregou uma a Abel.

— Isto é conhecido como uma ‘veste de recluso’. Foi criada no Centro Real de Alquimia, permitindo que o usuário passe despercebido, não importa o quanto de barulho faça. Desnecessário dizer que seu uso indevido é estritamente proibido, hein?

Então os dois irmãos saíram silenciosamente do quarto.

Depois que terminaram o que precisavam fazer, Abel entrou no caminho subterrâneo pelo mesmo conjunto de portas escondidas e caminhou os três quilômetros de volta para a igreja na aldeia, vindo da capital real de Palácio de Cristal. Quando ele entrou no refeitório da igreja, viu os outros três membros da Espada Carmesim jantando.

— Bem-vindo de vooolta, Abel — disse Lynn, a maga do ar.

— Obrigado — respondeu ele.

— Eles gentilmente prepararam um prato para você também, Abel — disse Rihya, a sacerdotisa, enquanto gesticulava para uma cadeira vazia.

Ele se sentou e começou a comer em silêncio. Os outros três continuaram comendo sem dizer uma palavra também. Ele finalmente falou quando terminou seu prato.

— Vou para a capital amanhã. Há algo que preciso verificar.

— Oh? Você vai passar na guilda? — Rihya perguntou.

— Não. Vou fazer as coisas sem envolvê-los por um tempo — respondeu Abel com um aceno de cabeça.

— Mas todas as pousadas e hotéis da capital têm verificações de antecedentes rigorosas. O que você planeja fazer sobre isso? — perguntou Lyn.

Ela falava apenas a verdade. Os hóspedes não podiam reservar acomodações sem apresentar prova de identidade, e os guardas verificavam frequentemente as listas de hóspedes aprovados. No caso de Abel e seu grupo, seus cartões de guilda serviam como identificação. No entanto, se ele o usasse ao reservar um quarto em uma pousada, a pousada entraria em contato com a guilda para fazer uma verificação de referência. Em outras palavras, havia uma grande chance de que a guilda descobrisse de qualquer maneira que o grupo de Rank B Espada Carmesim estava na capital real.

— Não se preocupe com isso. Eu tenho uma ideia — disse Abel com um sorriso.

Lyn teve um mau pressentimento ao ver seu sorriso perturbador...

Os quatro membros da Espada Carmesim entraram na capital real sem incidentes e chegaram ao seu destino.

— Eu sabia... — Com essas palavras, Lyn caiu de joelhos.

Este era o Instituto Real de Pesquisa Mágica, também conhecido informalmente como a Propriedade de Hilarion. Como o mago chefe real do Reino de Knightley, Hilarion Baraha também era responsável pelo Instituto. Tanto os hóspedes quanto a equipe podiam pernoctar na instalação de pesquisa, já que era equipada com inúmeras áreas de alojamento internas.

A raça de pessoas conhecidas como pesquisadores se dedicava tão intensamente ao seu trabalho que muitas vezes relutavam em ir para casa... Mas essa mentalidade era como você se tornava um estudioso de primeira linha. E para essas pessoas, um lugar que combinava laboratório e dormitório era nada menos que o paraíso.

No entanto, o mesmo não podia ser dito para Lyn, a maga do ar da Espada Carmesim. Ela já havia auxiliado Hilarion em suas pesquisas e conduzido as suas próprias aqui. Seu tempo no Instituto tinha sido desafiador, para dizer o mínimo, o que provavelmente explicava por que ela considerava o Instituto um dos lugares mais deprimentes de sua vida.

O Instituto era equipado com prédios para pesquisa e experimentos, bem como outras instalações externas e internas para a realização de experimentos. Ocupava uma vasta área, apesar de estar localizado dentro da capital real.

Os quatro se dirigiram ao último andar do prédio de pesquisa... o laboratório de Hilarion Baraha, a origem do apelido do Instituto. Quando chegaram em frente ao laboratório, Abel abriu a porta sem sequer se dar ao trabalho de bater.

— Velho, você está aí?

Uma saudação tão casual definia a relação entre Abel e Hilarion.

— Conheço essa voz. Abel, é você? Sente-se em qualquer lugar por ali.

Por algum motivo, a voz vinha do outro lado da mesa do escritório... embora não houvesse ninguém lá. Ignorando a instrução, Abel olhou para onde a voz se originava. Lá, ele viu a cadeira de Hilarion do outro lado da mesa e... uma caixa de madeira, do tamanho aproximado da cabeça de um adulto, com cantos ligeiramente arredondados, apoiada no assento.

A voz vinha de dentro da caixa. Quando Abel estendeu a mão para pegá-la, a porta de conexão com a sala adjacente se abriu e um homem idoso apareceu.

— Eu te disse para sentar, não disse?

Abel se encolheu e puxou a mão de volta imediatamente. Naturalmente, os outros três já haviam se sentado obedientemente como lhes fora dito desde o início.

— Francamente, garoto. Se eu não soubesse, diria que você nunca cresceu.

Balançando a cabeça, Hilarion Baraha sentou-se em um dos sofás da sala.

— Quer dizer, tecnicamente, eu cresci...

— Bah, como se alguém fosse acreditar em você.

Então Hilarion tocou a sineta de mesa duas vezes. Exatamente dez segundos depois, uma batida soou na porta e uma jovem mulher entrou.

— Em que posso ajudar, Chefe?

— Temos visitas. Sirva-nos cinco xícaras de chá... Não, café, por favor.

— Imediatamente, Senhor. — A mulher fez uma reverência e saiu.

Abel olhou para Hilarion com interesse. — Entããão, acho que o Instituto está servindo café agora também, hein?

— Você acabou de conhecer Sura e ela vem do sul. O café que ela faz é delicioso — respondeu Hilarion com um aceno de cabeça.

Sura voltou com cinco xícaras de café e as colocou na frente deles antes de sair novamente. Hilarion colocou uma caixa do tamanho da palma da mão em cima da mesa de centro e apertou o que parecia ser um interruptor.

— É uma caixa alquímica projetada para evitar escutas. Finalmente recebemos nosso próprio suprimento delas.

— Uau. Os desenvolvimentos em alquimia são realmente notáveis... Um amigo meu é obcecado por alquimia, sabe. Eu me pergunto se ele conseguirá fazer algo assim um dia. — Abel parecia impressionado enquanto olhava para o dispositivo anti-escuta.

— Albert, você tem um amigo? Bem, estou chocado. Acho que você realmente cresceu, hein? Ah, lembro-me de Arthur mencionar um mago da água. É dele que você está falando?

Por Arthur, ele provavelmente se referia a Arthur Berasus, conselheiro especial no Departamento de Magos Reais. Ele havia visitado a cidade de Lune para investigar a Grande Maré e escapara por pouco da morte na masmorra, ao lado de Abel e seu grupo.

— Espere, você sabe sobre ele também, velho? Bem, você sabia que ele também salvou minha vida?

— Hm... Lyn, seus olhos me dizem que você tem pensamentos sobre este mago da água. O nome dele é Ryo, certo? Diga-me, ele é poderoso?

— Por que diabos você está perguntando a ela e não a mim...? — protestou Abel.

— Porque você não sabe o que faz um bom mago; é por isso. Lyn, por outro lado, sabe. — A afirmação direta de Hilarion fez Abel inflar as bochechas de irritação. Ao lado dele, Rihya riu baixinho da cena.

— Mestre, Ryo é basicamente um monstro quando se trata de magia — declarou Lyn em resposta à pergunta de Hilarion.

O homem idoso franziu a testa ligeiramente. — Para você chamar alguém de monstro é um assunto sério... Agora, diga-me em detalhes o que você quer dizer com isso.

— Ele usa muitos feitiços originais. Não sei como ele faz isso, no entanto.

Abel assentiu vigorosamente em concordância enquanto ouvia o relatório de Lyn. E por alguma razão... seus braços estavam cruzados orgulhosamente, como se ele tivesse algo a ver com as habilidades de Ryo.

— Hm... Arthur também me disse o mesmo, mas... ele realmente é um jovem fascinante, hein? Adoraria conhecê-lo e conversar com ele.

Ao ouvir essas palavras, Abel olhou para Hilarion surpreso. — Velho, certifique-se de se ater apenas à conversa se algum dia o encontrar, ok? Nunca o irrite.

— O que aconteceria se eu o irritasse?

— Ele congelará uma aldeia ou até uma cidade inteira como se não fosse nada... — Abel nunca tinha testemunhado a cena pessoalmente, mas acabou soltando a primeira coisa que lhe veio à mente... Se ao menos ele soubesse que exatamente o que ele descreveu tinha de fato acontecido no leste do Reino.

— Oooh, um mago da água que pode congelar uma cidade inteira, hein? Aposto que seria um espetáculo digno de se ver — disse Hilarion enquanto saboreava sua xícara de café.

— Você não está levando meu aviso a sério, está? — observou Abel, sua expressão exasperada enquanto olhava para o velho.

— Não se exalte, garoto. Eu acredito em você. Parece exatamente uma daquelas histórias sobre o Mago do Inferno. Como era mesmo? Ele supostamente incendiou cidades inteiras?

— Falando nisso, tenho quase certeza de que vi esse feitiço. Acho que ele o chamou de ‘A Queda do Céu e da Terra’.

Os olhos de Hilarion se arregalaram. Foi a primeira vez que o chefe do Instituto pareceu verdadeiramente espantado desde que a pequena reunião começou.

— Albert, não, Abel, por que você sabe o nome desse feitiço? — Hilarion praticamente se lançou sobre Abel. Não havia nada de comum no vigor ou na intensidade de sua resposta.

Como pesquisador de magia, ainda havia muito que Hilarion ainda não tinha visto com seus próprios olhos sobre magia... Então não era de se espantar que a notícia inesperada despertasse sua excitação. Não menos porque um de seus próprios pupilos diante de seus olhos possuía os dados até então desconhecidos!

Não seria um eufemismo dizer que Hilarion dedicou sua vida inteira ao estudo da magia. Seu zelo era tal que ele poderia até ter dissecado Abel apenas para extrair a informação... Pelo menos, talvez fosse assim que o jovem em questão se sentia.

— Bem, uhm, nós meio que o encontramos em Whitnash. O Mago do Inferno estava enfurecido e usou esse feitiço para fazer chover inúmeras chamas do céu. Naquela época, seu alvo era muito menor, mas era óbvio para mim que a magia é originalmente destrutiva e destinada a ser usada em uma área muito mais ampla, então imaginei que poderia transformar uma cidade em cinzas... — respondeu Abel enquanto se lembrava do incidente em Whitnash.

— Ah, você está falando sobre o ataque surpresa, então. Ouvi falar do príncipe e da princesa imperiais presentes, mas não fazia ideia de que o infame Mago do Inferno também estava lá. Mas que inferno, garoto, não acredito que você sobreviveu a um ataque desses de perto.

— Sim, porque foi o Ryo que contra-atacou A Queda do Céu e da Terra — disse Abel baixinho.

— O que você disse...? — Atordoado, Hilarion ficou sem palavras.

E então...

— Já chega. Vou para Lune agora mesmo. Vejo vocês quando nos virmos.

Hilarion se levantou, pronto para sair. Abel e os outros correram para detê-lo.

— Ei, ei, ei, acalme-se, velho. Em primeiro lugar, Ryo nem está em Lune agora.

— O quê? Então onde diabos ele está?

— Antes de virmos para cá, estávamos em Redpost, onde ele por acaso também estava. Mas ele e o grupo com quem viajava estavam indo para o Principado de Inverey a trabalho, então... mesmo que tudo corresse bem, não há como ele já estar de volta a Lune.

— Não. Isso não pode ser... — Hilarion caiu no chão de mãos e joelhos na pose clássica de desespero.

— Ééé, eu nunca vou entender a espécie conhecida como pesquisadores...

Hilarion não ouviu o murmúrio de Abel.

Depois de algum tempo, Hilarion finalmente se levantou. Então ele se sentou no sofá novamente, parecendo completamente calmo e recuperado do choque.

— Sabe, acabei de perceber que não perguntei a vocês, jovens, por que estão aqui, em primeiro lugar.

— Uau, você realmente vai agir como se nada tivesse acontecido, hein... E você nos pergunta agora? — Abel respondeu, exasperado, antes de continuar. — Bem, vamos apenas dizer que coisas estão acontecendo no palácio e eu queria investigar algumas delas em segredo. É por isso que quero que nos deixe usar este lugar como nossa pousada enquanto estivermos aqui.

— Hm... Claro, não me importo. Além disso, temos muitos quartos vagos. Quanto às ‘coisas acontecendo no palácio’... estou supondo que você se refere à mudança repentina de comportamento de Sua Majestade?

— Sim... Você também notou, hein, velho? — Sem se surpreender, Abel confirmou a suspeita de Hilarion.

— Claro que notei. Eu sou tecnicamente o mago chefe real e isso me leva ao palácio com bastante frequência. No entanto, seu pai e eu não tivemos nossas conversas a sós como costumávamos ter. — Hilarion parecia um pouco triste.

Ao contrário de Abel, o atual rei de Knightley, Stafford IV, não só podia usar magia, como também possuía um poço profundo de conhecimento sobre o assunto, então ele e Hilarion sempre se envolveram em discussões animadas sobre o tema por décadas. A ascensão de ambos nos escalões políticos significou que seus debates noturnos diminuíram. Mesmo assim, eles conversavam regularmente tomando chá.

Infelizmente, essas reuniões casuais também desapareceram nos últimos dois anos.

— Ei, velho, tenho uma pergunta para você. Quem se tornou a pessoa mais poderosa na capital nos últimos três anos ou mais?

Suspeite de quem se beneficia. A verdade fundamental do mundo.

— Hm... uma boa pergunta de fato, garoto... De cabeça, posso pensar no Comandante dos Cavaleiros Baccala, no Grande Chamberlain Sorel e no Ministro das Finanças Fuca.

— Interessante...

Abel também conhecia os três indivíduos. Oito anos atrás, quando Abel ainda vivia no palácio real, eles já trabalhavam como funcionários públicos. Exceto que, em comparação com agora, suas posições na época eram baixas...

— Bem, obrigado pela informação.

— Não faça nenhuma loucura agora, ouviu?

Então Hilarion bebeu o resto de seu café.

Palácio de Cristal, a capital do Reino de Knightley. Originalmente, o nome do próprio palácio real era Palácio de Cristal, mas em algum momento, tornou-se o nome da própria capital, transformando o palácio real em simplesmente “o palácio real” ou apenas “o palácio.”

No Reino, as janelas das mansões dos vários lordes eram equipadas com vidro plano. No entanto, o castelo real, fiel ao seu nome, tinha finos cristais embutidos em suas janelas, fazendo sua fachada brilhar. Como o palácio central de uma grande nação, era ricamente decorado com cristais, seu interior mantido sempre iluminado por ferramentas alquímicas. Era até popular entre embaixadores visitantes, bem como aqueles residentes no país.

O quartel-general da Ordem Real dos Cavaleiros estava localizado em uma seção dos terrenos do castelo. Atualmente, um total de quinhentos cavaleiros pertencia à Ordem Real. Duzentos deles estavam estacionados no quartel-general, enquanto o resto estava em filiais espalhadas pela capital real ou trabalhando em centros de treinamento.

Nas Províncias Centrais, ser cavaleiro era uma profissão e não um membro da nobreza. Duque, marquês, conde, visconde e barão — estes eram os cinco postos da aristocracia. Embora alguns países tivessem a posição de baronete, logo abaixo de barão, era limitada a uma geração e, portanto, não considerada estritamente nobreza.

Dito isso, a maioria dos cavaleiros da Ordem Real eram de sangue nobre que não eram chefes ou herdeiros de suas casas. Tipicamente, eram terceiros filhos ou além. No entanto, uma hierarquia ainda existia entre essas pessoas dependendo de sua posição exata, o que resultava em clara discriminação. Em resumo, até mesmo aristocratas vinham em todas as formas e tamanhos.

O comandante dos cavaleiros da Ordem Real era Baccala Tow, o atual Conde de Ware. Ele tinha um físico imponente e empunhava uma espada poderosa, como se poderia imaginar dado seu tamanho. Ele era originalmente o segundo na linha de sucessão, mas depois que seu pai e irmão morreram na Grande Guerra dez anos atrás, o título de conde veio para ele. A partir daí, ele usou a fortuna que herdou para enviar todo tipo de suborno para todo tipo de indivíduo... Depois de muitas reviravoltas, e uma pitada de sorte, ele conseguiu se tornar o comandante dos cavaleiros.

Claro, mesmo que ele tenha obtido a posição através de suborno desenfreado, ele era originalmente um espadachim habilidoso e um dos melhores cavaleiros do Reino. Por trás de suas costas, as pessoas questionavam se suas habilidades haviam diminuído desde que se tornou comandante. No entanto, hoje ele estava praticando sua esgrima em um canto do quartel-general.

O ajudante do Comandante Baccala correu até ele. — Comandante — disse o ajudante —, o Conde Peergynt está aqui para vê-lo.

— Hm? Tínhamos um compromisso?

— Não, ele não está em sua agenda para o dia.

— Entendo. Já vou, então. Sirva-lhe um copo do nosso melhor destilado enquanto ele espera.

Depois de enxugar o suor, Baccala foi ao encontro de seu convidado.

— Espero que não tenha esperado muito, Conde Peergynt.

Essas foram as primeiras palavras de Baccala quando ele entrou na sala de visitas.

— Oh, não, de forma alguma, Lorde Comandante. Eu sou quem está te importunando de repente. Por favor, não se preocupe com isso.

O Conde Peergynt tinha feito muitas coisas desprezíveis para ganhar sua terrível reputação entre a realeza e a nobreza na corte. Ao mesmo tempo, ele era bem conhecido como alguém que podia resolver a maioria dos problemas, contanto que você lhe pagasse o suficiente. Um personagem como ele era valorizado por alguns poucos em qualquer período de tempo e sociedade. O que significava que também havia outros que o desprezavam como uma cobra na grama.

Não é preciso dizer que Peergynt tinha sido fundamental para ajudar Baccala a alcançar sua posição atual.

— Então... A que devo o prazer de sua visita hoje? — perguntou Baccala depois que seu ajudante serviu seu chá e saiu da sala.

— Veja bem, eu tenho um favor a lhe pedir, Lorde Comandante. — O Conde Peergynt então colocou uma bolsa recheada com algo na beirada da mesa antes de continuar. O conteúdo tilintou quando ele o fez. A maioria das pessoas sem dúvida perceberia que havia dinheiro dentro. — A verdade é que o terceiro filho do Barão Washer está procurando emprego, então ele me consultou sobre a possibilidade do garoto se juntar à Ordem Real dos Cavaleiros.

— Hm.

— O que me diz, Lorde Comandante? Não usaria seu poder para o bem maior?

— Bem, isso pode ser um pouco complicado, já que a Ordem atingiu sua cota.

À resposta do Comandante Baccala, o Conde Peergynt pegou uma segunda bolsa semelhante à primeira e a colocou na beirada da mesa.

— Eu entendo completamente e sou profundamente solidário. Por favor, não há nada que você possa fazer...

— Você diz isso, mas francamente, minhas mãos estão atadas.

Então o Conde Peergynt pegou uma terceira bolsa semelhante às duas anteriores e a colocou na beirada da mesa também. Todas as três estavam alinhadas ordenadamente. O Comandante Baccala lançou-lhes um breve olhar.

— Bem, já que é você quem está pedindo, Lorde Cortesia, suponho que posso arranjar algo — disse o comandante dos cavaleiros com um aceno de cabeça.

— Oh ho, você nunca decepciona, Lorde Comandante. Meus mais sinceros agradecimentos.

E com isso, o Conde Peergynt se levantou rapidamente, sua atitude dizendo que não desejava se demorar. Depois de apertar a mão de Baccala, ele saiu da sala. Nenhum dos homens aludiu às bolsas na mesa o tempo todo.

Assim que se certificou de que Peergynt havia partido, Baccala pegou as três bolsas e as jogou descuidadamente em uma caixa próxima na sala contígua. A caixa, situada em um canto da sala, era grande o suficiente para conter uma pessoa. Outras bolsas semelhantes ocupavam cerca de setenta por cento do espaço interno. Para surpresa de ninguém, eram todos os subornos que ele havia recebido até então.

Desde que se tornou o comandante dos cavaleiros, a posição de Baccala mudou esplendidamente de quem dava subornos para quem os recebia. De que lado da equação você estava? A resposta poderia ser um indicador de seu status no atual Reino de Knightley.

Houve um tempo em que se tornar um cavaleiro da Ordem Real era a aspiração profissional mais popular entre os homens do Reino. De fato, durante o tempo do comandante dos cavaleiros anterior, Alexis Heinlein, os cavaleiros reais eram temidos por sua audácia. No entanto, embora apenas dez anos tivessem se passado desde a aposentadoria do antigo comandante, o núcleo da organização já estava apodrecendo...

Em linha reta, a cerca de cem metros do quartel-general da Ordem Real, ficava o centro do palácio real, onde se localizava o escritório do Rei Stafford IV. A duas salas dali ficava a sala onde o Grande Chamberlain Sorel esperava.

Ele tinha cinquenta e cinco anos este ano, um homem calvo que estava começando a engordar. Segundo os boatos da corte, o rei confiava profundamente nele. Era trabalho do grande chamberlain supervisionar os deveres oficiais do rei.

Se um rei estivesse em sã consciência, era altamente improvável que o grande chamberlain tivesse muito poder. No entanto, ao longo da história da Terra, como a posição colocava o indivíduo tão perto da pessoa mais poderosa de um país, muitas vezes houve casos em que um grande chamberlain erroneamente ganhou poder... E assim o atual Reino de Knightley estava indo na direção errada.

Hoje também, o Grande Chamberlain Sorel tinha uma montanha de subornos esperando por ele. Se alguém ousasse incorrer em sua ira, isso causaria todo tipo de problemas, desde não conseguir uma audiência com o rei até não ter seus documentos aprovados. Sorel os assediaria deixando de fora papéis ou se recusando a deixar o rei assiná-los. Mas se um pequeno presente pudesse abrir caminho, certamente muitos escolheriam essa opção.

— Não consegui fazer isso por causa da ira do Grande Chamberlain.

Qualquer um zombaria de tal desculpa.

No entanto, havia alguém a quem nem mesmo o Grande Chamberlain Sorel se comparava — o Ministro das Finanças, Fuca. No Reino, supervisionar o Ministério das Finanças era sinônimo de deter o poder de arrecadar impostos. O imposto era cobrado sobre a renda, mas Sorel, é claro, estava sonegando impostos. Como ele poderia declarar o dinheiro obtido através de suborno?

E o Ministro Fuca estava ciente disso. Ele sabia, mas fazia vista grossa. Isso era humilhante para Sorel. Mesmo assim, ele tentava não pensar nisso. Pensar nisso o irritava, mas enquanto não o fizesse, ele poderia simplesmente pensar nisso como algo que não lhe dizia respeito... Foi assim que ele se conformou com a situação. Já que nem sempre se pode ter o que se quer, alguns sacrifícios tinham que ser feitos. O Grande Chamberlain Sorel já havia experimentado essa necessidade mais do que o suficiente em sua vida.

Diante dele estava o dito Ministro das Finanças. Atrás dele estava o Ministro dos Assuntos Internos, o Conde Harold Lawrence. Fuca trouxera o outro homem consigo nesta visita.

— Grande Chamberlain. Há algo sobre o qual devo informar Sua Majestade o mais rápido possível. Poderia me ser concedida uma audiência com ele agora?

Embora Fuca tenha feito isso como uma pergunta, era, naturalmente, uma ordem destinada a forçar a reunião com o rei. Sorel não teve escolha a não ser obedecer.

— Claro, Vossas Excelências. Por favor, sigam-me.

Sorel levantou-se primeiro e bateu na porta do escritório do rei.

— Vossa Majestade, os Condes Fuca e Lawrence estão aqui para solicitar sua permissão em um assunto urgente.

— Deixe-os entrar.

Sorel fez exatamente isso. Seu trabalho terminava aqui. Ele precisava se retirar da sala rapidamente. Fuca era especialmente rigoroso em tais questões de formalidade. Mesmo assim, Sorel ouviu as vozes atrás de si enquanto se afastava.

— Vossa Majestade, veio à luz que precisaremos de mais fundos do que o esperado para reparar a Ponte Lowe que desabou. Como tal, gostaríamos de alocar temporariamente alguns dos fundos de desenvolvimento de Vedra para o reparo da ponte...

Isso foi tudo o que Sorel ouviu antes de fechar a porta atrás de si.

— Vedra? O que diabos é isso? Nunca ouvi falar...

Ser o grande chamberlain significava que ele era responsável pelos deveres oficiais do rei. Mas isso era algo totalmente desconhecido para ele, uma circunstância incomum quando se tratava de saber o que acontecia dentro das paredes deste castelo... Isso o deixou muito curioso.

No entanto, Sorel optou por selar sua curiosidade. Havia muitas coisas neste mundo que era melhor ele não saber. Isso era especialmente verdade no mundo da nobreza. E ainda mais no castelo real, onde, em alguns casos, saber certas coisas poderia colocar sua vida em perigo.

Sim, melhor não saber sobre coisas como “Vedra.”

— Nossas perspectivas melhoraram muito graças a você, Conde Lawrence. Você tem minha gratidão.

— De forma alguma. Isso também é pelo bem do Reino. Tudo depende da circulação doméstica de mercadorias. Portanto, a restauração da Ponte Lowe é nossa maior prioridade. Admiro Vossa Excelência também por seu trabalho árduo em garantir os fundos.

Depois de sair do escritório do rei, o Ministro das Finanças Fuca e o Ministro dos Assuntos Internos Harold Lawrence estavam passeando pelos terrenos do castelo.

— Você fez jus à sua reputação por sua aguçada perspicácia, Conde Lawrence. Os outros ministros poderiam aprender uma ou duas coisas com você.

Fuca estava farto das constantes negociações que tinha que conduzir com os outros ministros, que relutavam em ter seus orçamentos cortados.

— É, claro, vital que desenvolvamos Vedra o mais rápido possível, considerando sua importância para a defesa nacional. No entanto, a governança pacífica do Reino, incluindo a vida de seu povo, depende da restauração do comércio ao normal. Como o encarregado do Ministério dos Assuntos Internos que supervisiona o desenvolvimento de Vedra, você entende esse fato melhor do que ninguém e eu admiro isso em você.

Fuca estava de bom humor, já que era quase garantido que eles haviam garantido os fundos adicionais para reparar a Ponte Lowe.

— Você me lisonjeia, Vossa Excelência — disse Harold Lawrence com uma leve inclinação de cabeça.

Comparado ao Ministro das Finanças Fuca, que já estava na casa dos cinquenta, o Ministro dos Assuntos Internos tinha apenas trinta e cinco anos. Embora a diferença de idade não fosse exatamente no nível de pai e filho, ainda era considerável. Havia também o poder do Ministério das Finanças a ser considerado, já que tinha a autoridade para alocar orçamentos para cada ministério e arrecadar impostos no país. Isso se refletia na diferença de status entre o Ministro das Finanças e o Ministro do Interior.

Claro, o Ministério dos Assuntos Internos, responsável pela segurança e defesa interna, não era de forma alguma um ministério pequeno. De fato, em termos do número de pessoas que empregava, poderia até ser considerado um dos maiores ministérios, pois também era responsável pelo desenvolvimento da guarda nacional e das armas de defesa. O fato de Harold Lawrence estar no comando deste ministério em seus meados dos trinta anos era um testemunho de sua tremenda habilidade, um ponto em que todos concordavam.

— Ah, que bom, fico feliz em encontrá-lo, Vossa Excelência. Temos um problema em relação ao assunto no leste.

— De novo?!

Com a explicação de seu subordinado, o humor jovial de Fuca desapareceu enquanto uma carranca marcava seu rosto.

— Minhas desculpas, Conde Lawrence. O dever chama. Até nosso próximo encontro.

Com essas palavras, Fuca dirigiu-se ao seu próprio, praticamente trotando enquanto ouvia o relatório de seu subordinado.

Harold Lawrence o observou sub-repticiamente, um canto de sua boca se erguendo quase imperceptivelmente. Então ele começou a caminhar em direção ao seu próprio escritório.

Abel passou alguns dias reunindo informações.

— Corações tão negros quanto carvão, hein... — ele murmurou baixinho.

Rihya e Lyn, que estavam conversando uma com a outra ao lado dele, pararam e o encararam com expectativa.

— O Comandante dos Cavaleiros Baccala e o Grande Chamberlain Sorel são completamente corruptos, cada centímetro deles manchado de escuridão. Ainda não sei se o Ministro das Finanças Fuca está diretamente envolvido, mas ele parece estar tolerando tacitamente as irregularidades de ambos. — Depois de dizer isso à dupla, Abel refletiu sobre as informações que havia reunido.

Claro, eles são corruptos, mas... não acho que tenham chegado ao ponto de cometer alta traição contra o rei.

Era o que ele sentia.

— Apenas cinco dias se passaram e você já descobriu tudo isso? Muito bem — disse Lyn, impressionada, enquanto olhava para as páginas sobre a mesa.

— Tudo graças a alguns velhos conhecidos meus.

— A ordem dos cavaleiros tem uma forte presença nas imediações de Sua Majestade... o que faz sentido que seus velhos amigos ocupem tais postos. É também precisamente por isso que nenhum deles está no Ministério das Finanças, hm? — Rihya o provocou quando ele revelou a fonte de suas informações.

— Tenho uma pista sobre a possibilidade de o Ministro das Finanças estar ligado tanto ao Comandante dos Cavaleiros quanto ao Grande Chamberlain.

— Mas essa informação deve ter vindo de um desses dois, certo? — Rihya esmagou a resistência de Abel com um único toque.

— Ugggh... Bem, não é como se eu tivesse escolha... Não importa o quanto eu quebre a cabeça, não consigo pensar em ninguém bom o suficiente com números para se infiltrar no Ministério das Finanças...

— Sabe, Abel, por algum motivo, consigo imaginar como você e sua comitiva eram quando crianças... — Com os braços cruzados sobre o peito, Lyn assentiu repetidamente.

Mais alguns dias se passaram depois que Abel leu seu relatório em voz alta.

— Qual é o significado disso?! — A voz elevada veio do escritório de design do Centro Real de Alquimia, situado perto do portão leste da capital real.

— Diretor... — disse o subordinado do homem com uma expressão desapontada. Claro, o subordinado sabia que não estava sendo repreendido. Era apenas a raiva do diretor com o aviso irracional.

— O orçamento de desenvolvimento de Vedra foi temporariamente congelado... — disse o homem encarregado, recitando as palavras com os dentes cerrados.

— Sim, senhor... — Por sua vez, o subordinado assentiu, sua expressão ainda mais grave agora.

— Eles sequer entendem?! Vedra é nosso trunfo nesta guerra fútil com o Império, na qual estamos em desvantagem esmagadora! — Incapaz de suportar, o diretor gritou novamente.

— Diretor... — disse o subordinado, impotente.

— Em primeiro lugar, esta empresa está sob o controle direto de Sua Majestade Real!

— Até o ano passado, senhor, quando o controle foi transferido para o Ministro dos Assuntos Internos... — apontou o subordinado calmamente.

O diretor fez uma careta com o fato infelizmente verdadeiro. — Eu sei... eu sei, mas... — ele murmurou, ainda carrancudo. Então ele se levantou abruptamente. — Eu volto já. Vou ao Ministério dos Assuntos Internos!

E com isso, o diretor voou para fora do escritório de design.

— Vossa Excelência, o Barão Kenneth Hayward, Diretor do Centro Real de Alquimia, está buscando urgentemente uma audiência com você — anunciou um membro da equipe.

— Deixe-o entrar — respondeu Harold Lawrence, Ministro dos Assuntos Internos.

Kenneth falou no momento em que entrou no escritório.

— Vossa Excelência, sou Kenneth Hayward, Diretor do Centro Real de Alquimia e venho aqui hoje para discutir o congelamento temporário dos fundos de desenvolvimento do projeto Vedra.

— Barão Hayward, eu estava prestes a chamá-lo para explicar a situação. Por favor, sente-se naquele sofá. — Dizendo isso, Harold moveu-se para o sofá em frente ao de Kenneth e sentou-se.

— Vossa Excelência, o desenvolvimento de Vedra é a coisa mais importante que podemos fazer pela defesa de nosso país, bem como para resolver seus problemas mais urgentes. Permita-me ser franco: não temos chance contra o Império sem ele.

— Barão, embora eu concorde com você... sugiro que se abstenha de dizer tais coisas em voz alta. Particularmente dentro das muralhas deste castelo.

— Ah... — Até Kenneth percebeu que suas palavras implicavam a obsolescência direta da Ordem Real e do Departamento de Magos Reais.

— Eu entendo o que você quer dizer, Barão, e sinto o mesmo. No entanto, há aqueles no núcleo do poder político que não entendem isso. Seus fundos foram temporariamente desviados para a reconstrução da Ponte Lowe.

— A Ponte Lowe...

Kenneth também sabia do colapso da ponte e da consequente interrupção nas viagens e no comércio entre as partes sul e leste do Reino. Ele também sabia que os danos diretos e indiretos eram massivos o suficiente para exigir uma soma considerável em custos de reparo. Mesmo assim...

— Percebo que isso não muda o fato de que a defesa nacional é essencial. É um fator importante na razão pela qual o desenvolvimento de Vedra foi apressado em primeiro lugar. Infelizmente, estou impotente nesta situação particular, então peço que contenha sua decepção. — Depois de dizer o que tinha a dizer, Harold inclinou a cabeça.

Como membro da aristocracia, Kenneth entendeu a gravidade da ação do Conde Harold Lawrence. O outro homem o superava não apenas politicamente, mas também socialmente.

— Por favor, levante a cabeça, Vossa Excelência. Deixei minhas emoções correrem soltas e, por isso, peço sinceras desculpas.

— Obrigado, Barão. Talvez você entenda a posição difícil em que me encontro agora?

Quando Kenneth também inclinou a cabeça, Harold pegou as duas mãos dele com um sorriso.

— Vossa Excelência, se eu puder confirmar uma coisa... O orçamento inclui a compra de uma segunda unidade da pedra mágica que preciso, sim?

— Você se refere à pedra mágica de wyvern?

Kenneth assentiu em resposta à pergunta de Harold.

— Sim, inclui, e tenho o prazer de informar que de fato compramos com sucesso a segunda. No entanto, essa é a última. Ela chegará de Lune em menos de um mês.

Kenneth decidiu se contentar com a notícia da aquisição da segunda pedra. Agora ele tinha uma maneira de resolver o problema de baixa produção que o atormentava e sua equipe até agora.

— Entendido. Muito obrigado por me receber hoje. Vou me retirar agora — disse ele, e então saiu do escritório do Ministro das Finanças.

Harold Lawrence o observou se afastar com uma luz indescritível queimando em seus olhos.

— Ora, ora, se não é Kenneth em carne e osso. Há quanto tempo?! — uma voz chamou por trás de Kenneth logo depois que ele deixou o Ministério das Finanças.

— Zach. Para você é Barão Kenneth Hayward. B. A. R. Ã. O! Não somos como aqueles filhos segundos nojentos da nobreza que não podem herdar títulos, então tenha um pouco de modos pela primeira vez na sua maldita vida.

— Opa, quando você está certo, está certo, Scotty. Barão Kenneth Hayward, Lorde Fanfarrão, faz tempo demais desde nosso último encontro. — Então o homem chamado Zach fez-lhe uma reverência excruciantemente educada.

— Zach, seu cão atrevido, não pense que não sei que você está deliberadamente me irritando. Sem mencionar que você tem repetido a mesma piada velha e cansada no último ano... De qualquer forma, você sabe muito bem que sou apenas um arrivista que recebeu meu título depois de ter uma de minhas invenções reconhecida. — Balançando a cabeça, Kenneth se aproximou dos dois homens.

Zach Kuhler e Scotty Cobouc eram ambos filhos segundos de suas respectivas famílias aristocráticas e cavaleiros da Ordem Real. Os dois e Kenneth também eram parceiros de bebida há muitos anos, membros de uma organização não oficial chamada Aliança dos Filhos Segundos.

— Mas eu também quero ser um arrivista — resmungou Zach.

— Agradeça por estar recebendo um salário como cavaleiro — retrucou Scotty.

— De qualquer forma, é bem incomum ver você nos Assuntos Internos, Kenneth — comentou Zach ociosamente.

— Ah, espere, o Centro de Alquimia está sob a jurisdição deles agora, certo? — lembrou Scotty.

— Isso mesmo. Eu tinha uma queixa sobre o orçamento... — respondeu Kenneth com um suspiro.

— Pesquisadores seniores realmente têm uma vida difícil, hein? — Zach deu um tapa pesado no ombro de Kenneth e assentiu em vigorosa simpatia. Então ele falou novamente, como se de repente se lembrasse de algo. — O que me lembra: Kenneth, você sabia que Abel está na capital agora?

— Abel?

— Sim. O presidente da nossa Aliança dos Filhos Segundos — disse Zach, caindo na gargalhada.

— Agora que você mencionou, apesar de ser membro da Aliança, acho que nunca conheci o Presidente... — Kenneth inclinou a cabeça pensativamente enquanto vasculhava suas memórias.

— Isso é porque Abel trabalha em Lune, no sul. Você não o encontraria a menos que um trabalho ou algum outro negócio o trouxesse para a capital, como desta vez — respondeu Scotty à pergunta não dita de Kenneth.

No entanto, nenhum dos outros dois homens esperava a reação do alquimista.

Seus olhos se arregalaram. — Lune?! — ele praticamente gritou. — Você disse ‘Lune’?!

— Ahhh, agora me lembro. Você é originalmente de Lune, não é, Kenneth? — Scotty falou, lembrando-se do que ele lhes contara uma vez.

— Certo, está decidido! Nós quatro vamos beber esta noite! Entre você e Abel, tenho certeza de que vocês dois terão um monte de histórias sobre Lune. Além disso, você deveria conhecer o presidente da nossa Aliança pelo menos uma vez. — Zach decidiu a reunião sem a contribuição deles.

— Huh... — Kenneth, o alquimista, ficou sem palavras com a súbita reviravolta dos acontecimentos.

— Zach, seu idiota, você sabe que Abel é um homem ocupado — disse Scotty, o cavaleiro, expressando sua preocupação.

— Se ele não puder vir, então nós três beberemos a noite toda! — disse Zach, elaborando um plano B. — Kenneth, meu caro, apenas beba suas preocupações! — Zach riu com vontade.

Precisamente às sete da noite, Kenneth Hayward, alquimista e barão, chegou ao 'Deixe os Afogados se Afogarem em seus Copos', a taverna que a Aliança dos Filhos Segundos sempre frequentava. Apesar de seu nome incrivelmente único, o estabelecimento tinha muitos quartos privativos para acompanhar o álcool delicioso e a comida saborosa. Não é de se admirar que fosse popular entre um certo setor dos residentes da capital. Porque os quartos privativos eram vitais para fornecer espaço para as altas esferas da sociedade ou aqueles em profissões como a cavalaria — que precisavam manter o decoro o tempo todo — beberem em paz.

A proprietária habitual levantou quatro dedos em saudação, indicando o quarto privativo número quatro. Kenneth levantou a mão em agradecimento e caminhou até o local designado, então abriu a porta.

— Aha, ele chegou!

Zach Kuhler foi o primeiro a notá-lo. Quanto a Scotty Cobouc, sua reação foi um pouco atrasada, absorto como estava na leitura do menu.

— Vocês dois chegaram cedo, hein?

— Não, na verdade chegamos alguns minutos antes de você — respondeu Scotty, olhando para cima do menu.

Quando Kenneth se sentou, uma batida soou na porta quase simultaneamente.

— Seu quarto convidado chegou — disse a proprietária. Um momento depois, a porta se abriu e um homem entrou.

— Zach, Scotty, não é este o mesmo lugar que viemos há três dias?

Era Abel, o aventureiro de Rank B de Lune.

— Hoje é o primeiro encontro entre Abel, Presidente da Aliança dos Filhos Segundos, e o Barão Kenneth Hayward, um membro da dita Aliança que conquistou o título de barão com as próprias mãos e está se tornando um nome como um alquimista genial na capital real.

— Uau, um alquimista e um barão? Isso é incrível! — exclamou Abel, parecendo genuinamente impressionado.

— Zach, por favor — protestou Kenneth, envergonhado. — Não vamos exagerar...

— Ora essa, Kenneth. Você é o único membro da nossa aliança que atualmente é um nobre. Não seja tão tímido. — Por alguma razão, Zach disse isso com orgulho.

— O que significa... que os outros quatorze ainda não adquiriram títulos próprios, certo? — perguntou Abel, querendo confirmar os fatos.

— Sim, incluindo você, Abel — disse Zach afirmativamente.

Então os dois caíram na gargalhada.

— De qualquer forma, vamos beber, rapazes. Começaremos com cerveja. Tudo bem para todos? — sugeriu Zach.

— Não ale? — disse Abel com uma inclinação de cabeça curiosa.

— Heh heh heh. Abel, Abel, Abel. A moda na capital agora é começar com cerveja, depois passar para vinho, ale e o que mais vier — explicou Zach, seu dedo indicador direito levantado como um educador pomposo.

— Huh. Eu não fazia ideia...

As palavras de Zach fizeram Abel notar a passagem do tempo.

— Então. Vocês três se encontraram aqui há três dias também, certo? — inquiriu Kenneth, o alquimista.

— Acertou. Abel nos disse para entregarmos informações super-duper secretas, então fizemos exatamente isso aqui, de uma maneira super-duper secreta. Graças a toda a tramóia, eu até tive que pular a frase ‘Começaremos com cerveja’... Trágico, não acha? — respondeu Zach dramaticamente, como se estivesse atuando em sua própria peça de um homem só.

— Você realmente precisa fazer parecer que ‘E a fonte da nossa dor é Abel...’? Puxa. — Abel olhou exasperado para Zach.

— É melhor você tomar cuidado, Kenneth. Abel é o tipo de homem que tira as coisas à força de pessoas que não querem entregá-las — disse Zach, fingindo sussurrar as palavras para ele, mesmo falando em um volume normal.

— Certo, Zach, você quer brigar? Vamos lá. Desafio aceito. Desculpe, Scotty, mas pense em Zach como se ele nunca tivesse existido. Porque ele não vai existir depois de hoje. — Havia ameaça na voz de Abel.

— Bem, que infelicidade. Senhores, um brinde ao nosso irmão caído, Zach. Ele era um bom homem... — Scotty aceitou a ameaça com indiferença.

— Parem com isso, pessoal — disse Zach. — Não parece brincadeira quando vocês, idiotas, dizem isso, então, sério, parem com isso.

Kenneth, enquanto isso, ria histericamente da troca de palavras. Depois que recuperou o fôlego, ele falou. — Abel, ouvi dizer que você é um aventureiro em Lune.

— Sim, você ouviu certo — respondeu Abel.

— Ao contrário das aparências, ele é um brilhante Rank B — disse Zach, estranhamente orgulhoso.

— A verdade é que minha família é de Lune.

— Uau, sério?! Que mundo pequeno... Eu estabeleci Lune como minha base, vejamos... há sete anos.

— Ahhh, então devo ter te desencontrado por pouco. Mudei-me da capital para Lune por volta dessa época.

Abel e Kenneth opinaram sobre suas circunstâncias compartilhadas.

— Convidei meus pais para morarem comigo há cerca de um ano.

— Ah, é verdade. Você os mudou para a mansão que veio com seu novo título, Kenneth — observou Scotty.

— Sim. Somos originalmente agricultores, mas a condição da perna do meu pai piorou, dificultando para ele cuidar de nossas vastas terras. Então perguntei se ele estaria disposto a supervisionar a gestão da minha nova propriedade e ele concordou. Agora ele e minha mãe estão aproveitando a vida lá com meus vassalos. — Kenneth parecia feliz.

Simplificando, uma mansão no Reino de Knightley era uma aldeia concedida a um nobre. Elas tendiam a estar sob o controle direto da família real ou fazer parte do território de uma família nobre que havia se extinguido. Embora a história de tais propriedades variasse, de um modo geral, não eram muito grandes. Os impostos arrecadados da mansão iam para o nobre ou senhor que a possuía, então, desde que não vivessem um estilo de vida luxuoso, poderiam viver confortavelmente apenas com os impostos.

No caso do Barão Kenneth Hayward, além de sua mansão, ele também tinha renda de sua posição como pesquisador chefe no Centro Real de Alquimia. Então, para um membro recém-nomeado da nobreza, sua renda era bastante alta.

— Cara, você certamente nos envergonha, hein? — observou Abel enquanto comia frango frito de bandido. Ele estava impressionado com a piedade filial de Kenneth.

— A casa que deixamos para trás em Lune finalmente foi vendida não faz muito tempo. Graças a isso, minha ansiedade pelo futuro desapareceu completamente. Não posso te dizer o quão aliviado estou.

Abel assentiu em compreensão, mesmo enquanto continuava a mastigar entusiasticamente vários pratos.

— Ah, sim, a casa que você nos contou, aquela com a cantaria rústica na cozinha.

— Isso mesmo, Zach. Minha mãe disse que queria uma bancada espaçosa porque adora cozinhar, então meu pai pediu a um pedreiro conhecido dele para fazer uma personalizada para ela.

Ao ouvir isso, Abel, que estava ocupado comendo até agora, congelou.

— O que há de errado, Abel?

— Espere um segundo. Kenneth, essa sua cozinha, é feita de uma pedra preta enorme e imponente chamada ‘granito’? E a casa em si tem portas em três lugares...? — Abel ignorou Zach, que o olhava com curiosidade por ter parado de comer tão de repente, e questionou Kenneth.

— Não tenho certeza sobre o nome da pedra, mas todo o resto em sua descrição está correto. E sim, a casa tem portas em três locais. Por que você sabe de tudo isso?

— Ummm... Porque meu amigo provavelmente foi quem comprou sua casa... — Por alguma razão, Abel claramente achou difícil admitir isso.

Os olhos de Kenneth se arregalaram em resposta. — Não diga! Uau. Então, por favor, transmita meu apreço ao comprador. Estava no mercado há mais de seis meses. Quase perguntei aos meus pais se deveríamos baixar o preço quando a venda finalmente foi concretizada. Sem mencionar que o comprador pagou tudo em dinheiro.

— Sim, bem, ele tem dinheiro...

— Abel, por que você está agindo de forma tão estranha? — Scotty perguntou incisivamente, vendo Abel suar.

— Uh... então o cara que comprou a casa de Kenneth... meio que a reformou... Mas não se preocupe! Ainda parece a mesma!

— Hã?

— A questão é que sua casa não tinha banheira, certo, Kenneth?

— Correto. Um rio corre bem ao lado da casa, então todos nós costumávamos tomar banho lá. Embora durante os meses de inverno, montássemos grandes barris no quintal e despejávamos água quente dentro... — ele respondeu, pensando em seus dias em sua antiga casa.

— Bem, o cara que a comprou não consegue viver sem banheira. É por isso que ele transformou uma parte da casa em um banheiro enorme. Pensei em te avisar sobre a reforma, caso você tivesse um apego emocional ao lugar...

— Ah, entendi agora. Não estou nem um pouco incomodado. Não acho que seja uma coisa ruim tornar as coisas mais fáceis de usar.

— Ah, é? — Abel estava obviamente aliviado com as palavras de Kenneth.

— Huh. Um amigo seu em Lune... — Scotty murmurou pensativamente.

— Sim. Ele salvou minha vida também. Não uma, mas duas vezes. — Abel retomou a comer, suas mãos e boca se movendo enquanto ele conversava. Quão muito hábil ele era.

— Ele é um aventureiro, então?

— Com certeza. O que o torna ainda mais incomum é que ele é um mago da água.

— Uau! Isso é raro! — Zach exclamou surpreso.

— É mesmo? — Kenneth, o alquimista, inquiriu enquanto examinava o menu. Ele não era particularmente conhecedor deste tópico.

— Sim, extremamente. A magia da água aparentemente não é adequada para o combate. Quase não há magos da água no Departamento também. Tenho quase certeza de que o número de aventureiros na capital que usam magia da água é zero. Dito isso, a magia da água é a magia mais procurada na vida cotidiana. O que significa que os magos da água nem precisam ir a campos de batalha perigosos ou em aventuras perigosas. Comerciantes e outros os acham especialmente úteis — respondeu Zach, olhando para o teto enquanto se lembrava do que sabia.

— Então esse é o seu salvador... Bem, um salvador nem sempre precisa ser alguém que salva sua vida em um campo de batalha, hm? Afinal, todo mundo precisa de água para viver — disse Scotty, teorizando sobre o salvador de Abel.

— Quer dizer, você não está errado, mas... ele realmente me salvou em combate também. Isso me lembra. Ele é completamente obcecado por alquimia.

Às palavras de Abel, a cabeça de Kenneth se ergueu bruscamente do menu que examinava.

— Ainda estamos discutindo o comprador da minha antiga casa, sim? E você está dizendo que ele é louco por alquimia?! Ahhh, eu adoraria ajudá-lo com qualquer coisa sobre o assunto se pudesse.

Abel sorriu melancolicamente para o entusiasmo de Kenneth. — Bem, se você tiver a chance, faça exatamente isso. O nome dele é Ryo e ele é um mago da água que também é um aventureiro de Lune. Lembre-se disso.

Depois que Abel se despediu de seus amigos e deixou a taverna de nome único, 'Deixe os Afogados se Afogarem em seus Copos', ele percebeu que estava sendo seguido.

Não me importo se me seguirem, mas... espero que não vão atrás daqueles caras também.

Ele estava preocupado com os três. Zach e Scotty mencionaram que levariam Kenneth de volta ao Centro de Alquimia, então...

Eu realmente não acho que eles machucarão um barão.

A aquisição do título de barão pelo alquimista Kenneth Hayward o tornou um membro de pleno direito da aristocracia. Ataques a nobres acarretavam penalidades surpreendentemente severas. Levando isso em conta, então, Abel pensou que a probabilidade de eles serem atacados era baixa.

Quanto aos outros dois, eles se virariam. Ele não se aprofundou muito no problema.

Comandante dos Cavaleiros Baccala, Grande Chamberlain Sorel e Ministro das Finanças Fuca — esses eram os três homens que Abel vinha investigando. Então, os três indivíduos que o seguiam poderiam ser subordinados de um desses três.

Senti cinco no começo, o que significa que dois devem ter ido para outro lugar. O fato de que ainda há três me seguindo me faz pensar que sou o verdadeiro alvo deles.

Abel desviou da avenida principal e entrou em um dos becos. Ele brincava bastante nesta área quando criança e seu corpo ainda se lembrava das ruas como se fosse segunda natureza, apesar de quase dez anos terem se passado desde a última vez que morou na capital real.

Vários minutos depois, nas sombras de uma rua lateral, Abel conseguiu nocautear as três pessoas que o seguiam em uma luta de guerrilha usando todo tipo de itens aleatórios, como portas quebradas que ele encontrou, desconcertantemente, no meio da rua. Tudo sem um único arranhão nele. A propósito, o trio malvado consistia em dois homens e uma mulher.

— Certo, então... — ele murmurou para si mesmo antes de assobiar com os dedos.

Um minuto depois, uma figura enorme apareceu.

— Warren, seja um amigo e me ajude a carregá-los? Desculpe e obrigado.

Com um aceno de cabeça, Warren levantou os dois homens, colocando cada um sobre um ombro. Abel jogou a mulher sobre seu próprio ombro. Eles fizeram duas curvas em sua breve jornada e chegaram em frente ao Instituto de Pesquisa Mágica.

— Vamos levá-los para o local de teste subterrâneo. Vamos interrogá-los lá — disse Abel com um sorriso maligno.

Um dos homens abriu os olhos. Ele estava sentado em uma cadeira colocada bem no centro de uma área espaçosa. Ele não conseguia se mover porque seus braços e pernas estavam amarrados à cadeira.

— Merda!

Ele deveria estar seguindo o alvo, mas o dito alvo apareceu de repente atrás dele e o deixou inconsciente com um único golpe.

— Ninguém nos disse que ele era tão habilidoso...

Era tarde demais para dizer isso agora. Os três tinham a tarefa de sequestrar o alvo. Ele sinceramente achou que seria fácil. O único problema deles era como transportar o homem depois de sequestrá-lo...

Infelizmente para eles, a realidade se mostrou bem diferente.

— O que vamos fazer agora...

— Apenas desembucha e você se sentirá muito melhor.

O homem amarrado não esperava uma resposta ao seu murmúrio. Ouvi-la o chocou porque ele não havia detectado a presença de outra pessoa nas proximidades. E em vez de pertencer ao jovem que os atacou, a voz era... de um homem velho. O velho em questão se aproximou dele e, quando estava perto o suficiente, o pretenso sequestrador o reconheceu.

— Impossível... Hilarion...?

No momento em que ele sussurrou as palavras, o velho diminuiu a distância entre eles e deu-lhe um tapa forte na cabeça com o cajado em sua mão.

— Ai!

— Para você é Lorde Hilarion. Não se esqueça da próxima vez. Os jovens de hoje em dia realmente precisam aprender boas maneiras.

Hilarion estava praticamente bufando de raiva. A visão atordoou o homem ainda mais. Então ele murmurou, quase para si mesmo.

— Por que um figurão desses está aqui...

Hilarion Baraha era o mago chefe real do Reino de Knightley. Ao discutir os magos mais poderosos do Reino, seu nome era o primeiro a vir à mente. Ele era amplamente reconhecido como um dos magos mais poderosos do Reino.

— Hm. Então você sabe que sou um figurão. Então deixe-me te dizer algo que você claramente não sabe — aquele que você tentou atacar tem uma conexão próxima com este figurão. Não vou dizer nada de mal, mas é melhor se você me contar tudo o que sabe.

Hilarion deliberadamente bateu o cajado contra a palma da mão.

— Ngh... Como se eu pudesse trair meu cliente! — Isso foi tudo o que o homem disse antes de fechar a boca de forma não cooperativa.

— Hm... O fato de você ter a audácia de ainda agir desafiadoramente apesar de saber que sou Hilarion significa... que você subestima a magia por sua própria conta e risco.

— O-O que você quer dizer?

— Posso não parecer, mas as pessoas me chamam de o mago mais poderoso do Reino. Agora considere o estado em que você está, amarrado a uma cadeira e tudo mais. Se você não cooperar, está pedindo para estar do lado errado da minha magia. Você realmente acha que vai sair deste lugar com todos os seus membros intactos?

Com a ameaça crível de Hilarion, os dentes do homem começaram a bater de medo e seu rosto empalideceu.

— I-Isso não é justo! Desamarre-me!

— Oh? Se eu te desamarrar, isso significa que posso usar minha magia sem me conter? Você está dizendo que seu corpo será capaz de suportá-la?

A expressão de Hilarion era relaxada. Ele usou sua própria fama para assustar o homem. De certa forma, você poderia chamar isso de sabedoria da idade.

— Foi o que pensei. Por que você não começa me dizendo seu nome primeiro?

Assim que Hilarion terminou de interrogar o cativo, ele voltou para seu escritório, onde, por alguma razão inexplicável, encontrou um bando de garotas.

— Ah, bem-vindo de volta, Mestre.

Lyn o notou primeiro.

— Obrigado. Devo mesmo perguntar o que vocês três estão fazendo...?

De fato, como ele apontou, havia três jovens mulheres na sala: Lyn, Rihya e uma garota desconhecida. Ele tinha uma forte suspeita de que a estranha era uma do trio contratado para sequestrar Abel. O garoto deve ter deixado a interrogação dela para as duas.

— Ora, estamos fazendo uma festa do chá. Ah, permita-me apresentá-la a Oriana, uma aventureira de Rank C baseada aqui na capital. Segundo ela, o subordinado do Ministro das Finanças os contratou.

Oriana se levantou com a observação de Rihya.

— M-Meu nome é Oriana e estou honrada em conhecê-lo, Lorde Hilarion. — Ela inclinou a cabeça profundamente.

— C-Certo... Bem, vá com calma, hein?

Essa foi a única coisa que Hilarion conseguiu pensar em dizer. Porque as informações que ele se esforçou tanto para adquirir, essas duas jovens obtiveram facilmente. Além disso, ele havia nocauteado o homem de propósito antes de vir para cá, a fim de facilitar o transporte dele mais tarde... No entanto, para sua perplexidade, Lyn e Rihya usaram os doces para transformar um dos atacantes em informante. Foi preciso toda a sua força de vontade para não cair de joelhos. No entanto, um sentimento indescritível de derrota dominou Hilarion.

Então, trinta segundos depois, Abel voltou ao escritório de Hilarion, tendo concluído seu próprio interrogatório do segundo homem, e ao ouvir o mesmo relatório do velho de seus membros do grupo, ele caiu de joelhos em choque.

— Hum, somos membros do grupo de Rank C Estrela da Manhã, pertencente à guilda de aventureiros da capital. Originalmente, este era um trabalho legítimo que aceitamos através da guilda. Fomos contratados para proteger o cliente e eliminar quaisquer indivíduos suspeitos — explicou Oriana depois que Abel a incentivou. — Então, esta noite, o cliente descobriu a localização de uma dessas pessoas e nos ordenou que o sequestrássemos...

— E é por isso que você estava me seguindo.

— Sim... — ela respondeu com a cabeça baixa.

— Vocês mandaram outros seguirem meus amigos também, não foi?

— Correto. Mas apenas para verificar suas identidades.

Abel ficou aliviado ao saber que Kenneth e os outros dois não seriam feridos.

— Sinto muito mesmo. Como o trabalho e as instruções vieram do assessor do Ministro das Finanças, eu sinceramente não achei que seria um problema. — A cabeça de Oriana pendeu ainda mais.

Seria irracional duvidar de um pedido vindo de uma das figuras políticas centrais do país. Como membros do grupo de Rank B Espada Carmesim, os três entendiam isso melhor do que ninguém, considerando quantos trabalhos como este eles haviam aceitado até agora. Provavelmente foi por isso que nenhum deles realmente culpou Oriana e seus membros do grupo.

Embora Abel agora soubesse quem era o mentor por trás do ataque surpresa planejado contra ele, o dito mentor não havia informado Oriana e seus companheiros sobre o motivo de seu sequestro. No entanto, sua impressão do Ministro Fuca definitivamente piorou. Ele agora o via como um vilão de coração negro.

— Acho que... minha única opção aqui é deixá-los me capturar, para que eu possa me infiltrar — murmurou Abel baixinho.

Lyn e Rihya reagiram imediatamente.

— Objeção, meu caaaro! Sou totalmente cooontra. Isso é perigoso demaaaais. — Por alguma razão, Lyn arrastou algumas palavras para enfatizar sua oposição.

— Eu também me oponho à sua ideia. Abel, não me diga que você já esqueceu o que aconteceu da última vez que se ‘infiltrou’?

— Hã?

— Certo, deixe-me lembrá-lo: você se infiltrou em uma rede de contrabando e então... você se lembra de como foi varrido para o mar? Se não fosse por Ryo, você estaria morto, Abel!

Assim como Rihya disse, Abel havia aceitado um trabalho para expor uma rede de contrabando, então ele se infiltrara, mas o barco dos contrabandistas partiu mais cedo do que o programado. Para piorar, o navio encontrou uma tempestade, depois foi atacado por um kraken, antes de naufragar em pedaços na costa de Rondo. A Dama da Sorte deve ter sorrido para ele, porque Abel foi o único que sobreviveu ao naufrágio. Além disso, se Ryo não o tivesse encontrado logo depois, ele sem dúvida teria sido arrastado de volta para o oceano por suas marés, destinado a encontrar o mesmo destino dos contrabandistas.

À luz de sua última experiência com "infiltração", até mesmo Abel entendeu o motivo da feroz resistência de Rihya à sua sugestão. Dito isso, nenhuma outra estratégia eficaz veio à mente. Desta vez, ele estaria firmemente em terra... Mas isso não era um argumento reconfortante ou convincente, então era melhor não usá-lo... Então Abel olhou para Hilarion para ajudá-lo a encontrar as palavras certas.

— Heh. Esperando pegar emprestada a sabedoria de um velho, eh? — Hilarion respondeu com confiança.

Apesar de se sentir irritado com a maneira como ele disse isso, Abel não conseguiu pensar em outra solução. — Velho, você tem uma ideia melhor?

— Basicamente, precisamos garantir que você não desapareça da face do reino e temos que evitar colocar sua vida em perigo, certo?

Então Hilarion se levantou e caminhou em direção a um armário. Ele voltou carregando uma bola do tamanho de um polegar e uma caixa de ferro de cinco centímetros de espessura, do tamanho de duas palmas. Parecia um relógio com apenas um ponteiro curto embutido na superfície da caixa.

— Um certo alquimista fez este dispositivo de rastreamento. Quem estiver de posse desta bola pode ser encontrado usando esta caixa.

Hilarion então infundiu um pingo de sua energia mágica na bola. Por um brevíssimo segundo, a bola brilhou antes que a luz se apagasse quase imediatamente. Simultaneamente, o relógio na caixa de ferro começou a emitir uma luz e o ponteiro curto se moveu na direção da bola. Então a luz do relógio começou a piscar rapidamente.

Se Ryo estivesse aqui, ele teria gritado: “Um dispositivo de localização?!”

— O ponteiro curto mostra a direção e a velocidade com que a luz pisca mostra a distância. Ele usa o feitiço de magia do ar, Sonda. Você se lembra do detector de magia residual que usou ao investigar a masmorra? O mecanismo é o mesmo daquele. Embora aparentemente, o alquimista tenha tido dificuldade em tornar a caixa e o receptor menores. — Quando Hilarion deu um peteleco na bola com o dedo, um som correspondente veio da caixa. — Algo digno de nota é que qualquer som que esta bola capta é enviado para a caixa. Isso torna fácil para quem tem a caixa saber o que está acontecendo.

Se Ryo tivesse visto isso, ele definitivamente teria dito: “Um dispositivo de escuta?!”

Hilarion colocou a caixa em cima de sua mesa e entregou a bola para Abel.

— Uau. Não acredito que a alquimia avançou tanto que é possível fazer coisas assim... — Abel murmurou maravilhado.

— Oh ho ho, é aí que você está errado — respondeu Hilarion. — Acontece que o alquimista que inventou isso é um gênio. Mesmo nesta vasta capital nossa, apenas dois alquimistas podem ser chamados assim. Ou talvez, apenas um agora.

— Por acaso, o nome dele é Kenneth? — perguntou Abel.

— Ora, ora. Você o conhece, eh? Na mosca. Barão Kenneth Hayward — respondeu Hilarion com um aceno enfático.

— A questão é... o resto do grupo de Oriana foi enviado para segui-lo. — Abel olhou para a aventureira de Rank C. Ela se encolhera o máximo possível em sua cadeira de miséria.

— Você está brincando, certo? Sua Majestade Real em pessoa investiu Kenneth com seu título de barão e você está me dizendo que ele estava sendo seguido...? As coisas vão dar errado se os chefões descobrirem isso.

Hilarion não mediu suas palavras de propósito e Oriana empalideceu em resposta. Independentemente do fato de que suas ordens foram dadas pelo subordinado do Ministro das Finanças, se algo acontecesse a um nobre a quem o próprio rei havia elevado a esse status... ele certamente descobriria. E quem protegeria uma mera aventureira depois de incorrer na ira de um monarca? Ninguém. Ela seria descartada e executada junto com o resto de seu grupo.

Hilarion olhou para Oriana enquanto ela parecia chegar a essa conclusão por conta própria.

— Se você tiver a intenção de cooperar conosco, estaria disposto a intervir em seu nome — ele propôs.

— S-Sério?! — ela disse, agarrando-se imediatamente à sua oferta.

— Claro. Juro pelo nome de Hilarion, o Grande. Então, o que você me diz?

— Sim! Com certeza! — Oriana assentiu vigorosamente repetidas vezes.

Enquanto isso, Abel observava a troca deles. Sério, que velho trapaceiro... seus olhos diziam.

Hilarion e Abel se dirigiram para a sala de interrogatório subterrânea (provisória). Lá, eles deveriam ter encontrado o membro inconsciente da Estrela da Manhã, mas... ele estava consciente mais uma vez.

— O que, já acordado, jovem? Foi rápido.

— Maldito seja por me nocautear sem aviso! Me desamarre já!

— Você realmente acha que vou te desamarrar só porque você pediu? Continue sonhando, garoto.

Abel observou a briga deles desinteressadamente. Alguns minutos depois, Rihya e Lyn entraram. Elas trouxeram Oriana com elas.

— Oriana! Você está bem? Eles não fizeram nada de terrível com você, certo?

O homem contido parou de discutir com Hilarion, sua atenção completamente nela. Ele estava obviamente preocupado com ela.

— Estou bem, Hector.

Então Warren entrou carregando o terceiro e último dos seus cativos da Estrela da Manhã.

— Isaías... — Tudo o que o homem chamado Hector pôde fazer foi dizer o nome de seu camarada com a voz embargada. Porque apenas a cabeça de Isaías era visível enquanto ele jazia jogado sobre o ombro de Warren com uma corda circulando-o do pescoço aos pés. Para ser franco, ele parecia um bicho-da-seda.

Esperava-se que Warren o carregasse desde o início.

— Certo, membros do grupo de Rank C Estrela da Manhã da capital real. Hector é o líder, depois temos Oriana e Isaías. Já sabemos que vocês foram contratados pelo subordinado do Ministro das Finanças. Ah, certo, esqueci de me apresentar. Bem, não acho que precise, mas farei mesmo assim. O mago chefe real do Reino de Knightley, Hilarion Baraha, ao seu dispor. — Então ele apontou para Abel e continuou. — E aquele que vocês tentaram sequestrar é Abel, do grupo de Rank B de Lune, a Espada Carmesim. — Com isso, Hilarion revelou a identidade de Abel.

— Rank B...

— Não é de se espantar...

— Hrngh...

Acontece que um deles não estava apenas amarrado como uma lagarta, mas também tinha uma mordaça na boca.

— Agora, o maior problema que vocês enfrentam atualmente é... — Hilarion parou deliberadamente para respirar fundo. — O apoio de vocês ao Ministro das Finanças, que é suspeito de alta traição.

Suas palavras causaram uma onda de choque nos três. Eles pareciam estar à beira do colapso depois de serem atingidos com força na cabeça por algo. Alta traição era o crime de se rebelar contra a família real. O Reino considerava o crime muito mais grave do que a traição contra o próprio país, então a punição era muito mais severa também. A maioria dos condenados por alta traição era sentenciada à pena de morte ou prisão perpétua. E se fossem considerados culpados de ajudar o Ministro das Finanças, enfrentariam um desses dois julgamentos...

Hector, o líder, foi o primeiro a falar. — Impossível... — disse ele.

— Dito isso, considerando que vocês o ajudaram sem saber de nada, é claro como o dia que eles os abandonarão aos lobos sem pensar duas vezes, o que torna sua situação triste. Mas se vocês escolherem cooperar conosco, não me importo de intervir com Sua Majestade em seu nome. O que me dizem?

— V-Você está falando sério? — perguntou Hector. Ele parecia sentir-se o mais responsável por ser o líder do grupo.

— Claro que estou. Juro pelo nome de Hilarion Baraha, o Grande — respondeu Hilarion com um aceno enfático.

Hector olhou para Oriana e Isaías. Ambos inclinaram a cabeça em concordância silenciosa.

— Certo. Então contaremos com sua compaixão, Hil... Lorde Hilarion.

Hilarion sorriu com satisfação ao ouvir aquilo.

— Excelente. Ah, certo, há mais uma coisa que preciso dizer a vocês, jovens. Os outros dois do seu grupo foram atrás dos amigos de Abel, não foram? — perguntou Hilarion.

— Sim — respondeu Hector.

— Bem, um deles é o Barão Kenneth Hayward, cujo título foi conferido pelo próprio rei. Isso, mais o fato de ele ser um nobre de pleno direito, significa um grande problema se algo acontecer com ele.

— A-Aqueles dois só devem verificar suas identidades! Não temos intenção de fazer nada aos nobres de Sua Majestade! — Hector gritou em desespero.

— Hm. Pelo seu bem, rezo para que seja a verdade. Certo então, vamos ao cerne da questão. O que queremos que vocês façam é ajudar Abel a se infiltrar.

— Infiltrar?

Hector inclinou a cabeça em confusão.

— Sim, para que possamos obter provas da alta traição do Ministro das Finanças. É especialmente vital que tenhamos o máximo possível, considerando que estamos falando de um líder nacional cometendo o crime. Seu grupo capturará Abel como planejado e o levará ao subordinado de Fuca. Esse é essencialmente o seu papel nisso.

— É realmente só isso que temos que fazer? — Hector parecia quase desapontado. Até agora, ele fora incessantemente ameaçado pelo velho, então se preparara para um pedido irracional. Mas tudo o que lhes era pedido era que executassem sua tarefa original.

— Acertou. Então, vocês vão nos ajudar ou não?

— Vamos. Contanto que você não volte atrás em sua palavra — respondeu Hector com um aceno firme.

— Eles fazem verificações de segurança rigorosas. Não será possível levá-lo armado — disse Hector ao ver Abel esconder uma adaga em sua pessoa. Todos estavam fazendo suas últimas verificações após terminarem os preparativos.

— Além disso, essa bola... acho que você deveria colocá-la em algum lugar mais difícil de encontrar.

Ele se referia ao transmissor, uma bola do tamanho de um polegar. Abel a havia colocado no bolso, supondo que qualquer um que o revistasse pensaria que era uma pedra. Mas agora... Hector estava apontando a falha em sua ideia.

— Huh, acho que você tem razão... — Abel quase soou como se estivesse resmungando para si mesmo. — Então o problema é onde escondê-la.

— Que tal costurá-la em suas roupas? — Hector sugeriu sensatamente.

— Por que não segurá-la na boca o tempo todo? — Rihya disse mordazmente.

— Sim, então apenas engula e carregue no estômago! — Lyn levou a observação cáustica de sua amiga ao extremo antes de se esconder imediatamente atrás de Warren.

— Eu deveria mesmo confiar minha vida a esses idiotas...? — lamentou Abel, olhando para o teto.

No esconderijo da Estrela da Manhã, em algum lugar da capital real. Hector, Oriana e Isaías carregavam Abel, amarrado e enfiado em um saco.

— Puxa, Hector, você está atrasado.

Kenjii e Taarou os deixaram entrar. Os dois haviam retornado primeiro.

— Sim, bem, digamos que tivemos um contratempo — disse Hector com um suspiro vindo do fundo de sua alma.

— Quanto aos três que seguimos, um entrou no Centro Real de Alquimia e os outros dois entraram na moradia da Ordem Real dos Cavaleiros. Como tudo o que tínhamos que fazer era ver para onde iam, voltamos assim que tivemos nossa resposta. Foi o suficiente, certo? — Kenjii perguntou a Hector.

— Sim, mais do que suficiente. De agora em diante, não toque um dedo em nenhum desses três.

— Hã? — Perplexo, Kenjii inclinou a cabeça em resposta à ordem de Hector.

— Descobrimos que eles são nobres e um deles conseguiu isso graças a Sua Majestade pessoalmente lhe concedendo o título. Então. Nem um único dedo. Não relate sobre eles ao cliente também. Nós não vimos nada. Entendido?

— E-Entendido. — Kenjii assentiu automaticamente diante da intensidade de Hector.

— Tudo o que o cliente queria era este homem. Assim que o entregarmos, eles não darão a mínima para mais nada. Ele estava bebendo sozinho, então o capturamos no caminho de volta. Essa é a nossa história e vamos nos ater a ela. Entendido?

— Sim, entendido — respondeu Kenjii. Taarou assentiu.

Quando Hector dizia coisas assim, os dois sabiam, por sua longa amizade com o líder do grupo, que algo havia dado errado. E eles também sabiam por experiência que, em tais casos, a melhor coisa a fazer era esperar que Hector resolvesse o problema. Então, não tiveram receio de fazer o que ele pediu.

Eles soltaram Abel do saco cerca de meia hora depois. Ele podia ouvir vozes bêbadas rindo do outro lado da porta à esquerda.

— O quartel dos aventureiros contratados — sussurrou Hector para ele.

Naquele momento, a porta mais à esquerda se abriu e um homem saiu.

— É ele?

— Sim, é ele — respondeu Hector.

— Eu o levo. Vocês descansem ali. Bom trabalho.

Então o homem chamou outra pessoa de dentro e os dois sanduícharam Abel entre eles antes de fazer uma revista de segurança nele. E assim como Hector havia dito, foi uma revista muito completa e rigorosa.

— Certo, ande.

Assim que terminaram, eles marcharam com Abel para a frente. Após um breve e preocupado olhar em sua direção, Hector abriu a porta à esquerda e entrou no quartel dos aventureiros com seus camaradas.

Flanqueado pelos dois homens, Abel caminhou pelo corredor por um tempo, depois chegou a uma sala deserta. Ele estimou que era do tamanho de duas salas de aula de seus tempos de escola. Três homens estavam em volta de uma cadeira colocada no centro da sala.

— Sente-se.

Eles o forçaram a sentar na cadeira. Apenas seus braços estavam amarrados com corda. Isso significava que os homens estavam confiantes em suas habilidades? Ou eles simplesmente baixaram a guarda...

No momento em que o homem na frente, que parecia ser o líder do grupo, falou, uma porta diferente da que haviam entrado se abriu, e mais dois homens entraram carregando um barril. Ao vê-lo, os cinco na sala começaram a gritar em pânico.

— Seus idiotas! Isso não vai aqui!

— Levem para a sala bem no fundo. Rápido!

Os dois homens que carregavam o barril inclinaram a cabeça em desculpas enquanto saíam da sala.

Bem, eles certamente ficaram nervosos... O que será que tem dentro?

Abel sentiu que havia encontrado o que precisava investigar.

— Agora então... — disse o homem que parecia ser o líder. — Há duas coisas que queremos te perguntar. Uma, para quem você trabalha? E duas, o quanto você sabe?

Essa primeira pergunta é uma que eu gostaria de fazer a vocês também, seus otários. Então, a minha segunda pergunta seria: "O que diabos vocês estão aprontando?"

Abel retrucou, mas apenas em sua mente. Por alguns minutos, ele vinha inspecionando secretamente suas roupas e coisas do tipo na tentativa de averiguar suas identidades ou a qual organização pertenciam. Infelizmente para ele, nenhum dos itens que usavam lhe deu qualquer pista.

— É melhor você responder antes de se meter em uma enrascada.

Com essas palavras, um dos homens ao lado do líder sacou uma faca, de maneira deliberadamente vistosa e ameaçadora. Abel abriu a boca quando viu aquilo.

— Certo. Eu vou falar.

— Oho, acho que você tem mais cérebro do que coragem, hein?

— Dor não é a minha praia. Quem me contratou foi o comandante dos cavaleiros — Abel falou sem pensar.

Ele sabia que os homens que o cercavam estavam ligados ao Ministro das Finanças. Ele também sabia que o dito oficial estava ignorando os crimes do Comandante dos Cavaleiros Baccala e do Grande Chamberlain Sorel. Então, naturalmente, devia haver uma razão para ele estar fazendo vista grossa às atividades ilegais deles. Também era possível que ele estivesse recebendo favores. Em qualquer caso, quando se tratava dos três homens, o Ministro das Finanças era o mais poderoso, já que podia expor os outros dois quando quisesse, deixando Baccala e Sorel em desvantagem.

O que levanta a questão: o que a dupla faria? Abel conseguia pensar em duas possibilidades. Uma, não fazer nada e se contentar com o status quo. Ou duas, pôr as mãos na fraqueza do Ministro das Finanças e, se possível, obter provas de seus delitos para garantir que ele não pudesse expô-los pelos deles facilmente.

Isso explicava por que a declaração de Abel de trabalhar para o comandante dos cavaleiros soava verdadeira. Claro, do seu ponto de vista, não havia evidências físicas, e era tudo apenas suposição sobre suposição de sua parte.

Curiosamente, o líder reagiu quase violentamente às suas palavras.

— O que você disse...?! — Foi tudo o que ele disse antes de cair em silêncio.

Sua reação chocou não apenas seus capangas, mas também Abel, embora ele escondesse sua surpresa.

Uau, não esperava por essa. Ele basicamente acabou de insinuar que o Ministro das Finanças já estava desconfiado de que o comandante dos cavaleiros estava fazendo movimentos... Ah, cara, essa é uma ótima pista, além do barril de antes também. Eu realmente espero que minha maré de sorte continue! Infiltrar-se foi a escolha inteligente, afinal.

Abel assentiu em sua cabeça inúmeras vezes, satisfeito com o conhecimento de que sua decisão não havia sido errada.

Um tempo passou em silêncio, durante o qual o líder parecia estar organizando seus pensamentos. Então, assim que terminou, ele olhou para Abel e o questionou mais.

— Então você diz que o comandante dos cavaleiros o contratou? Então por que você estava bisbilhotando?

— Para obter provas das atividades ilegais do Ministro das Finanças, só por precaução.

Ele também não estava mentindo, independentemente do envolvimento do comandante dos cavaleiros. Além disso, no que dizia respeito a Baccala, mesmo que Fuca fosse seu aliado agora, isso não significava que seria para sempre. O que significa que não seria estranho para o comandante dos cavaleiros conduzir sua própria investigação buscando as mesmas informações para o dia em que o Ministro das Finanças se voltasse contra ele.

— Entendo. Você encontrou o que procurava?

— Pode-se dizer que sim — respondeu Abel, fingindo ser honesto.

— Onde está?

— Entreguei a alguém em quem confio. Se não tiverem notícias minhas regularmente, disse a eles para garantirem que a informação chegue às mãos dos investigadores de assuntos internos.

Ao ouvir suas palavras, a expressão do líder não mudou, mas a de seus subordinados sim, o choque eclipsando seus rostos. Os investigadores de assuntos internos pertenciam ao departamento de assuntos internos e eram responsáveis por investigar os crimes de funcionários do governo. Dependendo da situação, às vezes recebiam autoridade direta sobre os nobres por decreto real.

— Interessante. Por que eles e não o comandante dos cavaleiros?

— Autoproteção, claro. Por que mais? — O tom conhecedor de Abel implicava: "É preciso um para conhecer um." Considerando há quanto tempo ele era um aventureiro, ele conseguiu realizar o ato facilmente. No entanto, ao contrário de sua aparência, pensamentos perturbadores passavam por sua mente.

Este cara é definitivamente de uma raça diferente dos outros... De jeito nenhum ele está acostumado com essa coisa de capa e espada. Ele pode até ser um cara legal por dentro, mas isso não vai ajudá-lo aqui. É ele quem deve ser nocauteado e sequestrado se as coisas chegarem a esse ponto. O outro problema é lidar com o resto desses palhaços.

Realisticamente falando, esta situação — desarmado, com as mãos amarradas, cercado por cinco homens — não era ideal. Ele precisava reduzir seus números um pouco...

— Hm. Que tal vender essa prova que você tem? Naturalmente, se você não fizer isso, não nos importamos de tomá-la à força também. — O líder olhou incisivamente para o homem com a faca ao seu lado.

— Eu não te disse que não sou fã de dor? Contanto que você me dê dinheiro suficiente e me ajude a fugir do país, então acho que podemos chegar a um acordo.

— Certo. Temos um acordo. Agora me fale sobre essa sua prova em detalhes.

Abel hesitou em responder. Obviamente, ele nunca tivera tal evidência em primeiro lugar.

— Uhhh, certo, então sobre isso—

Ele de repente começou a tossir, seu rosto contorcido de agonia.

— Você está bem? Alguém traga um pouco de água para ele.

Um dos bandidos imediatamente saiu da sala para obedecer à ordem do líder. Enquanto isso, Abel continuou tossindo, caindo da cadeira para o chão.

— Filho da puta, o que há de errado com ele? Ei, um de vocês traga um clérigo aqui.

Outro dos homens saiu da sala para cumprir sua ordem.

Acho que consigo lidar com essa quantidade.

Quando um dos homens se aproximou para verificar como ele estava, Abel, ainda deitado no chão, agarrou sua perna com as mãos e o puxou para baixo. Ao mesmo tempo, ele rolou e pressionou o pé esquerdo no pescoço do homem, deixando-o inconsciente. Então ele pegou a faca do cinto do homem.

O capanga restante o atacou depois de ver o que aconteceu com seu camarada. Abel segurou a faca com as mãos ainda amarradas. Ele bloqueou o soco do homem com a parte externa de seus braços, então, com a faca virada de lado, esfaqueou-a sob sua axila.

— Gaaah! — Gritando pateticamente, o homem se contorceu no chão. Um feixe de nervos está localizado ao redor da área da axila. Dependendo da pessoa, algumas pessoas desmaiam se forem esfaqueadas ali... Como espadachim, Abel sabia disso por experiência.

Finalmente, restavam apenas Abel e o líder.

— Pensei que você queria dinheiro e uma maneira de fugir do país...? — O líder estava recuando lentamente. Ele claramente pretendia escapar pela porta atrás dele.

— Eu menti. Desculpe. — Foi tudo o que Abel disse antes de correr em direção ao homem.

— Hngggh...! — Incapaz de evitar a investida de Abel, o líder desabou em agonia com o cotovelo que levou no plexo solar. Para garantir, Abel chutou-o na cabeça, nocauteando-o. Ele agora finalmente conseguia cortar a corda que amarrava suas mãos com a faca.

Naquele exato momento, a porta da sala se escancarou e pessoas entraram voando — os três membros da Espada Carmesim e Hilarion. Eles sabiam pela “bola” costurada em suas roupas que ele já havia agido, então correram para dentro do prédio.

— Oi. Vocês viram um quarto tipo quartel perto da entrada? Deveria haver um monte de aventureiros lá. Eles notaram vocês? — Abel os questionou de forma muito casual.

— Apaguei qualquer sinal de nós com minha magia, então estamos tranquilos — Hilarion respondeu orgulhosamente.

— Meu Deus, Abel! Pare de nos preocupar, quer?! — Rihya o repreendeu enquanto se agarrava ao seu braço.

— V-Você está certa, foi mal — ele se desculpou mansamente.

— Então, você encontrou alguma prova, garoto? Estou pensando que não, com base no que ouvimos.

— Talvez sim, talvez não. Podemos começar com este cara. — Abel indicou o líder inconsciente com um movimento de queixo. — Parece que ele sabe muito, então vamos levá-lo conosco. Warren, desculpe te sobrecarregar com isso o tempo todo, mas você pode encontrar um saco por aí para carregá-lo? Além disso, mais cedo, dois caras entraram carregando um barril e esses caras surtaram quando viram. Isso me deixou curioso, então quero dar uma olhada.

— Hm. Ele disse para levarem para a sala bem no fundo, certo? Abel, você e eu e... Rihya iremos. Warren, Lyn, cuidem desses homens.

Então Abel, Hilarion e Rihya passaram pela porta nos fundos.

Um largo corredor se estendia para fora da porta. Como a sala onde Abel fora interrogado ficava em uma extremidade do corredor, eles decidiram caminhar por ele para ver o que havia na outra extremidade. No caminho, nocautearam o homem que trouxera água, o homem que trouxera um clérigo e o clérigo também, antes de continuar.

— Deve ser aqui.

Eles chegaram a um conjunto de portas duplas. Abel encostou o ouvido em uma das portas para ouvir qualquer som, mas ouviu apenas silêncio.

— Deixe-me tentar. Traga-me o pulso e a existência da vida. Sonda. — Hilarion entoou o feitiço de magia do ar. No entanto... a velocidade com que ele disse o encantamento foi terrivelmente rápida. Levou apenas um segundo.

— Não importa quantas vezes eu te ouça, ainda não consigo acreditar. Sei que você está apenas dizendo qualquer coisa, velho. — Abel parecia ao mesmo tempo maravilhado e desconfiado com a velocidade.

— Pare de falar bobagens, seu garoto idiota. Este é apenas o resultado natural de longos anos de treinamento e estudo. Não há ninguém lá dentro.

Reconhecendo as palavras de Hilarion, Abel abriu as portas e entrou na sala. Era duas vezes maior que a em que fora interrogado. Cinquenta barris, exatamente como o que ele vira, estavam alinhados nos fundos.

— Hm — murmurou Hilarion, batendo levemente nos barris e ouvindo atentamente o som. — Definitivamente não é vinho.

— Claro que não — disse Abel, exasperado com a indiferença do homem idoso. Quando ele examinou alguns deles, notou uma substância como areia preta presa no topo das tampas, como se o conteúdo tivesse derramado.

— Areia preta? — observou Abel com a cabeça inclinada em perplexidade.

— Não acredito... — Hilarion ficou temporariamente sem palavras depois de tocar na areia preta e cheirá-la. — Abel, temos que sair daqui. Agora.

— T-Tudo bem, entendi.

Quase nada jamais perturbava Hilarion. Mas agora ele os aconselhava a recuar com suor escorrendo pela testa e sua expressão rígida. Abel também entendeu que, qualquer que fosse aquela substância, era legitimamente perigosa. Então os três correram de volta para a sala em que ele estivera, se reagruparam com Warren, que carregava o líder em um saco, e Lyn, e então caminharam rapidamente para a porta que os levaria para fora.

— Dê-me um segundo. Vou avisá-los também. — Hilarion abriu uma fresta da porta do quartel onde os aventureiros se reuniam e entoou. — Vento, murmure. Leve minha voz. Sussurre. Hector, é Hilarion. Saia daqui com seu grupo o mais rápido que puder. Depois, afaste-se o máximo que puder.

Depois de dar sua mensagem, os cinco saíram apressadamente do prédio.

A Espada Carmesim e Hilarion retornaram ao Instituto de Pesquisa Mágica quinze minutos depois, já que apenas um quilômetro separava o esconderijo do Instituto. Abel, Warren e Hilarion foram diretamente para o subsolo por causa do líder amarrado no saco. Eles foram para a sala onde Hector, líder da Estrela da Manhã, havia sido interrogado.

Assim que Warren colocou o homem ainda inconsciente no chão, Abel perguntou a Hilarion: — Então, o que exatamente havia naqueles barris, velho?

Qualquer que fosse a substância, fora o suficiente para levar um homem do calibre de Hilarion ao pânico. Abel estaria mentindo se dissesse que não estava curioso.

— Aquilo é algo chamado Pó Negro.

— Pó Negro?

Bem, era definitivamente preto... mas mais para areia do que para pó.

— Não deveria estar em um lugar como aquele de forma alguma. O que significa que estou muito interessado em ouvir o que este homem tem a dizer. — Hilarion parou ali. Ele tinha acabado de dar uma boa olhada no rosto do líder e... acabou sendo um que ele conhecia. — Este é o meio-irmão mais novo de Lorde Fuca. Eles compartilham o mesmo pai, mas mães diferentes...

— Irmão? — Abel respondeu ao choque de Hilarion com confusão. Envolver seu próprio irmão em uma conspiração... se a notícia se espalhasse, o próprio Fuca seria suspeito de fazer parte dela também. Ele pensou que qualquer pessoa com um pingo de bom senso chegaria à mesma conclusão.

— Sim, ele é. Tecnicamente, Fuca tem pelo menos outros quinze meio-irmãos. Digamos que seu pai era transbordante de vitalidade. Tenho quase certeza de que este é o mais novo deles... Ele e Fuca têm mais de trinta anos de diferença de idade.

— Caramba, você realmente sabe muito sobre a árvore genealógica de Fuca. — Abel ficou honestamente impressionado com a riqueza de conhecimento de Hilarion sobre o tópico.

— Porque o irmão mais velho dele, o que está logo acima dele, trabalha aqui.

— O quê?

— Ele é um pesquisador. Na época em que ele costumava vir da propriedade da família, este jovem às vezes o acompanhava. Acho que o nome dele é... Sica? E o irmão mais velho é Saca.

Então não era tanto riqueza de conhecimento, mas sim o fato de que este homem era o irmão mais novo de um dos funcionários de Hilarion.

Ok, então Fuca é o filho mais velho, Saca é o décimo quarto filho, e Sica é o décimo quinto... certo?

Abel organizou a informação, que consistia principalmente nos nomes dos irmãos...

Sica, o homem vilão em questão, abriu os olhos graças a Hilarion.

— Ngh... Onde estou? — ele murmurou.

— Você está acordado, hein? — observou Hilarion.

— L-Lorde Hilarion... — O homem percebeu imediatamente quem estava à sua frente.

— Faz muito tempo, Sica.

— Por que você está aqui...?

— Por que você não dá uma olhada nele? Isso deve ajudá-lo a responder sua própria pergunta. — Hilarion chamou Abel para ficar ao seu lado.

— Você é... de mais cedo... — Sica não sabia mais o que dizer.

— Entendeu, garoto? E, pelo amor de Deus, Sica, você sabe melhor do que ninguém que Saca trabalha para mim. Bem, se vamos nos prender a semântica, ele trabalha neste prédio.

— Então, esta é a... Propriedade de Hilarion.

— Sim. E vai me doer muito ter que dizer ao seu irmão que você traiu nosso país — disse Hilarion, balançando a cabeça.

— E-Espere, por favor! Eu não fiz nada disso...

— Como você pode dizer isso depois que vimos o que você escondeu em seu esconderijo?! Eu sei muito bem que era Pó Negro!

— Isso é... — Sica parou, incapaz de continuar.

— Você sabe exatamente o que é e também sabe que não deveria ser deixado em um lugar como aquele.

Sica baixou a cabeça desanimado em resposta às palavras de Hilarion e murmurou: — Estamos apenas tentando pôr um fim ao comércio no mercado negro...

— Você o quê? Explique-se, garoto.

Em vez de responder a Hilarion, Sica apenas mergulhou em um silêncio sombrio. Abel não suportou o silêncio, então deu voz às suspeitas que vinham lhe incomodando desde que viu os barris mais cedo.

— Ei, velho, que tal você me dizer algo enquanto Sica se recompõe? O que exatamente é esse Pó Negro que estava nos barris?

— Hm... Acho que entrou em produção em massa depois que você se tornou um aventureiro, Abel. Talvez por isso você não saiba. É... um pó que explode quando inflamado pelo fogo — respondeu Hilarion gravemente.

— Uma explosão... Como o feitiço Tempestade de Fogo do Mago do Inferno?

— Isso mesmo. A região leste do Reino é o único lugar em todas as Províncias Centrais onde é produzido em massa. Bem, eu uso o termo ‘produção em massa’, mas a quantidade não é realmente muita. Mas, dependendo de como as pessoas o usam, o Pó Negro mudará a própria forma da guerra. É exatamente por isso que não o exportamos e sua própria existência é um segredo de estado mesmo dentro da nação. É armazenado em cofres especiais exclusivamente aqui na capital real e em Llandewi sob a jurisdição do Ministério de Assuntos Internos. O Barão Kenneth Hayward e eu sabemos sobre o cofre aqui porque o fizemos juntos, mas... o material precisa ser armazenado com cuidado. Apesar dos barris serem alquimizados, o pó em si é incrivelmente instável.

Sica balançou a cabeça várias vezes durante a explicação de Hilarion. Ele parecia estar em conflito por dentro. Vendo isso, o homem idoso falou com ele gentilmente.

— Sica. O fato de você estar tão preocupado me diz que um irmão pode estar envolvido, eh?

As palavras devem tê-lo atingido com força, porque momentos depois, Sica ergueu a cabeça bruscamente para olhar Hilarion com os olhos arregalados.

— O quê? — disse Hilarion. — Você achou que eu não sabia como todos os seus irmãos mais velhos te mimam? Até mesmo Fuca, o mais velho e trinta anos mais velho que você. — Ele parou deliberadamente então, evidentemente tendo um palpite da situação em questão. — Abel. Eu te dou minha palavra, posso dizer a ele quem você realmente é?

— O quê? — Abel ficou chocado com a proposta repentina do homem idoso.

Os olhos que ele lançou a Hilarion diziam: "Aqui? Agora?" Mas ele hesitou apenas por alguns segundos.

— Sim, tudo bem — ele consentiu com um encolher de ombros.

— Obrigado. Sica, este aventureiro é Abel e seu nome verdadeiro é Albert Besford Knightley. Ele é o segundo filho de Sua Majestade Real, Stafford IV.

Os olhos de Sica se arregalaram ainda mais e sua boca se abriu em choque desta vez.

— Você entende, não é? Que a melhor coisa que você pode fazer por si mesmo agora é nos contar tudo aqui. Antes que seja tarde demais. Eu, Hilarion Baraha, e ele, Príncipe Albert, agiremos como testemunhas do seu testemunho. Se você quer que circunstâncias atenuantes sejam levadas em consideração, não pode pedir por aliados melhores que nós, sabe.

Ah, então é por isso que ele queria revelar minha identidade. Leniência caso um de seus irmãos esteja envolvido. E mesmo que isso não seja possível, pelo menos desta forma, Sica pode evitar que sua família inteira seja esmagada. Porque o velho sabia que ele faria o que fosse preciso para evitar o pior cenário.

Assim pensou Abel para si mesmo.

— Tudo bem... — Vinte segundos inteiros se passaram antes que Sica falasse novamente. — Como você já supôs, Lorde Hilarion, estou tentando ajudar meus irmãos. — Então ele mordeu o lábio ansiosamente.

— E Lorde Fuca, o Ministro das Finanças, está envolvido, certo?

— Sim, senhor... Ele é o guardião de todos nós, irmãos mais novos...

Os pais de Fuca e Sica não estavam mais neste mundo. Talvez essa fosse uma das razões pelas quais Fuca cuidava tão bem de seus quatorze irmãos mais novos. E talvez desta vez, ele tivesse usado a situação de sua família a seu favor...

— Algum de vocês está sendo ameaçado? — Hilarion perguntou baixinho.

Sica assentiu e respondeu: — Luca... Ele foi sequestrado. Seus captores extorquiram Fuca para vender Pó Negro no mercado negro...

— Aha. Vejamos... Luca é o quarto filho, certo? Independentemente disso, Fuca é o Ministro das Finanças do Reino. O ministro mais poderoso, ainda por cima. Todos no país sabem o quão profundamente ele se importa com seus irmãos, o que significa que os sequestradores do garoto... não são concidadãos. Uma potência estrangeira, então?

— Luca não está no Reino. Descobrimos isso em nossa investigação. Quanto à pessoa no centro de tudo... — Sica parou de falar neste ponto. Apesar de tudo o que revelara até agora, ele ainda hesitava em dizer mais alguma coisa.

— Sica, se você não nos contar tudo o que sabe, não podemos ajudá-lo — disse Hilarion. Suas palavras foram duras, mas seu tom era gentil. Ele não conseguia sequer imaginar o quão assustados o garoto e seus irmãos deviam estar com seu amado irmão sequestrado e levado para o exterior em algum lugar.

— Eu entendo. Originalmente, o Pó Negro só deveria ser transportado para... — Parecia que ele teve que forçar o resto de sua resposta de sua garganta: — ...para Carlyle.

— O quê?! Você... — Hilarion parou, sem palavras. O mesmo podia ser dito de Abel ao seu lado. Carlyle era uma cidade no norte do Reino. Era a capital do Ducado de Flitwick e grande o suficiente para reivindicar o título de segunda maior cidade do norte.

A questão maior — e a razão de seu choque — era o próprio Duque Flitwick. O duque atual era Raymond, irmão mais novo do Rei Stafford IV. Em suma, Sica acabara de testemunhar um ato de traição de um príncipe real.

— Isso é além... — Oprimido pela gravidade da situação, até mesmo Hilarion não conseguiu encontrar as palavras certas para continuar.

O silêncio se estendeu por um tempo e Abel o quebrou primeiro.

— Vamos organizar tudo isso direito. O Pó Negro no cofre especial da capital está sendo desviado para o mercado negro, depois transportado para Carlyle, no norte. Tudo isso aconteceu porque o irmão mais novo do Ministro das Finanças, Luca, foi sequestrado por pessoas tentando extorquir Fuca. Luca foi levado para fora do país. Até aqui, tudo bem?

— Sim. — Sica assentiu fracamente em resposta à pergunta de Abel. Ele começara a entender não apenas em sua cabeça, mas também em seu coração, que sua única opção agora era revelar tudo a ele e a Hilarion.

— Nesse caso, ainda há algumas coisas que não sabemos. Primeiro, por que ainda há Pó Negro aqui na capital, mesmo que já devesse ter saído pelo mercado negro?

— Embora tenhamos sido forçados a contrabandeá-lo, Fuca entendeu o quão perigosa a substância é e que pode se tornar uma arma extremamente poderosa se cair nas mãos de alguém planejando uma rebelião. Então, a maior parte do que enviamos para Carlyle eram falsificações que apenas pareciam com o real. Nós misturamos alguns reais para enganá-los algumas vezes. A informação sobre o cofre de armazenamento especial também vazou, então não tivemos escolha a não ser armazenar a quantidade que deveria ter sido contrabandeada em outro lugar, e foi onde acabou...

— Entendido. Então minha próxima pergunta tem a ver com Carlyle — especificamente o Duque Flitwick. Se ele realmente é um traidor e Luca está escondido em algum lugar no exterior, isso significa que ele se uniu a uma potência estrangeira. Certo?

— Sim...

— Qual país é? — A quietude da voz de Abel mostrava o quão incrivelmente vital era a resposta à sua pergunta. Qual país estava em conluio com o Duque Flitwick, também Príncipe Raymond, e planejando agir contra as figuras-chave do Reino? Dependendo da resposta, a guerra também era uma possibilidade.

— Meu irmão foi sequestrado pela Federação de Handalieu.

A Federação de Handalieu era um dos três principais países das Províncias Centrais, ao lado do Reino de Knightley e do Império Debuhi. Seu território fazia fronteira com a região leste do Reino e a região sudeste do Império.

Dez anos atrás, travou uma guerra em grande escala com o Reino e perdeu. Como resultado, seus estados vassalos vizinhos, como o Principado de Inverey, ganharam independência completa. Além disso, parte do território da Federação foi cedido ao Reino, causando um golpe considerável ao país.

Dado esse histórico, naturalmente, as relações entre as duas nações não eram boas. No entanto, um tratado de paz fora assinado, laços diplomáticos restaurados, e pessoas e mercadorias fluíam livremente entre elas. Elas de modo algum estavam em guerra.

— Hm? A Federação e o Duque Flitwick? — Hilarion murmurou. — Não me diga que esses rumores são verdadeiros.

— Sim, são — afirmou Sica.

— Que rumores? — perguntou Abel.

— Que o duque e Lorde Aubrey da Federação formaram um pacto secreto — explicou Sica.

— Espere, um pacto secreto? Com o Lorde Aubrey, o atual líder de fato da Federação que se tornou seu chanceler após a Grande Guerra?

— Sim. Não é um homem com quem se deva baixar a guarda — advertiu Hilarion.

Durante a Grande Guerra, Abel ainda vivia no palácio real, então ele tivera acesso a uma grande quantidade de informações sobre os assuntos de outros países. Embora ele não estivesse no mesmo nível de seu irmão mais velho, que já ganhara reputação como um príncipe astuto e inteligente, embora frágil, ele, no entanto, aprendeu o que pôde sobre outras nações.

— Então... o Duque Flitwick quer o trono enquanto Lorde Aubrey quer recuperar o território que a Federação perdeu no conflito? — Abel apresentou um cenário plausível.

— É o que as pessoas estão especulando. O diplomata que fez a acusação cometeu suicídio no complexo onde estava sob custódia protetiva após a primeira audiência, então muito sobre isso ainda permanece um mistério.

— Então o que você está dizendo é que ele foi silenciado.

Um assassinato disfarçado de suicídio para manter alguém quieto... Tal fenômeno aparentemente existe em qualquer mundo.

— Mas... se alguém tão poderoso realmente está envolvido em uma operação desta escala, então... é apenas uma questão de tempo até que percebam que o Pó Negro que você tem contrabandeado é falso. — Hilarion soou preocupado.

— Sim, estamos preparados para essa possibilidade. Uma força-tarefa separada deve estar resgatando Luca neste exato momento. É composta pelos melhores dos melhores sob o comando direto de Fuca. Em última análise, o negócio do Pó Negro foi apenas uma estratégia para ganhar tempo para o resgate... A quantidade que roubamos pode ser usada como prova, mas você também tem que ter em mente que o Pó Negro é um produto ultrassecreto, e muitas pessoas não sabem a quantidade real que o Reino possui. O que significa que ninguém está em posição de investigar o assunto abertamente.

A resposta de Sica só serviu para confirmar ainda mais as preocupações de Hilarion.

Uma vez que o Ministro Fuca tivesse seu irmão de volta, ele poderia estar planejando confrontar o Duque Flitwick usando o Pó Negro real que ele havia movido como prova. Claro, ele poderia estar fazendo isso pelo bem do Reino. No entanto, ao mesmo tempo, ele não deixaria ninguém escapar impune por colocar a mão em seu precioso irmão, mesmo que essa pessoa fosse o irmão mais novo do rei... Então talvez ele estivesse transmitindo essa intenção através de suas maquinações.

Sério mesmo... Tio Raymond...?

Porque da perspectiva do segundo filho do Rei Stafford IV, Abel, o Duque Flitwick também era seu Tio Raymond.

Para começar, Stafford IV e seu irmão mais novo, Raymond, nunca se deram bem. Uma razão que poderia explicar isso era que eles eram meio-irmãos, filhos da primeira e segunda rainhas do rei anterior, respectivamente. Além disso, com Stafford IV tendo dominado tanto a magia quanto a esgrima em um nível elevado, sem mencionar possuir uma habilidade notável como estadista, seu irmão mais novo deve ter tido dificuldade em viver em sua sombra.

Raymond não era incompetente de forma alguma, mas não só lhe faltava a abertura e o charme de Stafford, como também era um tanto introvertido. No entanto, a situação era mais do que suficiente para a família real. Um irmão mais novo era apenas um irmão mais novo. Um herdeiro reserva. Se ele superasse seu irmão mais velho, teria havido um alvoroço na família. E no pior dos cenários, uma guerra civil... Se o Império ou a Federação interviessem, o Reino estaria em perigo de colapso.

Mas mesmo que a família real estivesse satisfeita com o status quo, Raymond era um ser humano. Ele tinha seus próprios sentimentos e orgulho. Sentimentos complicados podiam surgir entre irmãos mesmo em famílias normais. E isso era especialmente verdade para um membro da realeza...

Fuca é o mais velho, Luca é o quarto filho, Saca é o décimo quarto, e Sica, na minha frente, é o décimo quinto... Preciso ter certeza de que entendi todos os nomes deles direito, Abel pensou, e então balançou a cabeça internamente.

Ele parecia estar profundamente pensativo, e de fato estava pensando no irmão mais novo do rei, Raymond... Simultaneamente, enquanto atualizava seu catálogo mental dos nomes dos irmãos, Abel também pode ter sido infectado pela mentalidade de um certo mago da água que ele conhecia...

“Anda com os sábios e te farás sábio, mas o companheiro dos tolos sofrerá o mal.” Um ditado muito apropriado.

Assim que terminaram de verificar todas as informações, o chão tremeu.

— Um terremoto? Meio raro ter um na capital, hein?

— Não acho que tenha sido um terremoto... — Hilarion saiu correndo da sala.

— Sica, Warren, vocês dois fiquem aqui. Vai ser ruim se as pessoas te virem em particular, Sica.

Isso foi a única coisa que Abel disse antes de também sair correndo da sala e subir as escadas para o primeiro andar. Os dois homens saíram do prédio quase ao mesmo tempo. Ambos examinaram os arredores e viram uma coluna de fumaça subindo do leste.

— Deve ser aquilo. — Então Hilarion entoou. — Vento, me carregue em suas mãos. Flutue.

Um instante após sua rápida encarnação, o corpo de Hilarion levitou do chão. Dez metros, vinte metros... então ele subiu mais alto que o Instituto.

— Velho, o que está acontecendo? — Abel gritou de baixo.

Hilarion aproveitou a oportunidade para descer vagarosamente mais uma vez. — É o prédio em que estávamos. Tenho quase certeza de que o Pó Negro causou a explosão. Toda a área circundante está danificada.

— Merda. Lá se vai nossa evidência.

Eles não sabiam quem era o responsável. Poderia até ser um acidente, mas o momento era conveniente demais para isso. Então era natural pensar que a explosão foi acionada por alguém.

— Vou verificar o local mais tarde. Abel, quero que você se concentre em proteger Sica.

— Você quer dizer que há a possibilidade de eles o apagarem também? — Abel respondeu a Hilarion com um aceno de cabeça.

— Exatamente. O que me lembra, espero que a Estrela da Manhã tenha saído em segurança...

Hilarion havia instado Hector, líder do grupo conhecido como Estrela da Manhã, a escapar do esconderijo o mais rápido possível quando ele e a Espada Carmesim estavam partindo...

— Acho que eles estão bem. Podem não ser santos, mas ainda são aventureiros de Rank C. Além disso, o famoso Hilarion em pessoa os avisou. Então, até eles devem ter percebido que algo perigoso cheirava mal ali.

Qualquer aventureiro que se preze e que tenha alcançado o Rank C deveria ser capaz de evitar tal perigo. Como um aventureiro, Abel tinha uma alta opinião de seus companheiros aventureiros.

Os soldados enviados para um acidente geralmente tinham a tarefa de impedir que curiosos se aproximassem da cena. E em situações como esta, onde problemas abundavam na capital real, o número de curiosos era excepcionalmente alto. Como resultado, até mesmo soldados que deveriam estar de folga foram convocados para o local. Mesmo assim, os bisbilhoteiros ainda os superavam em número.

Por essa razão, um tipo de dispositivo alquímico, uma corda vermelha de proibição de entrada, foi usado para isolar a cena. Tocá-la causava um choque que percorria o corpo da pessoa. Era uma corda projetada para impedir que curiosos invadissem a área.

No entanto, uma pessoa idosa agarrou a dita corda, levantou-a e passou por baixo dela para dentro da área. Bem na frente dos olhos dos soldados.

— Ei, velho, você não pode entrar aqui — disse um dos soldados. — Espere — por que a corda não está te dando choque?

— Hmph. Porque eu ajudei a fazê-la, seu idiota. Eu sei como funciona melhor do que ninguém.

— O quê?

— Eu sou Hilarion Baraha, o mago chefe real. Agora seja um bom rapaz e me traga quem estiver no comando.

Todos congelaram por alguns segundos após ouvir sua observação. Então, um dos soldados finalmente entendeu o que ele dissera e correu para cumprir a ordem de Hilarion. Os soldados restantes permaneceram em silêncio, olhando uns para os outros com inquietação. Nenhum deles tinha a confiança para lidar adequadamente com o súbito aparecimento de uma das figuras de autoridade do país. Especialmente porque o único entre eles que falara com ele o tratara como “velho”...

Aquele mesmo soldado parecia mortalmente pálido. Era fácil ver sua palidez mesmo na escuridão da noite.

Um minuto depois, o soldado encarregado da investigação correu em direção a eles.

— Desculpe pela espera, Lorde Hilarion. Sou Lex, vice-capitão da guarnição da capital — Lex se apresentou com uma saudação.

— Obrigado por vir. Sei que você está ocupado, mas se importaria de me dizer o que está acontecendo? Especialmente porque a explosão de antes abalou meu laboratório também. Sem mencionar que todos os pesquisadores não estão conseguindo trabalhar por causa da agitação com a fumaça e tudo mais. Como chefe do Instituto, tenho o dever de lhes dar uma explicação também, sabe. Então, por que você não me diz o que sabe?

— Eu entendo. No momento, temos um investigador no local. No entanto, falando francamente, pouca informação nos foi comunicada ainda...

— Permitam-me intervir — disse alguém, inserindo-se na conversa.

— O próprio Conde Harold Lawrence, eh? Então o Ministro dos Assuntos Internos já estava aqui? Foi rápido.

— Bem, não foi exatamente uma explosão menor, foi? Com o caos irrompendo no palácio real também, eu sabia que não tinha escolha a não ser correr para cá o mais rápido possível — explicou Lawrence em resposta.

Mas nem faz tanto tempo assim, pensou Hilarion. Acho que ele chegou aqui rápido demais porque algo não está se encaixando.

No momento em que essa ponta de suspeita surgiu em um canto da mente de Hilarion, Lawrence continuou. — De acordo com o investigador, algum tipo de feitiço de fogo saiu de controle.

— Não conheço nenhuma magia de fogo capaz de causar uma explosão dessa escala — respondeu Hilarion, parecendo totalmente não convencido pelas descobertas do investigador.

— Eu, por exemplo, acho difícil de acreditar que exista um feitiço do qual você não tenha conhecimento, Lorde Hilarion. Dito isso, outras possibilidades existem. Talvez o perpetrador tenha falhado em executar um feitiço fundindo alquimia ou vários deles ativaram algum tipo de magia simultaneamente e perderam o controle.

— Hm. Fundindo alquimia com magia, eh...

Hilarion mergulhou em pensamentos. Claro, ele sabia que a explosão fora na verdade causada pelo Pó Negro. No entanto, a recentemente anunciada “magia de fusão alquímica” em si era um tópico de pesquisa que o interessava também. Como tal, ele a estudara com muito mais profundidade do que magos comuns. Por causa disso, Hilarion sabia que o estado atual da magia de fusão alquímica não poderia produzir aquele nível de poder destrutivo. Mas não adiantava seguir com essa discussão. Ele tinha algo mais importante para verificar agora.

— Acho que entendi a ideia geral. Ah, e quanto a feridos ou mortos? Este prédio parece uma bagunça, sabe. Vejo alguns danos a outros prédios nas proximidades também.

— Está em um estado terrível, de fato. Os restos de dez pessoas foram descobertos no primeiro andar deste prédio. Com base nos itens espalhados, acreditamos que eram aventureiros. Isso por si só é uma evidência para nossa teoria da magia de fusão alquímica.

Exceto que não há malditos aventureiros que possam sequer usá-la ainda! Então isso é literalmente impossível! Hilarion enfureceu-se em sua mente.

— Dez aventureiros, hein? Você sabe quem eles são?

— Não, ainda não. Interessa a você saber suas identidades?

Por um momento, a atitude de Harold Lawrence mudou... ou assim pareceu a Hilarion. Meter o nariz demais nas coisas seria perigoso, então ele decidiu agir com cautela.

— Sim. Tenho tentado recrutar aventureiros talentosos para tentarem a sorte na magia de fusão no Instituto depois que se aposentarem. Especialmente se eles já chamaram minha atenção no passado... Infelizmente, como estão mortos, precisarei encontrar substitutos o mais rápido possível — respondeu Hilarion com indiferença.

— Entendo seu ponto. A equipe da guilda de aventureiros está os identificando enquanto falamos. Não deve demorar muito para que eles apresentem seu relatório...

Foi quando um homem se aproximou deles. Hilarion o conhecia também: Josiah Onsager, vice-mestre da guilda de aventureiros da capital real.

— Lorde Ministro, terminamos de identificar os corpos. Oh, Lorde Hilarion. Como vai?

— Bem, bem, Josiah. Faz tempo, hein?

— Diga-nos quem eles eram, Sr. Onsager — pediu Lawrence.

Josiah fez uma careta. — Os aventureiros eram definitivamente daqui. Seis membros do grupo de Rank C Garra de Dragão, e quatro membros do grupo de Rank D Sombra Negra.

Josiah estava claramente de coração partido com a morte de seus amigos. Quanto a Hilarion, ele ficou aliviado ao saber que a Estrela da Manhã não fora pega na explosão.

Os seis devem ter sido os aventureiros no quartel. Então os quatro provavelmente voltaram depois que saímos. Apenas um azar terrível para todos eles...

Hilarion lamentou pelas pobres almas.

— É mesmo? Que terrivelmente lamentável. Obrigado por seu serviço. Assim que completarmos nossa investigação e cuidarmos das formalidades, devolveremos os corpos para a guilda. Por favor, seja paciente enquanto isso.

— Entendido. Agradeço a você também.

Sua conversa com Harold Lawrence terminada, Josiah saiu, caminhando em direção à guilda.

— Acho que está na hora de eu voltar também. Desculpe por qualquer incômodo, Lorde Cortesia.

— Incômodo nenhum.

A multidão de curiosos naturalmente se abriu para ele quando ele caminhou em direção a eles. Então ele estava a caminho de volta para o Instituto.

Uma luz enigmática brilhou brevemente nos olhos de Lawrence enquanto ele observava Hilarion partir. Então ele voltou aos seus deveres no local da explosão.

No dia seguinte à explosão na capital real, o Príncipe Willie, o Mestre Rodrigo e sua comitiva de escoltas, que incluía Ryo, continuavam sua jornada em direção à capital pela Segunda Estrada Real do Reino. Como esta estrada nacional passava por muitas cidades e vilas, eles geralmente passavam a noite em uma pousada em algum lugar. Era maravilhoso não ter que ficar de vigia em turnos à noite enquanto acampavam sob as estrelas. Em troca, eles tinham que avançar bem na estrada durante o dia.

Desde sua estadia em Wingston, a maior cidade do leste, Cohn geralmente atuava como cocheiro. Este homem não era apenas um aventureiro hábil, mas também provou ser um excelente cocheiro. Ryo presumiu, sem base, que Cohn se treinara mentalmente desde a infância. Tais funcionários capazes valiam seu peso em ouro. Embora Ryo pensasse arrogantemente essas coisas, ele era tecnicamente subordinado de Cohn.

E talvez precisamente por Cohn ser um homem tão habilidoso, ele ouviu tanto os sons de espadas se chocando levados pelo vento quanto o relinchar inquieto dos cavalos.

— Ei, algo está acontecendo na floresta, em direção ao norte — ele chamou os três indivíduos lá dentro depois de deslizar a divisória do assento do cocheiro. Os guardas e aventureiros ao redor do veículo imediatamente entraram em alerta máximo.

— Sim, também consigo ouvir. Cheira a problema para mim. Vossa Alteza, o que sugere que façamos? — Ryo já tinha um palpite de qual seria a resposta do príncipe, mas perguntou mesmo assim.

— Se alguém estiver sob ataque, eu gostaria muito de ajudá-los...

Ninguém veio em seu auxílio quando estavam sob fogo. Nenhuma surpresa nisso. Afinal, ninguém queria se meter voluntariamente em problemas. Ou talvez ninguém mais estivesse passando pela estrada então... No entanto, se outros estivessem de fato em apuros como eles mesmos estiveram alguns dias atrás, ele queria dar uma mão... Assim pensou o Príncipe Willie.

Havia uma chance de ferimentos ou perda de vidas — mas ele talvez não tivesse pensado tão longe. No entanto, os adultos ao redor do jovem príncipe se maravilharam com sua natureza atenciosa, o que explicava por que não queriam que ele se tornasse alguém que se sentisse no direito de ser servido e provido simplesmente por ser da realeza.

— Entendido. Então nós, os seis aventureiros, daremos uma olhada. Ryo e os guardas ficarão com Vossa Alteza — disse Cohn, distribuindo suas ordens que refletiam sua confiança absoluta em Ryo.

O mais importante era garantir a segurança do Príncipe Willie. E apenas Ryo poderia garanti-la absolutamente. Foi por isso que Cohn deixou Ryo cuidando do jovem enquanto ele e os outros aventureiros enfrentavam o desconhecido na floresta.

— Protegerei Vossa Alteza. Sem falta — prometeu Ryo a Cohn.

Quando Ryo ativou o Sonar Passivo para investigar a área, ele descobriu cerca de dez pessoas se movendo a quatrocentos metros de distância. O Sonar Passivo mal funcionava a essa distância em lugares como este, densos de árvores. Talvez por isso Cohn, com sua audição aguçada, tenha ouvido os ruídos primeiro, já que ele estava sentado fora da carruagem enquanto Ryo estava dentro. Que ouvidos incríveis o homem tinha! Depois de lhe dizer a distância e o número de pessoas, Cohn assentiu, depois saiu correndo em sua direção geral com os outros aventureiros.

A carruagem fora estacionada na sombra de uma árvore ao longo da estrada. Ryo esperava no teto enquanto o Príncipe Willie e o Mestre Rodrigo permaneciam dentro. Com base no que o Sonar Passivo lhe dizia, Cohn esperou e observou o grupo de estranhos por um tempo antes de atacar. Mas não era isso que preocupava Ryo.

Parece que há cinco pessoas em outro lugar...?

Eles se esgueiraram silenciosamente para um local a duzentos metros da cena da batalha. No entanto, os cinco não se moviam. Talvez estivessem observando.

Será que são apenas aleatórios que não têm nada a ver com o grupo original e vieram assistir? Tentando ver como a situação se desenrola? É possível. Não querer se envolver em algo irritante, mas ainda sentir curiosidade sobre isso... Pessoas são pessoas, hm?

Enquanto isso, parecia que o assunto estava resolvido. Todos os seis aventureiros estavam ilesos. Além deles, apenas outros dois estavam vivos.

— Vossa Alteza, eles estão voltando com dois indivíduos que sobreviveram.

— Sério?! Fico tão feliz que estejam seguros. E que conseguiram ajudar... — Então o Príncipe Willie parou de falar.

— Meu senhor?

— Ryo, meu julgamento foi errado?

Ele decidira colocar a vida de seu povo em perigo para resgatar outros. Essa realidade era provavelmente o que o preocupava.

— Vossa Alteza, não há resposta certa ou errada em dilemas como este. Em algumas ocasiões, sua decisão seria a correta, e em outras, você seria criticado por ela. No entanto, qualquer que seja a escolha que você faça, você deve estar preparado para assumir a responsabilidade por ela até o fim. E, na remota chance de algo acontecer, você também tem que estar pronto para agir.

— O que você quer dizer?

— Por exemplo, digamos que Cohn e os outros tivessem morrido desta vez. O que você faria então? Especialmente por seus familiares sobreviventes que podem estar morando no exterior? Ou e se eles tivessem sido gravemente feridos? Você os deixaria para trás e continuaria em frente para a capital do Reino? Dependendo da gravidade de seus ferimentos, você poderia até ter sido forçado a fazer exatamente isso. Ou... se as pessoas que eles foram ajudar nos atacassem em vez disso... assim como da última vez.

O Príncipe Willie enrijeceu um pouco ao ouvir tudo aquilo. Depois de resgatá-lo da Seita dos Assassinos, Ryo explicara por que eles o tinham como alvo em primeiro lugar: o líder deles queria o sangue do príncipe. Na época, Willie não sentiu medo, mas o choque de saber que seu corpo fora um alvo não se dissipou tão facilmente.

Sabendo de tudo isso, Ryo lhe propôs todas essas hipóteses. Isso era algo que o jovem príncipe tinha que superar. E Ryo decidira que ele conseguiria.

— O que você faria se eles fossem vilões? Mesmo que os derrotemos aqui, o que você faria se outros continuassem a te atacar? Há muito em que você precisa pensar. Daqui para frente, acredito que é vital para você pensar sobre esse tipo de coisa para que seja capaz de tomar as decisões que precisa.

— Que situação difícil...

— Não há como negar isso. Não é como se você tivesse que se tornar capaz imediatamente. Apenas comece a tomar consciência de coisas como esta aos poucos...

Prever o resultado e então tomar uma decisão. Não importa em que mundo, que situação ou em que posição você esteja, você sempre passará por isso.

Aos dezesseis anos, o Príncipe Willie ainda era jovem, mas não era uma má ideia para ele ganhar essa experiência agora. Ryo acreditava nisso.

Assim que Cohn e seu bando de aventureiros, juntamente com os outros dois, entraram no campo de visão daqueles dentro da carruagem, o grupo de cinco que estava observando e esperando moveu-se para perseguir Cohn e o resto deles.

Ryo levantou-se no teto da carruagem, seu olhar focado nos oito. Os dois indivíduos que eles resgataram estavam feridos e não conseguiam correr rapidamente.

Muralha de Gelo 8.

Ele construiu a muralha de gelo para protegê-los caso os cinco estranhos realmente atacassem. Dentro dos confins de uma floresta, qualquer tipo de ataque de longo alcance, seja com flechas ou magia, seria incrivelmente difícil de executar... Mas não impossível.

É melhor prevenir do que remediar. Era melhor dar o primeiro passo.

E assim como Ryo esperava, duas flechas voaram do grupo de cinco. Elas se precipitaram diretamente para os pescoços das duas pessoas que Cohn e seus aventureiros haviam resgatado...

Klang. Klang. A muralha de gelo repeliu as flechas antes que elas encontrassem seus alvos.

A dupla sob ataque pareceu atordoada com o som alto de algo colidindo com uma superfície dura atrás deles. Quando se viraram bruscamente, viram as flechas caídas no chão.

— Por aqui! — gritou Ryo de cima da carruagem.

Sem um momento de hesitação, eles se dirigiram a ele. Cohn e os outros chegaram quase ao mesmo tempo.

— Ryo?

— Há outros cinco, separados daqueles que vocês derrubaram — Ryo respondeu à pergunta não dita de Cohn.

Sua resposta surpreendeu a todos, incluindo o Príncipe Willie e o Mestre Rodrigo dentro do veículo.

— Aquelas duas flechas que eles dispararam vieram de uma distância de duzentos metros, traçando um curso direto para os pescoços desses dois. Os arqueiros são terrivelmente habilidosos.

— Mirando em seus pescoços de tão longe...? Isso os classificaria entre os melhores de qualquer país... — disse Cohn com um aceno de cabeça. Era um tiro verdadeiramente difícil.

O inimigo se moveu enquanto o grupo conversava.

— Quatro deles se separaram, dois para a esquerda e dois para a direita. Eles estão se aproximando. Apenas um deles não se moveu do mesmo lugar. Vou interceptá-los com minha muralha de gelo. Todos, posicionem-se ao redor da carruagem.

Com suas palavras, todos os oito ficaram de costas para a carruagem. Willie enfiou a cabeça para fora de uma janela.

— Cohn, eu te darei cobertura. Todos os outros, fiquem na defensiva. Pacote Muralha de Gelo de 10 Camadas.

Com exceção de Cohn, uma muralha de gelo cercou o grupo em todas as direções.

— Protejam esses dois — ele latiu para os outros aventureiros. Era óbvio que ele pretendia lidar com seus agressores sozinho. Suas defesas eram perfeitas. Tudo o que restava...

— Vou parar a dupla que vem da direita, então deixarei os dois que vêm da esquerda para você, Cohn.

— Entendido — respondeu Cohn às instruções de Ryo.

Considerando que agora temos dois estranhos em nosso meio, não devo usar magia que seja muito chamativa. Isso significa... Uma Muralha de Gelo para detê-los!

— Que diabos? Há uma parede invisível aqui — disse uma voz confusa, vindo da direita deles.

Ryo conseguira imobilizá-los envolvendo a dupla em uma Muralha de Gelo. Em seguida, os dois da esquerda.

— Eles estão quase em cima de nós!

Ao sinal de Ryo, Cohn segurou sua espada em prontidão.

Berrando, dois atacantes avançaram.

— Grrraaarrr!!! Uou!

Mas antes que pudessem chegar ao alcance de Cohn... o primeiro escorregou.

Pista de Gelo.

— Gaaaaaah... Dwah!

E então... o segundo também, caindo dramaticamente.

Por um momento, Cohn não conseguiu compreender o que havia acontecido. No entanto, ele agiu quase reflexivamente ao ver os homens caídos. Ele correu em direção a eles e chutou um na cabeça, nocauteando-o. Ele fez a mesma coisa com o outro homem quando ele tentou se levantar.

— Certo, agora os dois da direita! — Ryo gritou imediatamente.

— Deixe comigo! — Cohn moveu-se para o lado direito da carruagem e preparou sua espada novamente.

Muralha de Gelo, liberar.

Quase instantaneamente, o outro par de atacantes avançou.

— Haaaah!!! Hrngh!

Assim como seus camaradas, o primeiro escorregou e caiu na frente de Cohn, que executou um chute explosivo nele sem demora.

— Come merdaa...! Não—

O último também escorregou e caiu, e depois também se viu chutado na cabeça.

Assim, a batalha terminou.

Espere um minuto, e o quinto...? Quando diabos ele desapareceu?

Ryo não conseguia detectar sua presença no alcance de seu Sonar Passivo.

— Os quatro que nos atacaram estão todos equipados para combate corpo a corpo, o que significa... que o quinto deve ter sido o arqueiro capaz de disparar em sucessão a alta velocidade, com precisão para arrancar — observou Ryo enquanto estudava seus equipamentos.

— Essa é... uma conclusão muito lógica. Que arqueiro ridiculamente talentoso — respondeu Cohn com um pequeno aceno de cabeça.

Ele e os outros aventureiros amarraram os quatro homens com carretéis de corda que pegaram da carruagem. Enquanto isso, Ryo distribuiu poções que comprara em uma cidade para as duas pessoas que haviam sido perseguidas.

— Você tem minha gratidão.

— Obrigado.

Cada um o agradeceu.

Em meio a tudo isso, o Príncipe Willie e o Mestre Rodrigo desembarcaram da carruagem.

— Permitam-me apresentar Sua Alteza Willie da Monarquia de Joux — disse este último.

Os olhos dos estranhos se arregalaram de surpresa. A julgar por suas expressões, eles haviam assumido, por suas roupas finas, que ele era da aristocracia... mas pensar que ele era na verdade um príncipe.

— E-Eu sou Matthew e este é Luca — disse um deles, e então ambos baixaram a cabeça respeitosamente para Willie.

Rodrigo reconheceu seus cumprimentos e passou a apresentar todos os outros em seu grupo, incluindo Ryo.

Com as apresentações terminadas, naturalmente, a próxima pergunta que surgiu foi: "Por que vocês estavam lutando com eles?" Matthew olhou para Luca, que assentiu, dando sua permissão silenciosa. Então Matthew fez a pergunta.

— A verdade é que fazíamos parte da força-tarefa enviada para resgatar Luca, que foi sequestrado pela Federação de Handalieu.

As palavras “sequestrado” e “resgate” disseram a Ryo que eles se meteram em um grande imbróglio. Ele suspirou baixinho. Rodrigo e Cohn devem ter sentido o mesmo, mas como esperado de seu treinamento, o rosto de nenhum dos dois traiu sua resignação.

— Estávamos a caminho da capital real, mas nossos perseguidores nos sobrepujaram e agora sou o único que restou da minha unidade...

Então... aos olhos do Reino, esses dois provavelmente não são criminosos.

Ryo se viu secretamente aliviado com o pensamento. A Federação poderia considerá-los infratores da lei, mas, no mínimo, esses homens poderiam entrar na capital real do Reino de Knightley sem problemas.

— Mestre Rodrigo, gostaria de uma palavra em particular.

Então Cohn e Rodrigo se afastaram um pouco da carruagem para conversar. Devem estar discutindo o que fazer com os dois estranhos. Se eles fossem considerados como escoltas adicionais, bem, quanto mais, melhor. Embora a Seita dos Assassinos tivesse parado de atacá-los, eles não eram os únicos grupos atrás de Willie. No entanto, o fato é que eles também estavam sendo perseguidos por estrangeiros. Se fossem aceitos como parte da comitiva de Willie, havia uma grande chance de problemas.

A próxima cidade nesta estrada era Lago de Pedra, a duas horas de caminhada daqui. De lá, seriam necessários mais dois dias para chegar ao Palácio de Cristal, a capital real.

Se for uma questão de escolha, levar em conta os sentimentos de Willie provavelmente significará... que levaremos os dois.

Ryo pensou consigo mesmo.

E no final, Rodrigo e Cohn sugeriram à dupla que acompanhasse seu grupo na jornada para a capital.

— Estamos, é claro, gratos pela oferta. Infelizmente...

— Estamos sendo caçados. As chances são boas de que venham atrás de nós novamente.

Apesar de sua gratidão, tanto Matthew quanto Luca expressaram suas preocupações.

— Deixe que nós cuidemos disso se ou quando chegar a hora.

O Príncipe Willie assentiu feliz em resposta à sugestão do Mestre Rodrigo.

Eles agora tinham um plano de ação. A única coisa que restava era decidir o que fazer com os quatro cativos.

— Eles não me parecem aventureiros — murmurou Ryo para ninguém em particular.

— Oh? É mesmo? — observou o Príncipe Willie com a cabeça inclinada curiosamente.

Ryo disse isso mesmo que seus equipamentos se assemelhassem aos de aventureiros especializados em combate corpo a corpo...

— Não sei como descrever, mas... simplesmente não sinto a aura grisalha característica dos aventureiros neles.

Então Ryo olhou sub-repticiamente para Cohn.

— Maldito seja, Ryo — resmungou Cohn. — Por que você olhou para mim agora?

Ryo desviou o olhar. — Por nada...

— Entendo... — murmurou o Sr. Rodrigo pensativamente enquanto comparava os quatro cativos com Cohn.

— Ah, qual é, você também não, Sr. Rodrigo! — lamentou Cohn.

— A diferença é a barba por fazer, sim? — comentou Rodrigo, seus olhos ainda nos atacantes.

— Ohhh... Esse é um ponto muito bom. Só agora estou percebendo que muitos aventureiros não fazem a barba, assim como Cohn. Em contraste, esses quatro claramente se cuidam adequadamente. Quase como se fossem cavaleiros...

Todos os cavaleiros de Lune sempre prestavam muita atenção à sua aparência. Ryo imaginara os rostos de alguns que conhecia graças às suas frequentes batalhas simuladas com Sera no campo de treinamento da ordem.

— Posando de aventureiros apesar de terem o ar de cavaleiros... Algo cheira mal aqui — disse Cohn sem rodeios.

Sua carruagem estava estacionada na beira da estrada. Não é preciso dizer que os transeuntes olhavam curiosamente para os cativos amarrados, mesmo enquanto seguiam silenciosamente seu caminho. Aqueles que enfiavam o pescoço em negócios claramente problemáticos eram poucos e raros.

Então um dos quatro finalmente abriu os olhos.

— Descansou bem, amigo? — Cohn falou com ele.

Quando o homem percebeu que suas mãos e pés estavam amarrados, e que seus camaradas estavam no mesmo estado, ele apertou os lábios. — Hmph.

— Acho que você entende a situação, hein? Então, por que não nos diz quem exatamente você é?

Ele, é claro, permaneceu em silêncio.

— Sabe, não sou bom nesse tipo de coisa... Ei, Ryo, você tem estômago para as coisas mais difíceis da vida, certo? — O tom de Cohn era tal que ele poderia muito bem estar dizendo: "Você adora álcool, certo?"

— Realmente não entendo por que você está me metendo nisso de repente, mas tudo bem, vou aceitar. A verdade é que também tenho dificuldade com esse tipo de papel. Qual é a palavra? Interrogador? Torturador? Não faz muito tempo, tentei usar uma serra de gelo com outro cativo, mas... digamos que não fiz um bom trabalho.

Enquanto falava, Ryo lembrou-se de seu tempo com Abel quando se infiltraram no Grão-Ducado de Volturino e forçaram os soldados que capturaram a confessar a verdade. Ele estava apenas falando de seu fracasso, então por que o homem estava tremendo? Cohn também estava carrancudo.

Talvez eles tivessem interpretado sua história como "tortura que deu errado". De uma perspectiva geral, então, isso significava que ele permitira que o alvo morresse sem extrair as informações necessárias. Era vital escolher as palavras com cuidado.

— No entanto, aprendi com meus erros, então desta vez, gostaria de tentar outros métodos. Por exemplo, enfiar uma agulha de gelo fina no seu olho ou arrancar seu coração congelado do peito e mostrá-lo a você... Sim, acredito que isso funcionará muito bem.

Naturalmente, Ryo estava apenas preparando o palco. Ele não estava planejando realmente torturar o homem, apenas discutindo a melhor forma de apresentá-lo. Por alguma razão, ele falou alto o suficiente para que o alvo em questão o ouvisse... Mas isso não passou de um descuido descuidado de sua parte.

— Uhhh, Ryo, acho que isso pode ser exagero... — Cohn aparentemente entendeu mal e realmente acreditou que Ryo iria torturar o homem.

Quanto ao homem em questão, ele ficara mortalmente pálido.

— Ok, admito que a coisa do coração é um pouco demais, mas acredito firmemente que esfaqueá-lo no olho nos dará resultados. Supostamente, não dói de verdade. Apenas uma pequena picada e a pessoa fica traumatizada para o resto da vida, incapaz de esquecer a experiência.

Neste ponto, os dentes do homem começaram a bater e os músculos de seu rosto congelaram — e não por causa da magia da água de Ryo. Ora, ele nunca faria algo tão desumano! Longe de tal pensamento.

— Ei, eu também não gosto de machucar as pessoas, então por que você não nos diz quem você é e sob as ordens de quem está operando? Se o fizer, tenho quase certeza de que ele, sabe, não vai te esfaquear no olho — disse Cohn gentilmente, agachando-se para ficar no nível dos olhos do homem.

— E-Eu não posso te dizer... — As palavras, suas primeiras até agora, pareciam ser arrancadas da garganta do homem.

Enquanto isso, Ryo estava no processo de gerar, e depois apagar, uma fina agulha de gelo da ponta de seu dedo. Repetidamente. O barulho dos dentes do homem ficou mais alto enquanto ele observava pelo canto do olho.

— Bem, que pena. Ryo!

Ryo deu um passo mais perto.

— E-Espere, por favor! — o homem gritou.

— O que foi? Você não tem muito tempo até que ele esteja em cima de você.

— E-Eu quero te dizer, mas eu não posso... Então, por favor, espere até que nosso capitão — nosso líder, quero dizer — acorde.

Ele disse “capitão”, o que significa... que provavelmente não estou errado sobre eles serem cavaleiros ou algo semelhante.

Ryo optou por ficar quieto por compaixão de samurai.

— Então vocês são cavaleiros e não aventureiros, certo? — Cohn, no entanto, não era um samurai.

O homem arregalou os olhos, sem palavras.

Nesse momento, o capitão deles — não, o homem que os outros evidentemente consideravam seu líder — recuperou a consciência. Quase no mesmo instante, o Príncipe Willie notou um grupo de cavaleiros vindo em direção a eles na estrada do oeste. Ele ergueu a voz em aviso.

— Cavaleiros estão se aproximando de nós.

Mesmo à distância, estava claro que eram soldados da guarnição de uma cidade. Um transeunte no caminho deve tê-los avisado sobre o grupo de Ryo.

Ou o arqueiro que escapou os convocou...? Nesse caso, seriam inimigos... Existe até a possibilidade de serem corruptos, como a situação em Llandewi...

Ryo lembrou-se amargamente de Llandewi, a cidade onde a caravana de Gekko ficara para a noite e fora emboscada. O vice-capitão da ordem dos cavaleiros de lá já estava nos bolsos da Seita dos Assassinos e levara embora os membros da Seita que eles capturaram.

— Somos soldados de Lago de Pedra — um dos cavaleiros gritou — e estamos aqui porque recebemos um relatório de uma briga na estrada.

— Que descortesia! Este é Sua Alteza Willie, um príncipe da Monarquia de Joux. Que ultraje de vocês o questionarem de cima de suas montarias! É isso que passa por boas maneiras no Reino de Knightley?! — A repreensão afiada do Sr. Rodrigo atingiu os soldados como um chicote.

— O quê...?

— Nossas desculpas!

Com essas observações, os oito desmontaram.

— Por favor, perdoem-nos. Não sabíamos que estávamos na presença da realeza de Joux. Pedindo perdão, mas você seria capaz de apresentar documentos que atestem sua identidade? — Aquele que parecia ser o oficial comandante dirigiu-se a eles educadamente desta vez, uma reviravolta completa em relação a antes.

— Aqui.

Willie entregou-lhe o colar em volta do pescoço. O CO o virou, depois retirou um dispositivo alquímico do tamanho de um cartão de visita de dentro de suas roupas e o segurou sobre o colar.

— Confirmei sua identidade — disse ele um momento depois. — Permita-me estender minhas mais profundas desculpas mais uma vez por antes. — Então ele devolveu o colar ao jovem príncipe.

— Águas passadas, contanto que você entenda. — Willie parecia imperturbável.

Mesmo em situações como esta, ele manteve sua dignidade. Como esperado de alguém que foi criado como um príncipe. Ryo ficou impressionado.

— Em suma, essas pessoas ousaram levantar a mão contra a realeza. Entendi bem? — perguntou o oficial comandante, olhando para os quatro cativos sentados no chão.

— Não...! Espere. Nós não sabíamos — Nós não queríamos! — o líder dos atacantes, que acordara momentos antes, gritou em pânico.

Não é de se admirar. Independentemente do tamanho de uma nação, grande ou pequena, um atentado contra a vida de um de seus membros da realeza significava a pena de morte. Em alguns casos, as famílias dos perpetradores também eram executadas.

— Só porque você não queria não muda o fato de que você ainda nos atacou e, por extensão, a ele — enfatizou Cohn.

Os dois homens estavam pálidos.

— E-Espere, por favor. Olhe para o brasão na minha bainha — suplicou o líder dos quatro cativos.

O capitão de Lago de Pedra fez um aceno de queixo em comando silencioso para um de seus subordinados, que pegou a bainha e a trouxe para ele. Sua expressão mudou no segundo em que a viu.

— Este é um brasão ducal... — Então, com um suspiro de compreensão, ele parou de falar.

Um brasão ducal? Então eles são cavaleiros servindo a um duque em algum lugar?

Ryo pensou consigo mesmo. Claro, ele não sabia qual duque. Mesmo que ouvisse o nome, tinha certeza de que não o conheceria.

— Viu? Agora você entende, não é? Não somos pessoas suspeitas. Isso é apenas um erro, um mal-entendido. Como soldados de Lago de Pedra, vocês compreendem o significado desse brasão, certo? — O homem capturado parecia ser bastante habilidoso com a língua, porque o capitão parecia extremamente perturbado com o brasão ducal.

Isso também não foi surpresa. Embora Willie fosse um príncipe, a Monarquia de Joux era um país minúsculo que não compartilhava fronteira com o Reino de Knightley. Era inevitável que o equilíbrio de poder entre um príncipe de um país distante e aqueles que possuíam um brasão ducal da própria nação da guarnição começasse a pender a favor dos cativos.

— Senhor Capitão. Permitiria que eu inspecionasse essa bainha por um momento? — O Príncipe Willie falou educadamente com o homem hesitante.

— Hã? Ah, sim, claro.

Ele a entregou ao príncipe, que estudou a bainha brevemente antes de devolvê-la.

— Eu entendo por que você está preocupado, Capitão. Não há muito que eu possa fazer nesta situação, considerando que estes homens estão a serviço do Duque Flitwick.

— E-Então Vossa Alteza também conhece este brasão — respondeu o capitão da guarnição, uma enorme gota de suor escorrendo por seu rosto. Ele provavelmente achou inesperado que um príncipe de uma nação tão distante reconhecesse qualquer brasão do Reino de Knightley, muito menos de uma casa ducal.

— Conheço. Pertence a Lorde Raymond, o irmão mais novo do rei, sim?

As palavras de Willie causaram uma onda de choque em todos os reunidos aqui. Luca foi o mais agitado. Não era medo em seu rosto, mas algo próximo a — não, era raiva.

— Não posso comentar sobre o príncipe ou sua comitiva, mas aqueles dois são criminosos. Precisamos levá-los de volta à capital do ducado, Carlyle — disse o líder dos cativos ao oficial comandante da guarnição. Por “aqueles dois”, ele obviamente se referia a Matthew e Luca.

A reação do Príncipe Willie foi quase violenta.

— Recuso-me a permitir. Eles são meus assistentes agora. Como um príncipe da Monarquia de Joux, eu formalmente rejeito essa exigência.

O príncipe praticamente ardia de raiva. Era a primeira vez que Ryo e Cohn o viam assim. De certa forma, porém, não se surpreenderam. Ele arriscara a vida de Cohn e dos outros aventureiros para resgatar os dois homens, então abandoná-los agora desperdiçaria seus esforços. E tal perspectiva era claramente inaceitável para Sua Alteza.

— Vossa Alteza, eu entendo o que está dizendo, mas...

O CO da guarnição ainda parecia inclinado a acreditar nos homens capturados. Homens do Duque Flitwick.

Pessoas como ele se curvam à autoridade ou à violência. Embora eu suponha que ambas sejam formas de poder... Eu gostaria de conhecer alguém importante também, para que pudessem nos ajudar a sair desta enrascada... Infelizmente, não conheço ninguém em Lago de Pedra ou na capital real.

Ryo lamentou sua falta de conexões. Mas quase imediatamente, ele se lembrou de algo.

Não, espere! Eu conheço alguém na capital?!

Ele se aproximou do capitão e sussurrou para ele. — Lorde Capitão, a melhor linha de ação aqui não seria convocar um oficial de alta patente e deixá-lo julgar?

Se tivessem a chance, muitos aproveitariam a oportunidade para escapar do fardo de uma decisão difícil.

Ryo pressionou sua vantagem. — Este é um problema envolvendo um príncipe e um duque. Quaisquer decisões descuidadas tomadas agora podem levar a mais problemas mais tarde.

— E-Entendo. Acredito que você tem razão — concedeu o capitão da guarnição.

— Ei, de jeito nenhum vamos deixar isso acontecer!

— Vilões devem ficar quietos. Caixão de Gelo 4.

Antes que o líder dos cativos pudesse dizer mais alguma coisa, Ryo envolveu todos os quatro em caixões de gelo.

— O que no mundo...?

— Não podemos deixar nossos agressores escaparem, veja bem. Não se preocupe. Eles ainda estão vivos.

— O-Oh, bem, nesse caso...

O oficial comandante da guarnição foi completamente consumido pela demonstração de “violência” de Ryo.

Autoridade é tudo o que resta agora.

— Certo, sobre o tópico de quem exatamente convocar. Você não concorda que deveria ser alguém no nível de um líder nacional?

— S-Sim, claro... No entanto, são todos pessoas incrivelmente ocupadas, então...

— Com sua permissão, sugiro o Mestre Arthur Berasus, conselheiro especial do Departamento de Magos Reais. Se o pedido vier de mim, acredito que ele virá imediatamente da capital. O que você me diz?

— V-Você conhece — quer dizer — você conhece o Conselheiro Berasus?

Eles retornaram juntos do Nível 40 da masmorra de Lune.

— Sim. Diga a ele que este é um pedido de Ryo, um aventureiro de Lune, para acelerar as coisas.

— Surpreendente! Mas... e se ele não estiver atualmente em residência lá? O que então?

Não conheço mais ninguém... o que me deixa sem escolha a não ser confiar na rede de Abel.

— Nesse caso, por favor, peça pelo Mestre Hilarion. Você pode dizer a ele que o pedido é de Ryo, amigo de Abel.

— O quê?! Você conhece Lorde Hilarion também?! Não diga mais nada. Escutem! Cavalgue agora mesmo para a capital. Um de vocês vá ao Conselheiro Berasus e outro a Lorde Hilarion.

Hmmm... Acho que esse Hilarion que mandou tantas cartas para Abel é na verdade um figurão?

— Enquanto isso, peço que todos prossigam para Lago de Pedra. Faríamos vocês esperarem lá pela chegada do Conselheiro Berasus ou de Lorde Hilarion. Quanto a esses indivíduos congelados...

— Deixe-os comigo. — E com isso, Ryo preparou quatro de seus Carros para transportá-los.

Cohn e Matthew sentaram-se no assento do cocheiro da carruagem fechada, enquanto o Príncipe Willie, o Sr. Rodrigo, Luca e Ryo sentaram-se na cabine. Os quatro Carros que transportavam os caixões de gelo seguiam atrás do veículo. Os guarda-costas e aventureiros do príncipe, bem como os soldados a cavalo, cercavam a carruagem protetoramente na frente e atrás. Assim, o grupo dirigiu-se a Lago de Pedra nesta formação.

— Muito obrigado, Ryo, por me tolerar. No calor do momento, tudo o que consegui pensar em dizer foi que você é meu assistente... — disse Willie, se desculpando.

— Não há problema algum, Vossa Alteza. Você enviou seus homens para resgatar esses dois sabendo dos perigos potenciais. Tenho certeza de que pensou que simplesmente entregá-los sem sequer uma discussão teria sido um grande desserviço a Cohn e aos outros aventureiros, certo? — Ryo entendeu que o coração do garoto estava no lugar certo.

— Realmente sinto muito por causar todo esse problema a todos. — Desta vez, Luca falou com a cabeça baixa.

— Mestre Luca, o fato de você ter sido perseguido mesmo depois de escapar da Federação, e além disso, alvo do irmão mais novo do rei, me faz pensar que você é um indivíduo muito importante, eh? — observou o Sr. Rodrigo suavemente. O que ele deixou implícito foi: "Talvez seja hora de nos dizer quem você realmente é e a verdade de suas circunstâncias."

Luca inclinou a cabeça ligeiramente em reconhecimento e começou a falar.

— Sou o irmão mais novo de Fuca, Ministro das Finanças do Reino de Knightley.

Ministro das Finanças Fuca! Que nome infeliz...

Com a menção do nome, a primeira coisa que surgiu na cabeça de Ryo foi o nome de um personagem dos Romances de d'Artagnan de Alexandre Dumas. Especificamente Fouquet, o Superintendente das Finanças. Tragicamente, ele acaba sendo o peão de René d'Herblay, outrora Aramis dos Três Mosqueteiros, e seu esquema para tomar o controle da França. Claro, Fouquet realmente existiu na vida real.

Mesmo enquanto os pensamentos rudes giravam na mente de Ryo, Luca continuou explicando.

— O Príncipe Raymond formou um pacto secreto com o Chanceler Aubrey da Federação de Handalieu. E, infelizmente para mim, descobri isso por puro acidente. Para forçar meu irmão mais velho a se alinhar com eles, eles me levaram como cativo para a Federação. Digamos que não pretendo passar por essa experiência amarga novamente tão cedo.

Se Fuca é o Ministro das Finanças, talvez haja uma contraparte aqui idêntica ao Controlador-Geral das Finanças Colbert também... Falando em Colbert, ele é uma pessoa famosa que aparece em negrito nos livros de história mundial do ensino médio em conjunto com as políticas mercantilistas...

Embora a imaginação de Ryo tenha se expandido ainda mais, ele manteve a boca fechada. Enquanto isso, Willie e Rodrigo ouviam atentamente a história de Luca.

— Matthew e sua equipe trabalham diretamente sob meu irmão. Foram eles que me resgataram.

— Com base no que ouvi, a relação entre o Rei Stafford IV e o Príncipe Raymond é tensa. Então não seria prudente apelar a Sua Majestade sobre esta situação através de seu irmão mais velho? — o Príncipe Willie sugeriu a Luca.

— Não há como negar que Sua Majestade está em maus termos com seu irmão mais novo. Mas... o palácio está lidando com seus próprios problemas no momento... — respondeu Luca com um aceno de cabeça.

— Hmmm... — Willie mergulhou em pensamentos. Então, quando ele abruptamente ergueu o olhar, viu Ryo assentindo silenciosamente para si mesmo repetidamente, claramente pensando em algo. — Ryo, você tem alguma ideia?

— Hã?

A mente de Ryo tinha divagado para d'Artagnan prendendo Fouquet na história... Claro, nada disso apareceu em seu rosto. Ele rapidamente repassou a conversa em andamento e ofereceu uma alternativa.

— Hum, talvez possamos pedir o conselho do Mestre Arthur Berasus sobre isso também?

— Uma figura de autoridade chave chegando da capital real, hm? Uma ótima ideia, de fato. — O Príncipe Willie assentiu enfaticamente.

Ufa, de alguma forma consegui me livrar dessa.

Ryo ficou aliviado.

— Você realmente conhece o Conselheiro Especial Berasus, Mestre Ryo? Você não mentiu apenas para ganhar controle sobre a situação? — Luca questionou incisivamente.

— Conheço, de fato. Se me permite exagerar um pouco, diria que somos camaradas de armas.

— Uau. — O Príncipe Willie reagiu primeiro em resposta à declaração de Ryo. — Apesar de sua aparência jovem, você tem uma riqueza de experiências, não é, Ryo! — E ele parecia extremamente animado por alguma razão. Ele continuou: — Eu me pergunto se eu também posso ampliar minhas experiências depois de mais algum treinamento e disciplina...

— Acho que sim. Provavelmente...

— A partir de hoje, os soldados da cidade protegerão nossas acomodações, sim? Pelo menos até o Lorde Berasus aparecer. O que significa que não precisamos nos preocupar com uma emboscada, então posso praticar magia até meu corpo ceder!

— A-Acho que sim. Provavelmente...

Até ontem, o jovem príncipe praticara magia a ponto de desmaiar de exaustão de mana. Evidentemente, ele planejava virar uma nova página a partir de hoje, praticando até estar quase em seu limite, em vez de ultrapassar seu limite como antes. Mas Ryo sabia melhor. Ele sabia que o garoto com certeza praticaria até sua mana se esgotar novamente. Porque o discípulo do mago da água era muito dedicado ao seu aprendizado...

Dois dias depois que o grupo chegou a Lago de Pedra, o capitão da guarnição da cidade e Conselheiro Especial do Departamento de Magos Reais, Arthur Berasus, entrou no quarto do Príncipe Willie. Primeiro, Arthur cumprimentou Sua Alteza antes de se virar para Ryo, satisfeito por se reunir com ele. Com sua longa barba branca, manto de mago cinza e grande cajado, ele parecia em todos os aspectos um mago poderoso.

— Você parece bem, Ryo — disse Arthur jovialmente. — Embora eu tenha que admitir, fiquei surpreso com seu pedido de assistência, incomum como é. Desnecessário dizer, corri para cá sem um momento de atraso.

— Muito obrigado, Lorde Berasus — respondeu Ryo agradecido com um sorriso.

— Eu não te disse para me chamar de ‘Arthur’, garoto? — Então ele de repente examinou os arredores. — Falando nisso, ouvi dizer que isso tem a ver com um duque ou algo assim. Mas... não vejo ninguém que corresponda à descrição aqui...

— Sobre isso. Seria um desafio trazê-los para cá, então eles estão no jardim — explicou o capitão da guarnição.

— Oh? Por que isso? — Arthur inclinou a cabeça curiosamente e se aproximou da janela com vista para o jardim. — Aha, agora vejo a luz... Esplendidamente congelado, eh? Ryo, isso é obra sua, não é? — O conselheiro sorriu incisivamente para ele.

— Bem, eles nos atacaram, então apenas me certifiquei de que não pudessem escapar...

— Mãos e pés amarrados com corda e congelados em gelo... e me parece que eles ainda estão vivos também... Pessoalmente, nunca quero ver o interior de um desses caixões de gelo, obrigado. — Essa última parte saiu como um sussurro quase inaudível.

Eles se revezaram contando a Arthur tudo o que havia acontecido, como acontecera e o que esperavam que fosse o resultado. Uma das pessoas congeladas foi descongelada e trazida para a sala. Ele se apresentou como Bader.

— Hm, acho que entendi a ideia geral.

Arthur pediu uma recarga de seu chá preto assim que todos terminaram de dizer o que tinham a dizer. Ele permaneceu em silêncio até sua xícara estar cheia novamente. Depois de tomar um gole, ele falou novamente.

— Primeiramente, Matthew e Luca viajarão para a capital real com o Príncipe Willie como seus assistentes. Qualquer interferência aí inevitavelmente levará a uma dor de cabeça diplomática. Quanto aos atacantes... Bader, era? Você e seus homens retornarão e atualizarão seu mestre sobre os desenvolvimentos. Mas primeiro, vocês devem pagar por seu crime. Considerando que seu ataque falhou e tudo o que conseguiram foi fazer papel de bobos escorregando e deslizando, acho que vinte dias na prisão devem ser suficientes. Vocês cumprirão sua pena aqui em Lago de Pedra. Eu mesmo informarei o magistrado local.

O Príncipe Willie e seu povo basicamente conseguiram tudo o que pediram. Ryo não ficou muito surpreso. Afinal, quando ele pedira pelo conselheiro especial, ele esperava exatamente esse resultado. Três vivas para um julgamento manipulado. Hip, hip, hurra!

— Vou descongelá-los logo antes da partida amanhã — Ryo prometeu ao capitão da guarnição e a Arthur.

A propósito, Bader fora recongelado e mais uma vez estava no jardim em seu caixão de gelo...

— Ah, certo, quase esqueci de mencionar. Eu vim na frente do meu pessoal, mas algumas pessoas do Departamento devem chegar em algum momento hoje aqui em Lago de Pedra. Eles gostariam de escoltar pessoalmente você e a comitiva do Príncipe Willie para a capital, Ryo.

— Hã?! — A exclamação perplexa foi a única coisa que ele conseguiu articular em resposta ao anúncio inesperado do conselheiro.

— É assim que eles querem te agradecer por salvá-los em Lune. Aí está, Vossa Alteza. O Departamento de Magos Reais tem sua permissão para acompanhá-lo?

— Sim! Sim, claro. Muito obrigado!

Bem... temos apenas uma carruagem, então suponho que... não faria mal ter mais pessoas conosco e realmente fazer um espetáculo da grande entrada de um príncipe estrangeiro na capital real.

Foi assim que Ryo se convenceu a concordar.

Na manhã seguinte, depois de descongelar os quatro atacantes como prometera, Ryo dirigiu-se para onde a carruagem estava estacionada em frente à pousada. Lá, ele encontrou uma longa fila de magos do Departamento...

— U-Um, não tem... muitos deles? — ele sussurrou para Arthur, que se aproximara para ficar ao lado de Ryo assim que ele chegou. — Deve haver pelo menos cinquenta deles.

Arthur também não deve ter antecipado um número tão ridículo, porque sua voz saiu um pouco tensa quando ele respondeu. — E-Eu sinceramente pensei que apenas cinco ou seis deles viriam...

A visão de cinquenta magos escoltando o veículo do príncipe a pé certamente seria um espetáculo magnífico por si só.

— Ryo... eu não fazia ideia de que você salvou tantas pessoas... — Cohn, sentado no assento do cocheiro como de costume, murmurou baixinho para Ryo.

— Nem eu...

Não é preciso dizer que, quando o grupo chegou ao Palácio de Cristal dois dias depois, eles eram o assunto da capital.

Naquele dia, Hilarion estava fora a negócios. Na verdade, ele não voltara ao Instituto desde ontem por causa de ditos negócios. Ele retornou às três da tarde e não se surpreendeu ao encontrar um bando de jovens mulheres agrupadas em seu escritório em volta de uma mesa de doces.

— Por que vocês, garotas, sempre têm que comer aqui?

— Porque estes sofás são absolutamente divinos — Rihya gracejou feliz.

Nem mesmo Hilarion teve uma réplica diante de seu sorriso radiante.

— Mestre, um cavaleiro de Lago de Pedra chegou ontem com uma mensagem e partiu tão rapidamente quanto. Eu a coloquei em cima da sua mesa — informou-o Lyn.

— É mesmo?

Isso foi tudo o que ele disse antes de caminhar para ler a missiva.

— Ryo? Sério?

Lyn ouviu seu murmúrio baixo. — Você disse ‘Ryo’? — ela disse.

Hilarion voltou à realidade quando ouviu Lyn dizer o nome. — Uh, acabei de me lembrar de algo que tenho que fazer. Voltarei, mas não esta noite, então avise Abel, pode ser?

— Claro, com certeza. Boa viagem — disse Lyn, intrigada.

Ele mandou trazer uma das carruagens fechadas do Instituto e pediu ao motorista para viajar durante a noite e até a manhã seguinte sem parar. Seu destino era Lago de Pedra.

— Este Ryo deve ser o mesmo mago da água de quem Abel me falou. E ele quer a minha ajuda em Lago de Pedra? Por que não? Agora posso finalmente colocar um rosto no nome! Sem mencionar uma olhada de perto e pessoal em seus muitos feitiços originais. Heh heh heh. A Dama da Sorte está sorrindo para mim, eh? Longe de mim deixar essa chance escapar!

Infelizmente para Hilarion, as cortinas estavam fechadas em cada uma das janelas da carruagem. Incapaz de ver a estrada lá fora, ele perdeu completamente o veículo que passava — o mesmo veículo sendo escoltado por magos do Departamento. Tal foi o infortúnio que o acometeu.

Naturalmente, quando ele chegou em Lago de Pedra, Ryo já havia partido há muito tempo.

Isso aconteceu alguns dias antes de Ryo e o resto da comitiva do Príncipe Willie chegarem ao Palácio de Cristal, a capital do Reino. Dois aventureiros estavam em frente à mansão de Sua Senhoria em Lune, a maior cidade fronteiriça do país — o líder e espadachim do grupo de Rank C Switchback, Rah, e sua batedora, Sue. Depois de se anunciarem e declararem seus negócios ao guarda de plantão, eles agora esperavam pela pessoa que vieram ver. Dez minutos se passaram.

— Rah, Sue, desculpem pela demora. Espero que não tenham esperado muito?

Era Sera, uma aventureira de Rank B e instrutora de espada para os cavaleiros da cidade.

— Não, de forma alguma. Se há algo, somos nós que pedimos desculpas por vir aqui sem avisar.

Sue inclinou a cabeça. Enquanto isso, Rah ficou ali congelado e rígido.

A mulher conhecida como “Sera do Vento” já era matéria de lendas no que dizia respeito aos membros da guilda de aventureiros devido a seus talentos temíveis e beleza igualmente avassaladora. Por ser uma elfa, não só podia empunhar uma poderosa magia do ar, mas também era uma espadachim altamente habilidosa.

Então, a reação de Rah era bastante normal por estar na presença de uma lenda viva. Sue, no entanto, falou com ela sem qualquer dificuldade. Isso era o esperado para a maioria das aventureiras que conheciam Sera, de fato.

— Hum, a verdade é que trabalhamos em um serviço com Ryo para o Principado de Inverey, mas ele teve alguns problemas, então ele vai demorar um pouco para voltar a Lune. Ele queria que entregássemos uma carta a você e aqui estamos para fazer exatamente isso. — Então Sue entregou a carta de Ryo para Sera.

— E-Entendo. Ele não voltará por um tempo, hm...? Não, esqueça. Obrigada pela carta, Sue. Vou voltar para o meu quarto e lê-la imediatamente.

— De nada. Com licença, então — disse Sue antes de arrastar o congelado Rah com ela. O guarda de plantão inclinou a cabeça em confusão, imaginando por que ela trouxera Rah em primeiro lugar.

Assim que os dois aventureiros se foram, Sera abriu a carta ali mesmo. Apesar do que dissera sobre lê-la em seu quarto, ela estava simplesmente curiosa demais para esperar mais. Ela a folheou uma vez... depois leu com mais cuidado... e seus joelhos cederam.

— M-Madame Sera?! — o guarda gritou surpreso e preocupado.

— Estou bem, estou bem. Não se preocupe.

Ela ergueu a mão direita para impedi-lo de correr, antes de se levantar lentamente. Então, balançando instavelmente, ela começou a caminhar em direção ao salão da mansão. — Capital real... Real... capital... Real... — ela murmurava repetidamente.

Alguns momentos de caminhada e ela se encontrou em frente ao prédio. De repente, parecendo muito determinada, Sera se virou, seus passos agora firmes. Seu novo destino era o escritório do comandante dos cavaleiros.

Como de costume, dois cavaleiros estavam de sentinela em frente ao escritório do comandante dos cavaleiros.

— Gostaria de falar com o Senhor Neville.

O cavaleiro nunca vira uma expressão tão dura em seu rosto antes.

— S-Sim, senhora, por favor, espere um momento. — Um deles bateu na porta. — Comandante, Madame Sera está aqui para vê-lo.

A voz grave de um homem veio de dentro. — Deixe-a entrar.

Ela entrou em seu escritório.

— Senhorita Sera, o que posso fazer por você hoje? — Neville Black, comandante dos cavaleiros de Lune, a chamou alegremente.

Ela caminhou silenciosamente até sua mesa, bateu com as duas mãos nela e se inclinou agressivamente em seu rosto.

— Senhor Neville! A ordem tem algum motivo para visitar a capital em breve? Deve ter, sim? Deve ter, deve ter! Estou certa, não estou?!

— Q-Quem é essa, Senhorita Sera, o que aconteceu? Acalme-se.

O próprio Neville também não se sentia particularmente calmo, dominado como estava pela aura assustadora que irradiava dela.

— Então. Você está perguntando sobre quaisquer planos futuros para visitar a capital? Uhhh... Sim, estamos. A ordem foi encarregada de transportar as pedras mágicas adicionais que a família real comprou. Oito de nós partiremos amanhã. A lista de pessoal já foi determinada, no entanto...

— É mesmo? Então gostaria que você me adicionasse a ela também. Reembolsarei você pelas despesas de viagem aumentadas em uma data posterior. Como sua instrutora de espada, é, afinal, meu dever garantir que meus pupilos estejam se saindo bem e supervisionar a entrega dos bens solicitados.

— Mas você nunca fez nada assim antes...

— Senhor Neville! Confio que não há nenhum problema em me incluir nesta jornada, sim?

— Uh, não — disse Neville, cedendo. — Nenhum problema.

— Muito bem. Agradeço sua cooperação. Eu mesma informarei Sua Senhoria.

Então, com um sorriso brilhante, Sera deixou o escritório do comandante dos cavaleiros.

— Nenhum problema, mas... o que diabos a fez perguntar...

Nem mesmo o altamente conceituado, extremamente capaz e bem conhecido comandante dos cavaleiros, Neville Black, conseguiu pensar em uma razão para seu comportamento bizarro.

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