
Volume 5 - Capítulo 1025
Release that Witch
Tradutor: FlorestNerd
Ele estava certo.
May podia perceber que Kajen Fels não havia mudado. Pelo menos, ele ainda mantinha sua fé pura nos dramas, a mesma fé que o tornava tão franco com ela e fazia com que mantivesse sua opinião, mesmo estando ali para pedir sua ajuda.
Na opinião de Kajen, alguém que amava sinceramente o drama certamente abriria espaço para uma peça perfeita.
Mas ela descobriu que não conseguia responder facilmente “sim”. Algo a impedia.
May fechou os olhos, e a voz da garota voltou aos seus ouvidos.
“Sra. Lannis, por favor, espere…”
“Este é um pequeno símbolo da minha gratidão. Por favor, aceite…”
Então, um peixe salgado foi entregue a ela.
Naquele momento, May entendeu o que a estava impedindo. Ela abriu os olhos e sustentou o olhar do Mestre Dramaturgo. Desta vez, não fugiria mais do problema.
Havia muita retórica que ela poderia usar em sua resposta para parecer educada e agradável. Primeiro, poderia elogiá-lo, e então usar um “mas” para explicar o fato de que o filme mágico era totalmente diferente dos dramas comuns e havia sido feito sob uma ordem imperial.
Kajen Fels não sabia quase nada sobre Primavera Eterna, nem tinha ideia da peculiaridade da Trupe Estrela-Flor e do quanto Sua Majestade valorizava os dramas que ela apresentava. Ele havia cometido um erro desde o início. Se ela conseguisse fazê-lo entender o quanto estava enganado, talvez fosse um bom momento para esclarecer qualquer mal-entendido entre eles e até mesmo mudar a má impressão de Kajen sobre ela.
Mas May sabia, em seu coração, que aquilo seria apenas outro tipo de evasão.
“Sr. Kajen, você preparou o show apenas para Sua Majestade?”
“E para os nobres, ministros e lordes que participarão da cerimônia”, disse Kajen, assentindo. “Um show perde seu significado sem o público correspondente, não importa o quão maravilhoso seja.”
Como ouro combinando com joias e vinho fino com copos requintados, apenas um público cuidadoso e atento seria capaz de compreender o verdadeiro significado de cada expressão e ação dos atores e apreciar a verdadeira perfeição da peça.
Isso era verdade.
“Então, sinto muito, mas não posso prometer”, disse May seriamente, “porque seu drama não será perfeito de forma alguma.”
“O quê?” O velho franziu a testa. “O que faz você dizer isso? Você nem sequer viu.”
“Porque o público vai apreciar o show, por mais maravilhoso que seja”, disse May, sentindo a força ressurgir do fundo do coração. “Eles vão aplaudir, elogiar e falar sobre ele, talvez enquanto desfrutam do chá da tarde. Mas isso é tudo. A peça será apenas um entre inúmeros entretenimentos, e a vida deles continuará igual, quer assistam ou não. Como você poderia chamar algo de perfeito se é dispensável para as pessoas?”
Kajen Fels fez uma careta.
Para um criador, seu drama era como uma criança, e ele jamais aceitaria facilmente tal observação.
“Eu pensei que sua busca pela fama a tivesse cegado, mas não esperava esse tipo de arrogância da sua parte. Então você está me dizendo que já viu um drama perfeito?”
“Não”, disse May, francamente. “Mas sei como ele deve ser.”
Kajen olhou nos olhos dela, seu olhar afiado como facas. Anos de experiência haviam lhe dado uma imponente aura de autoridade, algo intimidador para qualquer novato do círculo teatral.
Ele obviamente esperava por uma explicação, mas May sabia que nenhuma resposta o agradaria.
Ela não recuou.
Não havia dúvida de que o que estava prestes a dizer resultaria em seu afastamento da maioria de seus companheiros do círculo teatral e a levaria por um caminho que nenhum deles jamais havia visto nem poderia compreender.
Até lá, as críticas contra ela seriam muito piores e talvez até rompessem todos os relacionamentos que mantinha com aquelas pessoas.
Ela pagaria um preço alto, não pagaria?
Havia uma voz respondendo dentro dela.
‘Mas valia a pena lutar por isso.’
May respondeu:
“Um grande drama não deve ser algo feito apenas para as pessoas apreciarem ou um entretenimento que os nobres procurem quando estão livres. Ele merece mais do que isso. Às vezes, pode até mudar o destino das pessoas.”
“‘O Diário das Bruxas’ ajudou as pessoas a entenderem o que é uma bruxa, permitindo que elas se livrassem do estigma que não mereciam. ‘Amanhecer’ incentivou as pessoas a trabalharem e se livrarem da pobreza e da fome, para que muitas pudessem começar uma vida melhor. ‘Cidade Nova’ mostrou de forma intuitiva aos novos migrantes como seguir as regras de Primavera Eterna e ajudou a erradicar os Ratos que se escondiam entre eles. ‘A Vida do Herói’…”
Ela fez uma pausa e disse lentamente:
“…ajudou uma garota triste a se reerguer e começar uma nova vida. Eu sei que muitas pessoas perderam suas famílias na guerra. Fico muito feliz que meu drama possa ajudá-las, não importa quantas pessoas se beneficiem dele.”
“O que exatamente você está tentando dizer?” Kajen perguntou sombriamente.
“Você me disse que o drama mais excelente era capaz de fazer os espectadores se identificarem com aquilo que o personagem havia experimentado em sua vida, mas eu quero mais. Quero que meu drama ajude o público a enxergar o próprio futuro”, disse May honestamente. “Os nobres sempre poderiam encontrar alternativas às joias e às xícaras requintadas se não as tivessem, enquanto meu drama é como alimento capaz de nutrir muitas pessoas.”
Pela primeira vez, suas palavras deixaram Kajen em silêncio.
“Não tenho dúvidas de que seu drama será muito emocionante depois de dois anos de preparação, mas também estou confiante de que a próxima ‘A Princesa Lobo’ será igualmente impressionante. Passamos apenas pouco mais de um mês ensaiando, e alguns de nós nem sequer haviam atuado antes, mas, ainda assim, será o melhor drama que já vi.”
May fez uma reverência e continuou:
“Se você ainda mantiver sua opinião original sobre nosso drama depois de assisti-lo, então recomendarei sua nova peça a Sua Majestade.”
May se sentiu muito melhor depois de deixar o Hotel Apito, a ponto de até mesmo seus passos se tornarem mais confiantes.
Assim que saiu do beco, viu Carter Lannis esperando na rua.
“Por que você está aqui?” May ficou surpresa.
“Irene me disse que você saiu com o homem do Sr. Kajen. Fiquei um pouco preocupado.” Carter encolheu os ombros. “Além disso, eu já ia passar no Mercado de Conveniência para comprar comida para o jantar.”
“Verdade?” May olhou para ele. “Você já sabia o que havia acontecido no hotel naquele dia?”
“Você comeu menos naquela noite. Era óbvio para mim”, disse o Cavaleiro-Chefe com orgulho.
“Espere…” Ela parou abruptamente. “Você pediu à Prefeitura que rejeitasse o pedido da Trupe Kajen para apresentar sua peça?”
“Ah?” Carter ergueu a sobrancelha. “Do que você está falando? O pedido de qual peça eu rejeitei?”
May olhou para ele por um momento antes de soltar um suspiro de alívio.
“Não, nada…”
“Ei, você está escondendo algo de mim de novo?”
“De qualquer forma, não é importante…” Ela riu. “Você ainda não comprou os ingredientes para o jantar, certo?”
“Não. O que você gostaria de comer?”
“Hum… que tal peixe salgado?”
“Peixe salgado? Lembro que você não gosta de comida em conserva… Levou vários dias para terminar o peixe que a garotinha lhe deu da última vez.”
“Eu gosto agora. O quê? Algum problema?” May o interrompeu e então estendeu a mão direita para ele. “Você quer vir comigo ou não?”
“Claro.”
O Cavaleiro segurou sua mão sem hesitar.
“Qualquer coisa que você quiser.”
N/T: Carter, o marido ideal.