
Volume 16 - Capítulo 693
The Runesmith
“S-senhor, eu estava esperando por você!”
“Huh…”
Roland retornou ao Instituto três dias depois, quando todos os alunos já haviam entregado seus formulários. Para sua surpresa, assim que saiu da área do portal de teletransporte, foi interceptado pelo jovem que conhecera recentemente, Stephen.
‘Ele parece não ter dormido desde que lhe dei essa tarefa.’
O cabelo de Stephen estava ainda mais desarrumado do que antes. O corte tigela havia perdido completamente a batalha contra a gravidade, e os grandes óculos que repousavam em seu nariz estavam ligeiramente tortos. Olheiras profundas marcavam seu rosto, dando a impressão de que havia levado um soco. Apesar da aparência, ele segurava uma pilha de papéis organizada contra o peito.
“Stephen.”
“P-professor Adjunto Wayland! E-eu estava esperando por você…”
O jovem quase fez uma saudação militar, tentando não deixar cair a montanha de documentos que carregava. Era evidente que havia levado a tarefa muito a sério e provavelmente não dormira muito desde que Roland a incumbiu. Roland não entendia de onde vinha tamanha dedicação, mas era óbvio que Stephen estava desesperado para ganhar sua simpatia.
“Espero que você não esteja aqui me esperando a muito tempo.”
“Oh não, P-professor… S-sir… n-não a muito tempo.”
A resposta veio rapidamente, e Stephen até pareceu orgulhoso de sua dedicação. Isso só fez com que Roland o encarasse com mais intensidade.
“…Quanto tempo exatamente?”
Stephen hesitou ao perceber a mudança de tom.
“Ah… s-só três horas.”
“Entendo…”
Roland não tinha muita certeza de como responder a alguém assim, mas se Stephen fazia um bom trabalho, não havia motivo para não ajudá-lo quando a oportunidade surgisse.
“Venha comigo. Estou indo para o Departamento de Runas agora. Suponho que isso seja o que eu lhe pedi?”
“S-sim!”
Stephen apresentou com entusiasmo a pilha de papéis a Roland. O homem era apenas um mago de nível dois, tendo sua primeira promoção para Mago do Vento em vez de Mago Rúnico. Havia várias pessoas como ele no departamento, incluindo Lucille, que mais tarde se tornou Maga Rúnica.
‘Ele pretende mudar de classe também?’
Embora não fosse o caminho mais eficiente para obter a classe de Mago Rúnico de nível três, ainda era possível se a pessoa seguisse o treinamento adequado e adquirisse as habilidades necessárias. Com Arion como chefe do departamento, ele provavelmente poderia fornecer a todos a orientação necessária para garantir que suas classes anteriores não fossem desperdiçadas.
Havia também vantagens em ser um mago elemental antes de se tornar um mago rúnico. Ao trabalhar com runas alinhadas ao seu elemento, eles ganhavam poder aumentado e consumiam menos mana. Se Stephen eventualmente se tornasse um Mestre Mago Rúnico de nível três, usar a Armadura Zéfiro seria uma possibilidade real.
“Parece que foi fruto de uma pesquisa minuciosa. Você fez tudo isso em apenas três dias?”
Enquanto caminhavam, Roland começou a examinar os documentos. Algumas páginas estavam grampeadas e continham relatórios detalhados sobre os alunos que ele havia selecionado. Depois de folhear apenas algumas delas, percebeu que Stephen não havia simplesmente concluído a tarefa.
Havia ido muito além do que fora exigido. O arquivo de cada aluno fora dividido em seções claramente organizadas: desempenho acadêmico, avaliações de combate, testes de aptidão mágica, registros disciplinares, histórico de frequência e muito mais. Havia até anotações sobre histórico familiar, posição social dentro do reino e comentários coletados de professores e instrutores.
Roland ainda precisaria realizar algumas pesquisas por conta própria, mas depois de comparar algumas informações sobre sua irmã, rapidamente confirmou que as informações eram confiáveis.
‘Ele até incluiu o desaparecimento de Robert nisso…’
Havia muito mais informações sobre Lucienne do que esperava. Seu próprio nome constava nos registros da família, junto com uma anotação informando que ele havia sido oficialmente declarado morto depois de todos esses anos. Considerando o quão bem tudo havia sido organizado, agora estava convencido de que o restante das verificações de antecedentes havia sido igualmente minucioso e abrangente.
“Você foi muito além do que eu pedi.”
Stephen ficou paralisado por um instante antes de seu rosto ficar vermelho. Parecia que ele havia entendido tudo errado.
“Eu… E-eu só pensei que m-mais informações s-seria melhor… S-se não for do seu a-agrado… então eu r-refarei!”
“Você entendeu errado. É um ótimo trabalho, mas não precisava ser tão minucioso. Talvez você devesse dormir um pouco antes.”
Roland virou uma página enquanto falava, tentando acalmar o jovem. As pessoas continuavam a olhar para eles enquanto passavam. Pelo jeito, ele parecia estar intimidando um professor assistente. Stephen abaixava a cabeça e pedia desculpas ao menor sinal de provocação, e aquilo estava começando a irritá-lo.
“E-Eu estou bem. J-já tomei algumas poções de r-resistência. V-vou ficar bem por mais d-dois dias!”
Embora as poções de resistência neste mundo não fossem tão ruins quanto as bebidas energéticas do anterior, ainda eram prejudiciais à saúde quando consumidas em excesso. Contudo, ao examinar o status de Stephen, ele notou uma habilidade familiar entre as listadas: Resistência ao Sono.
“Você já fez isso antes, não é? Bem, eu não posso te impedir, mas seria melhor se você descansasse de verdade.”
Stephen abriu a boca para protestar imediatamente.
“M-mas os relatórios ainda não estão totalmente indexados!”
“Totalmente indexados?”
Roland olhou novamente para a pilha. Devia haver quase quarenta páginas ali, com duas ou mais dedicadas a cada aluno. Já parecia extensa, mas Stephen estava insinuando que havia muito mais.
“Criei resumos separados, referências cruzadas, classificações de aptidão, tabelas de compatibilidade de classes, estimativas de crescimento projetado e uma lista de possíveis combinações de equipes com base em dados históricos da Convocação.”
“…”
Por um instante, Roland ficou simplesmente olhando para o homem que, de alguma forma, havia parado de gaguejar e agora falava com uma velocidade impressionante. Aparentemente, ele já havia preparado, ou estava em processo de preparação, de uma coleção de gráficos e avaliações muito além de tudo que Roland esperava.
‘Onde é que Arion encontra pessoas assim…?’
O homem à sua frente era claramente um talento nato quando se tratava de coletar e organizar informações. Se ele conseguiu realizar tanto em apenas três dias, o que poderia alcançar com equipamentos rúnicos personalizados de melhor qualidade e mais tempo?
“Stephen… o que você espera ganhar com tudo isso?”
“S-sir?”
“O que você deseja em troca deste trabalho?”
Ele sabia que esse nível de dedicação tinha um preço. Se Stephen era capaz de fazer tanto, havia muita informação que Roland poderia aproveitar. O homem poderia coletar informações sobre escolas rivais, compilar relatórios sobre seus pontos fortes e talvez até mesmo verificar os antecedentes de seus alunos.
As bibliotecas da academia continham um vasto número de registros sobre competições anteriores, mas analisá-los todos seria uma tarefa monumental.
Roland havia planejado inicialmente que Sebastian revisasse e resumisse o material para ele. No entanto, se pudesse contar com alguém com talento genuíno para esse tipo de trabalho, os resultados provavelmente seriam muito superiores a qualquer coisa que seu sistema de IA incompleto pudesse produzir.
Os olhos de Stephen se arregalaram como se a pergunta nunca lhe tivesse ocorrido.
“O que eu desejo?”
“Sim.”
Roland continuou caminhando sem diminuir o passo. Alunos e instrutores passavam por eles no corredor, alguns o cumprimentando respeitosamente antes de seguirem apressadamente. Stephen permaneceu em silêncio por alguns segundos, apertando os relatórios contra o peito.
“Eu… E-eu não preciso de n-nada.”
“Acho isso difícil de acreditar.”
“T-talvez…”
Ele baixou a voz.
“T-talvez um chá e-especial no d-departamento?”
“Chá?”
Roland parou e olhou para o homem de corte de cabelo tigela ao seu lado. Era um indivíduo muito estranho. Esperava que ele pedisse livros sobre habilidades especiais, acesso aos níveis superiores da biblioteca reservados para professores de nível três, ou talvez até mesmo apoio para algum projeto de pesquisa pessoal. Em vez disso, estava pedindo chá.
“S-sim, o do d-departamento não é muito bom…”
“Claro… Vou pedir para o Arion trazer algum chá para você.”
‘Ele não parece ser um cultista ou um mago maligno… Ele é simplesmente… assim?’
Os magos eram frequentemente considerados excêntricos, mas Stephen parecia pertencer a uma categoria completamente diferente. Roland já havia encontrado pesquisadores obsessivos, como Arion, e outros que experimentavam demais para seu próprio bem, como Rastix. Também havia alguns maníacos por batalhas. No entanto, este homem passou três dias compilando o que parecia um dossiê de inteligência militar em troca de um chá um pouco melhor.
“Ah, meu amigo, vejo que você tem se familiarizado com nosso novo assistente. Ele é um trabalhador bastante dedicado.”
Finalmente, Roland chegou ao Departamento de Runas, onde Arion e um grupo de professores assistentes e docentes o receberam.
“Sim… Ele é muito talentoso.”
Roland não tinha muita certeza de como descrever o homem, mas Stephen pareceu satisfeito por ser elogiado na frente do chefe do departamento.
“Excelente. Agora, todos estão no processo de entrada de dados, mas tudo deve terminar em breve.”
Arion apontou com a pata na direção dos assistentes. Muitos escreviam em pergaminho com uma velocidade impressionante, enquanto outros inseriam papéis em um dispositivo peculiar. Três olhos golêmicos pairavam sobre ele, observando uma superfície plana onde cada documento era colocado. Uma vez posicionado, um breve clarão escapava das órbitas antes que o papel fosse recolocado. A informação era então transferida como um print para um dos monitores conectados e processada pela interface que Arion havia programado.
“Tudo isso graças a você, meu amigo. É tudo tão eficiente!”
Para quem nunca tinha trabalhado com scanners ou com a internet, o sistema era revolucionário. Roland, no entanto, sabia que ainda havia muito espaço para melhorias. Grande parte do processo poderia ser automatizada, e os golens poderiam eventualmente lidar com uma parcela significativa da carga de trabalho atualmente atribuída aos professores assistentes.
Roland observou a sala mais uma vez enquanto os assistentes continuavam a inserir documentos no aparelho de digitalização. Agora que a maior parte do trabalho estava sendo feita para ele, podia se concentrar em sua própria tarefa: produzir o equipamento para os participantes. Ele já havia trazido um protótipo consigo.
“Como discutimos anteriormente, eu trouxe os itens. Também fiz várias variantes, então peça aos artesãos anões que montem algumas peças de reposição.”
No instante em que Roland mencionou os protótipos dos dispositivos rúnicos, a maioria dos assistentes na câmara se voltou para ele com interesse. Até mesmo Stephen, que parecia prestes a desmaiar de exaustão, se obrigou a permanecer de pé.
“O primeiro é um bracelete padrão. Assim que o padrão de mana correto for inserido no sistema principal, ele reduzirá o custo de mana de várias magias, diminuindo o custo de conjuração de qualquer magia em cinquenta por cento.”
“C-cinquenta por cento de tudo!”
Stephen elevou a voz e imediatamente cobriu a boca quando os outros o olharam com irritação. Era como se os outros assistentes estivessem zangados com ele por interromper a apresentação de Roland.
“Sim… assim que os alunos se acostumarem com esses protótipos, poderemos reduzir ainda mais. Acho que 70% será possível para feitiços de nível um e mais de 50% para feitiços de nível dois. Claro, também haverá um efeito adicional de regeneração de mana para complementar tudo. E se vocês puderem dar uma olhada nisso.”
Ele fez um gesto para que todos observassem antes de colocar mais alguns modelos sobre a mesa. Um era uma gargantilha feita para ser usada no pescoço, outro era uma tornozeleira e havia também vários anéis.
“Não tenho certeza de quais modelos os alunos preferirão, então seria bom se os deixássemos escolher os que mais gostarem.”
Roland sabia que crianças daquela idade podiam ser exigentes. Algumas provavelmente prefeririam um bracelete, outras algo para usar no pescoço, e algumas poderiam até preferir um cinto mágico. Ele podia fazê-los em todos os formatos e tamanhos. Até mesmo armaduras de metal completas eram possíveis, mas sabia que os magos geralmente preferiam equipamentos mais leves.
A sala ficou em silêncio. Ficou claro que os assistentes estavam hesitantes demais para fazer a pergunta óbvia de como tudo aquilo funcionava. Criar itens mágicos que reduzissem os requisitos de conjuração era possível, mas não a um grau tão extremo.
“Vocês têm alguma pergunta?”
Arion perguntou, virando-se para os professores assistentes.
“Tenho certeza de que vocês estão se perguntando como podemos alcançar tais resultados nos limitando às runas de nível um e dois.”
Roland interrompeu quando viu os outros assentindo com a cabeça, incluindo Stephen.
“Na verdade, é bem simples. Vamos usar uma fonte de alimentação externa. Aqui está.”
Finalmente chegara a hora de revelar um de seus trunfos: a bateria rúnica, o elemento mais crucial de todo o projeto. Mesmo estando limitado a metais inferiores e runas mais simples, os competidores ainda teriam acesso a bolsas espaciais. Normalmente, eles as usariam para carregar grandes quantidades de poções de mana, mas, em vez disso, poderiam carregar algo muito mais útil: baterias.
“Esta é uma bateria rúnica. Ela fornecerá mana para os alunos e armazena tanta energia quanto dez poções de mana da mesma qualidade.”
Ele colocou a pequena bateria cilíndrica sobre a mesa, e todos a examinaram com curiosidade. Ninguém disse nada, mas era óbvio que queriam vê-la mais de perto.
A lógica por trás da tecnologia era bem simples, e esse foi um dos motivos pelos quais estava tão ansioso para implementá-la. Trocar uma bateria era muito mais fácil do que beber uma poção. Funcionava até mesmo quando alguém simplesmente a segurava na mão, pois conseguia se conectar a curta distância por meio de caminhos rúnicos etéreos.
“Algo assim existe? Há fluido de mana lá dentro? Isso não seria potencialmente perigoso para os alunos?”
Um dos assistentes perguntou, e os outros aguardaram ansiosamente a resposta de Roland.
“Não há nada lá dentro, exceto mais runas.”
Ele bateu a bateria contra a pulseira de metal sobre a mesa. A bateria continha runas não apenas em sua parte externa, mas também em todo o seu interior, maximizando a quantidade de mana que podia armazenar. Não havia partes móveis, cristais ou fluidos em seu interior. Tudo estava embutido diretamente na liga metálica produzida em sua oficina.
Era um processo que os artesãos anões podiam replicar facilmente sem a ajuda dele, permitindo que se concentrasse em outros projetos. Afinal, havia muitas maneiras de ajudar os jovens magos além de simplesmente resolver seus problemas de mana.
Armaduras e armas eram outra questão. Cada aluno podia usar as vestes padrão do Instituto ou trazer as suas próprias. O uso de cajados ou varinhas mágicas personalizadas também era permitido. No entanto, isso seria providenciado mais tarde no processo de equipagem, pois ele primeiro precisava coletar dados de treinamento sobre os alunos e revisar as informações fornecidas por Stephen.
“Que maravilha, mal posso esperar!”
Arion flutuou no ar e usou um feitiço de mão mágica para mover a bateria para mais perto de seu rosto felino.
“Professor Arion, por que o senhor não continua daqui? Eu já lhe forneci os esquemas.”
“Com prazer, Professor Adjunto.”
Roland deixou os assistentes reunidos sob a explicação entusiasmada de Arion e se retirou. Ele viera ali hoje por dois motivos principais. O primeiro era apresentar ao departamento seus acessórios que aumentavam o mana. O segundo era obter dados sobre os alunos, que Stephen já havia fornecido. Havia também um terceiro assunto, que o vinha incomodando e envolvia sua irmã.
‘Eles parecem muito fascinados.’
Com todos concentrados em Arion, Roland finalmente conseguiu escapar para seu escritório dentro do Instituto. Embora não fosse exatamente uma oficina, ainda assim lhe dava acesso a vários pontos do sistema de monitoramento. Ele também havia trazido alguns objetos de sua casa para tornar o espaço mais pessoal.
Assim que entrou, pegou um monitor e vários dispositivos quadrados cobertos de runas. Se pretendia ajudar ali, precisava de um lugar onde pudesse processar dados sem que o Departamento de Runas soubesse de tudo o que fazia. Embora confiasse em Arion para certos assuntos, ainda havia segredos que pretendia guardar, incluindo seu verdadeiro nome. A diretora já sabia a verdade, então instalar-se sob a torre da árvore dela nunca lhe pareceu um problema.
“Bem… preciso superar isso.”
Após ligar o monitor e confirmar que tinha uma visão clara das atividades externas, pegou os documentos referentes à sua irmã. Rapidamente, foi direto à seção que mais lhe interessava: as notas dela.
‘Notas quase perfeitas em todas as matérias, e continuam melhorando. Será que estou sendo paranoico demais?’
Era perfeitamente possível que o professor particular de Lucienne tivesse feito um excelente trabalho e que seus resultados fossem simplesmente fruto de muito esforço. Mesmo assim, não conseguia se livrar da sensação de que uma mão invisível a guiava. Ele não tinha provas concretas além de uma vaga suspeita.
‘Existe uma lista das disciplinas e dos professores que atribuíram as notas dela. Devo investigá-los primeiro e depois determinar a quem eles respondem.’
Não seria uma tarefa fácil. À primeira vista, os professores pareciam não ter nenhuma ligação entre si. As matérias estavam espalhadas por vários departamentos e não apresentavam conexões óbvias. Contudo, se não investigasse, sabia que o assunto continuaria o incomodando. Talvez não fosse nada. Mesmo assim, era sempre prudente ter um plano B caso os eventos não se desenrolassem como o esperado.