The Runesmith

Volume 15 - Capítulo 687

The Runesmith

O cristal estava em sua mão, brilhando intensamente ao refletir a luz dentro da câmara. Ela passara incontáveis horas lendo livros e praticando sua escrita nesta sala construída por seu mestre. A vida em Albrook parecera lenta a princípio, até mesmo entediante, pois ela estava confinada aos estudos e à prática de sua arte. Com o tempo, porém, encontrou seu ritmo e não conseguiu mais conter a vontade de aprender.

Se lembrou do passado e da culpa que sentia por ter forçado seus pais a essa situação. Sabia que eles haviam arriscado a vida na esperança de que o tio Hasim pudesse ajudá-la, mas mesmo assim, sua classe só a havia atrapalhado. Em certo momento, ela quis subir de nível só para conseguir uma classe comum como a dos pais, quase desistindo do sonho de usar sua escrita para fazer magia.

Então, seu novo mestre chegou e reacendeu aquele antigo sonho. Ela finalmente podia compreendê-lo: conhecimento mágico através de palavras escritas magicamente. Era algo que a impulsionava, levando-a a aprender cada vez mais sobre as runas que seu mestre dominava.

Embora ele fosse supostamente um Mestre Runesmith como seu tio, havia muito mais nele do que aparentava. Ele entendia de magia como nenhum outro runesmith, como se tivesse dominado tanto a magia quanto a criação de runas simultaneamente. Isso lhe dava esperança. Se havia alguém que pudesse guiá-la adiante e abrir as portas do mundo da magia para ela, esse alguém seria ele.

“Millie?”

“Oh!”

A voz dele ecoou ao lado dela, e Millie quase deixou cair o cristal de ascensão da mão.

“Se você não estiver se sentindo bem, podemos fazer isso outro dia.”

“N-não, eu quero fazer isso hoje!”

Roland parecia preocupado com o nervosismo visível dela.

“Lembre-se, o ambiente de teste apresentará várias opções. Se você achar que a classe escolhida não é a ideal, pode reprovar de propósito e depois podemos conversar sobre isso. Esta máquina gravará o que você vê durante o teste para ajudá-la a ser aprovada, então não desanime se não conseguir concluir na primeira tentativa.”

Millie assentiu com a cabeça enquanto se recostava na cadeira branca. O cristal em sua mão começou a brilhar quando ela finalmente reuniu coragem para começar. Era a primeira vez que usava um objeto assim e, como seu mestre havia descrito, a experiência era desorientadora. Tudo ficou branco por um instante e, quando abriu os olhos, não estava mais na oficina, mas em um lugar de seu passado recente.

“É a Estalagem Dragão Vermelho…”

Assim como para todos os outros, seu teste de ascensão foi moldado por memórias de seu passado.

“Antes não era assim… Antes, era meu outro lar…”

Millie estava um pouco confusa. Aquele lugar parecia diferente da primeira vez que entrara ali. Naquela época, não fazia parte da masmorra. Em vez disso, tinha a aparência da antiga vila onde morava com os pais. Contudo, seu mestre a havia avisado que isso poderia acontecer, então não se preocupou.

“O mestre me disse que geralmente aparece como uma memória central, um lugar intimamente ligado à minha vida… e que pode mudar se a vida de alguém passar por uma grande transformação.”

A estalagem parecia exatamente como ela se lembrava, embora houvesse diferenças sutis. Parecia menos desgastada, intocada por alguns dos arranhões e danos deixados por aventureiros bêbados durante suas brigas.

Ela não tinha certeza do porquê o lugar ter mudado, mas talvez tivesse algo a ver com sua incapacidade de mudar de classe por tanto tempo. Sua vida inteira havia se transformado durante os anos que passou na masmorra. Aquilo se tornara seu novo lar, um lugar do qual um dia acreditou que jamais sairia.

Millie caminhou lentamente sobre o assoalho de madeira da estalagem. O cheiro de carne assada e cerveja velha pairava no ar exatamente como se lembrava. A luz quente das lanternas tremeluzia sobre as mesas polidas, mas algo parecia errado. Não havia aventureiros barulhentos nem passos arrastados. O lugar parecia vazio.

“Recriou praticamente tudo…”

Embora não tivesse passado muito tempo, aquele era um lugar que havia deixado para trás para ascender. Por um instante, se esqueceu de que se tratava de um teste de mudança de classe. Seus pensamentos vagaram por antigas lembranças, boas e ruins. Uma delas permanecia dolorosamente vívida. Era a noite em que chorou até dormir, depois de finalmente aceitar que não conseguiria progredir como todos os outros. Essa lembrança também foi o que a trouxe de volta à realidade.

“Millie, o que você está fazendo? Não é hora de ficar relembrando o passado. Já perdi tempo demais.”

Ela já tinha quinze anos, e a maioria das pessoas já havia passado pela primeira ascensão nessa idade. Era óbvio que estava atrasada e precisava ascender a qualquer custo.

“O mestre disse que essas provas seguem um padrão. Primeiro, preciso encontrar algo que me leve à verdadeira prova…”

Para mudar de classe, ela primeiro precisava localizar a entrada para o julgamento. Começou a vasculhar a estalagem, a começar pelo salão principal.

Chegou até a pegar as canecas de cerveja vazias espalhadas pelas mesas, mas depois de vários minutos, ainda não havia encontrado nada.

“Será que está no quarto?”

Depois de um tempo, se moveu para o quarto dos funcionários, que também servia de quarto para sua família. Lá dentro, encontrou sua antiga cama, junto com outra avalanche de lembranças, mas ainda sem a menor ideia do que deveria fazer.

“Como o Mestre resolveria isso? Por eliminação? Se não está aqui… então deve estar lá em cima!”

Ela havia aprendido o suficiente com seu mestre para saber que entrar em pânico só a faria ignorar algo óbvio. Como o térreo foi completamente revistado, restavam apenas os quartos de hóspedes.

“Ah… isto parece diferente…”

Assim que subiu as escadas, ficou claro que aquela não era a estalagem de que se lembrava. O corredor se estendia muito além do que deveria ser possível. A Estalagem Dragão Vermelho nunca tivera tantos quartos de hóspedes e, ainda mais estranho, cada porta ostentava um símbolo esculpido.

“Essa aqui… é uma vassoura e uma pá de lixo?”

A primeira porta exibia uma gravura de utensílios de limpeza, o que a fez pensar se o cômodo seguinte havia se transformado em um depósito. Em frente, havia outra porta com a inscrição de utensílios de cozinha.

“Espere, eu sei o que é isso! Devem ser às classes… talvez de limpeza e culinária.”

Millie bateu palmas enquanto encarava as duas portas. Finalmente, entendeu como seguir em frente e trilhar um novo caminho.

“Então, cada porta representa uma classe possível?”

A constatação fez seu coração acelerar. Se aquele corredor realmente continha caminhos de classe, então em algum lugar à frente estava o futuro que ela buscava há tanto tempo. Se aproximou da porta marcada com utensílios de limpeza e tocou cuidadosamente a maçaneta.

“… Então não será tão fácil…”

Nada aconteceu. Ela não tentou forçar a porta. Sabia que entrar em uma dessas salas provavelmente daria início ao julgamento, então, antes de fazer qualquer coisa imprudente, seguiu outro conselho que seu mestre lhe dera: testar as coisas primeiro antes de prosseguir.

Esperava encontrar algum tipo de descrição ou pista sobre o que havia além da porta, mas mesmo depois de encostar a mão na gravura da porta, nada apareceu.

“Esta pode ser a classe Governanta, e a outra provavelmente é Cozinheira.”

Antes de conhecer seu mestre, teria ficado extasiada em receber qualquer uma dessas classes. Elas a teriam ajudado a manter a estalagem e a apoiar sua mãe com melhores habilidades domésticas e de limpeza. Mas as coisas mudaram. Agora queria algo maior para si mesma, algo ligado à magia.

“O mestre disse que as classes geralmente são organizadas da mais comum para a mais rara.”

Millie parou no meio do corredor, com os dedos ainda repousando sobre o símbolo esculpido das ferramentas de limpeza. Lentamente, baixou a mão e olhou mais adiante no corredor. Se aquilo realmente representasse as classes possíveis, então as primeiras portas deveriam corresponder aos resultados mais comuns. Quanto mais longe ela fosse, mais raras e valiosas as classes se tornariam.

Seu coração acelerou novamente.

Se afastou da primeira porta e continuou em frente. A porta seguinte exibia um conjunto de utensílios de cozinha, embora os entalhes da gravura na porta fossem muito mais detalhados. Panelas, facas e uma concha haviam sido entalhadas na superfície com notável cuidado. Até mesmo a madeira parecia mais fina e cara, sugerindo que se tratava de uma versão avançada da classe de culinária.

Em frente, havia uma porta semelhante, marcada com utensílios de limpeza, também mais refinada que a anterior. O mesmo padrão se repetia enquanto caminhava. As portas se tornavam cada vez mais elaboradas, e muitas das classes representadas eram daquelas sobre as quais só havia lido antes.

“Esta provavelmente é contador… aquela deve ser algum tipo de administrador… e aquela outro, talvez agricultor?”

Havia um número impressionante de classes não combatentes de nível um à sua frente, como se ela realmente tivesse recebido uma segunda chance na vida. Em sua opinião, não deveria haver tantas possibilidades, mas ao longo dos anos, havia adquirido inúmeras habilidades básicas para compensar a incapacidade de sua própria classe de evoluir adequadamente.

“Essa…”

Mais adiante, as portas já não pareciam comuns. As anteriores pareceram simples, quase reconfortantes em sua previsibilidade, mas agora ela havia chegado ao fim do corredor, onde provavelmente precisaria fazer uma escolha.

“Esta parece promissora…”

No final do corredor, havia uma porta pulsando com energia mágica. Mesmo sem a percepção de mana de um mago, conseguia vê-la claramente. A porta era forjada em metal e, em seu centro, havia uma pena rodeada por um estranho pentagrama coberto de símbolos desconhecidos. Não eram runas, nem encantamentos comuns, mas pareciam suficientemente semelhantes para deixá-la inquieta.

Ao lado, havia outra porta semelhante, esta marcada com uma pena menor diante de um pergaminho mágico. A lembrou de sua classe atual e provavelmente representava uma melhoria direta em relação a ela. No entanto, a última porta no final do corredor era muito mais intrincada.

“Se eu falhar, sempre posso tentar de novo. Foi o que o Mestre disse…”

Mesmo se sentindo preparada para o desafio, ainda temia que todo o seu trabalho fosse em vão. Além disso, sentia uma estranha atração pela última porta. Quanto mais se aproximava, mais brilhavam os estranhos símbolos esculpidos em sua superfície. Depois de um instante, os símbolos até começaram a se mover.

“Tem que ser essa… Mas será que eu consigo mesmo passar?”

Um problema ainda a perseguia mesmo neste mundo: sua falta de mana para escrever. Embora seu nível tivesse aumentado e ela agora estivesse no vinte e cinco, só conseguia criar alguns pergaminhos básicos sem a ajuda de sua pulseira. Seu mestre havia conseguido obter vários livros de habilidades que melhoravam sua mana e regeneração, mas seus efeitos eram limitados. Os mais poderosos eram compatíveis apenas com classes de combate.

Sua mão pousou na maçaneta e ela a empurrou cuidadosamente para baixo. No instante em que a trava clicou, os símbolos gravados na porta de metal brilharam intensamente. Finas faixas de energia azul pálida se espalharam por sua superfície como veias, antes que todo o corredor começasse a tremer.

Millie instintivamente recuou. As outras portas que ladeavam o corredor foram desaparecendo lentamente. As simples portas de madeira, representando profissões comuns, dissolveram-se em névoa uma após a outra, deixando para trás apenas a escuridão. Logo, restou apenas a última porta. Então, uma força tremenda a puxou para a frente, e ela foi repentinamente arrastada para uma área completamente nova.

“Uou!”

Cambaleou para a frente e se apoiou em algo macio e felpudo. Quando abriu os olhos, encontrou-se em um cômodo luxuoso que lembrava o escritório de um nobre. O tapete sob suas mãos era mais macio do que qualquer coisa que já tivesse tocado. Um tecido vermelho espesso, com padrões dourados, estendia-se pelo chão polido, enquanto imponentes estantes de livros alinhavam as paredes de ponta a ponta. Centenas e centenas de livros repousavam sobre elas, cada um encadernado em couro ou tecido.

“Este lugar… é algum tipo de biblioteca?”

A quantidade de livros era impressionante, mas, ao olhar para frente, notou uma escrivaninha solitária no meio da sala. Uma pena estranha repousava sobre ela, ao lado de vários frascos de cristal de tinta cheios de um líquido brilhante que mudava de cor a cada poucos segundos.

Millie levantou-se lentamente e sacudiu a poeira do vestido, embora não houvesse uma partícula de pó nele. O quarto parecia imaculado, intocado pelo próprio tempo. Nem uma única folha de pergaminho estava fora do lugar. As estantes de livros se estendiam tão alto que ela nem conseguia ver onde terminavam. Acima delas, apenas escuridão.

“Então este é o meu teste? Parece-me semelhante ao primeiro teste do Mestre…”

Seu mestre certa vez lhe contara sobre seu primeiro teste, aquele que o tornou um escriba de mana rúnico. Ele fora incumbido de criar um pergaminho mágico dentro de um prazo estrito. Contudo, este teste já lhe parecia muito mais sério. Ao se aproximar da mesa, notou um livro enorme à esquerda e uma pilha organizada de pergaminhos à direita.

“O que exatamente quer que eu faça aqui?”

Aproximou-se da escrivaninha com cautela. A estranha pena que repousava sobre ela não se parecia em nada com as penas que usava na oficina. Seu corpo parecia ser feito de metal prateado entrelaçado com veios de cristal que pulsavam levemente com mana. A ponta brilhava com uma luz azul, como se esperasse seu toque.

O grande livro ao lado dela abriu-se sozinho de repente. Millie deu um pequeno pulo quando as páginas grossas começaram a virar rapidamente. Linhas de texto passaram tão depressa que era impossível lê-las, antes de finalmente pararem perto do meio. No instante em que as páginas se estabilizaram, palavras brilhantes apareceram no papel.

“Recrie a fórmula mágica apresentada usando as ferramentas fornecidas. Caso não consiga completar a fórmula dentro do tempo estipulado, você será reprovada.”

Abaixo da mensagem, outra página foi se revelando lentamente. Nela havia um intrincado padrão mágico, diferente de tudo que já tinha visto.

“O que é isso…?”

Seus olhos se arregalaram. Não se parecia com as runas que vira antes, embora houvesse algumas semelhanças. As linhas curvavam-se com uma precisão impossível, cruzando-se de maneiras que a deixaram tonta. Além dos símbolos rúnicos, notou algo completamente novo. Círculos mágicos estavam entrelaçados na estrutura, unindo tudo de maneiras que as runas jamais conseguiriam. Era algo que nunca havia estudado antes.

“Isso é… É possível conectar as coisas dessa maneira?”

Ela passara meses estudando estruturas rúnicas com seu mestre, o suficiente para entender que as fórmulas mágicas sempre seguiam uma lógica interna.

A mana precisava de caminhos. Os encantamentos exigiam âncoras. Os efeitos precisavam ser estabilizados por meio de pontos de equilíbrio. Este estranho diagrama obedecia a princípios semelhantes, mas seus métodos pareciam estranhos e pouco ortodoxos. Havia algo mais do que mana fluindo por ele, mas ainda podia sentir o mesmo poder emanando dos frascos de tinta próximos.

“Então é isso…”

A tarefa estava diante dela, e um instante depois ela ouviu um estalo. Virando-se na direção do som, avistou uma grande ampulheta. A areia já começara a cair. Grãos brancos e pálidos desciam em fluxo constante, marcando a passagem do tempo.

“Pelo tamanho desta ampulheta… devo ter algumas horas para isso. É melhor começar.”

Millie cerrou os punhos enquanto olhava do diagrama para os frascos de tinta mágica e a pena. No instante em que seus dedos envolveram a haste prateada, uma forte pulsação de mana percorreu seu braço. Não era dolorosa, mas a assustou o suficiente para que quase a deixasse cair. As veias de cristal incrustadas na pena brilharam em resposta ao seu toque.

“Reagiu a mim… e essa sensação… é meio revigorante.”

Os frascos de tinta ao lado da escrivaninha cintilavam em várias cores enquanto ela mergulhava lentamente a pena em um deles. No instante em que a ponta tocou o líquido, tênues ondulações de mana se espalharam pela superfície. A tinta quase parecia viva, com fios de energia brilhante subindo até o interior da própria caneta.

“Está absorvendo isso…”

A sensação a fez lembrar dos pergaminhos encantados que criara com seu mestre, só que muito mais fortes. Normalmente, precisava guiar cuidadosamente cada partícula de mana para a tinta, e esse era o motivo de sempre ter tido dificuldades com a escrita. Mas essa caneta absorvia a mana naturalmente, funcionando de forma muito semelhante à pulseira que seu mestre fizera para ela.

“Isso… talvez com isto…”

Seus olhos se arregalaram ao sentir a magia fluindo pela ferramenta em sua mão. Lentamente, guiou a caneta até o pergaminho, e sua mão começou a se mover como inúmeras vezes antes. Copiar diagramas rúnicos era algo que fazia diariamente. Ela havia escrito incontáveis pergaminhos de prática desde a infância, chegando a usar lápis comuns para treinar quando lhe faltava mana para criar pergaminhos mágicos de verdade.

“Eu consigo fazer isso…”

Ela resmungou para si mesma enquanto gotas de suor se formavam em sua testa. No instante em que a pena tocou o pergaminho, a tinta brilhante resistiu. A linha que tentou traçar torceu-se levemente para o lado antes de voltar violentamente, arruinando o desenho.

“O quê?”

Seus olhos se arregalaram quando sua primeira tentativa falhou. Embora sua mana limitada não parecesse importar neste teste, a tinta se movia por conta própria, como se estivesse viva e lutando por seu controle.

“Então… este é o verdadeiro teste… controlar a tinta!”

Millie assentiu com a cabeça e jogou o pergaminho destruído de lado. Mesmo tendo falhado uma vez, ainda havia tempo. Mesmo que precisasse de cem tentativas, ela conseguiria. Ela deixaria seus pais e seu mestre orgulhosos por acreditarem nela e lhe darem essa chance.

O fracasso não era uma opção. Lo

go, o escritório se encheu com o arranhar da pena e o som de papéis amassados caindo no chão.

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