No Game No Life

Volume 5 - Capítulo 3

No Game No Life

Enquanto isso — Castelo Real de Elkia, no escritório do antigo rei.

“…tuch. Stuch, tô morrendo de fome, por favor.”

Chacoalhada de leve, Steph sentiu sua consciência emergir devagar.

Estava esparramada sobre a mesa, babando, e acordou num salto, olhando ao redor.

—O quê…?! U-uh, quando foi que eu dormi?!

“Depois que você comeu, bateu a cabeça nessa droga de mesa, por favor. Achei que tinha batido as botas, por favor.”

Pelo visto, no momento em que encheu o estômago, tinha apagado.

“Q-que horas são…?” — perguntou, sonolenta, dobrando o casaco que estava sobre suas costas — um gesto de gentileza da Izuna, ao que parecia. Um fofo *grmbrbrbrrrrl* respondeu no lugar dela. Izuna cruzou as mãos sobre a barriga, suplicando com sinceridade.

“Exatamente seis horas desde a última comida, por favor.”

“…V-você tem um relógio bem preciso, hein.”

Se lembrava de que tinham comido por volta das duas da manhã — então já devia ser de manhã? O jovem sol ainda não conseguia lançar seus raios na sala sem janelas, mas a essa altura a cidade já devia estar começando a se agitar.

“Stuch. Stuch, comida, por favor.”

Enquanto a Werebeast puxava insistentemente suas roupas, Steph cedeu.

“Ahh… Sim, acho que está certo… Certo, vou preparar um café da manhã… Espera, o que é isso?”

De repente, Steph notou a montanha de livros empilhada onde Izuna estivera sentada.

“Senhorita Izuna, o que é isso?”

“…? Livros, por favor?”

“Não, eu quero dizer — por que eles estão aí?”

“…Obviamente porque eu li, por favor.”

“—O quê? Desde quando você sabe ler…?!”

“Eu disse que ia aprender essa droga de escrita de vocês, por favor. Então eu aprendi, por favor.”

Impossível — os olhos de Steph se arregalaram. O joguinho de correspondência que Steph tinha dado para Izuna, usando a escrita Werebeast e a escrita Immanity — o livrinho para aprender a língua dos Werebeasts. Só com aquilo, no tempo em que Steph tinha estado inconsciente, Izuna tinha aprendido a língua de Immanity e lido *aquele* tanto de livros—?

—Qualquer coisa que não fosse jogo escapava da compreensão de Steph. Mas, desde que fosse um jogo— Ao ver como Izuna tinha demonstrado sua habilidade num instante e já lido mais livros do que ela própria, os cabelos de Steph se arrepiaram.

“…Não é à toa que você se dá tão bem com o Sora e a Shiro.”

Steph se deu conta de um fato que normalmente ficava ofuscado por Sora e Shiro. Aquela garotinha, Izuna Hatsuse. Aquela Werebeast, ainda mais jovem que Shiro — que tinha levado uma partida contra os “ ” até o limite — era, sem dúvida, a verdadeira. Mas…

“…Senhorita Izuna, quando foi a última vez que você dormiu?”

“…Hã? E-eu já comi cinco vezes… então, uh… por favor.”

Tentando contar nos dedos, o rosto de Izuna escureceu. As olheiras profundas mostravam que fazia tempo que ela não pegava no sono.

Se pensasse bem, fazia sentido. Por mais que fosse “a verdadeira”, nada se conquistava sem esforço. Izuna tinha dado tudo de si, abrindo mão completamente do sono — só para aprender a língua de Immanity e ler todos aqueles livros.

“…Me desculpe, Senhorita Izuna. Eu dormi enquanto você…”

“Você é uma franguinha, por favor. Quem é fraco tem mais é que dormir quando fica cansado, por favor.”

Steph sorriu diante da braveza de Izuna. Vendo um pequeno raio de esperança em meio ao trabalho sem fim, se animou e deu um tapa nas próprias bochechas. Primeiro, ia preparar algo para comer, e depois— Mas quando virou para sair do escritório—

“…? Senhorita Izuna, em que ordem você está lendo esses livros?”

—ela percebeu que os tomos tinham sido retirados das estantes de maneira bem deliberada.

“Começando pelos que cheiram bem, por favor.”

Era uma resposta enigmática, mas Izuna falou como se fosse óbvio. Notando o título do livro no topo da pilha, Steph o pegou. De fato — tinha relação com o lugar onde Sora e Shiro estavam.

Steph leu o título, escrito de próprio punho pelo antigo rei — seu avô — em voz alta: “—Flügel: Uma Arma sem Mestre… Por que você escolheu este?”

Izuna cheirou o livro. “Essa droga cheirava ao Sora e à Shiro, por favor. Acho que eles leram há um mês, por favor?”

“Eles… leram?”

—Na praia, depois que voltaram de Oceand, Sora tinha declarado casualmente que iam invadir Avant Heim e conquistar três raças. Steph, que não tinha sido informada de como aquilo seria feito — não que isso fosse novidade — abriu o livro. Um mês atrás. Isso queria dizer que eles tinham lido antes de jogarem contra a Eastern Union… Ela folheou o conteúdo, escrito com as letras traçadas diretamente por seu avô, como todos os livros daquela sala.

Flügel — uma raça matadora de deuses criada por Artosh, deus da guerra, na antiga Grande Guerra—

Flügel — essas mulheres celestiais coletam conhecimento não por diversão.

Era o que o antigo rei — seu avô — tinha escrito sobre os Flügel, baseado em suas observações. Em outras palavras, era sua visão sobre Jibril. Presumivelmente… Mas.

Elas fazem isso para viver— Não. Para não morrer.

A enigmática Jibril surgiu no fundo da mente de Steph.

São armas vivas que perderam seu mestre… marionetes sem vida, apenas vagando, vazias.

Ela visualizou aquela garota, com seu sorriso indecifrável e devoção absurda à sua curiosidade e aos seus mestres.

Onde está sua razão de viver — ou melhor, a prova de que estão realmente vivas?

—O que seria? A Jibril descrita por seu avô não tinha nada a ver com a Jibril que ela conhecia. Inquieta com essa discrepância, Steph parou de folhear as páginas, pensativa.

…Sora e Shiro tinham lido aquilo antes de partir para Avant Heim. O que será que eles—?

“Stuch, a gente não tem tempo pra você ficar sentada lendo essa porcaria, por favor.”

“Ah, s-sim, tem razão.”

Era verdade. A tarefa deles não era pesquisar os Flügel, mas os Siren — Steph se recompôs, apenas para ser interrompida por outro *grmbrbrbrbrrrrl*.

“É hora de comer, por favor,” declarou Izuna com aqueles olhos redondos e decididos.

Steph sorriu de canto e foi devolver o livro à estante quando — talvez pelo excesso de trabalho — sentiu uma tontura. “Ah…”

Os livros despencaram da estante que ela segurou para se apoiar. Misturando volumes lidos e não lidos — e prestes a cair num choro lamentável—


—um vento soprou, rápido demais para Steph reagir. Tudo o que conseguiu foi registrar o vulto. Izuna tinha se movido da porta até o canto num instante — e agora segurava um livro na boca.

“…? Que porcaria é essa, por favor?”

“…É isso que eu quero saber. O que será que significa?”

Ignorando Steph e sua óbvia confusão, Izuna cheirou o livro com desconfiança.

“Cheira a peixe, por favor…? Não, por favor… Oh.”

Então, jogando o álbum de lado como se não tivesse interesse algum, disse:

“Cheira a Siren, por favor. Não dá pra comer essas vadias, por favor.”

Na mesma hora, em meio aos pensamentos enevoados de Steph, uma luz brilhou. Justamente agora, quando tinha perguntado a Izuna em que ordem ela selecionava os livros, ela tinha dito que começava pelos que cheiravam bem. Como é que ela tinha percebido que Sora e Shiro tinham lido—? Não, mais importante:

“P-por que um livro do meu avô cheira a Siren?!”

“Sei lá, por favor. Ou uma Siren tocou nele, ou alguém que tocou numa Siren tocou nele, por favor,” respondeu Izuna, inclinando a cabeça.

“Tipo o Sora ou a Shiro… ou eu ou você?!”

“…? Não, por favor. Só tem o mesmo cheiro de velho que todos esses livros, por favor.”

Não era o cheiro deles. Nem de Sora, nem de Shiro. Pra começo de conversa, pelo que sabia, eles não tinham vindo aqui desde Oceand — então—?!

“D-dá pra saber quando foi tocado?”

Enquanto Steph se embolava na própria pergunta, Izuna contou nos dedos, fez uma careta, e então respondeu: “…Não tenho dedo suficiente, por favor.”

Aquilo praticamente confirmava que tinha sido há mais de dez anos.

“…E-espera um pouco. Dá pra saber isso?”

“Você não sabe, por favor? Esse maldito cheiro não some, por favor.”

*Como eu vou saber o senso comum de outra raça?!*, Steph gritou por dentro, mas agora — todos os enigmas estavam resolvidos. O motivo de ter chamado Izuna para ajudar, o método pelo qual ela identificou os livros que Sora e Shiro tinham lido — e o fato de que seu avô tinha se envolvido com os Sirens mais de dez anos atrás… Tudo tinha sido desvendado! Agora só faltava…!

“D-dá pra distinguir entre os livros escritos antes e depois desse?!”

Izuna cheirou e inclinou a cabeça.

“…O cheiro tá fraco, por favor. Mas se eu me esforçar pra caramba… deve dar, por favor.”

—O mundo se iluminou. O escopo da busca tinha diminuído enormemente!

“Ooooooh, se você tinha um poder tão útil assim, queria que tivesse usado beeeem antes, mas muito obrigaaaada. Finalmente, consegui ver uma saída—”

Tomada pela emoção, Steph abraçou Izuna e a esfregou toda. Mas Izuna pulou para trás.

“—Hhhhh!!”

Ela ameaçou Steph como se fosse morder, os pelos eriçados.

“E-eh, u-uhm… M-me desculpa. Te ofendi?”

“…Stuch, você é ruim de cafuné, por favor!”

Enquanto Izuna mantinha sua postura defensiva, Steph olhou ao redor, em pânico. O que chamou sua atenção—

“Ah, s-sim. A-aqui, pode ficar com isso. Me perdoa?”

“—Que diabos é isso, por favor?”

“E-eu preparei esse docinho pra mim. V-vê?”

Comendo um pedaço para demonstrar que era seguro — estendeu, trêmula, a oferta. Enquanto estendia sua bandeira de paz, Izuna cheirou várias vezes.

“……Nada mal, por favor. Mas agora eu quero comida, por favor. Peixe, por favor.”

—Abocanhando o doce, Izuna imediatamente voltou ao bom humor. Balançando o rabo grande de um lado para o outro, mordiscava o petisco como um hamster.

“Ah, b-bem, vou cozinhar! Peixe grelhado, peixe cozido, peixe cru… qual—?”

“Todos, por favor.”

“O quê—?”

“Todos, por favor.”

“Por que não! Agora que encontrei uma aliada de peso, por que não exibir meu verdadeiro potencial na cozinha com todos os pratos de peixe que conheço!! Enquanto isso, você poderia separar os livros que meu avô escreveu antes e depois?!”

Steph falou, encarando uma fonte extasiada de baba.

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“Entendido, por favor!”

Izuna se lançou de pé no mesmo instante em que respondeu, alta e clara.

Finalmente, a saída estava à vista! Justo quando Steph começava a disparar para fora da sala, atrás dela—

—algo quebrou com um estrondo.

“Eu… desculpa?”

Só quando a Werebeast — rosnando, o coração batendo tão forte que parecia prestes a saltar do peito, arfando, com quase dez livros nas mãos, manchadas de escarlate pelo *bloodbreak* — cutucou Steph para agir, é que ela se deu conta de que o barulho tinha sido Izuna quebrando a barreira do som.

“…—Hh, hff— Terminei, por favor—! Cadê meu peixe, por favor?!”

…*Se eu me esforçar pra caramba… deve dar*. Pois bem. Exatamente como Izuna havia prometido, ela tinha se esforçado pra caramba.

—Tanto que foi lá e desafiou os limites da física, e os dobrou à força…

O sangue de Izuna fervia, sua baba escorria, seu olhar fixo como o de um predador—

“…V-você se importaria de me ajudar a comprar os ingredientes?”

Steph decidiu ganhar tempo…

******

—Bem alto no céu de Avant Heim, envoltos na escuridão da noite. A paisagem era pontilhada por incontáveis cubos e iluminada apenas pela lua e o brilho suave emitido pelos próprios cubos. Foi por entre tudo isso que Sora e Shiro voavam — ou melhor, pairavam — de forma desajeitada, trêmula, nada convincente.

“U-umm… Você tem mesmo chance de ganhar…?”

“Não fala comigo agora — você tá me desconcentrando!”

“…Irmão… mais… mais assim…”

Pareciam prontos para entrar em espiral a qualquer movimento em falso, o que não era nada tranquilizador.

Plum, que os ligava pelas asas formadas, murmurou: “V-vocês estão enfrentando os Flügel, sabem disso, né? Tipo, eu tô ajudando, mas mesmo assim, vocês nunca voaram antes… E não tem como a gente ganhar em velocidade de um Flügel…”

Lutando para usar a asa, Sora respondeu alegremente — ao menos no tom de voz:

“Não… se preocupa. Ser rápido é uma vantagem no pega-pega — mas não significa necessariamente que vai ganhar.”

“Bem, isso é verdade… mas mesmo assim…”

Nesse ponto, Plum, o Cachecol, soltou um suspiro silencioso.

—Flügel. Mesmo sem *shiftar*, eram uma raça que, só por existir, já contrariava as leis da física. O trio talvez nunca tivesse visto a velocidade máxima de seus oponentes, mas só de conhecerem sua natureza geral já dava para imaginar. Provavelmente, se quisessem mesmo — não seria só supersônico, mas hipersônico. Mesmo reconhecendo que o pega-pega não dependia só de velocidade bruta, não dava pra esperar que uma tartaruga vencesse um cavalo numa corrida. Sério, do jeito que estavam indo — era — completamente—?

“…Hã? O-o quê?”

No meio desses pensamentos, Plum percebeu algo estranho. Em algum momento, o bater de asas de Sora e Shiro tinha estabilizado. Aos poucos, o ritmo deles aumentava, e o vento batendo contra o cachecol — Plum — ficava mais forte.

“…Umm, por que vocês fizeram questão de… cada um controlar só uma asa?”

Mesmo pensando nisso tão tarde, Plum não conseguiu deixar de perguntar. Os irmãos, que estavam dominando as asas num piscar de olhos, se entreolharam e sorriram.

“Isso é óbvio — porque se não fosse assim, a gente não teria certeza de que ia ganhar.”

Sugerindo, ao contrário, que se fosse assim, eles *poderiam* ter certeza de que iam ganhar, as mãos unidas contavam a história.

—Enquanto nossas mãos estiverem juntas.

Não vamos perder para ninguém.

******

Armas vazias — objetos… meras marionetes — Flügel. Ferramentas para destruir deuses por seu senhor. Isso lhes bastava. Mas já tinham se passado mais de seis mil anos desde que perderam seu senhor. Por que os Flügel ainda existiam? Em busca dessa Resposta, vagavam há muito tempo com Avant Heim. Mas Jibril — que havia voado sozinha e agora retornava de repente — claramente havia mudado. Como se, sim — ela tivesse encontrado a Resposta.

Azril, apoiada no queixo, olhava para o espaço vazio. Conforme as condições de Sora e Shiro, toda a assembleia do salão — cem Flügel — esperava os cinco minutos de vantagem dos irmãos, todos olhando na mesma direção. Para a imagem projetada no espaço vazio — os feitos de Sora e Shiro.

“…Jibs, eu acho que se alguma de nós pode completar a missão final que Lorde Artosh nos deixou — encontrar a Resposta — só pode ser você, Jibs, o Número de Encerramento.”

“……”

—Havia um motivo para isso. Mas não era essa a questão, decidiu Azril, enquanto continuava.

“Se a sua Resposta for algo plantado em você pelos Covenants—”

—Algo que Azril havia confirmado, na língua dos Flügel, para que Sora e Shiro não entendessem… Ela prosseguiu deliberadamente, o sorriso plástico inalterado.

“—Vou usar meu ‘privilégio’. Você sabe o que isso significa, não sabe?”

“Sim. No entanto — fazer uma pergunta sem já conhecer a resposta é coisa de uma vontade fraca, minha anciã.”

Diante dessas palavras, todos os Flügel que olhavam para a projeção se enrijeceram.

—Azril, a Alipotentiária — a presidente do Conselho das Dezoito Asas. O único privilégio de Azril, que não era a agente plenipotenciária, baseava-se num acordo firmado há mais de seis mil anos.

“—A ordem para que todos os Flügel acabem consigo mesmos… não é isso que você quer dizer?” Jibril semicerrava os olhos ao falar casualmente aquilo que todos pensavam. “Originalmente, esse privilégio foi garantido para proibir nosso suicídio até que encontrássemos o significado de nossa existência como Flügel sem um senhor. Mas, caso julgue que não há significado para nossa existência — fique à vontade.”

O que tensionava todos eles não era medo — os Flügel nunca tiveram um medo forte da morte. Para uma raça criada como arma, uma raça que vivia eternamente, era quase uma honra. O que tomava conta deles, apesar disso, era antecipação.

—Algo começando ou algo terminando. Apenas essa diferença. Mas a promessa de tal evento criava uma atmosfera de expectativa.

“…Contanto que você… saiba.”

Mas parecia que, entre todos, apenas Azril não compreendia isso. Observando sua anciã, Jibril não pôde deixar de demonstrar um leve desapontamento.

—E isso, mais que qualquer coisa, corroía Azril.

“Anciã Azril. Com certeza você também pode entender. Nosso — erro fundamental dos Flügel.”

—Sora e Shiro não sabiam, mas Jibril, desde que os conheceu — havia mudado claramente. Antes de perder para eles, Jibril também talvez sentisse um certo desconforto ao seguir seus dias. No fim das contas, porém, ela era mais ou menos igual a Azril. Transformar o desconhecido em conhecido — nisso apenas, encontrava sentido. O desconhecido devia ser vencido. Era algo sem emoção, ou — poderia até se dizer — um inimigo a ser destruído. Jibril apenas havia sido um pouco mais agressiva que as outras ao enfrentar esse inimigo.

—Mas no dia em que perdeu para Sora e Shiro, tudo mudou.

“O conhecimento que acumulamos ao longo de milhares — dezenas de milhares — de anos foi derrubado por completo por meus mestres, nascidos há pouco mais de dez anos. O significado, o valor disso — minha anciã, você não compreende.”

“……”

Com uma expressão que Azril jamais tinha visto, quase febril — uma expressão que, até onde a memória alcançava, sua irmã mais nova jamais mostrara nem mesmo a Artosh — Jibril prosseguiu.

“O coração arde quando o desconhecido se transforma no conhecido. Mas arde muito mais — quando o conhecido se transforma no desconhecido. Essa revelação me convenceu, por minha própria vontade, a segui-los. Isso não tem nada a ver com os Covenants.”

Azril só pôde assistir em silêncio à oratória de Jibril. Francamente falando, ela não fazia ideia do que sua irmã mais nova estava falando. O conhecido transformado em desconhecido—? O que poderia ser isso além de terror?

—Mas como se inspirados pelas palavras de Jibril, brilhos de fervor surgiram nos olhos dos cem Flügel prontos na linha de partida — e suas asas tremeram.

*Não entendo isso*, Azril parecia dizer, apoiando o queixo na mão outra vez. Pelo menos — aquilo não era a Resposta. Ela voltou sua atenção para os dois projetados no ar — lutando desajeitadamente para voar.

“Anciã Azril, sei que você, mais do que ninguém, tem se angustiado pelo destino dos Flügel. No entanto.”

“……”

Sem mover-se, Azril desviou os olhos em direção ao comentário, e seu olhar encontrou — convicção absoluta.

—De algum modo, como se implorasse, Jibril falou.

“A resposta que você tanto procura… não está onde você imagina.”

******

“Eegh… eegh… E-eu não aguento mais… É difícil demais… Eu desisto…”

“Cara, nem se passaram três minutos! Até o Ul*raman tem mais coragem que você!”

Plum, o Cachecol, já estava choramingando e levando bronca de Sora.

“Eu não sou nenhuma Flügel maluca! Vocês dois nem sabem o quão difícil é pra mim desafiar a gravidadeaaah! E ainda querem que eu dê asas pra vocês. Pra ser sincera, eu queria era—”

“Quer suor? Eu tenho de sobra, então pode lamber à vontade!”

“Eu nunca vou desistiiir!! Pelo seu suor — vamos, continuemos!”

“Droga, você se rebaixa demais!!”

A sensação de ter o pescoço lambido fez algo extremamente desconfortável subir pela espinha de Sora.

—Aquele cachecol deveria ser a Plum disfarçada. Ela havia ocultado seu corpo físico na forma de um cachecol para ligar Sora e Shiro, com suas “pontas” funcionando como asas que os irmãos podiam controlar à vontade. Era assim que funcionava. Era um disfarce, o que significava que era um feitiço de ilusão. Então — Sora tentou se lembrar de que era *apenas* a Plum.

“Ei. Pra gente, parece que você é um cachecol que vira asas. Mas na real, o que tá acontecendo aí?”

“Lambe-lambe… Ohhh, isso é o paraíso. ♥ Ah, sim? Uhm, bom, no momento, estou segurando você pelo pescoço enquanto o lambooo… enquanto estou grudada no pescoço da Rainha Shiro com minhas extremidades inferiooores.”

“Ha-ha, vamos chamar isso de voo em ‘deformação’!”

“…Irmão, isso foi forçado, irritante e, acima de tudo… sem graça…”

“Ei, eu só tentei, por que tem que ser assim?!”

Uma lágrima caiu, brilhando no céu noturno de Avant Heim. Mas Plum retrucou amargamente.

“Só pra constar, lançar múltiplos rituais simultâneos é especialidade patenteada dos Elfos. Considerando que eu não só estou disfarçada de cachecol voador mágico, mas também estou literalmente fazendo vocês voarem pelo céu como bem entendem, eu realmente — reaaaaaaaaaaaalmente! — queria que vocês falassem algo legal!!”

Plum reclamou longamente.

“E também, isso me cansa mais do que eu esperava… Se meu suprimento de alma acabar, a gente provavelmente morre em alguns seguundoos.”

“…Você aceitou uma proposta bem arriscada, hein?”

“Ah, mas aí eu posso lambe-lamber seu pescoço o quanto quiser, Senhor… Gee-hee-heee, que delícia!”

“Nggahh! Agora só quero arrancar esse maldito cachecol!”

Justo quando o impulso de arrancar o cachecol — consequências que se danassem — o atingiu—

“…Irmão, tempo.”

Cinco minutos haviam se passado. Os olhos de Sora se estreitaram com o lembrete de Shiro. Era a hora em que os Flügel presos na linha de partida começariam a caçá-los.

“—Certo, Plum, estamos confiando nossas vidas a você, então não desmaia no meio, hein.”

“Não se preocupe! Se eu perder energia, a gente só cai juntooo!”

“Ah, ótimo, mas dispenso!! Lá vamos nós!”

No momento em que disse isso, Sora e Shiro bateram as asas com força — despencando vertiginosamente.

“Eeeyhyaaghh!”

A queda era tão íngreme que até Plum, ainda enrolada em seus pescoços, gritou. Amplificada pela força das asas, a velocidade descendente era tão intensa que o vento os chicoteava. Pouco antes de atingirem o solo — as costas de Avant Heim — nivelaram-se num voo horizontal.

*Será que… estão usando a aceleração da queda pra despistar os perseguidores?*, Plum se perguntou em silêncio, mas— Algo estava atrás deles. Os Flügel, que haviam acabado de partir, já estavam alcançando. Era verdade que Sora e Shiro tinham pego rápido o jeito das asas. Mas por mais que forçassem as asas que Plum havia tecido para eles, não podiam ultrapassar os limites da física. Duzentos quilômetros por hora era o máximo que conseguiam, enquanto os Flügel zombavam das leis da física. *E-eles vão nos alcançar! O que a gente faz?!* Enquanto Plum gemia internamente, Sora e Shiro avaliavam calmamente a situação atrás deles—

“Quatro. Sem formação.”

“…Sílabas: uma, três…”

“Evadir. Coletar?”

“…Número Um, base da asa: oh… Três, lado esquerdo: hol.”

“Um: Shiro. Três: eu. Vai.”

—Uma troca indecifrável para Plum ocorreu num piscar de olhos, e antes que ela conseguisse sequer murmurar *Hã?*— Sora e Shiro ajustaram o curso.

—Naquele instante.

“Eh-heh-hehh! Cheguei primeiro!”

“Agora pegamos vocês!”

Recuperando com facilidade os cinco minutos de vantagem — como era de se esperar — dois Flügel se aproximaram. Estenderam as mãos em direção a Sora e Shiro — mas agarraram apenas o ar.

““—O quê?””

Os dois Flügel, expressando incompreensão por não terem conseguido capturar os irmãos, que haviam desaparecido num piscar de olhos—

““Uhh!””

—Atrás. Sora e Shiro estavam, respectivamente, na base da asa e no lado esquerdo de seus perseguidores — mirando nas sílabas inscritas ali — e os Flügel gemeram. Os outros dois, que vieram um momento depois, olharam ao redor, tendo perdido o rastro de suas presas. Não era de se espantar, pois a essa altura Sora e Shiro já estavam bem à frente, em sua rota espiral pelas linhas de cubos. Tecendo entre incontáveis pilhas de dados — pela paisagem urbana de Avant Heim.

—Duas sílabas capturadas.

“…U-uhm, desculpa… o que foi… aquilo?!”

Um encontro fugaz que nem Plum, que estava envolta em seus pescoços, conseguiu compreender. Enquanto Plum boquiaberta ainda processava a ilusão, Sora explicou.

“Um *barrel roll* — é assim que você desvia de algo que voa numa linha reta mais rápido que você, duh.”

—De fato, sentindo os perseguidores atrás e os atraindo o máximo possível, Sora e Shiro ajustaram o curso para que, dos quatro que os seguiam — os dois que carregavam sílabas acabassem ficando na frente. E no instante em que Sora e Shiro capturaram o que precisavam, estenderam as asas e simplesmente rolaram num ângulo. Isso significava que continuaram na mesma direção, mas numa espiral desacelerada. Enquanto, da perspectiva relativa dos Flügel rápidos demais, parecia que haviam desaparecido no ar — na verdade, os irmãos apenas os “ultrapassaram”. Eles não estavam acostumados a usar asas, e mesmo que dominassem, seriam incapazes da velocidade dos Flügel. Nesse caso—

“Se a gente não consegue trabalhar as asas, a gente trava as deles. Aquelas vadias voam por aí todas ‘que se dane a aerodinâmica’ — como se soubessem as manobras de uma aeronave de asa fixa.”

“…Mesmo que saibam… jamais teriam… pensado nisso.”

Ao redor dos braços da dupla que sorria com confiança, como Shiro havia explicado — giravam as sílabas *oh* e *hol*. Plum, finalmente entendendo, ficou pasma.

“…Não me diga… vocês decoraram quem tem uma sílaba — e qual sílaba?!”

Sora riu.

“Ah, Plum, você ainda não aprendeu a respeitar minha irmãzinha?”

Sentindo-se envergonhada por essas palavras simples, Plum se calou.

“Bom, de todo modo… Shiro, as sílabas que a gente precisa agora — você sabe, né?”

“…Naturalmente.”

“Beleza, então vamos pegar essas primeiro. Até porque não dá pra usar as mesmas manobras com esses caras pra sempre.”

“…Mm, entendido…”

—Plum ficou boquiaberta diante da dupla, que declarava casualmente que iria capturar Flügel, como se fosse algo natural. Era como se, naquele pega-pega, os irmãos fossem, na verdade, os “pegadores”. Sora e Shiro voavam pela paisagem de Avant Heim, tecendo seu caminho.

******

—Sozinha na linha de partida com Azril, observando a cena projetada diante delas, Jibril sentiu um leve estremecer no peito — um fervoroso sentimento de assombro. Por Shiro, que havia memorizado todas as sílabas, seus portadores e até onde estavam inscritas. Pelo feito divino de evasão e coleta das sílabas — mas, mais do que isso, por ver seus dois mestres voando pela cidade como se a conhecessem como o próprio quintal. Ela não conseguia esconder seu espanto.

Avant Heim era construída de cubos intricadamente sobrepostos. Pelas finas frestas entre os cubos, na escuridão iluminada apenas pelo brilho suave e pela lua, eles voavam como se passassem agulhas por alfinetes. Ainda não tinham muita velocidade. Mas nesse cenário, um perseguidor que voasse rápido demais acabaria perdido. Enquanto planavam, mergulhavam, atravessando com precisão os becos estreitos e as fendas formadas pelos cubos, escorregando por buracos que mal pareciam caber uma pessoa, um único erro de aceleração — resultaria numa colisão desastrosa.

…*Magnífico*… Mas ainda assim, algo permanecia inexplicado. Jibril refletiu consigo mesma. Flügel era uma raça que tendia a confiar na força bruta. Isso era uma verdade que nem ela podia negar. Mas, mesmo assim, eles sabiam cooperar. Caso contrário, não serviriam como arma. Se a velocidade era insuficiente, deveriam mudar para táticas de cerco — e ainda assim—

“Hã — o quê?! Co-como…?!”

Uma jovem Flügel gritou. Ela estava posicionada na única saída da fenda por onde Sora e Shiro haviam entrado — apenas para vê-los surgir de um ponto completamente inesperado.

Sim, Sora e Shiro haviam frustrado completamente o cerco dos Flügel. Tinham olhado o mapa por apenas um momento. Teriam aprendido tudo sobre Avant Heim nesse curto espaço de tempo?

—Impossível. Era concebível que uma de seus mestres — Shiro — pudesse ter memorizado um mapa em poucos segundos. Mas era impossível decifrar as fendas e os becos da cidade, formada por pilhas complexas e tridimensionais de corpos em diferentes alturas, a partir de um simples mapa. Então, como…? E por fim, mesmo sendo uma observadora atenta, Jibril ainda assim duvidava da conclusão à qual, entre todos, ela mesma havia chegado.

…O quê—? I-isso só pode ser piada, né?

—A percepção surgiu quando Plum, até pouco tempo suprimindo um grito desesperado, finalmente percebeu o que acontecia entre as mãos firmemente entrelaçadas de Sora e Shiro — os dedos deles se moviam sutilmente. Agora, acreditando ter descoberto a metodologia por trás da navegação impossível por buracos e fendas apertadíssimas — uma metodologia que só poderia ser chamada de “bullshitologia” — Plum ficou sem palavras.

Então, provavelmente… presumivelmente… por mais implausível que fosse — era assim que faziam. Percorrendo com os olhos a paisagem urbana que Shiro havia memorizado, ela confirmou que os cubos tinham tamanhos uniformes. Por meio de cálculo mental, desvendava os padrões de empilhamento dos cubos, revelando as pequenas fendas criadas pelas diferenças de nível. E sem necessidade de palavras, transmitia essa informação a Sora apenas com o movimento dos dedos, e Sora, por sua vez, enganava os perseguidores, os atraía e traçava rotas de fuga.

—Como alguém poderia reagir a isso sem ficar sem palavras? Para Plum (e provavelmente para qualquer um), aquilo estava completamente além da compreensão. Eles estavam se comunicando por movimentos dos dedos. Mas nem era algo simples como “Por aqui” ou “Ali”. Liames e intenções eram transmitidos apenas pela sensação das mãos entrelaçadas. Os dois Immanity, sem um instante de confusão ou hesitação, batiam as asas e voavam como se as palmas unidas fossem seus próprios nervos. Bem, era justo dizer que ainda não estavam completamente adaptados ao voo. Havia alguma hesitação nos movimentos. Mas, justamente por isso — ao testemunhar algo tão inacreditável — Plum ficou maravilhada.

Dois num só par de asas — de mãos dadas. Se um se esforçava mais para vencer a gravidade, o outro sentia esse esforço antes de ficar para trás, se igualava e o alcançava. Sem permitir que uma única batida de asas saísse de sincronia, compartilhavam tudo o que aprendiam, elevando um ao outro.

—Infinitamente. A uma velocidade assustadora. Aquela visão fez um calafrio percorrer a espinha de Plum. Aqueles dois — eram ainda mais—

—Então, os irmãos, que até aquele momento mantinham silêncio absoluto, abriram a boca.

“Esquerda, direita: quatro, quatro atraídos.”

“…Esquerda: shal, yoo, pahs, sel. Direita: reyt, er, not, roh. Falta um.”

“Coletar, desenhar por cima. Doze?”

“…Sílabas: cinco. Completa… mas arriscado.”

Após essa troca enigmática, Sora voltou a falar em frases completas, sorrindo.

“Risco aceito —! Vamos pegá-los!!”

“…Entendido! Shiro esquerda, irmão direita. Ombro esquerdo, asa direita, cotovelo esquerdo, quadril!”

Mal terminaram de falar—

“Eeyahhhhh!!”

Estalaram as asas — ou melhor, Plum — numa guinada feroz que os lançou para dentro de um buraco estreito…

“—! Finalmente os temos!”

“Ataque em pinça, no sinal!”

Sora e Shiro saíram descuidadamente — ou assim pareceu a Plum — para um corredor largo. Esperando por eles havia quatro Flügel de cada lado — como eles mesmos haviam previsto, um ataque em pinça perfeito. Mas as palavras de Sora e Shiro ecoaram na mente de Plum.

—Esquerda, direita: quatro, quatro atraídos… eles atraíram os Flügel — e agora iam pegá-los? Oito Flügel ao todo, avançando em velocidade ofuscante pelas laterais, mas nesse caso—

“Vamos lá, Shiro!!”

“…Mm!”

—Afinal, quem tinha quem?— Sora e Shiro uniram suas mãos livres para formar uma Palavra. As sílabas em seus pulsos se moveram e se combinaram — um clarão de luz. Mirando os oito Flügel que os atacavam de ambos os flancos, a dupla — estendeu as mãos para a esquerda e para a direita e gritou:

““—‘Hollow!’””

—Um compasso de batida. Os quatro Flügel de cada lado que desciam sobre Sora e Shiro com as mãos estendidas—

““…Hã?””

—passaram inofensivamente através de suas presas, emergindo do outro lado.

““Waungh!””

Deixando oito gemidos para trás, Sora e Shiro mergulharam mais uma vez no espaço entre os cubos. Navegando por uma fenda mal larga o suficiente para uma pessoa, alinhado verticalmente com Shiro, Sora riu.

“Pahs, sel, yoo, shal — e aí, Shiro? Peguei todos!”

“…Reyt, roh, not, er… Isso dá oito…”

Cada um exibiu as quatro sílabas de luz coletadas no pulso, como se fosse a coisa mais natural.

—Cautelosamente, Plum perguntou:

“…U-uhm… o que foi… aquilo?”

“O que você acha? Um buraco. ‘Palavras’ funcionam sobre o que você toca — essas são as regras do jogo, né?”

“…Então… abrimos um buraco… no espaço.”

Plum, sem palavras, relembrou. Eles abriram um buraco — um espaço vazio — ao redor de si mesmos, ligando os espaços das laterais para escapar do ataque em pinça dos Flügel. Uma vez que os agressores emergiam, naturalmente, estariam de costas para Sora e Shiro — que coletaram as sílabas — mas espera.

“…Não me diga que vocês atraíram só os Flügel que tinham sílabas?!”

“É, mas ainda não pegamos todas as que precisamos—”

Confirmando isso como se fosse trivial, Sora olhou audaciosamente para as sílabas alinhadas em seu braço como contas de oração.

—Plum involuntariamente acompanhou o olhar dele.

…Quatro, cinco, oito — doze Flügel convergiam sobre eles a uma velocidade assustadora.

“Ah-wah-wah-wah-wah-wah-wah — o que vamos fazer?!”

“Coletar. Atrair doze por cima — como planejado. Sem pânico.”

“…Irmão, vamos conseguir sair?”

Sora e Shiro avançavam em alta velocidade por uma fenda mal suficiente para uma pessoa. Assim que saíssem para o aberto, seriam atacados por Flügel — doze deles. Mas Sora sorriu com ousadia—

“Claro, sem prooooble—!”

Sora perdeu o equilíbrio quando Plum subitamente lambeu seu pescoço. Eles emergiram para o aberto — com doze Flügel se aproximando. Com Sora desnorteado, a força centrífuga—

“…Irmão?!”

“Wwwaaaaah?!”

—quase derrubou Shiro, mas algumas batidas de asa furiosas conseguiram mantê-los inteiros. Ainda assim, o esforço para evitar um giro descontrolado deixou Sora despreparado para os Flügel que se aproximavam.

“Shiro, faz iiiisso!”

—Uma decisão em fração de segundo. Sem tempo para se endireitar. Sora estendeu a mão esquerda para Shiro — e deixou a Palavra com ela, totalmente confiante de que ela saberia o que ele queria dizer. Shiro segurou a mão de Sora e lançou as sílabas brilhantes no vazio—

“—‘You shall not pass’…!”(Você não deve passar)

Com essas palavras, as doze sombras avançaram sobre Sora e Shiro, e…

“Aiieee!”

“Ngyah!”

*Whap, whap, whap* — ou melhor, nem tão fraco assim.

Trovejante, como um abrigo bombardeado, os Flügel colidiram contra uma parede invisível. Mas a verdadeira questão era—! Shiro olhou para Sora. O plano era — subir naquele momento.

—“You shall not pass.”(Você não deve passar) A parede que haviam criado usando quatro palavras monossilábicas separadas — não deixava nenhum inimigo passar. O plano era deixar apenas os Flügel com sílabas passarem, mas…

“Ngk—! Rraghh!”

—Ele conseguiu a tempo. A expressão de Shiro relaxou. Enquanto ela lançava a Palavra, seu irmão conseguira recuperar o equilíbrio e se virar. Suando frio, Sora bateu as asas enquanto Shiro o seguia no mesmo instante—! Desviando pelos doze Flügel momentaneamente atordoados pela colisão contra a parede invisível—

“Droga, Shiro — agora é com você!”

“—Mm!”

Não havia tempo para avisar quais adversários tinham sílabas. Shiro estendeu as mãos — e então… As mãos sozinhas não bastavam, ela usou os pés — e até a asa, conseguindo por um triz coletar todas.

“Mgmgmgggg, não vamos deixar vocês—”

“Eu não vou deixar que consigam!!”

A asa de Shiro quase foi tocada, mas dessa vez Sora usou a própria asa para ajustar o equilíbrio entre eles. Eles escaparam das mãos dos inimigos, voltaram por baixo da parede invisível… e, no momento em que quase colidiram com o chão, bateram as asas — mergulhando por uma fenda estreita…

Tinham conseguido, de alguma forma.

“…Hff… hff!”

Shiro expressou sua preocupação por Sora, que arfava tentando recuperar o fôlego.

“U-uhm… você tá bem?” perguntou também Plum, ela mesma a culpada por aquela crise.

Sora mordeu o cachecol e uivou indistintamente. “—Pluuuuuum! Sua pestinha, você quer morrer junto com a gente?!”

“D-d-desculpa! É que, quando você virou de repente, minha boca escapou, Senhor — Eu não te falei que, se minha energia acabasse, morreríamos em alguns seguundoos?! Quero dizer, se a gente morrer, vai morrer junto. Você vai comigo tambémmm!!”

—Aquela pestinha. Tinha muita ousadia. Com isso, Shiro conteve as batidas aceleradas do coração para catalogar as sílabas no pulso e murmurou:

“…Irmão… pegamos… ak, por, bair, vey, feet, teyt, e dih—agora…”

“É, finalmente tá completo.”

Por, dih, sel, er, vey, bair, roh, reyt, ak, feet, e teyt — os irmãos sorriram para a Palavra que agora podiam compor. Ao trocarem olhares e assentirem — bateram forte as asas. Os dois, que até então se mantiveram entre os cubos, agora subiam para o céu.

“—Ah, ali!”

“Mmk… eles tão mudando a estratégia de novo?”

Foram avistados imediatamente. Sora e Shiro se expuseram, mas os perseguidores desconfiaram dessa aparição súbita. Em vez de atacar em linha reta, voaram em arcos para cercá-los.

—Ninguém poderia ter previsto. Nem Plum, apesar de tudo, tinha previsto. Diante dos Flügel avançando, os dois uniram as mãos e soletraram a Palavra.

—Antes que as quatro sílabas desaparecessem, tocaram a si mesmos e gritaram:

““—‘Accelerate!’””

******

Não eram apenas os perseguidores. Plum, e até Jibril observando de longe, estavam estupefatas. Quem teria esperado que, no curto tempo desde que obtiveram suas asas no início do jogo — nem quinze minutos — aquelas mesmas asas emprestadas de Plum, com um único bater de asas de dois Immanity…

…deixassem para trás tanto o som quanto os Flügel, nada restando além de uma onda de choque no rastro, seguindo pura e simplesmente a linha reta da distância?

De fato, ao usar uma Palavra para acelerar a si mesmos, podiam materializar uma imagem. Assim, conseguiam se livrar das limitações físicas das asas. “Apressar”, “agilidade”, “acelerar” — desde o início do jogo, o objetivo deles era formar tais Palavras. Se não conseguissem, Sora e Shiro seriam incapazes de escapar de adversários que mudavam de estratégia conforme os movimentos de seus oponentes — que se adaptavam e aprendiam — por uma hora inteira. Por isso haviam se mantido em velocidades baixas ao redor dos cubos, focando em atrair Flügel e coletar sílabas. Agora, vendo isso, Jibril semicerrava os olhos como quem encara uma luz muito forte.

—Pois isso provava que eles tinham fé nos Flügel.

“Ha-ha! Isso tá divertido!”

“…Mm-hm!”

Enquanto os dois rodopiavam como se dançassem no ar, suas risadas ecoavam por Avant Heim.

—Duas asas, um destino: O provérbio passou pela mente de Jibril. Mas — mesmo isso não parecia certo, ela sentiu, balançando a cabeça. O que presenciava não era “duas asas, um destino” no sentido figurado de proximidade extrema. Era o significado literal, original, dos dois pássaros de uma asa só, tinha certeza. Um macho e uma fêmea, cada um com um olho e uma asa, que sempre voavam juntos. Essas criaturas fantásticas—

—estão voando diante de nós neste exato momento, não estão?

Jibril os encarava como se deslumbrada — mas.

“……”

Azril, olhando, entediada, ainda não compreendia o que aquilo significava.

—Ao ver isso, Jibril perguntou baixinho:

“Anciã, sabe o motivo pelo qual me opus à Lei de Compartilhamento?”

“…Porque você é séria demais e não gosta que mexam nas suas coisas?”

“Não. É porque eu gosto — de ler os mesmos livros muitas vezes.”

—Aquilo era novidade. Azril a encarou, confusa.

“…Pra quê? Quem precisa deles depois que já memorizou?”

“Sim, eu sabia que era isso que você diria, e é por isso que nunca falei sobre isso…”

Jibril suspirou e então, aparentemente reunindo coragem, disse:

“Mesmo depois de ler um livro, quando se volta a ele depois de aprender mais fora dele, há novas descobertas a serem feitas.”

“……”

“O que me incomodava era não poder lê-los quando eu quisesse. Você não entende?”

“…Entender o quê?”

“—Se você apenas memoriza o conteúdo, aquilo termina ali.”

Jibril abaixou os olhos ao dizer isso — e ainda assim.

—Azril continuava confusa. Não compreendia o insight de Jibril, sim, mas mais criticamente—

“Então o que isso tem a ver com isso?”

…O olhar que Jibril lhe dirigiu era dolorosamente triste. Não era um olhar de escárnio ou desprezo. Era um olhar, antes, de decepção, de quem afunda cada vez mais toda vez que uma pequena esperança é novamente cortada.

—Azril não conseguia responder às esperanças de sua irmã. E isso, mais do que tudo, a feriu profundamente.

“O que você tá dizendo…? Qual é o problema…?!”

******

Bem alto no céu noturno de Avant Heim, um rastro prateado cortava os ares. Sora e Shiro já haviam deixado a barreira do som para trás — naquele ponto, não havia mais ninguém capaz de alcançá-los.

“Bom, desde que a gente não baixe a guarda, estamos praticamente seguros de sermos pegos.”

Sora murmurou isso enquanto segurava a mão de Shiro, rasgando o céu da noite — mas—

“…Mas… e as sílabas…?”

“É, eu sei. Se vamos jogar esse jogo, temos que vencê-lo com a coleção completa de sílabas. Além disso”— assentindo às palavras de Shiro, Sora assumiu um semblante sério —“eu já sei qual Palavra quero atirar nela.”

“‘Ela’…? De quem você fal—aa?”

Plum perguntou, mas Sora não respondeu. Apenas virou as costas.

Era bom terem despistado os perseguidores com velocidade — mas para coletar as sílabas, precisariam se aproximar. O que significava risco de serem pegos, e além disso, estavam enfrentando Flügel. Também—

Sora advertiu a si mesmo em silêncio.

—Não esqueça: esse jogo foi inesperado. “ ” não estava jogando em casa. Não importava o quanto calculassem os riscos, não havia como se protegerem de tudo.

“…Heh, interessante.”

Sora riu baixo, inaudível. Excelente — era isso que tornava o jogo digno de ser jogado! Precisariam minimizar os riscos — coletando o máximo de sílabas de uma vez. Se reforçassem seu seguro, ou seja, o poder das Palavras, estariam em melhor posição… Mas então, Sora olhou para trás e viu—

—um raio cintilante.

“…Hã?”

Shiro ergueu a voz, questionando a luz.

“—Eeerk?!”

Sora reagiu uma fração de segundo mais rápido ao que já esperava. Jogou o corpo para baixo — quebrando o eixo num rolamento curvo sem mudar a trajetória—

“C-com licença, o que você está—ngyaaaah?!”

Cortando Plum, um raio passou — bem no eixo anterior deles.

—Tinha sido uma decisão de fração de segundo. A manobra evasiva incrível fez Shiro querer elogiar o irmão, mas antes que pudesse…

“Jibriiiiil!! Mas que droga foi essa? Ninguém falou disso! Eles podem atacar?!”

…Sora, antes tão composto, agora gritava furioso. Acima de sua cabeça — *poonk*. Uma mini Jibril, com a cabeça proporcional a um quarto do corpo, surgiu e anunciou:

“Não, Mestre. Aquilo não foi um ataque. Foi um feitiço de captura teleguiado.”

“Você quer dizer… um míssil?!”

“Não, é perfeitamente não letal. O feitiço serve apenas para prender o alvo e puxá-lo. Considerando isso e seu propósito de captura, e não de destruição, seu conceito é bem diferente do de um ‘míssil’ na sua—”

Rasgando os cabelos diante da ignorância de Jibril, Sora uivou.

“Tá, vou reformular. Ninguém falou nada sobre PROJÉTEIS! Plum, não dá pra revidar?!”

“Não fale bobagemmm! Eu disse que duocasting é especialidade patenteada dos Elfos! Se eu usar mais magia que isso, vou murcharrr! Sem falar que seu pescoço já tá parecendo uma uva passa, Senhor!!”

“E daí se tá enrugado?! Quer um suor frio? Eu tô com um monte escorrendo pelas costas, pode lamber!”

“Sério?! Então não se faça de rogadooo! Ahh! ♥”

Com um estalo irritado da língua para Plum, que alternava de voz chorosa para animada sem perder o ritmo, Sora olhou para trás. *É jogo fora de casa, esteja pronto pra qualquer coisa* — era o que pensava, e olha só! Claro, os Flügel tinham dito que não haveria *shifting* — mas.

—Ninguém nunca disse que não haveria magia—!

“—Droga — como eu pude deixar passar isso?”

“…Devia ter… pensado…!”

—Regras que pavimentavam um caminho para a vitória apenas ao empregar a Palavra certa eram favoráveis demais. Ao perceber o que haviam deixado passar, Sora e Shiro — não, Shiro lamentava ainda mais, mordendo as unhas. O truque nas regras… a redação. Dependiam dela para memorizar cada palavra e captá-las. Shiro se martirizava, enquanto Sora afagava sua cabeça.

“Estamos improvisando aqui. O que você esperava? Mas agora não é hora—”

“…Mm!”

Um jogo lançado sem informação suficiente. Era natural que surgissem imprevistos. Mesmo assim venceriam — quão rápido se adaptariam e tomariam o controle, essa era a essência de “ ” — Não havia tempo para luto!

“—Jibril, quantos desses eles podem disparar?”

“Boa pergunta… Depende do indivíduo, mas digamos… seis, talvez?”

“—Ah, vai ser um saco, mas com só seis, não devem desperdiçar. Então—”

“Ah, não, Mestre.”

Refletidos nos olhos de Sora voltados para trás, inúmeras sombras reunidas sobre os cubos — os Flügel — podiam ser vistos erguendo as mãos… e o céu noturno foi tingido com a cor do dia.

“Eu quis dizer que eles podem lançar uns seis… *de uma vez*. Não há limite.”

“Eu fui um idiota de ter esperado por um segundo que vocês, desgraçados, tivessem limite!”

“…Irmão, vamos…!”

Dessa vez Shiro foi mais rápida, batendo forte a asa. Imediatamente, Sora deixou a mini-Jibril para trás, perseguindo em silêncio. Os “mísseis” os seguiam em curvas complexas — mas se Jibril estava certa e eram teleguiados—

“…Mm!”

Shiro bateu forte a asa. Sentindo o intento dela pela mão, Sora a acompanhou. Mesmo com a Palavra de “aceleração”, não superavam a velocidade dos incontáveis raios que se aproximavam. Mas no instante em que os feixes estavam às suas costas — uma *chandelle*. Inclinando 45° a partir do voo nivelado e fazendo uma curva ascendente diagonal, aumentaram a velocidade e subiram — Os “feixes de captura”, talvez acionados por proximidade, passaram por um fio de cabelo quando a velocidade dos irmãos caiu levemente no início da subida. Os raios cintilaram atrás deles — e detonaram.

“Hyaaaaaaaah!”

Superando o grito de Plum, Shiro cancelou a *chandelle* que começavam. Em vez de virar, deu mais uma batida de asa, acelerando ainda mais a subida e escapando da luz que explodia atrás deles.

—Tinham sobrevivido. Mas sem tempo para comemorar, mais feixes os bombardeavam, um após o outro. Sora e Shiro os atraíam todos e os despistavam exatamente com a mesma manobra de antes, mas dessa vez descendo num mergulho cortante diagonal. Novamente, pelo mesmo método, despistaram a saraivada que explodia em seus calcanhares e usaram a velocidade—

“Ngaaaaahyaaaaaa!”

Plum, que sustentava as asas, guinchava enquanto essas asas, ainda operando em altíssima velocidade, paravam abruptamente. O *barrel roll* os enrolava ao redor dos feixes explodindo a queima-roupa, um por um, enquanto desviavam. Mas conforme a luz vinha em ondas sucessivas, agora as asas dos irmãos batiam para frear. Num fio de navalha de controle, mergulharam numa fina fenda entre os cubos — e imediatamente — inúmeras explosões quando os feixes explodiram ao redor da entrada.

—Sim, projéteis teleguiados podiam ser guiados. Enquanto o trabalho de calcular as trajetórias caía sobre Shiro—

“…Hff…! Hff…!”

—a sequência de manobras digna de um massacre de mísseis do Macr*ss a fazia suar frio e ofegar violentamente. Sua expressão mostrava que aquilo era sua penitência por não ter previsto que ninguém havia mencionado magia. Shiro carregava a responsabilidade a tal ponto que, mesmo tendo conseguido, parecia culpada.

“—Essa é minha Shiro. Seu irmão tem tanto orgulho da sua irmã,” disse Sora, acariciando-a enquanto voavam verticalmente pela passagem estreita. Mas—

“Aaagh, eu odeio iiiiisso! Chega desse jogooo! Se continuar assim, eu não vou aguentaaar!!”

Quanta carga havia sido colocada nas asas — em Plum — para sustentar tais manobras? Isso podia ser deduzido pelo lamento de Plum: estava perto do limite. Também — Sora pensou, suando frio — assim que saíssem daquela fenda, sem dúvida, uma horda de Flügel os aguardaria. Considerando a adaptabilidade que os Flügel haviam demonstrado até então, era improvável que desperdiçassem a chance.

“—…Irmão… Eu não vou…”

—Sim, e dessa vez certamente previam ações evasivas. Os feixes de captura viriam espessos e escalonados, mirando um após o outro. Mesmo com Shiro, não havia como desviar de todos, e pior, Plum provavelmente não aguentaria muito mais. Nesse caso — Sora e Shiro olharam para os próprios pulsos.

—Tudo o que tinham eram suas Palavras. Mas as únicas sílabas que possuíam eram *roh, por, bair, vey, dih, feet,* e *teyt*. Nada para essa situação—! Amaldiçoaram-se no meio do frenesi. Em segundos, sairiam daquele corredor apertado. Em instantes, teriam que desviar dos feixes iminentes ou encontrar uma Palavra—!

“…‘Defeat’…! Não… Irmão, me des—”

A primeira Palavra que surgiu na mente de Shiro escapou sem querer, e ela a rejeitou em pânico.

—Mas, na verdade, aquela era a Palavra que mais parecia plausível diante das circunstâncias. Como deveriam se defender com aquelas sílabas? Palavras como “evade”, “armor”, “reflect” — não tinham todas as sílabas para nenhuma delas.

Como virar o jogo a partir dali—? Como virar…? Enquanto Sora rangia os dentes, a mente girava como se fosse queimar. Apenas sete fragmentos de palavras. Todos sem aplicação. Uma Palavra que revertesse aquilo — revertesse… revertesse… Não.

“—Nosso trabalho é… virar pensamentos, não é—!”

“…Hã?”

Shiro reagiu confusa à epifania audível de Sora. Naquele instante—

variáveis distintas se encaixaram como engrenagens na mente de Sora e começaram a girar.

—As palavras de Jibril: o feitiço de captura acionado por proximidade.

—Aquela velocidade: ultrapassava os Flügel, e nem o grupo de Sora conseguia despistá-la.

E ao ver aquela luz emitindo — quando as engrenagens se encaixaram — Sora riu.

“Por que precisamos desviar — isso é a nossa chance!! Shiro, pra cima!”

“O quêéé?!”

Se voassem para o céu aberto, seriam alvos dos feixes de captura, mas apenas Plum lamentava a sugestão de Sora. Shiro teve uma reação completamente diferente:

“…Entendido!”

Iam subir — essa era a conclusão do irmão. Shiro não precisou de mais explicações. Mantendo a velocidade absurda, subiram o corredor — e dispararam para fora. E, claro — uma chuva de luz iluminando a noite desabou sobre eles.

“Ah-wa-wa-wa-wa-wa-wa-wa-wa-waaah—yaaaaa—aaaaah!”

Por mais que fossem não letais, se fossem capturados, o jogo acabaria, e o meio de coletar as informações para despertar a rainha Siren… Com medo dessas duas coisas, Plum gritou. Mas, ignorando-a, Sora viu exatamente o que esperava — e ousadamente apagou duas sílabas do pulso para formar uma Palavra.

Quando os feixes de captura dos Flügel foram lançados, Sora percebeu de relance de onde eles vinham: do chão. De fato, os Flügel que haviam acabado de disparar a saraivada que se lançava contra eles no momento em que os irmãos saíram do corredor, sem uma única exceção—

Todos estavam com os pés plantados nos cubos.

—Os Flügel não podiam disparar sem pousar. O que significava—Sora e Shiro não precisavam desviar. Em meio à chuva de luz, Sora agarrou o cubo logo na saída. Enfiando a Palavra que havia composto no chão — gritou:

“—‘Rotate!!’”

Um instante de atraso. E então, ignorando todas as leis da física, irresistivelmente, instantaneamente…

…Avant Heim inteiro girou horizontalmente.

“““Haaaaahhhhhh—?!”””

Não apenas Plum, mas todos os Flügel que haviam disparado os feixes de captura explodiram em choque. Não, até os que estavam acima, e até Jibril, assistindo de longe, expressaram surpresa. O que aconteceria se o próprio palco girasse horizontalmente? Tudo no ar — como os feixes de captura e os Flügel voando entre eles — permaneceria como estava. Com os gritos agudos dos Flügel ressoando num efeito Doppler, todos sobre o palco (com os pés no chão) — ou seja, os Flügel atiradores, Sora e Shiro—

—subitamente trocariam de posição.

“““Eeeeeeeeeek!!”””

“E os feixes seriam impossíveis de desviar pelos próprios atiradores, descendo de repente bem na frente deles, não seria?”

Enquanto Sora sorria, apenas Shiro podia ver que sua boca estava tensa.

—Fazer Avant Heim girar… A menos que conseguisse girá-lo exatamente no ponto que imaginava, apenas significaria ser atingido pelos feixes de outra direção. Era o sorriso de vitória nascido de uma aposta arriscada… mas se os feixes de captura funcionavam como Jibril havia descrito—

“Shiro!!”

Sora incitou sem perder o ritmo, e Shiro captou imediatamente a intenção, respondendo:

“…Sílabas: vinte e três…!”

Sim — os feixes de captura eram exatamente como Jibril descrevera.

Então, se um feitiço que prendia os alvos e os puxava de volta ao ponto de origem fosse ativado de uma posição invertida—!

“Aieee!”

“Ei—espera—aahh!!”

—Ele arrastaria um monte de Flügel indefesos direto até Sora e Shiro.

“Vai, Shiro!!”

De fato, perfeitamente — como Sora queria — haviam assumido o mínimo… ou seja, apenas um risco. E dos trinta e oito Flügel puxados em sua direção… colheriam vinte e três sílabas: *ahr, strkc, til, ah, this, uh, kuh, duhlt, luh, pit, ohn, ouhr, dis, kree, nekt, hood, mahyz, ih, min, with, skyool, kamp,* e *ree* — mas.

“…M-mas—Irmão!”

Shiro alertou em tom de alarme.

—Atados em poses as mais variadas pela surpresa, trinta e oito Flügel foram entregues bem na porta deles. Mas Sora e Shiro não sabiam por quanto tempo a prisão duraria, e apenas Shiro sabia onde estavam as sílabas. Coletá-las tão rapidamente de vinte e três Flügel seria demais — mas Sora sorriu instantaneamente—

“Primeiro, pra avaliação! ‘Vapor!!’”

A Palavra “vapor” cobriu explosivamente o grupo com vapor. Mas ainda não terminado— Com um sorriso travesso, Sora lançou um complemento à Palavra, gesticulando teatralmente para a plateia diante dele (ignorando o olhar sarcástico de Shiro, que sabia exatamente o que o irmão pretendia) enquanto os irmãos batiam as asas com força, decolando em voo de alta velocidade—

“—E agora, o momento que todos esperavam—‘Baaaaare!!’”

As vestes dos Flügel em poses constrangedoras, ainda imobilizados pelos feixes de captura, se dissiparam todas de uma vez, permitindo que Sora também localizasse onde estavam posicionadas as sílabas. Sora, com um sorriso profundamente agradecido, fechou os olhos e deu graças.

“Ohhh, agora eu vejo, Shiro. Eu vejo tanta coisa!”

“…Irmão, pega a esquerda. Eu… pego a direita.”

“Oh, deixa comigo, minha amada irmã! Yaghh, ruge com trovões, ó minha mão esquerda!”

Os olhos da irmã eram frios o bastante para deixar partículas elementares congeladas em zero absoluto, enquanto os olhos do irmão ardiam quentes o bastante para vaporizar um campo magnético.

—Se gradientes de temperatura entre olhares tivessem o mesmo efeito que leis da física, provavelmente o planeta já estaria coberto por um tufão.

Mas, felizmente—

“Uh!”

“Aahh!”

—tudo que cobriu o ambiente foi um coro de vinte e três gemidos. Sora gostaria de ter ficado um pouco mais para ouvir, mas ele e Shiro passaram por aquilo num instante, deixando aquela sinfonia para trás.

“—Como posso dizer isso? Vocês trabalham tão rápido… Eu simplesmente não consigo acreditar…”

“Heh-heh-heh, sinta-se livre para me elogiar sem reservas, Plum! Ee-hee-hee!”

“…Irmão, você é… repulsivo em parsecs…”

“Eu levei um tapa em unidades astronômicas?! Você não sabe o quanto seu irmão trabalhou por isso?!”

—Impecavelmente, Sora havia coletado onze sílabas; Shiro, doze. Tendo também se permitido um pouquinho de contato físico desnecessário, Sora vangloriava-se asquerosamente apenas para ser prontamente repreendido pela irmã. Sora obviamente ficou abalado pela avaliação da irmã de que era aproximadamente 3,26 anos-luz de repulsivo, mas Shiro não parou por aí.

“…Irmão… você desperdiçou… três sílabas…”

“Ora, minha irmã, já chega de piadas. Desperdicei, é? Que bobagem.”

Com um sorriso tão exagerado que deixaria até um americano desconfortável, Sora fez *tut-tut-tut* com a língua.

“Na verdade, houve três objetivos nobres por trás das minhas ações. Coletar as sílabas, inibir a perseguição provocando relutância em voar peladas, e o mais importante de todos—”

>

******

Então, uma pausa — e com uma expressão extremamente séria —

— Sora declarou:

— A vontade do cosmos.

— Você quer dizer, a vontade de… você…

Enquanto Shiro corrigia seu irmão, sua voz fria como sempre, Plum gritou um aviso ao notar algo se aproximando deles por trás.

— Wahhhhhhh, eles estão vindo para cima da gente mesmo estando totalmente pelados?!

— …Irmão, Flügels… não têm vergonha… tipo… Jibril.

— Queee? Eu nunca esperava essa!! …Parece que eles estão vindo de frente também, né, Shiro?

— Sem sílabas.

Shiro respondeu emburrada. Alguns Flügels nus avançavam por trás, tendo se livrado do feitiço de captura. Três se aproximavam pela frente também. Fixando deliberadamente seu olhar nos Flügels à frente deles e prontamente posicionando sua câmera, Sora conjurou uma Palavra. Enquanto três estendiam as mãos em direção a eles, ele e Shiro se esquivaram graciosamente — e ele lançou a Palavra.

— “Proeza da Idade Adulta” — …isso é.

Ao mesmo tempo, ele bateu sua asa para girar, cobriu os olhos de Shiro com a asa e virou sua câmera.

— Agora eles devem segurá-los para nós… hff…

Os Flügels vestidos começaram a apertar os seios dos Flügels nus, restringindo-os.

— Hff — finalmente consegui testemunhar a Terra da Flor de Pêssego com meus próprios olhos… É verdadeiramente maravilhoso. Que pena que está de noite. Será que minha câmera está capturando tudo certo?

— …Senhor, eu quase voltei a respeitá-lo…

******

— Infinitamente ágeis. Alegres. Quase como se rissem do perigo, seus dois mestres dançavam pelo céu. Contudo, alguém observava essa exibição, ainda sem mostrar nenhum sinal de compreensão.

— …

Jibril suspirou pela enésima vez para Azril, que continuava sem fazer nada além de franzir a testa.

…Parecia que seus mestres iriam vencer — mas não havia significado nisso por si só. Se Azril ainda não conseguisse entender nada, isso não trairia as expectativas de seus mestres?!

— Anciã, por que você não entende…?

— …

— Você ainda ordenará que nossa raça se destrua? Todos nós morreremos por sua causa?

As palavras de Jibril, sombriamente manchadas de tensão, não significavam nada para Azril.

— Por que um Flügel deveria temer a morte? Desde quando esse era um sentimento que um Flügel tinha? E temer não por si mesma — mas pelos outros?

— Você consegue ver os rostos de meus mestres, ver os rostos de nosso povo, e ainda assim não ver nada? Se sua teimosia selar suas possibilidades e desperdiçar todos esses seis mil anos —

— Por favor, entenda.

— Eles serão desperdiçados — por sua causa?!

À beira das lágrimas, Jibril forçou essa acusação, e ainda assim… Azril ainda não entendeu. Não entendeu. O que era tão… o que era tão… o que era tão…?!

……

— Nghhhh, não consigo alcançá-los!!

— Cortem o caminho deles! Vamos lançar os feitiços de captura neles com fogo cruzado! Assim que eles esgotarem suas sílabas, teremos nossa chance!

— Queee? Mas eles só vão desviar, tenho certeza!

— Vamos tentar, e se não funcionar, pensaremos em algo diferente, certo? Vamos!

Enquanto os Flügels conversavam enquanto se moviam rapidamente, por alguma razão, todos eles — incondicionalmente, sem reservas — sorriram.

— …O que era tão divertido?

Antecipando o fogo cruzado, Sora e Shiro mais uma vez bateram suas asas, caindo e desviando habilmente, exatamente como previsto.

— Awww, olha só. Eu disse que eles desviariam!

— Hee-hee! Então vamos apenas atirar neles de cima e de baixo ao mesmo tempo! Todos se dispersem. Fogo juntos ao meu comando!

— Sim!!

— …O que era tão divertido?! Como eles podiam perseguir um oponente que não conseguiam vencer com sorrisos como aqueles?

……Vendo Azril irritada com sua própria incapacidade de entender, Jibril deixou cair alguma sabedoria.

— Anciã. Você se lembra de meus despojos?

— ……Lembro-me de tudo. Todas as conquistas de minha doce irmãzinha.

Ela olhou para baixo, distantemente — para algum lugar muito no passado — e sorriu.

— Dezenove abates conjuntos de Gigantes, um abate individual. Três abates conjuntos de Dragonias, um abate individual —


— A cabeça de Dragonia consagrada sob a árvore gigante nos arredores de Avant Heim havia sido o prêmio de Jibril. Matar uma Dragonia sozinha era um feito que ninguém havia alcançado antes ou depois. Fora Azril quem, em celebração, havia colocado o crânio — enfeitado-o. E —

— Três abates conjuntos de Phantasmas — um abate individual.

Da mesma forma, apenas uma havia matado um Phantasma sozinha: Jibril. O sorriso de Azril enquanto relembrava era límpido — inafetado.

— A última criada, acumulando tais despojos em apenas 245 batalhas e voltando para casa viva… Como eu poderia esquecer?

…Azril relembrou aquele tempo distante, nostálgico e belo — um tempo em que tinham um futuro — com um sorriso plácido, levando Jibril, não conseguindo erguer os olhos, a perguntar:

— …Então você se lembra do número de vezes em que sofri ferimentos suficientes para exigir um rito de restauração?

— Cento e sessenta.

Sem hesitação. Jibril a havia preocupado, sempre voltando para casa à beira da morte.

— …Quase todas essas foram ocasiões em que você enfrentou inimigos sozinha…

Um Gigante, uma Dragonia e um Phantasma — um de cada. Jibril, tendo matado membros de três raças superiores sozinha, havia sido derrotada o mesmo número de vezes em que havia sido vitoriosa — multiplicado por vinte e nove. E o que isso significava… esse fato sendo completamente insondável para Azril… fez Jibril ranger os dentes.

— Muito bem — você entende por que insisti em matá-los sozinha?


— O forte tom de Jibril indicava que esta era a dica final. Sua voz era resoluta, misturada com esperança e o medo de que a esperança fosse mais uma vez traída. Mas… Azril só pôde balançar a cabeça.

— …Honestamente, eu nunca sei o que você vai fazer, Jibs. Para começar —

— Sim, para começar, eles eram oponentes impossíveis.

— De fato, ninguém deveria ser capaz de derrotar um oponente de nível superior sem assistência. Os Flügels não haviam sido criados com tais habilidades em mente.

— Este era o fim. Se Azril não entendesse isso —

— É por isso que — eu provei que você estava errada.

……

— Eu não entendo. Do que você está falando? O que você viu neles, Jibs?

— ……

Jibril não tinha palavras para responder.

— Ou seja, Jibril havia perdido toda a esperança. A esperança que ela nutriu — de que, se ela entendesse, todos os outros também seriam capazes — desmoronou. O desespero de sua irmã apunhalou Azril com uma dor insuportável. Mas —

— Jibs. Você é especial…

— ……?

— Você não sabe disso, Jibs, mas Lorde Artosh lhe deu algo especial. É por isso que você consegue compreender coisas que o resto de nós não consegue.

— ……

Enquanto Jibril permanecia em silêncio, Azril deixou escapar um apelo sincero.

— Eu também quero saber a Resposta. Eu não quero que termine aqui!! Porque então, o que terão significado esses seis mil anos?! Mas eu simplesmente não entendo — não consigo mais continuar mentindo!!

— Azril, a primeira Flügel. Criada primeiro por Artosh com o objetivo da perfeição. Chorar não era uma característica que lhe havia sido dada. Mas talvez porque estivessem sozinhas, a voz de Azril, suplicante, jorrou pela primeira vez com uma sinceridade úmida.

— Imploro, alguém, me diga.

— Para que estamos vivendo?

— Por que ainda estamos vivas?

— O que estamos procurando?

— O que temos que encontrar para termos vivido —?! Diga-me!

Jibril ouviu isso em silêncio.

— Mas deliberadamente, como se afastasse Azril com uma voz sem calor —

ela transmitiu o que Azril precisava ouvir… sim, as palavras que seus mestres teriam escolhido.

— …E assim você usa seus limites como desculpa — para me usar.

— !!

— Você e eu, e todos nós que sobrevivemos, perdemos e vivemos por seis mil anos como perdedores.

Jibril desviou os olhos de Azril, as mãos tremendo —

— Que, com isso, você não tenha aprendido nada não fala de alguém possuído de uma natureza excepcional — mas sim de sua própria indolência.

Jibril cerrou os punhos.

…Embora ela quase tivesse morrido inúmeras vezes, percebeu que nunca estivera tão nervosa quanto agora. Ela recompôs sua expressão: Não deixe sua voz tremer. Não deixe seus olhos vagarem. Ela forçou todos os espíritos que compunham seu corpo à submissão e os colocou sob seu controle.

— Ela conseguiria? A dúvida a assaltou, mas ela a afastou. Faça ou não faça — foi isso que ela aprendeu. Mastigando as lições de seus mestres, ela fez como havia aprendido com eles.

— Não era natural para Jibril. Mas ela decidiu arriscar — Mestres, por favor, perdoem a incompetência de sua humilde serva, Jibril, em quem vocês foram forçados a confiar até o fim.

Então ela sussurrou para si mesma e invocou a última de suas esperanças —

Mesmo assim, por favor, permitam-me depositar minha fé na fé que vocês me mostraram.

E assim, com uma expressão que era, no mais alto grau imaginável, desdenhosa, ela cuspiu:

— Tão fraca de espírito você é que eu… só consigo desprezá-la do fundo do meu coração — seu monte de lixo.

Pela primeira vez em seus 6.407 anos de vida — ela blefou.

...

…— Ff. Toda a cor sumiu do rosto de Azril, e uma voz cansada soou baixinho.

— Eu não aguento mais isso.

E então — o mundo tremeu.