
Capítulo 209
O Retorno do Professor das Runas
Capítulo 208: Maré Prateada
— Na verdade, estou ocupado no momento — disse Noah.
Maré Prateada espiou por cima do ombro dele, olhando para Moxie, e ergueu uma sobrancelha. — Ah, vejo. Mas acho que sua empresa preferiria muito mais se eu entrasse.
Noah olhou para trás e quase engasgou de surpresa. Os olhos de Moxie estavam arregalados, faiscando admiração.
Quem diabos é esse cara?
— Planícies Amaldiçoadas — Moxie respirou. — Maré Prateada está à sua porta. Não... Vermil, o que está acontecendo? Você conhece Maré Prateada? E não me contou?
— Não tenho certeza se "conhecer" é a palavra certa para isso — disse Noah, esfregando a nuca. Ele reprimiu um suspiro. Não conseguia pensar em nenhuma boa razão para mandar Maré Prateada pastar e, com o jeito que Moxie estava olhando para ele, provavelmente não faria mal conversar um pouco.
Noah recuou, abrindo a porta, e Maré Prateada entrou com passos largos. Seu olhar percorreu o quarto de Noah sem a menor vergonha. Não houve absolutamente nenhuma mudança na expressão de Maré Prateada, então, se ele encontrou o que estava procurando, não deixou transparecer.
— Nós nos encontramos há um tempo — disse Maré Prateada com uma risada tranquila. — Ele quase matou meu aprendiz idiota.
O olho de Moxie se contraiu. — Ah. Claro.
— Você não parece particularmente surpresa. — Maré Prateada ergueu uma sobrancelha. — O Mago Vermil costuma fazer essas coisas?
— Não. Eu confio nele com meus próprios alunos — disse Moxie, balançando a cabeça e se livrando de qualquer surpresa que tivesse tido com a chegada de Maré Prateada. — Não quero ofender, mas se ele atacou seu pupilo, ele provavelmente mereceu.
Maré Prateada jogou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada. — Ah, provavelmente mereceu. Vermil o assustou demais. O garoto não parou de treinar desde então. Ele está apavorado que você vai caçá-lo por algum motivo.
Noah pigarreou desconfortavelmente. — Desculpe por isso. Eu estava...
— Lidando com o que muitos soldados fazem — disse Maré Prateada, interrompendo Noah. Ele puxou a cadeira de Noah e sentou-se nela antes de olhar para Noah e tocar na cadeira com um dedo. — Você se importa se eu sentar?
Você deveria perguntar isso antes de sentar.
— Não, fique à vontade.
— Esplêndido. Por favor, apresente-me as duas adoráveis mulheres que você tem em seu quarto — disse Maré Prateada. — Aquele cabelo vermelho brilhante... da família Torrin? Um dos ramos secundários, suponho?
— Aquela é a Moxie — disse Noah. Ele acenou para Lee, que estava empoleirada na beira de sua cama, observando Maré Prateada com os olhos semicerrados. — E aquela é a Lee.
Maré Prateada estendeu a mão e apertou a de Moxie, sacudindo-a uma vez antes de se virar para Lee.
— Ela parece um pouco... jovem — disse Maré Prateada lentamente. — Uma estudante?
— Professora assistente — corrigiu Noah.
— Entendo — disse Maré Prateada. Ele estendeu a mão. Lee olhou para ela com desdém. Seu nariz se enrugou e ela não fez nenhum movimento para apertar. Depois de um momento, Maré Prateada puxou a mão de volta. — Prazer em conhecê-la, Lee.
— Sim. Você pode ir embora agora?
Maré Prateada bufou. — Um grupo de indivíduos muito diretos. Eu respeito isso. Se não se importarem, eu os tratarei da mesma forma. Sempre preferi ir direto ao ponto em vez de ficar dançando em volta dos meus objetivos.
— Isso seria o melhor — disse Noah, mantendo o tom uniforme. Ele não tinha ideia do que Maré Prateada queria, mas se Moxie sabia quem ele era, o homem provavelmente era um mago poderoso. Não havia muitos motivos que Noah pudesse imaginar para que alguém assim viesse procurá-lo, e nenhum deles era bom.
— Atualmente, estou ajudando em uma investigação — disse Maré Prateada, entrelaçando os dedos e se inclinando para trás na cadeira. Ele virou o olhar para Noah. — E eu estava esperando que você pudesse me ajudar a descobrir algumas coisas.
— Não tenho certeza de como posso ajudar, mas ficarei feliz em dar toda a ajuda que puder. — Noah estava orgulhoso de como suas palavras saíram uniformes. Mesmo sabendo que estava mentindo, ele quase acreditou em si mesmo.
Eu vou apenas me esquivar e apontá-lo para Brayden. Não havia nada que me ligasse à morte do Flagelo Infernal, já que Lee roubou a etiqueta com meu nome do meu cadáver e ninguém sabe que eu posso voltar à vida. Além disso, eu era apenas Rank 1 quando ele morreu. Não tem como...
— Se não se importar, gostaria de saber por que você matou o Flagelo Infernal.
A expressão de Noah vacilou por apenas um instante. — Desculpe? Você deve estar enganado. Eu era um Rank 1 quando o Flagelo Infernal morreu. Não havia nada...
Maré Prateada bateu um dedo na cadeira de Noah. Uma nota clara soou, ecoando pela sala como um tiro e silenciando Noah instantaneamente.
— Estávamos sendo honestos um com o outro — disse Maré Prateada suavemente. — Vamos manter as coisas assim.
Lee se mexeu na cama, seus olhos se estreitando enquanto ela se inclinava para frente, entrando em uma posição onde pudesse atacar. Moxie não se moveu, mas uma videira saiu do canto de sua calça e começou a se arrastar pelo chão.
— Você poderia esclarecer por que acredita que eu matei o Flagelo Infernal? — perguntou Noah. — Isso seria uma façanha insana para um mago Rank 1, Maré Prateada. Estou honrado que você ache que eu poderia fazer algo assim, no entanto.
Tecnicamente não é uma mentira.
— Ah, eu ainda não tenho nenhuma prova empírica — disse Maré Prateada com uma risada. — O cadáver que encontramos não tinha Runas e a etiqueta do uniforme estava faltando. Eles são um mistério... Admito que não tenho ideia de quem poderia ser. Mas você, por outro lado, matou o Flagelo Infernal. Não há dúvida em minha mente.
Noah abriu a boca, mas Maré Prateada ergueu um dedo.
— Antes de falar... deixe-me pintar um quadro. Um jovem mira em um Grande Monstro. Ele se joga contra seus lacaios, lutando contra eles repetidas vezes. Ao longo de meses de treinamento, ele começa a aprender como eles lutam. Descobre tudo o que eles podem fazer... e os mata em massa.
Aquele jovem tinha grandes planos de fazer muito mais do que apenas aprender os movimentos desses monstros. Ele iria dominá-los perfeitamente e, então, usaria isso para derrotar o Grande Monstro que os controlava. Mas ele não percebeu algo: o Grande Monstro sentiu toda a morte e não estava disposto a ficar parado e observar.
Acontece que, se sua alma é fraca, é possível que outro ser force sua mente para dentro da sua. E, se você atrai enormes quantidades de Energia Rúnica matando um certo tipo de monstro repetidas vezes, o Grande Monstro conectado a eles pode encontrar uma maneira de entrar em sua mente.
Maré Prateada inclinou a cabeça para o lado, observando a expressão de Noah com cuidado. Quando nada mudou, ele soltou um suspiro.
— Vou continuar, então. Você consegue adivinhar o que aconteceu com aquele jovem? Ele começou a ter visões. Vendo monstros na escuridão. Alucinações e um desejo incessante de caçar o Grande Monstro e matá-lo... tudo colocado em sua mente por aquele mesmo Grande Monstro, para que pudesse acabar com o incômodo.
— E o que aconteceu com aquele jovem? — perguntou Noah.
— Ele perdeu a perna matando a Serpente Prateada — disse Moxie, engolindo em seco. Maré Prateada olhou para ela e um sorriso passou por suas feições.
— Infelizmente, sim. Estou honrado em saber que tenho uma fã. Veja, Vermil, você não é o único que caçou um Grande Monstro. Eu reconheci aquele olhar em seus olhos quando meu aprendiz idiota, Tyler, o irritou. E, desde que ouvi notícias da morte do Flagelo Infernal, eu soube quem tinha feito isso... mas parece que você conseguiu meu feito sem perder uma perna.
Apenas algumas vidas.
— Não negue — continuou Maré Prateada. — Minha pergunta não era como você fez isso... era por quê.
Lee se preparou para atacar. Noah soube imediatamente que, se Lee tentasse atacar Maré Prateada, ela não sobreviveria à experiência. Seu olhar estava completamente focado no pescoço do homem, no entanto. Ela não estava observando seus olhos para que ele lhe desse um aviso tácito.
— Pare — latiu Noah. Lee congelou, a instantes de atacar. Ela recuou, seus olhos fixos em Maré Prateada, que nem sequer olhou para ela. — Se você tem tanta certeza de que eu fiz isso, por que não contou para a Arbitragem?
— Porque eu não me importo com a Arbitragem — disse Maré Prateada com uma risada. — Eu me importo com os estudantes e magos dentro dela, mas os Linwicks substituíram o Flagelo Infernal. O culpado quase não importa quando a família deles foi quem consertou os danos. Não, eu quero saber por quê.
Eu poderia tentar continuar negando, mas Maré Prateada me colocou contra a parede. Merda.
Noah lançou um olhar furtivo para Moxie. Ela estava tão rígida quanto uma tábua. Maré Prateada era muito forte, então. As chances de eles o dominarem, mesmo que quisessem, eram provavelmente incrivelmente baixas.
— Pelo mesmo motivo que você, imagino. — Noah suspirou e deixou seus ombros caírem. — Ele estava tentando me matar.
Maré Prateada sorriu. — Claro que estava. O porquê vem antes do Flagelo Infernal entrar em sua mente. Qual foi o motivo de você ter matado tantos de seus monstros?
— Treinamento — respondeu Noah. — Eu precisava aprender como eles lutavam perfeitamente para poder ensinar meus alunos. As coisas foram um pouco longe demais e ele começou a entrar na minha cabeça... e então uma coisa levou à outra. Era eu ou o Flagelo Infernal.
Maré Prateada assentiu pensativamente. — Você está falando sério. A Runa Mestra do monstro não era seu objetivo em nenhum momento, então?
— Um benefício, mas não um que eu estava buscando. Eu estava apenas tentando viver.
— Você vai contar para alguém? — perguntou Lee.
— Se eu dissesse que sim, suspeito que você e Moxie provavelmente tentariam me matar. — Maré Prateada esfregou a barba, nem um pouco preocupado com a situação. — Infelizmente, eu tenho uma queda por lealdade, e é raro eu ver alguém disposto a jogar suas vidas fora pelo que sabem ser morte certa.
Maré Prateada lançou um olhar incisivo para a videira de Moxie, deixando-a saber que ele estava por dentro de tudo o que ela estava fazendo. Moxie sustentou seu olhar, sem pestanejar.
— Qual era o propósito disso? — perguntou Noah. — Não realiza nada.
— Ah, mas realiza — disse Maré Prateada. — Eu julguei seu caráter. A confiança de seus companheiros já fala por ele... embora eu já tivesse minhas suspeitas. Eu falei com seus alunos antes de vir aqui.
As costas de Noah se enrijeceram e seus olhos ficaram frios. — O que você fez?
— Absolutamente nada — respondeu Maré Prateada, horrorizado. — Eu nunca machucaria uma criança sem motivo. Pelo contrário, eles são o motivo de eu estar aqui.
— Isabel e Todd não teriam dito nada — disse Lee firmemente. — Você está mentindo.
— Ah... eu tinha mudado de assunto. Eu não estava mais falando sobre o Flagelo Infernal — disse Maré Prateada. Ele se inclinou para frente, apoiando as mãos nos joelhos e olhando Noah nos olhos. — Eu vim por causa de suas situações únicas. Eu era amigo de suas famílias, veja.
— Você conhecia os pais de Isabel? — perguntou Lee. Seus olhos se estreitaram. — Por que você os deixou sozinhos por tanto tempo, então? Que amigo.
Pela primeira vez em sua conversa, o olhar confiante de Maré Prateada caiu e a vergonha tomou conta de suas feições. — Uma falha que recai inteiramente sobre meus ombros. Fui pego em uma série de trabalhos muito difíceis que não eram adequados para crianças participarem. E isso me leva à minha chegada à Arbitragem há algum tempo.
— Você veio para verificar Isabel e Todd? — perguntou Moxie.
— Não — respondeu Maré Prateada. — Eu vim para removê-los da política inútil da Arbitragem e tomá-los sob minha tutela.