Sobrevivendo no Jogo como um Bárbaro

Capítulo 849

Sobrevivendo no Jogo como um Bárbaro

Tudo começou com algumas gotas de chuva ácida caindo aqui e ali e logo, inúmeras anomalias começaram a ser observadas por toda parte. O início foi…

Chiiiiiiiiiiik…!

No ponto onde as gotas caíam e o chão borbulhava, flores de formas grotescas começaram a brotar. E então…

——— ——— ——— ——!!

Um som dissonante, impossível de descrever, ecoou delas. Não era agradável, mas havia um ritmo claro, um som que, de alguma forma, transmitia tristeza. Parecia o soluço de uma criatura que havia esquecido como falar. Bom, isso era apenas a minha impressão pessoal. De qualquer forma…

——— —, ——— ———! ——— —!

Um som áspero, como unhas arranhando um quadro-negro, misturado a um chiado metálico, uma melodia sombria composta de puro ruído.

———! ——— ——— ——! ——, ——— —!

E essa melodia começou a se espalhar, como a trilha sonora de um filme de terror. No mesmo instante, um arrepio percorreu todo o meu corpo. Eu já tinha ouvido algo parecido antes. Não na vida real, mas em um jogo.

— H-Hein… p-por que e-eu tô chorando…?

Logo depois que o som começou, vi um dos sobreviventes derramando lágrimas sem motivo aparente. Ele parecia confuso com o que acontecia, mas eu só sentia medo. Porque eu sabia o que significava.

【Você está dentro da área de efeito de Desespero.】

【Efeito de Status Tristeza aplicado.】

O Lorde das Lágrimas, Tetrasea. Havíamos entrado no alcance de sua habilidade passiva. Felizmente, a névoa ainda não era visível, o que significava que o Lorde das Lágrimas não estava tão perto assim… por enquanto.

— O que é essa flor…?

— Não toque!

Mesmo sem uma ordem direta, os Aventureiros não se aproximaram das flores que haviam acabado de brotar. Ao contrário, recuaram com cautela, atentos. Afinal, eram Aventureiros experientes. O desconhecido não é algo para se admirar primeiro, é algo para se temer. E, nesse caso, a reação deles foi a correta. Tocar nessas flores causa uma explosão.

— Senhor Visconde! O que diabos está vindo aí?!

— O Lorde das Lágrimas…

Assim que respondi à pergunta de Armin, um coro de palavrões ecoou dos outros sobreviventes que tinham ouvido minhas palavras.

— …Droga! Eu já tava sentindo que tinha algo errado!

— Merda, então até um Lorde de Andar veio agora?! Justo quando parecia que íamos ter um respiro!

— E-Então a gente vai ter que lutar com essa coisa…? Eu nunca nem vi um Lorde de Andar antes…

Ao ouvir a notícia da aparição do inimigo mais poderoso desta expedição, os sobreviventes ficaram tensos, alertas em todas as direções. Eu, por minha vez, concluí minha avaliação rapidamente. Assim que vi a chuva ácida começar a cair, gritei instintivamente ‘preparar para o combate!’, mas… a situação ainda não era tão desesperadora assim.

“Ainda não demos de cara com ele.”

Com um pouco de sorte, talvez conseguíssemos evitar o confronto direto. Portanto…

— Todos em formação de movimento! Assim que estiverem prontos, sigam atrás de mim! Cuidado com as flores — se tocarem ou pisarem nelas, elas explodem!

Enquanto eu dava as ordens, o Fantasma Dourado, que ainda estava ali de canto sem saber o que fazer, entrou no meu campo de visão. Ah, é mesmo… esse aí ainda tá aqui.

— Tá esperando o quê? Entregue logo o Urikfried e suma daqui.

— A-ah…

— Não me ouviu?

— …S-sim, vou buscá-lo agora mesmo.

Talvez pelo tom afiado com que falei, diferente de antes, ele congelou por um instante, mas logo correu em direção ao grupo e, pouco depois, voltou trazendo o Senhor Urso.

— Já deve ter ouvido o resumo da situação, né?

— A-ah… ouvi, mas… você acha que vai ficar tudo bem?

— E por que não ficaria? Vamos, Urakburak.

— …Estou em dívida com você mais uma vez.

O Senhor Urso parecia um tanto abatido, mas não havia tempo pra confortá-lo.

— A situação ficou caótica de repente, então vou pular as apresentações. Siga com Armin. Os da retaguarda estão todos com ele.

— …Entendido.

Ao deixar o Senhor Urso sob os cuidados de Armin, terminamos os preparativos para avançar. O problema é…

— E você, ainda tá aqui por quê?

Por que esse desgraçado ainda não sumiu?

— É que… seu tom mudou tanto de repente…

Ora, é claro que mudou. Depois de descobrir que esse verme é o Hans, não tem como eu abrir a boca sem sentir nojo. E eu não ia perder tempo explicando isso. Nem vontade de conversar mais eu tinha.

Tsc, que azar o meu. Cai fora logo!

Expulsei o sujeito sem cerimônia, e ele, atônito, acabou empurrado de volta ao grupo.

— …Você é mais rancoroso do que eu pensei.

Mas que diabos. Será que ele acha que fiquei ofendido por causa da última conversa?

— Aff… chega, vai logo. Quer saber? Deixa pra lá. A gente passa, só sai da frente.

E assim, encerrei a conversa com Hans. Ele parecia querer dizer mais alguma coisa, mas antes que pudesse abrir a boca novamente, comecei a marcha. Logo, os sons das respirações cansadas dos sobreviventes, que mal haviam descansado depois da última onda, chegaram aos meus ouvidos, mas ignorei. De qualquer modo, isso ainda era mil vezes melhor do que enfrentar um Lorde de Andar.

Mas então…

Tuduc, tududuc…

Mesmo depois de avançarmos bastante, as gotas continuavam a cair aqui e ali.

— M-Maldição! Por que meus olhos não param de lacrimejar…!

O Aventureiro que chorava como uma torneira aberta continuava do mesmo jeito, o efeito anormal não dava sinais de cessar. Estranho. A essa altura, já devíamos estar bem longe do Lorde das Lágrimas.

“Será que está… nos seguindo?”

Essa hipótese me veio à mente, e instintivamente olhei para trás.

“Hã…?”

Será que vi errado? Atrás do grupo principal, mantendo certa distância, havia outra equipe nos seguindo. Olhando melhor… eram o Fantasma Dourado, Hans P., e seus malditos seguidores.

— Ah, merda…!

O palavrão escapou assim que os vi.

“O que esses desgraçados estão fazendo?!”

Eu já tinha mandado caírem fora, então por que diabos estão nos seguindo? Queria ir lá e botar pra correr na marra, mas não havia tempo pra brigar com eles no meio do caminho. Por isso, decidi seguir em frente… até que uma ideia me atingiu.

“Será que é por causa deles…?”

Talvez, com o Hans por perto, fosse impossível escapar do alcance do Lorde das Lágrimas. Sim, fazia sentido.

“Então, agora mesmo.”

Eu precisava resolver isso, cortar o mal pela raiz. Com essa decisão, virei de volta e corri para a retaguarda. E então…

— Até quando vai continuar nos seguin…

Estava prestes a dar uma boa bronca em Hans P., o parasita sem vergonha, quando…

— Hã…?

Atrás dele e de seus seguidores, outra equipe apareceu no meu campo de visão. Sete pessoas, com expressões desesperadas, respirando pesadamente, como se estivessem fugindo de algo. E quando nos viram, começaram a gritar, não pedindo ajuda, mas…

— S-Saiam da frente!

— Corram! Depressa!

E logo atrás deles, uma névoa branca surgiu. Uma névoa tão densa que, ao entrar, não seria possível enxergar nem um palmo à frente. Mesmo assim, algo dentro dela se via claramente: duas luzes cintilantes.

Fuuuung…!

Um par de olhos azuis, flamejantes como fogaréus fantasmas. A sensação de que cruzaram com os meus olhos não era, de jeito nenhum, imaginação.

— Merda.

Então é assim que vai ser, hein. Mesmo com o tempo se esgotando a cada segundo, soltei um longo suspiro, fechei os olhos e tornei a abri-los.

— Fuh…

Certo. Mudança de planos.


Uma névoa densa, espessa o bastante para engolir todos nós. E nela, sete Aventureiros fugindo desesperadamente. Talvez por se sentirem responsáveis por proteger a retaguarda, o guerreiro que estava na última fileira do grupo de Hans se aproximou dos fugitivos. E então…

— Parem! Se se aproximarem mais, atacaremos! Primeiro, identifiquem-se!

— Que porcaria você tá dizendo?! O Lorde das Lágrimas! Aquele monstro desgraçado tá logo atrás! Saiam da frente!

O grito desesperado o deixou confuso. Não parecia duvidar de que o Lorde das Lágrimas estava vindo, apenas não sabia o que fazer. A aflição de um soldado comum no final da fila é compreensível, mas para os aventureiros em fuga, aquela hesitação foi uma sentença de morte.

— A-Ah… ahhh…!

Talvez por o grupo da frente ter diminuído o passo, o Aventureiro mais atrás tropeçou nos próprios pés e caiu. E então…

— AAAAAAAAHHHH…!!!

A névoa, que os perseguia lentamente, cobriu a parte inferior do corpo dele. O companheiro ao lado percebeu tarde demais o que havia acontecido e puxou seu braço com toda a força, mas já era inútil. Em questão de segundos, a metade inferior de seu corpo havia se derretido, restando apenas os ossos expostos.

— N-Não… não me deixem aqui…!

— Me desculpe…

O homem que tentou salvá-lo viu a névoa se aproximando cada vez mais e, sem escolha, virou as costas e começou a correr. E talvez por terem assistido àquela cena horrível de longe, o guerreiro que hesitava entre o grupo de Hans finalmente tomou uma decisão.

— O que estão esperando?! Abram caminho!! Corram pra frente, agora!!

De fato, ele começou a empurrar à força as pessoas paralisadas de medo, mas, como sempre acontece em meio ao pânico, isso só trouxe desastre.

— O q-que é isso? Ei! Não empurra! Eu disse pra não empurrar…!

O terreno estreito do desfiladeiro estava abarrotado de gente. Por sorte, ninguém caiu do penhasco, mas ao serem empurrados, alguns acabaram pisando nas flores das quais todos mantinham distância.

Booooom…!

Assim que receberam o menor estímulo, as flores explodiram como minas terrestres, espalhando ácido em todas as direções. Ninguém morreu de imediato, mas…

Chiiiiiiiiiiik…!

— Aaaaaaaahhhh!

— M-Meus olhos…!

Caos absoluto. Em um piscar de olhos, o lugar inteiro virou um inferno.

— Abram caminho!

— O que está dizendo?! Anda logo! Sai da frente! Não ouviu o som da explosão?!

— Disseram que tem alguma coisa vindo por trás…!!

— O mago onde está?! Faça uma barreira, qualquer coisa! Primeiro, impeça essa névoa…!

Booooom…!

Um inferno formado por cinquenta pessoas em pânico, empurrando-se umas às outras.

“Está um caos completo.”

Se só com a névoa e uma flor já chegou a esse ponto, imagine quando aquela coisa aparecer de verdade. A situação já se desenhava tão claramente na minha cabeça que um sentimento de desalento me tomou, mas fazer o quê.

“Parece que o aggro já foi puxado…”

Dava pra ver que era um futuro impossível de evitar. Gostando ou não, em breve todos veriam com seus próprios olhos.

Whoosh…!

Virei as costas sem hesitar e corri para me juntar à formação principal. Posicionei-me rapidamente na linha de frente e comecei a liderar o grupo.

— O que estão fazendo?! Sigam-me!

Descendo por uma ladeira íngreme. Quando o caminho se interrompia, saltávamos. Se um monstro bloqueava a passagem, eu o acertava com força o bastante para mandá-lo rolando desfiladeiro abaixo.

— Por aqui…!

Depois de correr alguns minutos assim, finalmente o local que eu procurava apareceu diante de nós.

Uma clareira ampla. Era o lugar onde, originalmente, ficava o espelho que liberava monstros no centro, uma área onde várias guildas costumavam se estabelecer para caçar.

— Senhor Visconde?

— Mas aqui é um beco sem saída…?

A formação principal que vinha atrás começou a murmurar, confusa. Todos daquele jeito, e eu parecendo algum tipo de navegador possuído.

— Eu sei.

O plano de fuga já tinha fracassado. O aggro já estava totalmente atraído, afinal. Fugir à toa só reduziria lentamente nossas forças, até não conseguirmos mais fazer nada.

Ba-dum…!

Transformei o coração pulsante em energia e apertei com força o punho que segurava o escudo.

Não era o sexto andar, e sim o quinto. Ou seja: sem os monstros-tokens invocados do mar. Sem o buff obtido na Ilha do Começo, Laemia. Já estávamos na quarta fase, portanto nenhum mecanismo especial mais seria ativado, e até tenho as Lágrimas de uma Deusa da Cidadela Sangrenta…

Com base em tudo isso, minha decisão estava tomada. Sim, então…

— …O quê?

Em vez de dar uma longa explicação, gritei alto:

— Preparem-se para o combate!!

Aqui é onde vamos derrotar aquela coisa.

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