
Capítulo 130
Hotel Dimensional
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Irene se desvencilhou dos braços de Foxy, subiu na mesa e olhou para o pátio deserto através da mesma janela que Chapeuzinho Vermelho, que parecia perdida em pensamentos.
“Foi aqui que o primeiro surto de ‘conto de fadas’ aconteceu,” a boneca murmurou baixinho. “Mas, depois de tudo, as pessoas que foram machucadas acabaram transformando este lugar em seu lar… É meio estranho, não é?”
“Sempre tem que haver um lar,” Chapeuzinho Vermelho respondeu, virando-se da janela com um sorriso fraco. “Eu não sei quais decisões os ‘predecessores’ tomaram naquela época, mas para as crianças que vivem aqui agora, este orfanato é um lar. Para mim, é onde eu posso me sentir segura… mesmo que tanta coisa já tenha acontecido aqui.”
“Só órfãos se envolvem com os contos de fadas?” Yu Sheng perguntou, franzindo a testa. “Ou eles mandam qualquer criança afetada para cá também?”
“Só órfãos,” Chapeuzinho Vermelho suspirou.
“Por que isso? Alguma ideia?”
“É porque seus corações não têm proteção,” ela disse calmamente. “Ainda temos muito a aprender sobre ‘contos de fadas’, mas sabemos que sua influência depende dos ‘padrões de personalidade’ e ‘conexões sociais’ da vítima. Crianças sem pais ou parentes, vivendo em um longo estado de insegurança mental e social, são alvos fáceis. Afinal…”
Ela fez uma pausa por um momento, então balançou a cabeça. “Afinal, quando o mundo real se torna amargamente frio, o calor da fantasia se torna irresistível. No começo, o controle do conto de fadas não é forte. Tudo o que ele precisa é de um ‘fio’ fino para manter uma criança ligada à realidade. Mas muitos órfãos nem sequer têm esse fio.”
A carranca de Yu Sheng se aprofundou. Após um momento, ele insistiu. “Como a influência do conto de fadas sequer começa? O esquilo disse que era por causa da leitura da história.”
Chapeuzinho Vermelho assentiu. “Esse é o fator mais importante.”
“Então por que não banir essas histórias de uma vez?” Foxy perguntou, a curiosidade brilhando em seus olhos. “Eu me lembro que na minha cidade natal, um feiticeiro renegado se fundiu a uma lenda local antes de morrer, quase voltando através das pessoas recontando a história. Isso é igualmente assustador.”
Os olhos de Irene se arregalaram. “Espera—o quê?! Sua cidade natal parece louca… Então, o que aconteceu? Vocês selaram a lenda ‘infectada’?”
“Não exatamente,” Foxy respondeu com um gesto despreocupado. “Eles tentaram no começo, mas o feiticeiro estava bem preparado, e não funcionou. Então a era das mídias sociais chegou.”
Yu Sheng parecia completamente perplexo. “Hã… como assim?”
“Sabe, memes e vídeos virais? O pobre feiticeiro acabou virando motivo de piada,” Foxy disse, gesticulando animadamente. “Até mesmo seus gritos finais desesperados foram transformados em edições bobas e vídeos de reação. Quando a aliança celestial percebeu, ele já tinha sido ridicularizado até a inexistência.”
O silêncio caiu. Chapeuzinho Vermelho, Yu Sheng e Irene olharam para Foxy, que continuou como se fosse perfeitamente normal. “Depois disso, até mesmo as grandes raposas demônio do nosso clã se mantiveram longe de se fundir com contos populares. Agora, se eles escolhem uma história, é algum livro de matemática ou física—coisas que as pessoas não podem simplesmente transformar em meme até a morte.”
Chapeuzinho Vermelho piscou, então olhou para Yu Sheng. “Eu… acho que perdi o fio da meada dessa história.”
“Não se preocupe, acontece o tempo todo com ela,” Yu Sheng disse com um suspiro. “Mas Foxy tem um ponto—se ler essas histórias desencadeia o surto, por que não simplesmente acabar com elas como fizeram na cidade dela, ou impedir que se espalhem?”
Em vez de dar uma resposta direta, Chapeuzinho Vermelho fez sua própria pergunta. “Lembra de quando estávamos lidando com aquele museu e por que não derrubamos o prédio de vez?”
O rosto de Yu Sheng se tensionou ligeiramente.
Ele entendeu o que ela queria dizer.
“Um reino anômalo ‘informativo’… A mesma lógica se aplica aqui?”
“Isso mesmo,” Chapeuzinho Vermelho respondeu. “Um reino que existe na informação é mais complicado. As histórias são apenas as portas de entrada pelas quais ele entra em nossa realidade. Destruir a porta pode levar a perigos piores e mais imprevisíveis. Pode até tornar tudo mais ameaçador. E…”
Ela se virou para Yu Sheng, seu olhar sério.
“‘Contos de fadas’ têm uma qualidade ainda mais estranha. A ‘história’ nem sempre precisa de pessoas para lê-la ou contá-la. Há um caso documentado de uma criança caindo em um subconjunto de conto de fadas depois de ouvir a história sendo lida em voz alta… do nada. É por isso que, mesmo que geralmente não mate instantaneamente, é rotulado como Nível Três ou superior—ele tem vontade própria.”
Yu Sheng desabou no sofá, sentindo o peso de suas palavras.
Ele se levantou e começou a andar de um lado para o outro, com uma expressão frustrada no rosto. “Isso parece tão errado… Não me diga que o Departamento de Assuntos Especiais não tem como combater isso,” ele disse, virando-se abruptamente para encará-la.
Chapeuzinho Vermelho manteve seu tom calmo. “Os humanos já erradicaram o resfriado comum?”
Yu Sheng não respondeu.
“Pense nisso como uma doença crônica que só atinge órfãos,” ela continuou. “Pode te ajudar a entender—e aceitar—melhor. Não é uma máquina quebrada que você pode desligar. É uma força entrelaçada no mundo. As entradas estáveis que você viu são, na verdade, a anomalia cedendo a nós da única maneira que pode.”
Sua voz permaneceu segura e firme, mas Yu Sheng se sentiu inquieto.
Ele pensou em uma anomalia—um reino inteiro—que ele sabia que havia sido destruído.
Vale da Noite.
Ideias corriam em sua mente como uma tempestade. Poderia o que aconteceu lá acontecer de novo com a Floresta Negra? Mesmo que pudesse, isso resolveria o problema principal do ‘conto de fadas’? A Floresta Negra era apenas uma pequena parte, um “cômodo” fugaz no que ela chamava de Edifício Invisível. De acordo com Chapeuzinho Vermelho, ninguém conseguia alcançar a raiz da anomalia…
Como ele sequer poderia borrar seu sangue em uma coleção de histórias?
Chapeuzinho Vermelho observou Yu Sheng atentamente, notando as emoções passando por seu rosto. Ela não sabia exatamente o que o homem estranho da Rua Wutong nº 66 estava pensando, mas sentiu seu sincero desejo de ajudar.
“Você está tentando lidar com algo enorme,” ela murmurou. “Eu sei que você quer fazer algo por nós. Outros tentaram—mergulhadores profundos, estudiosos, investigadores, até mesmo um leitor de estrelas de Alglade. Todos falharam. Não estou tentando te desanimar, apenas te avisando: é perigoso, e não há mapa para te guiar.”
Mas Yu Sheng parecia perdido em pensamentos, mal a ouvindo. Depois de um tempo, ele ergueu o olhar abruptamente. “Eu não tenho um plano para o núcleo do conto de fadas ainda, mas posso começar com a Floresta Negra.”
Chapeuzinho Vermelho piscou. “Espera—você estava sequer ouvindo?”
“Eu estava. Não parece tão ruim,” Yu Sheng disse com um encolher de ombros casual. “Muitas coisas neste mundo não têm soluções fáceis. Eu ainda não tenho ideia para onde vai minha conta de água ou para onde levam os canos de esgoto da minha casa. E quanto ao perigo… bem, todas essas anomalias são perigosas.”
Ela começou a falar, mas nenhuma palavra saiu.
Naquele instante, passos rápidos soaram no corredor, interrompendo-os.
Uma garota esguia com longos cabelos pretos, que parecia um pouco mais jovem que Chapeuzinho Vermelho, irrompeu pela porta, seus olhos tensos e preocupados.
“Cabelo Longo? O que aconteceu?” Chapeuzinho Vermelho perguntou, levantando-se imediatamente.
A garota olhou para os estranhos na sala, então respirou fundo e falou em voz baixa e urgente. “Uma das crianças acabou de ‘partir’. Foi repentino demais… não conseguimos impedir.”
Yu Sheng viu o rosto de Chapeuzinho Vermelho empalidecer. Ela parecia ter parado de respirar por um momento.
“…Quem foi?” ela perguntou suavemente.
“A criança nova.”