
Capítulo 16
Hotel Dimensional
Foxy desabou nos degraus de pedra rachada do templo em ruínas, sua postura antes altiva agora desmoronando como as paredes ao redor. Sua cabeça pendeu para frente, como se estivesse pesada pela culpa—ou pior, pela fome.
Ao lado dela, Yu Sheng sentava-se em silêncio, sua cabeça também pendurada, embora por uma razão bem mais literal. Uma ferida recente em seu braço latejava dolorosamente, o resultado da mordida afiada de Foxy. A garota espírito-raposa o atacara, arrancando um pedaço de carne sem hesitação. Ele fez uma careta, a ardência ainda fresca em sua mente.
Ele sabia que animais podiam ser possessivos com sua comida, mas não esperava que um espírito-raposa reagisse com tamanha ferocidade.
“Benfeitor…” A voz de Foxy tremeu, mal acima de um sussurro. Seu pelo branco, geralmente liso e elegante, agora brilhava sob a luz fraca como se estivesse à beira das lágrimas. “Eu… eu sinto muito. Não consegui me controlar. Eu machuquei você de novo…”
Yu Sheng soltou um suspiro que pareceu drenar a pouca energia que lhe restava. “Sim, você me machucou de novo.” Seu tom era cansado, não zangado. “Mas desta vez, não foi tão ruim quanto da primeira.” Seus olhos se desviaram para o sangue no canto da boca dela, vermelho contra seu pelo nevado. Não era um ferimento profundo, pensou ele, certamente não tão ruim quanto da última vez, quando sua cabeçada supersônica quase quebrou todos os ossos abaixo de seu pescoço.
Foxy inclinou a cabeça, uma carranca confusa cruzando seu rosto. Ela ainda não tinha nenhuma memória daquele “primeiro encontro” sobre o qual Yu Sheng falava. Toda vez que ele tentava tocar no assunto, ela respondia da mesma forma, como se a memória tivesse sido completamente apagada de sua mente.
“Benfeitor, você tem certeza de que nos encontramos antes… fora do templo?” ela perguntou, piscando confusa.
“Você realmente não se lembra?” Yu Sheng franziu a testa, a frustração clara em sua voz. “Eu estava lutando contra uma criatura estranha, e você apareceu, disse que ajudaria. Então—bam—você me nocauteou. A próxima coisa que sei, eu acordei aqui, e você estava vagando do lado de fora.”
A testa de Foxy se enrugou enquanto ela tentava recordar. Suas orelhas fofas se contraíram, mas o esforço pareceu ser demais. Lentamente, suas orelhas caíram, seu rosto obscurecido pela incerteza.
Yu Sheng se mexeu desconfortavelmente, olhando para a marca de mordida em sua mão. Para sua surpresa, a ferida não era tão ruim quanto ele esperava. Na verdade, estava cicatrizando—bem diante de seus olhos. Nova pele e fibras musculares se entrelaçavam como fios em uma tapeçaria, fechando a ferida. Em vez de simplesmente coagular, seu sangue parecia vivo, movendo-se com um propósito, preenchendo as lacunas com uma precisão sobrenatural.
Em poucos instantes, a dor havia desaparecido, substituída por uma leve coceira.
Isso… isso não é normal. Yu Sheng sabia disso. Corpos humanos não cicatrizam tão rápido. Mas o que o perturbava ainda mais era que essa era a coisa menos estranha que estava acontecendo com ele. Ele havia voltado dos mortos. Duas vezes!
Ele olhou para sua mão, o mal-estar se infiltrando em seus pensamentos. Essas mudanças em seu corpo podem parecer presentes, mas Yu Sheng sabia melhor. Presentes sempre vêm com um preço. E em seu caso, ele temia que o custo ainda estivesse escondido.
Como se fosse um sinal, uma sensação estranha o invadiu, fazendo-o tremer. Não era dor, mas algo muito mais estranho—como pensamentos, mas não os seus, se infiltrando em sua mente. Memórias que ele não conseguia reconhecer, sentimentos que não eram seus. Era como se uma porta tivesse sido aberta, deixando entrar algo estrangeiro. Ele podia sentir outra presença agitando-se nas profundezas de sua consciência:
Mamãe se foi, papai se foi, tios e tias se foram… Escuro, venenoso, frio… Tanta fome, tanto frio, tanta fome… Os pensamentos ecoavam em sua mente como um grito no escuro. A fruta é veneno, a casca não pode ser comida, as folhas são veneno, as pedras… Não posso comer, não posso comer… Fome, tanta fome…
A fome avassaladora atingiu Yu Sheng como uma onda gigante, invadindo sua mente e ameaçando afogá-lo em suas profundezas. Os pensamentos roíam sua sanidade, uma fome voraz e insaciável que arranhava as bordas de sua razão. Quando a tempestade de pensamentos recuou lentamente, Yu Sheng conseguiu recuperar o fôlego, sua visão clareando o suficiente para ver Foxy ao seu lado.
Ela estava lambendo o sangue do canto de sua boca, saboreando-o como se fosse uma iguaria. Seu sangue, Yu Sheng percebeu com um sobressalto, não estava apenas desaparecendo. Estava vivo, contorcendo-se em sua língua como se tivesse uma mente própria, afundando em sua pele, em seus dentes, talvez até mesmo em sua própria alma.
Foxy olhou para cima, sentindo seu olhar fixo. Ela limpou a última gota de sangue de seus lábios com um sorriso satisfeito—um sorriso que tentava parecer inocente, mas por trás dele, algo mais sombrio espreitava. Yu Sheng podia ver. Ele podia ver a fome sob sua fachada calma, uma fome que ia muito além da comida. Ela estava faminta, mais do que deixava transparecer. Mais do que até mesmo ela percebia.
“Benfeitor…” Sua voz era suave e doce, seus olhos desviando-se para o bolso dele como uma criança pedindo uma guloseima. “Você tem mais comida? Meu estômago ainda está roncando um pouco…”
Um arrepio percorreu a espinha de Yu Sheng. Ele sabia, sem dúvida, que algo estava terrivelmente errado. E não apenas com Foxy.
Como ele pôde ter ouvido seus pensamentos? Visto suas memórias? Ele pensou no momento em que seu sangue havia penetrado em sua pele. Isso poderia ter desencadeado isso?
Antes que ele pudesse falar, a expressão de Foxy mudou. Seus olhos piscaram, sua confusão rapidamente dando lugar ao choque. Lentamente, ela se levantou, seu olhar fixo em Yu Sheng como se o estivesse vendo pela primeira vez. Ela apontou um dedo trêmulo para ele, sua voz tremendo de incredulidade.
“Benfeitor… você… você não está morto?!”
Yu Sheng piscou, momentaneamente atordoado. De pé ao lado dele, Foxy levantou uma mão trêmula e a pressionou com força contra sua testa. Seu corpo inteiro balançava instavelmente como se estivesse lutando para se equilibrar sob o peso de algum fardo esmagador. Memórias conflitantes surgiram em sua mente, dilacerando sua frágil sanidade.
Então, como uma névoa se dissipando, ela começou a recordar os fragmentos de uma realidade que há muito havia esquecido. O primeiro “encontro”, o terrível acidente, a memória do corpo de seu benfeitor sendo dilacerado—seu sangue humano quente—e então… tudo desapareceu. A memória da morte de Yu Sheng havia desaparecido tão rapidamente quanto havia surgido.
Agora se firmando, Foxy piscou através de sua confusão. Seus olhos vermelho-dourados estavam nublados enquanto ela murmurava suavemente, mais para si mesma do que para ele. “Eu me lembro agora. Benfeitor, nós nos encontramos lá fora, não foi? Eu… eu não queria, mas…”
Sua voz se perdeu em murmúrios incoerentes. Estava claro que sua mente, frágil na melhor das hipóteses, estava entrando em espiral de confusão novamente.
Yu Sheng observou, incerto. Ela havia se lembrado do primeiro encontro deles, isso estava claro, incluindo a cabeçada desastrosa que quase o matou. O que ele não sabia era como—ou por que—ela havia repentinamente recordado tudo isso. Estava relacionado à sua estranha habilidade de vislumbrar seus pensamentos? Agora não era hora de decifrar isso.
Foxy estava claramente instável. Ela balançou novamente como se pudesse desabar a qualquer segundo.
Instintivamente, Yu Sheng deu um passo à frente, meio que estendendo a mão para pegá-la. Mas ele congelou, sua respiração presa em sua garganta.
Foxy levantou a cabeça, seus olhos vermelho-dourados antes nublados brilhando, queimando com uma luz carmesim que enviou um choque de medo através dele. Ela olhou para ele, sem piscar, e um rosnado baixo e estrondoso escapou de sua garganta.
Ela se agachou, baixa e selvagem, suas caudas—antes arrumadas e delicadas—de repente se abriram atrás dela, estendendo-se na noite escura. Na ponta de cada cauda, chamas azuis fantasmagóricas começaram a bruxulear e queimar, lançando um brilho estranho sobre o templo em ruínas.
Ela não era mais Foxy. Ela era uma predadora, faminta, selvagem e perigosa.
A fome em seus olhos queimava mais forte, quase demais para Yu Sheng suportar. Através de alguma conexão estranha e invisível, ele também sentiu isso—a necessidade insaciável, a fome desesperada corroendo-a. E nas profundezas dessa fome, ele ouviu um pensamento, não o seu, mas ecoando em sua mente:
Benfeitor, você cheira tão bem…
Yu Sheng engoliu em seco, instintivamente dando um passo para trás. Naquele momento, pelo canto do olho, ele vislumbrou algo—uma sombra se movendo atrás de Foxy.
Não era uma sombra qualquer. Era vasta, expandindo-se da escuridão e lentamente se arrastando atrás dela. Sob as chamas azuis fantasmagóricas de suas caudas, a sombra tomou forma, revelando algo distorcido e grotesco. Era uma massa monstruosa e emaranhada de membros bestiais, rastejando com olhos, garras e bocas—seu próprio ser irradiava fome, a mesma fome que queimava nos olhos de Foxy.
A criatura soltou um rugido baixo e borbulhante, instigando Foxy a avançar e empurrando-a para se alimentar.
Foxy se agachou ainda mais, seu corpo tremendo com a necessidade de atacar. Seu pelo branco-prateado se espalhou rapidamente sobre sua pele, seu rosto se contorceu e presas afiadas cresceram onde antes estavam suas feições suaves. Em poucos instantes, a garota que Yu Sheng conhecia havia sumido, substituída por uma enorme raposa branco-prateada com caudas azuis brilhantes que iluminavam as ruínas desmoronando.
E então veio a voz—fraca, mas penetrante, enchendo a mente de Yu Sheng com uma tentação insuportável:
Coma… Coma-o, e você não terá fome…
Alimente…
Alimentem-se juntos…
Você está com fome… Coma…
A princípio, Yu Sheng pensou que eram os pensamentos de Foxy que ele estava ouvindo, mas logo ele percebeu a verdade. Era o monstro, aquela massa hedionda atrás dela, sussurrando para ela, empurrando-a para ceder à sua fome.
Yu Sheng abriu a boca, querendo gritar e avisá-la para não ouvir. Ele queria dizer a ela que não era tarde demais, que ela podia lutar contra isso. Mas enquanto ele olhava em seus olhos ardentes, ele podia sentir a fome tomando conta dela, apagando toda a razão.
Não havia como pará-la agora.
Ele só conseguiu esboçar um pequeno sorriso irônico, estendendo as mãos diante dela. “Olha, se você me comer, seu estômago e sua boca provavelmente vão se arrepender depois. Da próxima vez que nos encontrarmos, as coisas ficarão… estranhas.”
Era uma piada tola, uma que mal mascarava o terror que crescia nele. Ainda assim, Yu Sheng se preparou, preparando-se para o pior. Ele assumiu uma postura—boxe militar não faria muito contra uma raposa de nove caudas (ou eram oito caudas?), mas pelo menos ele poderia morrer com alguma dignidade.
E talvez, só talvez, sua força recém-descoberta lhe permitisse acertar um soco sólido em seu focinho antes que ela o despedaçasse. Um pequeno pensamento passou por sua mente—pelo menos doeria nela por um tempo.
Então, tudo aconteceu de uma vez.
Uma rajada de vento soprou contra ele quando a enorme raposa branco-prateada avançou, sua forma poderosa saltando pelo ar. A pressão do ar sozinha fez Yu Sheng fechar os olhos, preparando-se para o fim.
Mas a morte não veio.
Lentamente, hesitante, Yu Sheng abriu os olhos.
Em vez de pular em cima dele, Foxy havia se contorcido no ar, seu corpo maciço virando-se para encarar a criatura grotesca atrás dela. Com um uivo furioso e angustiado, ela avançou contra o monstro, suas mandíbulas se fechando sobre ele.
Mas antes que ela pudesse desferir um golpe, espinhos—longos, pretos e semelhantes a chifres—irromperam do corpo do monstro. Eles a perfuraram, atravessando seus membros e torso, suspendendo-a no ar.
Yu Sheng olhou horrorizado enquanto a raposa branco-prateada se contorcia em agonia, sangue vermelho-dourado jorrando de seus ferimentos, fumegando no ar noturno. Lentamente, dolorosamente, ela virou a cabeça para olhá-lo, seus olhos antes brilhantes agora nublados de dor.
“Benfeitor… corra…” ela sussurrou, sua voz fraca, trêmula.
Você cheira tão bem…
“Eu não sou… um monstro ainda…”
Tanta fome…
“Corra!”
Corra!