
Capítulo 19
Hotel Dimensional
Li Lin estava paralisado, encarando o canto vazio da parede como se ali estivesse algum segredo oculto. O pequeno raspador de amostras em sua mão parecia estranhamente pesado, seu peso o ancorando no lugar. Sua mente estava confusa, tentando entender o que acabara de escapar. Ele sequer conseguia se lembrar do que estava fazendo momentos antes.
O Capitão Song Cheng — líder do Segundo Time do Departamento de Operações Especiais — estava a uma curta distância, franzindo a testa para a parede onde uma mancha de sangue estivera momentos atrás. Mas agora, não só o sangue havia sumido, como algo muito mais significativo parecia ter sido apagado de sua mente. Ele podia sentir — uma sensação elusiva, como um sussurro ouvido em um sonho, desaparecendo antes que pudesse ser compreendido. Seus instintos gritavam que algo estava terrivelmente errado.
A testa de Song Cheng se enrugou por um momento, mas ele rapidamente sacudiu a sensação. Ele se concentrou, determinado a se agarrar aos lampejos de memória antes que desaparecessem por completo. Seus anos de treinamento entraram em ação, ajudando-o a segurar aqueles tênues fragmentos em sua mente, o suficiente para manter a sensação de perda à distância.
“Senhor…” A voz de Li Lin estava trêmula, quebrando o silêncio. “Eu… eu acho que esqueci algo. Não tinha algo aqui?”
“É interferência mental!” A voz de Song Cheng se tornou mais aguda, mudando para o modo de comando. “Verifiquem os níveis de profundidade imediatamente!”
Li Lin reagiu instantaneamente, largando sua ferramenta de coleta de amostras e alcançando a pequena caixa preta presa ao seu cinto. Com movimentos rápidos e precisos, ele pressionou alguns botões em sua superfície antes de puxar um tubo fino, semelhante a uma agulha. Sem hesitação, ele conectou o tubo ao seu olho.
A caixa começou a emitir um zumbido suave, e um líquido estranho fluiu pelo tubo. O olho de Li Lin ficou com uma tonalidade de preto anormal e, conforme sua visão se aguçava, o mundo ao seu redor se transformava em um monocromático de pretos e brancos contrastantes.
“Leitura de profundidade: L-menos”, Li Lin relatou em uma voz plana e mecânica. “Nenhuma anomalia detectada de Outros Mundos. Nenhum sinal de emergência ou energias residuais.”
A testa de Song Cheng se fechou ainda mais. Seus olhos caíram sobre o dispositivo na mão de Li Lin — um detector de profundidade portátil. Embora não fosse tão poderoso quanto os modelos maiores, deveria ser mais do que suficiente para detectar qualquer coisa incomum na área. No entanto, nada apareceu.
Song Cheng tinha certeza de que algo havia mexido com sua mente. Aquelas tênues impressões ainda persistiam, mal se mantendo unidas pela pura força de vontade. Algo estranho estava as afetando, mas o equipamento não estava captando.
Antes que pudesse ordenar que Li Lin ajustasse as configurações, o oficial mais jovem de repente enrijeceu, seu olhar se voltando para o extremo da rua.
“Capitão”, o olho aprimorado de Li Lin brilhou enquanto ele se concentrava em algo à distância. “Tem algo ali na frente. É fraco, como uma miragem, mas parece uma casa.”
Ele começou a andar para frente cautelosamente. “Leitura de profundidade permanece L-menos. Sem contaminação… Estou me aproximando. Você sente alguma coisa?”
Song Cheng o seguiu de perto, sua mão roçando o distintivo em seu bolso — uma preparação silenciosa para qualquer coisa. “Não”, ele respondeu, sua voz tensa. “Não sinto nada.”
Li Lin alcançou a borda da aparição turva e hesitou por apenas um segundo antes de estender a mão.
Um zumbido alto e agudo irrompeu da caixa preta. O dispositivo estourou e fumaça azul saiu, seguido pelo crepitar de circuitos queimando. O detector de profundidade morreu em suas mãos.
Li Lin recuou, o tubo se soltando de seu olho enquanto um líquido espesso e preto vazava de sua ponta. A substância evaporou no momento em que tocou o ar. Uma picada aguda queimou seu olho.
“Ai!” Li Lin gritou, agarrando seu rosto. A caixa fumegante caiu no chão enquanto ele esfregava o olho furiosamente.
Song Cheng foi rápido em reagir, sua mão pairando perto da têmpora de Li Lin. “Pare de esfregar. Fique quieto. Vai passar.”
Li Lin congelou, sentindo o calor da mão de Song Cheng irradiar através dele. A picada diminuiu rapidamente e, em poucos instantes, a dor desapareceu. Piscando algumas vezes, Li Lin olhou para o dispositivo agora fumegante no chão.
“Você acha que o departamento vai me reembolsar por isso?”, ele perguntou timidamente.
“Vai”, Song Cheng respondeu com um leve aceno de cabeça.
Li Lin exalou aliviado. “Bom. Me deu um baita susto.” Ele olhou para o ponto onde a imagem estranha estivera momentos antes.
Mas agora, havia apenas um trecho vazio de pavimento e uma parede coberta de grafite. Imagens brilhantes e coloridas de portas, janelas, casas, árvores e pedras haviam sido pintadas ali. Li Lin moveu sua mão no ar, mas não sentiu nada de incomum.
“Definitivamente tinha algo aqui”, ele murmurou, semicerrando os olhos. “O detector estava captando antes de fritar.”
Song Cheng estava quieto, perdido em pensamentos. “Vamos relatar isso. A área precisa ser sinalizada para monitoramento adicional. Pode ser um Outro Mundo não registrado. Precisaremos de equipamentos maiores, talvez até de alguns mergulhadores de profundidade para investigar.” Ele olhou para Li Lin. “Como está seu olho?”
Li Lin hesitou, então perguntou meio brincando: “Se não estiver tudo bem, posso tirar meio dia de folga?”
“Não, estamos com falta de pessoal”, Song Cheng respondeu sem perder o ritmo.
Li Lin suspirou dramaticamente. “Nesse caso, estou bem. Vou pegar um colírio quando voltarmos para o departamento.”
Song Cheng deu-lhe um aceno de cabeça conhecedor e, juntos, eles começaram a caminhar de volta para suas scooters elétricas estacionadas. Li Lin enfiou sua chave na ignição e a girou. A tela LCD piscou uma vez e depois ficou escura. Ele piscou incrédulo.
“Capitão”, ele chamou, olhando para cima. “Minha scooter morreu. A sua também?”
Song Cheng checou a sua, dando um lento aceno de cabeça em confirmação.
“Acha que é coincidência?”, Li Lin perguntou, sua voz incerta.
Song Cheng balançou a cabeça, um sorriso irônico se formando em seus lábios. “Na Academia, eles têm uma frase para esse tipo de coisa.”
Li Lin pensou por um momento antes de se lembrar. “Ah, certo. ‘O espírito da máquina está descontente.’”
Ao mesmo tempo, Song Cheng disse: “O espírito da máquina se assustou.”
Eles pararam, trocando um olhar.
“Você entendeu errado”, ambos disseram, vozes se sobrepondo.
Song Cheng acenou com a mão em desaprovação. “Vamos descobrir isso mais tarde. Precisamos continuar nos movendo.”
Li Lin suspirou, olhando para sua scooter morta. “Nós realmente vamos empurrar isso tudo de volta?”
“A menos que você vá deixar a sua para trás”, Song Cheng rebateu, já empurrando sua scooter pela rua.
“Não podemos ligar para a logística? Pedir para trazerem o triciclo elétrico ou algo assim? Isso vai ser terrível”, Li Lin resmungou enquanto seguia relutantemente.
“Pare de reclamar”, Song Cheng respondeu. “Você é mais novo do que eu. Acompanhe.”
Resmungando baixinho, Li Lin empurrou sua scooter, seguindo Song Cheng. Os dois agentes do Departamento de Operações Especiais seguiram pela rua silenciosa, suas figuras desaparecendo lentamente no cenário da cidade.
Yu Sheng flutuava na escuridão sem fim, sentindo-se quase em casa no vazio sombrio. Ele estivera ali tantas vezes agora que o abismo começara a parecer familiar, até mesmo reconfortante.
O grito de Irene ainda ecoava fracamente em sua mente.
Ele riu suavemente. Aparecer em seu quarto com um buraco enorme em seu estômago deve tê-la aterrorizado. Ela pode ser um objeto amaldiçoado, mas Irene sempre pareceu um pouco frágil demais para o próprio bem.
Yu Sheng ansiava por ver sua reação quando ele retornasse. Ela se lembraria da última vez em que o viu desabar na frente dela?
Então, outro rosto surgiu em sua memória — Foxy. Ele se lembrou de seu estranho encontro naquele antigo vale. Na primeira vez em que se encontraram, Foxy havia esquecido completamente que ela o havia matado com uma cabeçada. Só muito mais tarde ela se lembrou e, mesmo assim, mal reagiu.
Yu Sheng ainda não sabia por que ela havia esquecido. Era algo sobre ele? Ou era apenas a mente dispersa de Foxy em ação novamente? Ela era propensa a esquecer as coisas. Mas se Irene também não conseguia se lembrar, então talvez o problema não fosse Foxy — era ele.
O tempo não existia ali, naquele vazio. Enquanto Yu Sheng flutuava, ele gradualmente limpou sua mente, deixando de lado a tensão e se preparando para o fim daquela escuridão sem fim.
E então ele sentiu — aquele puxão familiar, a sensação de cair.
Ele estava prestes a retornar.
Yu Sheng se concentrou, aguçando seus sentidos. Ele queria vislumbrar o momento em que cruzasse de volta para o mundo mortal.
Imagens brilharam diante dele, mas eram rápidas e passageiras. Ele não conseguia entendê-las antes que uma em particular entrasse em foco.
Número 17, Rua Wutong. A sala de estar.
Os olhos de Yu Sheng se abriram.
Ele estava de volta.
Os arredores familiares de sua casa vieram à vista. Ele podia ver a sala de jantar através da porta, onde uma antiga pintura a óleo intrincadamente pintada estava sobre a mesa.
“Yu Sheng! Você finalmente voltou!” O silêncio foi quebrado por uma voz de dentro da pintura.