Meu Talento Se Chama Gerador

Capítulo 692

Meu Talento Se Chama Gerador

Dravon, Mazikeen e Korvath voltaram para a nossa nave pouco depois do fim da reunião com Saleos.

Suas expressões estavam compostas, profissionais. Seja qual fosse a decisão tomada, ela estava selada por rostos disciplinados. Eu não reagira, não comentei e, certamente, não mencionei o que tinha ouvido de relance. Se eles quisessem fingir que aquilo tinha sido ideia deles, eu ficaria mais do que feliz em deixar.

Uma impressão de sorriso finalmente apareceu no rosto dele. "Então, vou apostar em você," disse, de maneira direta. "Se isso der certo, a história vai lembrar. Se não... a culpa será minha."

Cranei seu olhar e estendi minha mão. Ele a aceitou sem hesitação.

Aurora riu ao meu lado. "Boa escolha, garoto," ela disse, dando uma palmada um pouco dura demais no ombro de Dravon. "A maioria das pessoas hesita mais antes de apostar em uma oportunidade tão boa."

Dravon soltou um risinho curto, balançando a cabeça. "Já suspeitava que a hesitação ia me custar mais."

Ele se virou um pouco e fez um gesto para Korvath.

"Korvath ficará aqui e assumirá a responsabilidade pela sua nave. Ela estará protegida."

Inclinei minha cabeça um pouco. "Dá pra aceitar."

Não houve hesitação de nenhum lado. Alguns instantes depois, transferimos as embarcações, entrando na nave de Dravon. O interior parecia diferente imediatamente: mais antigo, mais pesado, construído para missões prolongadas, não para velocidade ou conforto. As paredes tinham marcas de calor tênues, reparadas inúmeras vezes ao longo de anos de missão na linha de frente.

Assim que partimos, Dravon começou a falar.

"Antes de avançar mais," disse ele, "vocês precisam entender o que estão prestes a atravessar."

O vazio à nossa frente parecia... vazio.

"Existem duas estruturas de contenção ao redor de cada fenda ativa," continuou. "A primeira é a muralha de detecção. Você já a viu."

Assenti. "Uma rede. Não destinada a impedir alguém. Só para garantir que ninguém passe despercebido."

Dravon sorriu sutilmente. "Exatamente. Ela cobre toda a região operativa. Fluxo de essência, deslocamentos espaciais, flutuações de lei, até vestígios de névoa de morte, ela captura tudo. Essa muralha foi criada por Santificados."

A nave seguiu adiante, e eu pude senti-la antes mesmo de vê-la.

Uma pressão, sutil, mas inequívoca.

"Essa é a segunda muralha," disse Dravon em voz baixa. "O véu de ocultação."

À nossa frente, o vazio ondulava como um calor difuso sob um céu infinito. O espaço parecia relutante em revelar o que havia além.

"Essa muralha oculta a fenda," explicou ele. "E, mais importante, oculta todos os pontos de entrada espacial. Sem autorização, quase impossível até localizar o campo de batalha."

À medida que nos aproximávamos, expandi minha percepção.

A estrutura era... linda de um jeito aterrador.

Leis de ilusão sobrepostas a distorções espaciais. Leis das sombras entrelaçadas com trevas, não para apagar a presença, mas para manipular a consciência. Até meus sentidos escorregavam por sua superfície, a menos que eu focasse ativamente. Isso não era apenas ocultação. Era negação.

"Vamos atravessar," disse Dravon.

A nave passou por ela.

Num instante, meus sentidos se inverteram. A luz desapareceu. A distância perdeu o sentido. Então—

O véu se abriu.

E o campo de batalha se revelou.

O vazio além estava vivo. A primeira coisa que me chamou atenção foi a ordem.

Dravon apontou para frente. "Este é o nosso lado."

O que se desenrolou diante de nós tinha uma escala cósmica.

Três camadas em forma de crescente, curvas no vazio, dispostas de forma concêntrica, cada uma maior que a anterior, formando um semicírculo de frente para o brilho distante da fenda. Cada camada era composta de enormes lajes de rocha fixas, com estruturas inteiras construídas sobre elas, todas mantidas por fluxo de essência e leis reforçadas.

A camada mais externa, a mais ampla e distante do nosso ponto de vista.

"Essa é a camada traseira," explicou Dravon. "Recuperação, logística."

Plataformas espaçosas e estáveis, conectadas por corredores de trânsito de pedras flutuantes. Estações médicas irradiavam uma luz suave. Seções inteiras dedicadas a reforço, reparo e rotação. Demônios movimentavam-se em fluxos controlados, com feridos sendo trazidos enquanto tropas descansadas se preparavam para avançar.

A segunda grande curva ficava mais próxima.

"Essa é a camada de rotação," disse Dravon. "As tropas circulam por aqui antes e depois do combate."

Essas plataformas eram mais compactas, mais fortificadas. Zonas de treinamento, depósitos de suprimentos, retransmissores de comando. Escudos de essência cintilavam ao seu redor. Naves entravam e saíam continuamente.

Depois vinha a camada interna.

Meus olhos se estreitaram.

Essa camada era densa.

"Essa é a camada de defesa central," disse Dravon baixinho. "A base na linha de frente."

As plataformas aqui eram menores, mas muito mais reforçadas, construídas como lanças apontadas contra o inimigo. Cada estrutura era envolta por barreiras de essência sobrepostas, reforçadas por runas e estruturas de metal espesso. Era onde os combatentes ativos se posicionavam, lançavam ataques e voltavam sob fogo.

Além dela—

O espaço vazio.

Uma vasta extensão de vazio marcada por cicatrizes, onde leis colidiam violentamente. flashes de cores surgiam e desapareciam, ondas de choque se propagavam sem som. Turbulência de essência torcia o espaço em correntes instáveis.

"Essa é a zona de batalha," explicou Dravon. "O lugar onde lutamos."

E do outro lado do caos—

Outra série de círculos em forma de crescente.

Refletindo os nossos.

Novamente, três camadas, mas invertidas em sua finalidade.

"Os Eternos organizam suas forças do mesmo jeito," continuou Dravon. "Mas a camada mais forte fica mais próxima da fenda."

A camada externa deles, mais próxima do combate, era bruta e compacta, feita para pressão constante. A camada do meio alimentava incessantemente reforços na luta. E a camada interna, ao redor da própria fenda, pulsava com uma autoridade assustadora.

No final de tudo—

A própria fenda.

Ela brilhava como uma ferida na existência. Um brilho multicolorido irradiava para fora, mudando constantemente — violeta, dourado, vermelho, azul — como um sol nascente que se recusava a se pôr. Leis deformavam-se ao seu redor, curvando-se em direção ao seu centro.

Mesmo de longe, senti sua resistência.

Passamos por diversos postos de controle enquanto nos aproximávamos. Cada um escaneava a nave de Dravon, runas brilhando brevemente antes de nos liberar sem demora. Sua autoridade abria todas as passagens.

Conforme avançávamos, a pressão aumentava.

Flutuações percorriam a nave. Detonações distantes reverberavam no espaço. Eu sentia o combate à nossa frente, não apenas ouvia, mas percebia de verdade.

"Essa fenda tem se mantido estável há anos," disse Dravon. "Mas estabilidade não significa paz. Significa pressão constante."

"Assim que cruzarmos o último perímetro, tudo muda," afirmou. "A partir de então, vocês estarão dentro de uma zona de combate ativa."

Seu tom ficou mais sério.

"Vou levar vocês até meus aposentos aqui. Eu rodo entre diferentes fendas, então tenho um espaço privado em cada linha de frente principal." Ele fez uma pausa rápida. "Quando chegarmos lá, vamos discutir o plano, como você pretende sequestrar o comandante, e, mais importante, como convencê-lo depois."

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