
Capítulo 657
Meu Talento Se Chama Gerador
Cheguei na capital justo quando o céu começava a clarear. A cidade estava silenciosa, quase prendendo a respiração antes da tempestade que se aproximava. Desci em silêncio e saí do espaço a uma curta distância da torre do enviado.
O Cavaleiro já me esperava, encostado na base da torre como se tivesse ficado ali a noite toda. Seus braços cruzados, cauda balançando preguiçosamente atrás dele, mas a nitidez no olhar dizia que ele não tinha relaxado por um segundo.
— Você veio cedo — disse o Cavaleiro sem se virar.
— E você também — respondi enquanto me aproximava ao seu lado. — Alguma movimentação?
— Nenhuma. — O Cavaleiro inclinou a cabeça na direção da torre. — Ele tem meditado na última hora. Tentando se acalmar, provavelmente. Está mais nervoso do que tenta parecer.
Levantei uma sobrancelha. — Nervoso por causa da guerra ou pela Lana?
— Ambas — afirmou o Cavaleiro. — Mas, principalmente, pela Lana.
Ele se afastou da parede e me encarou de frente.
— Durante a noite, ele tentou contato duas vezes com ela.
Curbei os braços. — E aí?
O Cavaleiro deu uma risada pequena e sem humor.
— Ela ficou furiosa. Quase vibrando. Assim que soube da declaração de guerra, perdeu completamente a compostura.
Assenti uma vez. — Isso é bom.
O Cavaleiro continuou, com a voz baixa.
— O enviado tentou explicar que não pode interferir a não ser que os Bloodreavers façam algo que viole as regras do Quartel-General dos Demônios, uma rebelião ou envolvimento com os Eternos. Fora isso, ele não tem autoridade.
— E ela não gostou dessa resposta.
— Muito menos. — O Cavaleiro esboçou um sorriso quase imperceptível. — Ela exigiu que ele "arrumasse a situação". Ele reafirmou que guerras internas são permitidas, a menos que o Quartel-General dê uma ordem direta. Ela não se importou.
Ele fez uma pausa.
— Houve um longo silêncio. Então, Lana foi exatamente o que ela queria.
Os olhos do Cavaleiro se estreitaram levemente. — Ela disse: use a reforço. Pare os Bloodreavers. Aplaina-os, se necessário. E, depois, culpe tudo neles. Afinal... o ancestral Ronic já está morto. Assim que os Bloodreavers caírem, duas das três famílias terão desaparecido.
Deixei escapar um suspiro lento. — Então, o plano dela ainda é o mesmo. Desaparecer com duas famílias de uma só vez.
O Cavaleiro assentiu.
— Ela até disse que matar o Orobas primeiro faria os demais desmoronar. Que matar o ancestral é a solução mais limpa. Assim, a família dela pode "reorganizar Armus de forma adequada" sob o comando dos demônios.
Cruzei a língua. — Ousado demais para alguém que nem consegue lidar com a própria confusão.
O Cavaleiro deu de ombros. — Ela parecia confiante. Excessivamente confiante. Provavelmente porque acha que as reforços de Dragos estão garantidos.
— Não estarão — afirmei. — Pelo menos, não hoje.
O Cavaleiro inclinou a cabeça. — Devemos matar o enviado?
— Claro que não — respondi. — Se matarmos, Lana terá a desculpa perfeita para atacar o Primus de cheio. O enviado deve ficar vivo, mas completamente desamparado.
— Então, o único alvo é a reforço — disse o Cavaleiro.
— Sim. Vá lá e mexa no portal de teletransporte deles. Desative-o de forma segura. Garanta que não possam rastrear nada de volta até nós.
A cauda do Cavaleiro balançou. — Eles ainda ficarão desconfiados. A mesma semana em que a guerra for declarada, o portal simplesmente desaba? Eles vão desconfiar de algo.
Assumi os ombros. — Não importa. Em dois ou três dias estaremos fora daqui de qualquer jeito. Assim que a guerra acabar, participamos do ritual do Sangue e das Chamas, depois vamos para Dragos e começamos o conflito direto com os Eternos. Minha voz suavizou. — Estou animado para, finalmente, encontrar os inimigos de verdade.
O Cavaleiro deu uma risada. — Por que Dragos? Por que não vagar pela galáxia?
— Porque vamos fazer isso também, — respondi. — Mas primeiro, quero ajudar o Primus a resolver a sua linda esposa. Depois, é hora de dar uma lição para os Ferans. Quando fizermos isso, os Nagas também vão aparecer. Eles dominam esta galáxia. Vai ser divertido, com certeza.
O Cavaleiro balançou a cabeça, divertido.
— Parece que nossos problemas internos estão levando mais tempo que os próprios Eternos.
— É, — admiti. — Mas pelo menos a jornada fica mais interessante. Não me incomodo de virar inimigo de ambos os universos.
O Cavaleiro sorriu de lado enquanto começava a se dissolver nas sombras.
— Só dois universos? Parece pouco demais para a gente.
Sorrio levemente, observando-o desaparecer completamente, e me pergunto se ele não tem, de fato, razão.
Foi preciso só alguns segundos de voo até chegar ao local onde a guerra se desenrolaria.
O Vale dos Guerreiros.
Eu pessoalmente gostava dessa tradição de manter as batalhas fora das cidades, longe das casas e dos fracos. Assim, os civis ficavam preservados, a infraestrutura evitada e, mais importante… a pureza do combate preservada. Sem distrações. Sem desculpas. Apenas força contra força.
E havia algo satisfatório nisso, um lugar dedicado exclusivamente à destruição. Um espaço onde os guerreiros podiam lançar tudo sem controle.
O Vale não era um vale no sentido comum. Antigamente, poderia ser um círculo de montanhas, mas tantas guerras o escavaram, despedaçaram e pulverizaram até que quase nada reconhecível restou.
O solo só permanecia plano porque tudo que ali se erguia tinha sido destruído.
Fissuras longas e tortuosas rasgavam a terra, algumas tão profundas que nem se via o fundo. Marcas queimadas escureciam as rochas, como se tempestades de raios tivessem sido aprisionadas ali por séculos. Crateras inteiras pontilhavam o terreno como feridas abertas, cada uma grande o suficiente para abrigar uma vila. Algumas eram lisas, derretidas pelo calor. Outras, rasgadas, abertas pela força bruta.
O próprio ar parecia carregado pelo residual de antigas batalhas, com uma intenção de matar impregnada tão profundamente no solo que se recusava a desaparecer. Até o vento parecia retraído, como se tivesse medo de fazer barulho em um lugar onde inúmeras vidas haviam sido levadas.
Os ossos espalhavam-se pelo campo.
Restos enormes, curvos, retorcidos, de aberrações. Espinhas tão longas quanto torres de palácio estavam semi-enterradas na poeira. Um crânio com seis órbitas descansava de lado, divido ao meio. Costelas mais grossas que troncos de árvores se projetavam do chão como lanças quebradas.
Longe, em alguma distância, rastros leves das cicatrizes elementais permaneciam. Patches de gelo que se recusaram a derreter por décadas. Circulares queimados onde nada mais crescia. Uma crista rachada que vibrava com leves relâmpagos, como se a batalha que a criou ainda ecoasse por ali.
Este era o Vale dos Guerreiros, testemunho eterno de força e morte de Armus.
Um lugar esculpido pelas gerações que nos precederam…
Pronto para acolher a próxima guerra.