
Capítulo 524
Meu Talento Se Chama Gerador
Empurrei a porta e entrei na cabana. O cheiro de pergaminho e tinta de Essência me recebeu.
Dante sentado na mesa de madeira baixa, rodeado por mapas — meus mapas — aqueles que lhe entregara dias atrás.
Porém, eles não estavam exatamente como eu os tinha passado. Ele os sobrepôs com anotações próprias, tinta fresca traçando linhas entre órbitas, pequenos símbolos marcando cometas e cinturões, arcos pontilhados exibindo movimentos previstos. Pareciam menos um conjunto de cartas estelares e mais um quebra-cabeça vivo.
"Você tem se esforçado," eu disse, me aproximando.
Dante não levantou os olhos. "Seus mapas continham mais do que você mesmo percebia," ele disse calmamente. "Tenho cruzado todas as informações: posições das estrelas, poços de gravidade, explorações antigas, até rumores do passado."
Me agachei ao seu lado, examinando os quatro mapas. Os três primeiros mostravam os planetas humanos, desenhados em suas órbitas ao redor do nosso sol, um terreno familiar. Mas suas anotações extras chamaram minha atenção: marcas leves sobre campos de mineração escondidos, zonas de detritos antigos, colônias desativadas. Ele as conectara como uma teia de aranha.
Então, meus olhos recaíram sobre o quarto mapa. Era o nosso sistema solar inteiro, com órbitas traçadas de forma sutil. Uma única região, bem além dos planetas exteriores, estava circunscrita com tinta vermelha.
"Você descobriu algo?" perguntei.
Dante apontou para a região cercada. "Isso," ele disse. "À primeira vista, parece nada, sem planetas, estações, ou até mesmo um aglomerado de asteroides conhecido. Mas analisei dados de navegação antigos dos arquivos. As leituras de gravidade por lá estão… inconsistentes. Algo está curvando os caminhos de uma maneira que não deveria."
"Massa oculta?" perguntei.
"Talvez. Ou uma estação camuflada. Ou…"" Dante hesitou, lançando um olhar para mim. "Um reino-folha. Existem mitos sobre pontos de ancoragem no espaço profundo, locais entre dobras onde sensores normais não alcançam. A posição marcada aqui encaixa-se no tipo de alinhamento que você precisaria para isso."
Olhei fixamente para o xis no mapa. "Então, eles não estão apenas interessados nos mundos humanos. Estão preparando algo na fronteira."
"É o que parece," Dante respondeu com uma expressão séria. "Ou estão movendo algo enorme para lá, ou algo já existe e eles o encontraram."
Inclinei-me sobre a mesa, traçando com o dedo a marca escura no quarto mapa. "E o que quer que seja," eu disse calmamente, "é importante o suficiente para eles planejarem ao redor disso."
Dante assentiu, com uma expressão impossível de decifrar.
"Podemos ir lá antes que eles cheguem e descobrir esse lugar?" perguntei.
Ele endireitou-se, cruzando os braços. "Vai ser difícil. A região que marcaram cobre uma área enorme. Não temos equipamento suficiente para vasculhar de forma eficaz, e o que temos talvez não sirva para essa tarefa. Mais importante: nem sabemos exatamente o que estamos procurando."
"Por que não simplesmente buscamos anomalias de gravidade?" continuei.
"Podemos." Sua voz foi curta.
Esperei, mas ele permaneceu em silêncio.
"Então por que não fazer isso?" insisti, com irritação crescente.
"Porque a região é grande demais," ele finalizou, expirando. "Levaria tempo demais, tempo demais mesmo. Não vamos chegar a tempo antes que os Ferans cheguem."
Ele se levantou, esticando-se, olhando para os mapas. "Mas o que não paro de pensar é… por que eles se alinham com Saturno, Peanu e até Sukra, mas nunca nos procuram?"
"Pode ser que não tenham sido os Ferans quem encontraram esse lugar," eu sugeri, me levantando. "Talvez tenha sido Saturno, e depois ele os convidou, fez algum tipo de acordo."
Nos encaramos.
"Interessante," Dante murmurou, quase para si mesmo. "Então, algo que Saturno descobriu… e que ele tem certeza que os Ferans irão caçar."
Também me levantei e alonguei, deixando a tensão escapar dos ombros. "Enfim, por que você está tão preocupado? O que for que aconteça, acontecerá. Vamos lidar com os Ferans quando eles aparecerem."
Os olhos de Dante voltaram a se fixar na marca do mapa, seus dedos formando uma espécie de concha ao seu redor.
"Você não entende," ele falou calmamente, com um tom mais áspero do que antes. "A ferocidade com que os Ferans irão atrás deste lugar vai afetar tudo."
Fiquei em silêncio, observando-o, mas sua voz ficou mais firme.
"Sei que você é forte. Sei que acredita que pode manejar tudo. Mas você não viu o mundo lá fora, Billion. Não de verdade. Lá fora, não há moral, princípios ou regras além da sobrevivência."
"Viver é o único credo, e se destacar é convite à própria morte. Se você brilhar demais, será cercado."
"E, quando decidirem que você é uma ameaça, eles não irão parar. Perseguirão até sumir com você, ou te forçarão a se esconder, colocando disfarces, vivendo como uma sombra em algum canto esquecido do universo."
Olhei fixamente para ele. Por um instante, quis descartar tudo, rir como paranoia. Mas o peso nos olhos dele dizia que ele já tinha visto isso antes. Ele não falava por medo, mas por lembrança.
"Não pretendo me esconder," afinal, eu disse.
Dante se inclinou para frente, sem desviar o olhar. "Ninguém começa assim."
Um silêncio pesado se instaurou entre nós, o único som sendo o sussurro suave dos mapas sobre a mesa.
As palavras dele penetraram fundo na minha carne. Senti uma faísca de raiva, não, de irritação, picando meu orgulho.
Não era apenas o que ele tinha dito, mas como tinha dito, como se eu ainda fosse uma criança insolente, com complexo de herói.
Minha testa franziu ao perceber: uma arrogância começava a surgir. Exalando lentamente, forcei o alívio na tensão nos ombros, relaxando as mãos.
"Tudo bem, senhor," eu disse, com a voz mais firme. "Então, o que você sugere que façamos para estar prontos para os Ferans?"
Ele ficou com o olhar fixo em mim por alguns batimentos, depois deu uma risadinha suave. "Por um segundo, achei que você ia me dar um soco."
Um sorriso disfarçado me escapou. "Você nunca vai saber."
Dante inclinou a cabeça, sorrindo levemente. "Acredito que a melhor coisa que podemos fazer… é te esconder."
Engoli em seco. "Me esconder?"
Ele assentiu, agora completamente sério. "Sim. Até descobrirmos qual é o plano deles, você precisa ficar entre nós como um Grandmaster comum, normal, não como o monstro que na verdade é. Sem demonstrações de poder avassalador, sem chamar atenção."
Fiz um movimento de cabeça ainda mais para baixo, inseguro se ele estava brincando ou apenas testando. "E como exatamente você planeja fazer isso?"
Dante abriu as mãos, com uma voz baixa. "Ensinando você a suprimir tudo: sua aura, suas marcas de talento, até a forma como sua presença se sente. Se você conseguir se disfarçar, ganha tempo para entender o que os Ferans estão buscando."