Meu Talento Se Chama Gerador

Capítulo 322

Meu Talento Se Chama Gerador

Mais duas horas se passaram enquanto eu continuava explorando a biblioteca. Tinha passado por centenas de grimórios de habilidades, assistido a milhares de vídeos, e ainda assim tinha a impressão de que mal arranhava a superfície.

Para agilizar as coisas, ativei [Fratura de Psynapse]. Agora, ela me dava três fraturas funcionais — três mentes paralelas para lidar com tarefas ao mesmo tempo.

Uma focada em escanear as descrições das habilidades.

A segunda rodava os vídeos de treinamento, mostrando combates reais, campos de teste e casos de uso.

E a terceira trabalhava em adaptar aquelas habilidades para que eu pudesse usá-las, mesclando-as com minhas próprias leis, estilo de luta e instintos.

A biblioteca tinha uma estrutura bem definida. As habilidades estavam divididas por rank — começando pelo Mortal, depois Mestre, e finalmente GranMestre. Quanto mais avançava, mais precisas e orientadas por leis elas ficavam. Algumas eram feitas para soldados, outras para assassinos, feiticeiros e até unidades de suporte.

Ainda assim, eu tinha uma ideia do que queria. Escolhi minha "veneno".

Fiz anotações. Selecionou as que mais gostei. Esbocei ideias gerais de como iria fundi-las. Em breve, começarei a incorporá-las.

Quando terminei, sussurrei: "Dante?"

Sem resposta.

Esperei alguns segundos e então widenei minha percepção. Estranhamente, ela não podia sair da biblioteca. Ficava circulando pelas paredes, batendo nas bordas e voltando como uma bola de borracha.

Franzi o cenho e murmurei: "Huh. Parece que esse lugar é feito sob medida. Provavelmente, o velho que fez. Ele é bom com leis do espaço."

"Correto", uma voz ecoou ao meu redor de repente. "Eu sou."

Virei-me.

E lá estava ele, bem na minha frente. Mas não como eu o tinha visto pela última vez. Desta vez, não parecia um velho com barriga de pote e camisa de botões meia-desfeita.

Agora, parecia um anão.

Baixo — quase um metro e meio — mas com ombros largos e musculosos. Seus braços eram grossos como troncos de árvore. Tinha cabelos longos e pretos, uma barba trançada e usava uma capa preta para se cobrir totalmente. Sua voz ainda era a mesma: rouca e arranhada.

Franzi a testa, passando a mão na testa. "Por que você siempre se disfarça?"

Ele deu de ombros. "Porque eu posso."

Fiquei uma second, analisando-o, até que decidi simplesmente não me importar. Não valia a dor de cabeça.

Então, perguntei o que precisava. "Pode me levar a algum lugar onde eu possa lutar contra Abominações? Quero praticar as novas habilidades que tenho treinado."

Ele assentiu. "Claro, consigo fazer isso. Mas o que eu ganho ajudando você?"

Fiquei boquiaberto. "Huh?"

Assumira que o Imperador tinha mandado ele ajudar, né? Era o objetivo, afinal.

"O Imperador não pediu pra te ajudar?"

"Não," respondeu seco. "Só mandou eu te trazer aqui. Não falou nada sobre te levar pra treinar na frente de um alvo."

Fiquei olhando pra ele. Ele me encarou de volta.

Suspirei. "Beleza. O que você quer?"

Resposta veio na hora. "Se tornar meu aluno."

Inclinei a cabeça, confuso. "Sério?"

Lembrei que North estava com ele agora. E o irmão dela também. Ele tava só colecionando estudantes, agora?

"Não, obrigado," disse. "Vou ficar com o Arkas. Pelo menos ele não fica se disfarçando como um circo itinerante."

Dante resmungou. "Arkas é uma droga. Não me compare com aquele idiota."

Dei de ombros. "Ele foi bom comigo. Além disso, eu sei como é o rosto dele."

Dante franziu o cenho. "Por que se importa com como eu sou? Não tô pedindo pra casar comigo, idiota. Você tem a Lei do Espaço, eu tenho a Lei do Espaço. Sou a melhor opção."

Balancei a cabeça. "Ainda não tô convencido. O que mais você tem?"

Ele se endireitou e afirmou: "Sou o homem mais forte do Império."

Parpadeei. "Mais forte que o Imperador?"

Ele assentiu. "Sim."

Fiquei encarando por um segundo, então murmurei: "Mentira."

Ele não perdeu tempo. "Sou o melhor cozinheiro do Império."

Franzi o sobrolho. "E daí?"

Ele deu uma risadinha. "Sua namorada também está comigo."

Balancei a cabeça. "Ainda não é suficiente."

Ele ficou quieto. Seu olhar se fixou em mim e, por alguns segundos, ficou só encarando. Depois, falou de novo, com uma voz mais calma.

"Posso te levar até a Galáxia Prime."

Aquilo chamou minha atenção. Franzi um pouco os olhos. "Até o Imperador consegue," respondi.

"Mas ele não vai. Não consegue sair de Vaythos," disse, com o tom surpreendentemente sério agora. "Eu posso. Preciso."

Foi a primeira vez que ouvi ele falar tipo uma pessoa normal. Sem joguinhos. Sem risadas bobas. Só... honesto.

Continuou: "Tenho uma missão lá. Pessoal. Posso te levar comigo, te ajudar a entender como as coisas funcionam lá. Manter você longe dos golpistas e armadilhas."

Sério, o jeito que ele falou aquilo? Mais parecia um golpista perfeito.

Cruzei os braços. A conversa não tava levando a lugar nenhum, então resolvi terminar ali. "Beleza. Vou pensar nisso depois que essa guerra acabar. Pode me tirar agora?"

Ele assentiu. "Bom. E se você voltar atrás na palavra…" apontou com um dedo grosso pra mim, "Encontrarei você onde estiver se escondendo, te seqüestrarei e farei de você meu estudante escravo."

Antes que eu pudesse dar um olho revirado, ele balançou a mão e o mundo girou.

No próximo piscar, não estava mais na biblioteca.

Estava flutuando bem alto no céu.

Só.

O velho tinha desaparecido.

E eu caía.

O vento rugia ao meu redor enquanto eu despencava, mas não entrei em pânico. Com um pensamento, minhas asas surgiram nas minhas costas. Elas se abriram amplas e agarraram o ar, parando minha queda.

Fiquei ali por um momento, recuperando o fôlego, e olhei ao redor.

Logo abaixo de mim, um extenso vale montanhoso. Silencioso, tranquilo. Ouvi um rio correndo em algum lugar próximo.

Estendi minha percepção.

Foi então que a enxerguei.

Num clareira entre as árvores, uma garota se movia — rápida, precisa. Uma adaga reluziu na mão dela enquanto treinava. Calças de couro justas, top sem mangas, rabo de cavalo balançando com cada movimento. Seus gestos eram suaves, mortais. Concentrada.

North Winter.

Um sorriso surgiu no meu rosto.

Sem perder tempo, deixei que a Essência corresse pelo meu corpo. As roupas rasgadas e empoeiradas de antes se dissiparam em partículas. Levantei a mão e invoquei gotas de água limpa. Elas espirraram sobre minha pele e cabelo — rápidas, revigorantes.

Então, chamei suavemente: "Lyrate."

Uma névoa carmesim se agitava e ela apareceu ao lado, olhos calmos como sempre, flutuando no ar. Dei um sorriso para ela.

"Roupa nova, por favor."

Ela teceu fios de Essência cinza pelo ar, e em segundos eu vestia uma camisa cinza ajustada e calças pretas. Impecável, elegante. Dei um pequeno sorriso para ela e desinvoco sua presença.

Olhei para mim mesmo. Tudo estava perfeito.

Respirei fundo.

Então—

BOOM.

Minhas asas bateram uma vez, e eu corri para frente como uma bola de canhão.

O barulho ecoou pelo vale.

Logo abaixo, North virou de repente, com os olhos arregalados. Ela me viu instantaneamente, descendo flutuando de cima.

Pousei suavemente a um metro dela.

Seus olhos castanhos se fixaram nos meus. Seus braços aliviaram lentamente, a boca levemente aberta de surpresa.

Dei-lhe um pequeno sorriso. "Sentiu minha falta?"

"Você voltou," ela sussurrou, com a voz mais suave do que eu lembrava.

Sorrir. " te avisei que voltaria."

Ela abriu a boca para dizer algo mais, mas eu avancei, pegando delicadamente sua mão. Os dedos dela se entrelaçaram aos meus.

Depois, sem uma palavra, envolvi-a com um braço na cintura e puxei-a para perto.

"O que—"

Espalhei minhas asas bem largas. Com um golpe poderoso, levantamos voo.

Ela gemeu enquanto o vento passava rápido, seu corpo colado ao meu, braços naturalmente envolvendo meus ombros.

O vale ficava lá embaixo, e o céu se tornava dourado com a luz do nascer do sol.

E enquanto estávamos lá, rodeados pelo vento e pela luz, me inclinei para ela.

Ela não tentou me impedir.

Nossos lábios se encontraram… suaves e vagarosamente. Suas mãos se apertaram ao meu redor enquanto aprofundo o beijo. Senti seus lábios macios em mim. Ela parou de respirar por um momento, pressionando o corpo contra o meu. E, a cada segundo que passava, senti que queria que aquele momento nunca terminasse.

O beijo era tudo o que ficava entre nós. A saudade. A espera. O desejo.

Por alguns batimentos, o mundo desapareceu, sobrando só nós, suspensos naquele silêncio perfeito.

Segurei-a bem perto, com minhas asas nos mantendo no ar.

Naquele instante, eu não era um guerreiro ou um Executor.

Apenas um garoto que gostava de uma garota.

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