Meu Talento Se Chama Gerador

Capítulo 241

Meu Talento Se Chama Gerador

O tempo passou enquanto eu permanecia ali, esperando que os dois despertassem. Minhas ideias voltavam sempre à fumaça preta, à forma como ela drenou o braço do Steve e a asa da Ana como se fossem nada. Ainda não entendia completamente, mas tinha uma coisa clara: aquilo era perigoso. Muito perigoso.

No fim, o Steve se mexeu.

Suas pálpebras tremeram, depois se abriram lentamente. Ele piscou algumas vezes, ajustando o olhar à luz fraca dentro do túnel. Quando me viu, então Ana repousando em seus braços, soltou um suspiro fundo.

"Achei que tava sonhando que você tava aqui," disse, com a voz áspera e cansada.

Soube rir levemente. "Fico feliz que sonhe comigo."

Ele bufou, o canto da boca se contorcendo.

Levou a mão na frente do rosto, flexionando os dedos devagar, como se não tivesse certeza se ainda funcionavam. "Sabe, eu realmente achava que essa mão tinha ido para o saco."

A recuperação dele foi mais rápida do que eu esperava. A cor marrom apagada quase desaparecia, e já via o músculo retornando sob a pele. As veias não estavam mais escuras, e a vida começava a retornar a ela.

"Aquela fumaça preta me assustou de verdade," murmurou.

Inclinei-me para perguntar mais — o que era aquilo, como tinha entrado em contato — mas antes que pudesse falar, ele me interrompeu.

"Que horas são?" perguntou, olhando para o teto do túnel.

Inclinei a cabeça, então usei minha percepção para verificar a posição do sol. "É de noite."

Seu rosto se fechou.

"Droga."

"O que aconteceu?" perguntei, com tom firme.

"Precisamos sair dessa cordilheira. Rápido. A invasão negra acontece toda noite aqui."

Fiquei boquiaberto. "O que foi?"

"A fumaça preta," ele disse. "Não é algo aleatório. Ela vem toda noite, pontualmente. Enche as montanhas."

As peças começaram a se encaixar. Aquilo explicava muita coisa. Por que os Holts não tinham reforçado esse lugar. Por que nenhum posto avançado foi construído aqui, apesar do valor estratégico. Ninguém queria morar num lugar assombrado por esse tipo de corrupção.

Levantei-me rapidamente, concordando. "Deixe-me cuidar da Ana."

Estendi a mão e delicadamente peguei Ana de Steve. Ela ainda estava desacordada, seu corpo leve nos meus braços. Sua respiração estava estável, mas seu rosto pálido. Apoiei-a perto de mim e perguntei: "Quer dizer que temos que sair de toda essa cordilheira?"

Steve assentiu firme. "Sim. De toda ela."

"Certo. Então vamos."

Drei alguns passos dele e usei uma explosão concentrada de Essência para abrir um buraco no teto do túnel. Pedras racharam e se espalharam enquanto a luz invadia o interior. Pulamos para fora, no ar frio da montanha, que nos atingiu imediatamente.

Chamei mentalmente, e Silver emergiu do meu núcleo numa onda de névoa carmesim, com suas asas enormes batendo com força enquanto ascendeu ao céu.

Subimos nas costas dele, e assim que ficamos seguros, ele decolou.

O vento passou veloz enquanto voávamos, os picos irregulares das montanhas desaparecendo sob nós. Permanece quieto o tempo todo, mergulhado em pensamentos.

A fumaça preta não era natural. Algo mais estava em jogo aqui. Um Fantasma? Uma criatura? Uma experiência fracassada? Seja o que fosse, explicava por que essa região tinha sido deixada intocada. Nem os Holts se arriscariam a mexer em algo que não conseguissem controlar.

Quando já estamos afastados o bastante, dei um leve toque em Silver, e ele pousou numa clareira macia perto de uma linha de árvores.

Ampliei minha percepção em um raio de dois quilômetros, procurando por ameaças — sem sinais dos Holts, nem de aberrações perigosas. Está seguro. Por enquanto.

Desci com Ana ainda nos meus braços, suavemente. Espalmei-a com cuidado, deixando-a perto da base de uma árvore espessa. A asa dela estava dobrada ao lado do corpo. Sentei ao lado dela.

Steve fez o mesmo do outro lado, com a respiração ainda ofegante.

Virei-me para ele, com a voz calma, mas séria. "Agora quero que você me conte em detalhes… o que diabos aconteceu?"

Steve encostou-se ao tronco da árvore, o rosto iluminado de leve pelo tom alaranjado do pôr do sol. Parecia exausto — mais do que eu tinha visto antes. Mesmo assim, quando perguntei o que tinha acontecido, ele não hesitou.

Ele respirou fundo e começou.

"Logo depois que você desapareceu naquele lugar estranho… Ana terminou sua evolução. Foi rápido — provavelmente só algumas horas após você sumir. Ela parecia mais forte. A asa dela tinha mudado um pouco, e sua aura parecia mais afiada. Mas não fazíamos ideia de onde você tinha ido, ou quando voltaria."

Ele olhou para Ana, que jazia inconsciente ao nosso lado.

"Então, esperamos. Ficamos dentro da caverna, achando que você sairia logo. Mas o dia passou. Chegou a noite… e você não voltou."

Ele passou a mão no cabelo, suspirando.

"O que apareceu foi a fumaça preta. E pior — aquelas malditas aberrações que pareciam prosperar naquela coisa. Elas não eram como as que tínhamos enfrentado antes. Eram retorcidas, agressivas… como se tivessem se acostumado à corrupção."

Meus olhos se estreitaram. Imaginava o tipo de pressão que enfrentavam.

"A fumaça entrou na caverna," continuou Steve. "Grossa, densa… não conseguíamos respirar direito, e nossos corpos começaram a ficar lentos. Ana não esperou. Ela me agarrou, decolou no céu, nos levou acima da camada espessa de fumaça. Não sei o que faríamos se ela não pudesse voar."

Ele fez uma pausa, flexionando o braço em recuperação.

"Não conseguimos escapar limpos. A fumaça — grudou na gente. Nos atrasou. Mas o pior foi o que aconteceu comigo depois. Ainda assim… sabíamos que tínhamos que escapar das montanhas. Voamos o mais longe que pudemos, lutando contra algumas dessas aberrações corrompidas ao longo do caminho."

Uma brisa fez as folhas ao nosso redor balançarem.

"Na manhã seguinte, ainda não havia sinal de vocês. Então esperamos de novo. E enquanto esperávamos, treinamos. Caçamos aberrações.

Subimos de nível. Os dias viraram uma semana. Uma semana virou duas. Nesse ritmo, na terceira semana, começávamos a perder a esperança."

A voz de Steve ficou mais séria.

"Foi nesse momento que os Holts apareceram."

Minha mandíbula se fechou, mas eu não interrompi.

"Era três deles. Todos Mestres. Mais fortes — mais fortes que nós dois juntos."

A luta foi brutal desde o começo. Tínhamos pouco tempo para reagir. Ana liderou, empurrando-os para trás com tudo o que tinha. No final… ela sacrificou metade da asa para matar dois deles. Era a única maneira de virar o jogo."

Ele levantou o braço em recuperação, com uma expressão tensa.

"Não tínhamos escolha. Recuamos para dentro da cordilheira, esperando que o restante do Holt não nos seguisse. E, surpreendentemente… ele não fez."

"Por causa da invasão negra," murmurei.

Steve assentiu. "Exatamente. Ele sabia disso. Por isso, parou de nos perseguir e virou para o outro lado."

Ficou quieto por um instante.

"Naquela noite foi a pior. A fumaça preta desceu como uma enxurrada. Ana tava sangrando, mal conseguindo caminhar. Meu braço já tava se transformando em casca seca. A corrupção nos atingiu forte. Não conseguimos nos mover. Não conseguimos respirar. Pensei que íamos morrer."

"E aí, pouco antes de desmaiarmos, encontrei a entrada da túnel. Não sei como — juro que eu mal tinha consciência — mas rastejamos pra dentro e fechamos a entrada. A fumaça não chegou até ali. É ali que estamos desde então… esperando."

Os olhos dele encontraram os meus.

"E aí hoje, abri os olhos… e te vi ali de pé."

Não respondi de imediato. Meu peito apertava de culpa. Enquanto evoluía, eles passaram pelo inferno.

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