
Capítulo 202
Meu Talento Se Chama Gerador
O silêncio que seguiu era pesado, quase sufocante.
Os Holts não estavam apenas mexendo com algo perigoso, estavam atravessando limites que nunca deveriam ser ultrapassados.
Eles tinham tomado o controle de um reino criado pelos Nagas, a raça mais poderosa da nossa galáxia, e agora usavam isso para realizar experimentos, vender seres dessa raça como escravos, ou pior, matá-los. Era insano.
Uma parte de mim começou a questionar: será que o mundo de Peanu estava envolvido nisso? Ou, mais especificamente, até que ponto eles estavam envolvidos?
Porque os Holts não eram fortes ou corajosos o suficiente para fazer tudo isso sozinhos. Mas nem mesmo os Peanus seriam capazes de desafiar os Nagas, e isso indicava que havia mais pessoas envolvidas nessa confusão.
A voz de Ana quebrou o silêncio antes que eu pudesse aprofundar esse pensamento.
"Quanto a como fomos capturados," ela começou, a voz abaixando, "isso ainda é um mistério para mim."
Ela fez uma pausa, com os olhos distante. Eu fiquei quieto, ouvindo atentamente.
"Estávamos viajando para um planeta próximo, um de nossos povos aliados nos convidou para um treinamento. Era para ser uma missão segura e rotineira. No total, éramos dez. Eu estava com mais três jovens de Escamas Vermelhas, e éramos liderados pelo ancião Roger. A tribo Frostclaw também enviou quatro jovens guerreiros, liderados pelo ancião Dravik."
Ao mencionar os nomes dos anciãos, sua mão dirigiu-se a uma espécie de punho no seu colo. O tom dela ficou mais frio.
"No meio da jornada, houve uma explosão na nossa nave. Não sabemos se foi por causa de uma falha interna, alguma pane, ou se alguém nos atacou por fora.
Tudo aconteceu tão rápido. O alarme soou, as luzes ficaram vermelhas, e antes que pudéssemos reagir direito, fomos obrigados a fazer um pouso forçado em um planeta remoto."
As asas dela se mexeram levemente atrás de suas costas, e ela respirou fundo antes de continuar.
"Poucos minutos após aterrissar, fomos emboscados. Bandidos solitários. Doze, talvez mais. Eles se movimentaram rápido, como se estivessem esperando por nós. Nossos anciãos tentaram lutar, mas estavam em desvantagem numérica. Dois contra dez, ou mais. Nem foi uma luta."
Ela olhou para baixo, os olhos queimando com a lembrança.
"Fomos capturados. Todos nós. E depois disso..." ela balançou a cabeça lentamente. "Acordei aqui, dentro deste reino. Não faço ideia de como fomos trazidos para cá ou por quê."
Eu franzi o cenho, tentando juntar as peças. Algo não se encaixava.
"Então, como vocês encontraram esse reino escondido?" perguntei.
Ela soltou uma risada suave, um canto da boca se levantou.
"Na verdade, foi pura coincidência. O ancião Roger usou uma de suas técnicas para me mandar fora da área principal de prisão. O objetivo era chegar ao mundo exterior e buscar ajuda... mas, ao invés disso, acabei aqui, neste reino secreto."
Levantei uma sobrancelha, e ela prosseguiu.
"Havia um círculo de teletransporte dentro da cabana antiga. Quando o ativei, apareci dentro daquela árvore gigante — aquela pela qual você desceu. De lá, encontrei o túnel, as criaturas, tudo aquilo que você já viu."
Steve se inclinou levemente, a curiosidade brilhando nos olhos.
"E quanto às criaturas, aos macacos, ao urso, todos eles?"
Ela sorriu, desta vez com mais calor.
"São meus amigos. Estavam conosco antes de sermos capturados, Rei Macaco, Black Mamba, ambos os ursos Sama. Os outros, como os ratos e a besta caranguejo, já moravam neste reino. Eu apenas... fiz amizade com eles."
Ela olhou para a porta, talvez pensando neles.
"Pode-se dizer que essa é uma das vantagens de ser Feran. Nós não apenas conversamos com as criaturas — nós nos conectamos com elas. Compreendemos. Isso torna mais fácil conquistar a confiança."
Eu concordei lentamente, impressionado silenciosamente. Isso explicava muita coisa.
Steve perguntou: "Então, os outros Ferans... ainda estão presos pelos Holts?"
Ela assentiu, a expressão escurecendo. "Sim. Ainda estão mantidos em algum lugar, mas não sei exatamente onde. Tenho certeza de que estão neste reino, apenas... escondidos."
Eu me recuei um pouco, franzindo a testa ao pensar nisso. Onde os Ferans estavam sendo mantidos? Na área da instalação onde Steve e eu fomos presos, não havia nenhum Feran — apenas humanos, alguns Nagas e aquelas aberrações. Nenhum Feran à vista.
Porém, havia uma área, exatamente... aquela que meu Psynapse não conseguiam alcançar. Uma zona morta. Um local perfeito para esconder prisioneiros de alto valor.
Isso, por si só, já levantava sinais de alerta.
E tinha mais uma coisa — algo que Arkas me disse antes de me enviar para cá: que não haveria indivíduos de nível Mestre dentro do esconderijo secreto dos Holts. Que as forças conhecidas dos Holts estavam todas sob controle.
Mas ele estava errado.
Este lugar não só tinha vários Mestres, como também havia uma presença de nível Grande Mestre.
Isso não era apenas uma pequena falha de inteligência.
Era uma falha completa de informação por parte do Império.
Ou os Holts estavam escondendo mais do que qualquer um imaginava... ou alguém, em algum lugar, estava passando informações falsas para o Império.
Inclinei-me para frente, colocando as mãos nos joelhos enquanto decidia revelar um pouco da verdade.
"Ana, há algo que você precisa saber. Não acabamos aqui por acaso. Fomos capturados de propósito. Era uma missão do Império — nosso objetivo é encontrar e ajudar os Ferans a escaparem deste lugar."
Seus olhos se arregalaram imediatamente.
Ela se levantou, com a voz ameaçando urgência. "Espere, os Ferans de Feradros entraram em contato com seu Império? Quem mais veio com vocês? Tem outros Ferans ali?"
Ao ouvir tantas perguntas de uma só vez, tossi desconfortavelmente e cocei a parte de trás da cabeça. "Uhm... somos os únicos aqui."
Ela piscou. Uma, duas. E de novo.
"O quê?"
Steve passou a mão no pescoço, visivelmente constrangido. "É,... só eu e o Bilhão. Sem reforços. Sem Ferans. Só nós."
Ana deu um passo devagar para trás, depois sentou novamente, suas asas caíram um pouco. Os olhos dela estavam distantes, sem foco, como se o peso da decepção finalmente a tivesse atingido.
Steve e eu trocamos um olhar.
Eu encolhi os ombros, de silêncio, dizendo para mim mesmo: Bem... é o que temos.
Após uma pausa, aproximei-me delicadamente e bati suavemente no ombro dela. "Vai ficar tudo bem, Ana. Sei que não somos Grandes Mestres ou mesmo Mestres, mas prometo que vou tirar você daqui."
Ela levantou lentamente a cabeça. Seus olhos dourados, com linhas longitudinalmente estreitas, encontraram os meus, e eu vi — uma tristeza silenciosa envolta na frustração acumulada ao longo dos dias.
Ela falou suavemente, com a voz tremendo de uma ponta de dúvida.
"Bilhões... eles têm muita gente. Olhos por toda parte. E tem um Grande Mestre. Quero acreditar em você, mas já não sei mais como manter a esperança."
Sorri para ela, deixando que um pouco de fogo entrasse na minha voz.
"Sua enganada. Não vai ser só nós dois por muito tempo. Vamos reunir os outros. Há muitos prisioneiros — humanos, Nagas... e, se der sorte, também Ferans."
Pausei e completei: "Se os Holts acham que este lugar é invencível... então vão aprender que não é."