Meu Talento Se Chama Gerador

Capítulo 178

Meu Talento Se Chama Gerador

Minha mente foi inundada por flashes das lembranças de Red. Elas flutuavam ao meu redor como janelas quebradas, cada uma mostrando uma parte diferente da vida dela.

Faces. Lugares. Sangue. Gritos.

Era demais para suportar.

Antes que eu pudesse escolher, um dos fragmentos me puxou para dentro, como se uma garra tivesse agarrado meu peito e me arrastado para baixo.

O mundo ao meu redor se virou.

Sobrevivi a isso, me Encontrando de pé em uma sala de pedra escura. Correntes tilintavam ao fundo. O ar tinha cheiro de sangue, ferro e algo pior, carne queimada.

Do outro lado da sala, ela estava.

Red.

Não exatamente a Red que conhecia agora — essa era sua versão mais jovem e mais selvagem. Ela não devia ter mais que vinte e dois anos. Mas, mesmo assim, a loucura brilhava forte em seus olhos.

Seu cabelo curto enquadrava seu rosto de forma desleixada, e ela vestia... um vestido ridiculamente vibrante, floral. Flores cor-de-rosa e amarelo, como se estivesse pronta para um piquenique. Ela sorriu largo, um sorriso infantil, exagerado demais, afiado demais.

E, na sua frente, caída numa cadeira, estava um homem — um soldado do Império, pelo uniforme gasto. Sua cabeça pendia, braços presos firme na estrutura de madeira, sangue escorrendo de suas pontas dos dedos.

Red agachou na frente dele, inclinando a cabeça como se estivesse examinando um inseto interessante.

"Nome?" ela cantou, cutucando o nariz dele com o dedo.

O homem não respondeu. Mal conseguia levantar a cabeça.

Red fez bico.

"Ah, não precisa ter vergonha."

Sem aviso, ela colocou a palma da mão na testa dele. Sua mão começou a brilhar fracamente. O soldado se mexeu violentamente, a boca se abriu num grito silencioso. O corpo inteiro convulsionou contra as correntes.

Eu podia sentir — Red não estava só lendo a mente dele. Ela estava a destruindo por dentro.

Imagens explodiam ao redor dela como bolhas — memórias, segredos, ordens. Ela as pegava casualmente do ar, jogando fora as que não interessavam, guardando as que gostava.

Ela ria baixinho.

Não era um som humano.

Era o tipo de som que se ouve bem antes de algo terrível acontecer.

Ela se inclinou mais perto, sussurrando: "Vamos deixar isso mais divertido."

Seus dedos brilharam novamente, desta vez mais intensamente.

O corpo do soldado se contorceu. Eu percebi algo horrível — as memórias dele estavam sendo reescritas, costuradas como se fosse uma boneca mal feita. Seus olhos reviraram. Lágrimas misturadas com sangue escorreram pelo rosto.

"Agora você vai achar que foi sempre meu pequeno mensageiro, não vai?" ela cochichou.

Ela pressionou mais um dedo na testa dele. Observei enquanto ela moldava sua mente como se fosse argila, cantarolando uma melodia feliz baixinho.

Quando finalmente afastou a mão, o soldado caiu para frente, completamente vazio. Uma marionete com novos fios.

Red se levantou, ajustou o vestido colorido, e bateu as mãos como quem acaba uma obra de arte.

"Pronto! Melhor agora!"

Ela deu uma volta, sorrindo largo, e saiu pulando da sala sem nem olhar para trás.

A porta se fechou com estrondo, deixando o homem quebrado balançando sozinho na escuridão.

Fui puxado para fora da memória como uma onda que me joga de volta à superfície.

Por um momento, apenas flutuei ali, chocado.

O que havia acabado de presenciar abalou-me. O poder dela não era normal. Não era só leitura de memória, era reescrita de memória. Torcer a essência da alma de alguém como se fosse nada.

Era demais. Perigoso demais.

Uma descoberta aguda me ocorreu: não podia perder tempo. Precisava aprofundar mais.

Concentrei-me, estendendo a mão em direção ao caos de lembranças que girava ao meu redor como um furacão.

Senti minha força escorregando quanto mais tempo permanecia na mente dela. O lugar não me acolhia. Cada segundo ficava mais pesado, como se o próprio mundo tentasse me esmagar e cuspir para fora.

Mas eu resisti.

Entrei com força total, focando nos instantes frenéticos de memória que passavam como relâmpagos, folheando anos de passado como se estivesse lidando com mil livros ao mesmo tempo.

Finalmente, enxerguei.

Uma memória, mais clara que as outras: Red diante de um espelho.

Forçando-me, mergulhei nela antes que pudesse escapar.


O mundo ao meu redor se virou novamente.

Red estava sozinha numa sala pequena e vazia. O lugar era simples. No centro, um espelho gigante, destes que tinham cerca de três metros de altura por um de largura, com superfície polida, refletindo nada ainda.

Ela parecia mais jovem aqui. Sem sinais de loucura — apenas uma jovem bonita.

Essa... essa era a memória do seu despertar.

O momento em que seus poderes se ativaram pela primeira vez.

Assisti enquanto a superfície do espelho ondulava como água. O processo de despertar aconteceu e logo, uma tela azul translúcida surgiu na frente dela, flutuando suavemente.

Meus olhos se fixaram imediatamente na parte mais importante: seu talento.

E lá estava, escrito em letras garrafais:

Talento: Tecelã de Memórias

Meu coração pulou uma batida.

Então minha suspeita estava certa.

Ela tinha um talento.

Um talento realmente assustador.

E, ao invés de usá-lo para o bem, pelo que se via em suas memórias e no seu comportamento comigo, ela havia ficado completamente louca.

Fui arrancado da memória. Senti minha força escorrer, como uma corda se desfazendo nas minhas mãos.

Uma pressão forte bateu contra minha mente, ela estava resistindo.

Rapidamente, foquei e direcionei minha atenção para a lembrança mais recente dela. Era fácil de achar. A memória da nossa interação — tudo o que aconteceu entre nós.

Sem hesitar, mergulhei nela. Despachei toda a minha vontade e foco naquela lembrança, rasgando-a por dentro. Em algum lugar, ouvi ela gritar — crua, animalesca. Ela devia estar em dores insanas pelo que eu estava fazendo.

Continuei. Só quando a memória foi totalmente destruída, desfeita em nada, é que consegui sair do dela.

Seu corpo se contorceu violentamente na minha frente, preso na palma do gigante. Ela me olhou com olhos injetados de sangue, tremendo.

De repente, o céu acima de nós se partiu. Linhas irregulares dividiram a escuridão como vidro quebrado.

Olhei para cima.

"Ah", murmurei. "A conexão está se rompendo de vez?"

Algo deve ter acontecido no mundo real depois que destruí aquela lembrança.

Voltei meu olhar para a figura da minha mãe, que pairava ali, protegida por um escudo, bem longe.

Com um pensamento, apareci na sua frente. Dissolvi o escudo com um movimento da mão, deixando-o virar faíscas.

Ela estava lá, minha mãe, ou melhor, a lembrança dela, criada a partir da minha mente.

Ela me olhou hesitante, com voz suave.

"Billion, o que está acontecendo?"

Ouvi-la falar apertou algo no meu peito. Por um instante, achei estranho o quanto ela parecia real.

Quão poderosa era a talento de Red, de criar um mundo assim e moldar a imagem da minha mãe com tanta perfeição a partir dos meus próprios pensamentos.

Sorri para ela com suavidade e disse: "Nada, mamãe. É só um sonho."

Ela inclinou a cabeça, confusa.

"Um sonho?"

Assim que assenti.

"Sim. Estamos em um sonho. Se você fechar os olhos... vai acabar."

Ela me olhou em silêncio por alguns segundos longos. Então, sem dizer uma palavra, assentiu e fechou os olhos.

Agitei a mão. A figura dela brilhou suavemente e, depois, desapareceu, descansando em paz no meu coração.

Voltei a aparecer na frente de Red.

Agora, eu tinha uma escolha.

Sobre ela.

No mundo exterior, ela era uma Mestre de Rank, e dificilmente eu poderia fazer algo lá fora.

Mas aqui, dentro desse espaço que desmorona, ela estava vulnerável.

Levantei a mão. Seu corpo flutuou para cima, mole e tremendo.

A palma do gigante se moveu, começando a se fechar ao redor dela, como um punho.

Relâmpagos estalavam de cada ponta dos dedos, disparando nela de todos os lados. A palma se fechou completamente e, com um último clarão de luz dourada, seu corpo explodiu dentro dela.

Assim que seu corpo se reformou, fui na direção dela.

Minha vontade avançou contra sua mente como uma onda gigante, arrastando-me de volta ao turbilhão caótico da sua consciência.

Memórias giraram ao meu redor, fragmentos de sua vida passando em uma tempestade de imagens.

Não hesitei. Concentrei toda a minha força e a liberei na tormenta.

Cada memória que passava, eu destruía. Cada uma rachava e se quebrava como vidro delicado sob minha fúria.

Cenas do seu passado — suas vitórias, suas risadas, seus crimes, seus medos — todas destruídas.

Uma após outra.

Sem misericórdia.

Sem pausa.

Arrasei a própria base da sua mente, deixando para trás um casulo vazio, quebrado.

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