
Capítulo 825
O Ponto de Vista do Vilão
Talvez a coisa que mais perdure na memória durante uma guerra — além do sangue, do fogo, do aço e das ruínas — seja o som.
O som dos gritos.
Da dor.
Os uivos selvagens da guerra que escapam de uma pessoa sem que ela perceba.
O som é um elemento fundamental da guerra.
Ele reflete a moral de um exército inteiro...
e, às vezes, ele por si só é suficiente para mudar o rumo da batalha.
Entre os Ultras e o Império...
estava dolorosamente claro quem levava vantagem nesse aspecto.
Os uivos de monstros e demônios,
o ranger estridente dos bonecos de ferro —
abafavam completamente as vozes dos guerreiros do Império.
No início, os humanos gritavam com fervor,
lutando com a determinação de resistir até o último suspiro.
Mas, a certa altura, esse fervor começou a diminuir.
Gradualmente...
transformou-se em desespero.
A diferença de força era avassaladora.
Soldados comuns — aqueles de patentes mais baixas como A e B —
não tinham chance contra criaturas que superavam a classe SS.
E assim... com exceção dos mais fortes —
eles morriam.
Rápido.
Assustadoramente rápido.
Tão rápido que seus números já haviam caído para menos da metade do que eram no início da batalha...
apesar de não ter passado muito tempo.
Poderia se dizer que era inevitável.
E, na verdade —
poucos se importavam com a vida daqueles soldados comuns.
Em algum lugar dentro das fileiras humanas —
os estudantes de elite se reuniram, lutando lado a lado pela sobrevivência.
Eles tinham um bom desempenho —
muito melhor do que o soldado médio, graças ao seu talento e habilidades excepcionais.
No centro deles estava Dawn Polaris, portador da sorte absoluta...
um homem que escapava de todas as crises.
Eles lutavam bem.
Mas seus rostos estavam rígidos.
Sombrios.
E tornando-se mais sombrios a cada segundo que passava.
Por causa do sangue.
Dos membros decepados.
Das entranhas espalhadas.
Das cabeças rolando pelo chão sem seus corpos.
Soldados imperiais estavam morrendo...
mais rápido do que qualquer um havia previsto.
Seus heróis não os protegiam.
Eles estavam totalmente ocupados —
com suas próprias batalhas.
Os fundadores de grandes famílias.
Os campeões da Seita das Sombras.
Até mesmo as figuras poderosas acima —
incluindo Frey Starlight, em quem muitos haviam depositado sua fé.
Ele sabia que eles morreriam assim.
E, no entanto... ele não olhou para trás.
Porque, para ele —
a morte deles era necessária.
Ele não se importava.
Mas alguém do seu próprio sangue se importava.
Na linha de frente do campo de batalha...
depois que suas lâminas de luz já haviam atravessado um grande número de demônios e Ultras...
Abraham Starlight foi o único que se virou.
E o que ele viu —
foi seu próprio povo morrendo.
Caindo a uma taxa alarmante.
Ele respirou fundo... o ar estava espesso com o cheiro de sangue e morte.
Sua mão apertou o cabo da espada com mais força.
Seus olhos se estreitaram.
Um dos Ultras mutantes tentou emboscá-lo —
mas a lâmina de Abraham moveu-se na velocidade da luz, despedaçando-o antes que pudesse sequer sonhar em tocá-lo.
"Esta guerra...", disse ele, com a voz grave.
"...é diferente. Completamente diferente de qualquer uma que eu tenha lutado antes."
Ele estava muito longe dos soldados do Império —
tendo avançado sozinho para dentro das fileiras inimigas.
Ele acreditava que fazer isso aliviaria a pressão sobre o exército...
ainda que apenas um pouco.
Mas o que ele enfrentava...
era apenas uma gota em um oceano infinito.
Os números do inimigo eram avassaladores.
E os reforços de Hellmond —
não eram brincadeira.
Abraham entendia o plano.
Ele o conhecia bem.
Mas vendo a realidade se desenrolar diante dele...
ele começou a duvidar.
Erguendo sua espada diante do rosto,
o brilho de sua aura refletia em seus olhos ao longo da lâmina.
"Frey... esta não é uma guerra normal."
"Esta é uma guerra que pode levar à extinção de uma raça inteira... a raça humana."
"Restam apenas alguns milhares de nós... e a maioria deles está aqui, lutando nesta batalha."
Ele avançou através dos monstros, despedaçando-os com facilidade —
ainda assim, seus pensamentos permaneciam fixos no rumo que a guerra tomara.
Não restavam muitos humanos neste planeta.
A maioria deles estava aqui —
lutando.
Aqueles que permaneceram na Seita das Sombras —
eram crianças, idosos e mulheres comuns —
pessoas que não conseguiriam sobreviver sozinhas.
Os lutadores mais fortes haviam vindo para o campo de batalha.
E isso levou Abraham a uma pergunta...
uma que ecoava dentro dele.
"É justo... sacrificar todas essas pessoas —"
"apenas para preservar forças para o que vem a seguir?"
"Devo me conter... quando sei que posso salvá-los?"
"Entendo que a vitória tem um preço... e talvez esse preço hoje sejam todas essas vidas sendo perdidas a cada segundo que passa..."
"Eu entendo..."
Seus dentes se cerraram.
Suas espadas começaram a desaparecer.
"Eu entendo... mas eu recuso este caminho."
Abraham fechou os olhos.
E baixou a guarda completamente.
Ele ficou no meio do campo de batalha —
completamente indefeso.
O arrependimento era evidente em seu rosto.
Os monstros avançaram sobre ele instantaneamente —
amontoando-se sobre ele em um frenesi, ansiosos para despedaçar aquele feroz guerreiro humano.
Em segundos —
dezenas saltaram sobre ele, empilhando-se sobre seu corpo...
até que Abraham desapareceu sob eles completamente.
Essa mudança repentina atraiu a atenção daqueles que observavam.
Eles não conseguiam entender o que ele estava fazendo.
"...Pai", murmurou Frey, franzindo a testa.
"O que você está fazendo?"
A mesma pergunta ecoou nas mentes daqueles acima —
e daqueles que assistiam lá embaixo.
Os monstros continuaram a se aglomerar sobre ele.
E em menos de um minuto...
Abraham jazia enterrado sob uma montanha de demônios e feras.
Nada dele permanecia visível.
Apenas escuridão.
E sujeira.
Mas não durou.
Uma luz irrompeu de dentro da massa contorcida.
Uma luz brilhante —
como uma estrela prestes a explodir.
"Eu ainda não terminei."
A voz de Abraham rugiu debaixo de toneladas de monstros.
Naquele instante... os demônios e os Ultras mutantes irracionais tremeram.
Eles deveriam ser criaturas desprovidas de medo.
E, no entanto —
um único homem... havia mudado isso completamente.
Uma estranha onda de aura começou a ferver —
e uma pressão avassaladora espalhou-se pelo campo de batalha onde Abraham estava.
Lentamente, os olhos de Frey e dos outros se arregalaram ao sentirem aquele fluxo anormal de poder.
Sem aviso —
a luz explodiu.
Cada criatura que ousara tocar Abraham foi lançada longe instantaneamente.
Debaixo da pilha...
ele se ergueu novamente.
Nem um único arranhão marcava seu corpo.
Ele ainda era o mesmo homem —
mas completamente diferente.
Seus longos cabelos negros incendiaram-se com um brilho branco ressonante tingido de prata...
como se fossem tecidos de fios de luz das estrelas.
Sua aura havia mudado completamente.
Parecia uma chama prateada ardente... que beirava o dourado.
Era calma.
Imóvel.
No entanto, a imensa pressão que irradiava deixava uma coisa clara —
aquela não era uma transformação comum.
"Se ninguém mais se importa... eu me importo."
A voz de Abraham carregava um peso de comando.
Uma nova espada formou-se em sua mão.
Uma espada diferente... maciça, com mais de dois metros de comprimento,
brilhando com o mesmo poder radiante.
"No fim... eu sou humano."
"E é meu dever lutar pela humanidade."
"Se este poder pode se tornar a razão pela qual esta raça sobrevive — então vale a pena liberá-lo!"
Ele mudou para uma postura completamente diferente.
Seus dentes se cerraram.
Então —
ele rugiu.
Um grito trovejante que sacudiu o próprio campo de batalha.
"Ignição Empilhada: Supernova!!"
Da primeira ignição...
outra se acendeu.
Uma estrela explodiu e tornou-se algo totalmente diferente.
Abraham havia alcançado algo além da compreensão.
Ele não parou em uma única ignição.
Depois de testemunhar suas próprias limitações — sua fraqueza em comparação com seus inimigos...
e até mesmo em comparação com seu próprio filho...
ele superou seus limites mais uma vez.
Lembrando a todos —
por que ele havia sido chamado de milagre em primeiro lugar.
Um pilar colossal de luz irrompeu de seu corpo, subindo cada vez mais alto...
até atingir os próprios limites dos céus.
Mesmo no espaço —
os olhos de Snow se arregalaram quando o pilar o alcançou,
impulsionado pela escala pura da aura.
Mas não era um pilar.
Era a espada de Abraham —
erguida bem alto em direção ao céu.
E então ele a baixou.
Sem piedade.
Diante dos olhos horrorizados de todos que assistiam.
A lâmina desceu lentamente...
seu tamanho puro transformando-a em uma sentença de morte prolongada para todos abaixo dela.
CORTEEEEEE!!!
BOOOOOOOOOOOOM!!!
A guerra... parou.
Cada combatente congelou.
O tempo parecia ter parado.
Todos os olhos se voltaram para uma catástrofe —
algo muito além de tudo o que haviam testemunhado.