
Capítulo 742
O Ponto de Vista do Vilão
Um inferno de sangue... e cadáveres ambulantes empilhados uns sobre os outros, esticando os braços em desespero, tentando se agarrar desesperadamente aos pés de um único homem.
Aqui, neste inferno, aquelas faces retorcidas e deformadas alcançaram Frey em uma tentativa inútil de desesperar-se, enquanto ele não tinha escolha a não ser fugir... subindo cada vez mais, tentando alcançar o topo bem longe deles.
Os cadáveres não desistiam. Um após o outro, subiam sobre os demais até formar uma montanha inteira — uma visão arrancada diretamente do próprio inferno.
Tudo isso se desenrolava diante de Nokome, que observava em silêncio. Seu rosto permanecia oculto atrás daquela máscara fria, sem dar qualquer pista do que realmente sentia… nem de quão profundamente as emoções de Frey Starlight o afetavam.
Frey, por outro lado, fugia em puro pânico, incapaz de compreender o que estava acontecendo.
"Que diabos são esses monstros?! Como este lugar virou um mar de sangue?!"
Este lugar deveria ser seu refúgio seguro... separado de tudo o que havia lá fora.
No entanto, até esse santuário agora se desfez, e o inferno tinha surgido de baixo dele sem aviso.
"Você disse que queria poder, não disse?" respondeu Nokome, de pé ao lado.
"Então aqui está. Este é o poder que você busca — repousando em suas mãos… ou melhor, sob seus pés."
"Do que é que você está falando?! Como é que essa bobagem vai me ajudar de alguma forma?!" gritou Frey, desesperado, tentando se afastar dos cadáveres que se agarravam a ele.
Faces retorcidas, sujas... nenhuma mente sã conseguiria suportar olhar para elas por muito tempo.
"Você não os reconhece, Frey Starlight?" Nokome perguntou. Sua voz ecoava fraca, quase engolida pelos gritos selvagens e pelos berros daquela aberração.
Porém, Frey o ouviu com clareza.
"Nunca vi essas coisas na minha vida," respondeu Frey, afastando os cadáveres um a um... jogando-os do próprio topo da montanha... da montanha de corpos.
"Achei que você fosse dizer isso," respondeu Nokome com tranquilidade.
"Cada um deles morreu em menos de um segundo pelo seu espada. Você nunca sequer lançou uma olhada para eles."
Em meio ao rugido infernal, as palavras de Nokome caíram sobre Frey como uma água gelada... forçando uma terrível realização.
"Você quer dizer…"
Nokome assentiu.
"São suas vítimas... ninguém mais, Frey Starlight."
Os cadáveres continuaram a se empilhar sem parar.
Frey não entendia o que estava acontecendo—por isso, Nokome explicou.
"O Sexto Estágio da Adaptação às Sombras é uma habilidade única ligada à Lei da Vida e da Morte. Há algo importante que você precisa saber sobre mim, Frey Starlight."
"No passado distante, eu era capaz de manipular almas... armazená-las e revivê-las através de vasos que eu mesmo criei. Mas isso só valia para aqueles que não morreram por minha mão... aqueles que pereceram por causas externas além do meu controle."
Nokome lentamente sentou-se no pico que Frey vinha tentando desesperadamente alcançar, e continuou com calma:
"Aqueles que morrem por minha mão são diferentes. Assim que alguém morre por mim, ela não vai para lugar nenhum. A alma não encontra descanso, nem libertação... ela permanece presa dentro de mim, sofrendo sem parar."
"O Sexto Estágio da Adaptação às Sombras é o poder que obtenho ao queimar as almas de todos que já matei."
Os olhos de Frey se arregalaram de choque.
"Queimar as almas deles é o completo consumo de suas existências... cada fragmento do que eram, até a última gota. Elas queimam lentamente dentro de mim, até que nada reste… transformando-se na força que uso contra meus inimigos."
Queimar almas era semelhante ao que Abraham Starlight tinha feito no passado distante—quando incendiou sua própria alma e entrou naquele estado transcendente.
Porém, Nokome fazia isso com incontáveis almas... todos em busca de um poder que ultrapassava a própria imaginação.
"Essa habilidade foi criada, acima de tudo, para enfrentar o Rei Demônio. É a única força capaz de desafiar sua habilidade de Devoração."
O Sexto Estágio da Adaptação às Sombras concedia o maior aumento de força, pois escalava diretamente com o número de vidas que seu portador havia tirado.
Era uma habilidade única... diretamente ligada ao Caminho do Sangue.
"Agora, o mesmo princípio se aplica a você—porque você possui o mesmo poder que eu. Ou seja…"
Nokome indicou abaixo.
"Esses cadáveres deformados, gemendo sob seus pés, são as almas de todos que você matou pessoalmente até agora."
Ao ouvir essa amarga verdade,
Frey abaixou sua cabeça mais uma vez.
Desta vez, ele não viu monstros.
Ele não viu cadáveres.
Ele viu pessoas.
Homens.
Mulheres.
Até demônios.
Sem exceções.
Todos os seres vivos que ele matou estavam ali—para sempre—aguardando serem consumidos.
E suas emoções não tinham desaparecido.
Seu sofrimento.
Seus gritos.
Sua agonia.
Tudo isso foi lançado de uma só vez contra Frey.
Um ódio infinito... tão intenso que ele o sentia claramente, como inúmeras lâminas o perfurando de todos os lados.
No passado, Nokome havia massivamente exterminado inúmeros seres vivos de várias raças. Frey achava que isso era apenas por seus experimentos perversos.
Mas, pensando melhor agora… três ou quatro cadáveres já seriam suficientes para experimentar.
Porém, Nokome exTerm, milhões de vezes.
A razão ficou clara agora.
Ele fazia isso para adquirir o poder que o colocava acima de todos os outros—para ficar cara a cara com o próprio Rei Demônio.
Nokome não tinha emoções. Nunca se deixou afetar pelos gritos dos mortos, nem se deixou pesar pela culpa de suas torturas.
Podia passar por cima de seus cadáveres, usá-los como combustível para alimentar suas chamas... de maneira perfeita, impecável.
Mas e Frey?
Querele, ou não, Frey ainda tinha emoções.
Por mais frio que se tornasse… elas ainda estavam lá.
Ele ainda podia sentir.
Ainda podia sentir tudo.
Será que alguma mente sã aguentaria um inferno assim?
Um inferno onde inúmeras almas torturadas amaldiçoam você até a loucura.
Tudo dentro daquele mar de sangue eram pessoas que Frey mesmo tinha matado.
Muito menos do que Nokome uma vez fez.
E, no entanto...
Era mais do que suficiente para fazer Frey sentir como se sua cabeça fosse explodir, enquanto gritos de agonia rasgavam sua mente.
As vozes... aquelas que estavam seladas até então... finalmente romperam no instante em que Frey ativou o Sexto Estágio da Adaptação às Sombras.
A pressão era avassaladora, desumana—tão severa que, no mundo real, Frey caiu de joelhos sem perceber, segurando a cabeça enquanto lutava para respirar.
"As vozes delas... os gritos delas... seu sofrimento... tudo está cristalino dentro da minha cabeça…"
"Elas me amaldiçoam… cada uma delas."
"Elas me amaldiçoam… e ao mesmo tempo me suplicam… para libertá-las desse tormento…"
Frey cerrava os dentes enquanto finalmente experimentava o que significava ter dezenas de milhares de almas torturadas gritando dentro de sua cabeça ao mesmo tempo.
Mesmo assim, ele se obrigou a se levantar lentamente, dolorosamente.
"Isso é um poder que cabe a um demônio… não a um rei," murmurou Frey, com a voz carregada de ódio.
"Qualquer um que use algo assim nunca encontrará salvação... nenhuma bondade virá de sua vida."
O fim daqueles que dependem de tal poder jamais será misericordioso…
Como alguém que tortura tantas almas—antes e depois da morte—poderia esperar redenção?"
Por mais que ele olhasse, Frey entendeu uma verdade inegável:
Esse poder era o mal absoluto... a definição mais pura de monstruosidade.
A vida e a morte deveriam ser um ciclo, uma lei estabelecida pela própria natureza desde o começo da existência.
No entanto, Nokome quebrou esse ciclo—o pisoteou—transformando as almas dos outros em ferramentas ao seu dispor.
"Isso é imperdoável…
Não há perdão para você. Nunca avistará perdão."
Ainda segurando a cabeça, Frey se esforçou para suportar.
"E também não haverá perdão para mim... porque estou trilhando o mesmo caminho."
Seus olhos começaram a escurecer lentamente... o olhar de alguém que aceitou seu destino.
"Talvez eu não tenha matado tantos quanto você…
Mas o número de almas que morreu por minhas mãos é bem grande."
Mesmo sem saber…
Mesmo sem perceber que essas almas ficariam presas dentro dele, sofrendo eternamente, sem nunca encontrar libertação…
Frey se levantou novamente e ergueu o olhar.
À sua frente, estava o campo de batalha—onde Amon enfrentava Gehrman e Abraham.
Neste momento, Frey precisava de poder.
Poder para salvar aqueles que ainda estavam vivos.
Poder para garantir que não perdesse mais ninguém próximo de si.
"Mesmo que precise usar esse poder…
Mesmo que precise passar por cima dos seus corpos... que assim seja. Vou aguentar."
Devagar…
Frey deu seu primeiro passo.
Depois o segundo.
Depois o terceiro.
E tudo isso suportando os gritos selvagens e a fúria infinita que ecoavam em sua mente.
"Vou me tornar um monstro, se for preciso.
Contanto que eu conquiste o poder que preciso, aguentarei.
Contanto que eu seja quem pague o preço no final... Eu farei."
Frey sabia que esse poder agora apagaria os últimos vestígios de sua humanidade.
E ainda assim… escolheu seguir adiante.
Sabia que gente como ele nunca encontraria salvação.
Que o ódio e a fúria dos mortos provavelmente o arrastariam para um fim ainda mais terrível do que a morte que eles mesmos sofreram.
Mas Frey não hesitou.