
Capítulo 666
O Ponto de Vista do Vilão
"Sem nome? Isso é impossível…" Marvas quase saltou da cadeira.
"Tenho plena consciência do que acontece no mundo humano," continuou ele. "Já ouvi dizer que apareceu um semelhante lá... mas há uma diferença enorme entre Sem Nome e aquele novato."
Ele estava falando, é claro, de Frey.
"Sem Nome era único... uma criatura estranha, indiferente, que dedicou toda a sua existência ao conhecimento e ao treinamento, atingindo níveis de poder que só ele e o Rei ousaram alcançar. Sua espada era uma foice de ceifador, e enfrentá-lo era um tormento — tanto que até os Altos Assentos evitavam seu caminho."
Recortes de um passado distante cintilavam na mente de Marvas. Ele era um dos demônios mais antigos; tinha visto muito — e a ascensão de Sem Nome foi uma dessas coisas.
"Contra um inimigo como esse… tudo que tenho é medo… e respeito. Está me dizendo que ele voltou?"
Izalith assentiu. "Ele voltou. Posso confirmar."
"Sério…?"
Marvas colocou uma mão no rosto, tentando processar a informação. "Eu mesmo vi o Rei matá-lo com meus próprios olhos."
"Eu também," respondeu Izalith. "Mas, como você sabe, certos seres brincam com a vida e a morte. Não se pode julgá-los pelos critérios comuns."
Ela relutou o relatório completo que Beatrice lhe enviara, cada detalhe aumentando o choque de Marvas.
"Então… aquele humano que você acredita ser Sem Nome derrotou uma cópia do Zibar em meia força?"
Izalith inclinou a cabeça. "Isso mesmo."
"Entendi…"
O silêncio se fechou enquanto Marvas conectava os pontos. Finalmente, compreendeu por que Wesker se fechara na Terra todo esse tempo — tudo por causa de um único humano. Um humano que poderia guardar o poder de uma criatura que, outrora, cruzou lâminas como um igual ao seu Rei.
"Enquanto eu estava ocupado com guerras e conquistas, aquele maldito Wesker tinha seus olhos em outra coisa completamente diferente…"
Incomodado, Marvas bateu a língua. Desde que o Rei se afastou… e o Primeiro Assento também, com o Segundo e o Terceiro recusando a liderança…
Wesker tinha sido rival direto de Marvas pelo comando. Mas não era uma disputa justa: Wesker possuía o Olho do Rei, que lhe dava vantagem após vantagem, sempre um passo à frente. Marvas carregava a Alma Escura do Rei… entre as mais poderosas já existentes… mas seu uso ficava, em grande medida, restrito ao campo de batalha.
Um contra um, Marvas tinha certeza de que derrotaria Wesker; mesmo assim, Agaroth colocou Wesker acima dele na hierarquia, independentemente do poder. Sempre foi uma ferida silenciosa para o mais antigo dos demônios… um insulto discreto que ele não tinha coragem de contestar. A palavra do Rei era absoluta; além de reverência, eles só tinham medo e obediência total a Agaroth.
Enquanto Marvas ponderava seu próximo passo em relação aos "humanos", a voz de Amon cortou o salão mais uma vez:
"O Segundo Assento chegou… Senhor Agares!"
Todos voltaram sua atenção para a criatura que entrou na luz… especialmente Marvas, que estreitou os olhos, uma mistura de sentimentos se formando.
"Agares…"
O Segundo, um demônio tão alto quanto Marvas, com cabelo azul frio e pele pálida como a de Vain. Sua estrutura não era massiva, mas todos sabiam que aquele corpo discreto era o mais resistente da sala. Marvas sabia melhor do que a maioria: no passado distante, Agares tinha desafiado-o por sua posição. Marvas tinha sido superior naquela época — mas perdeu, de forma humilhante, e deixou seu assento.
O Segundo carregava a Dureza do Rei — sua carne era semelhante à durabilidade de Agaroth — tornando-o uma criatura de força física esmagadora. Até Crimson, o Primeiro, ficava atrás nesse aspecto e dependia da Armadura Sanguínea para compensar.
"Não esperava que ele realmente viesse," murmurou Izalith, observando-o de longe. "Ele sumiu depois de perder para Midir, o Deus Dragão… o primeiro dos Sete Grandes Poderes. Parece que aquela derrota foi profunda… mas aqui está ele de novo."
Mesmo assim, Agares exibia uma expressão de total contrariedade; seu humor estava péssimo, como se estivesse pronto para arrancar alguém ao meio a qualquer momento.
Há muito tempo, ele tinha confrontado Medir do Panteão… e sofrido uma derrota esmagadora. Dois motivos tornaram aquilo humilhante. Primeiro, ele havia perdido uma disputa de resistência e durabilidade… sua especialidade… contra o mais forte do Panteão.
Segundo, não tinha sido um confronto de um contra um de verdade. Agares entrou na jogada para salvar Nito, o Nono Assento, que havia caído nas mãos de Medir.
Nito não era um demônio — também fazia parte do Panteão. Ele os traiu, há muito tempo, revelando suas fraquezas a Agaroth. Nito tinha sido muito forte… o Panteão ostenta o Deus Dragão, Midir, e, sob ele, dois Imperadores Dragão. Nito era um deles.
Por não ser demônio, Agaroth lhe concedeu a Alma da Luz, elevando ainda mais seu poder. Mesmo assim, Medir o destruiu completamente… e, mesmo com a ajuda de Agares, não conseguiram vencer… consolidando a temível reputação do Deus Dragão. Sem que o Rei ou o Primeiro se mexessem, o Panteão permanecia imperturbável.
"Nito está ali," acrescentou Izalith, divertida. "Não disse uma palavra… e está evitando Agares ao máximo. Que constrangedor…"
As relações entre os Altos Demônios eram… estranhas.
Nunca pareciam verdadeiramente aliados… mais como uma coleção de monstros forçados a coexistir por poder e circunstância.
Mesmo assim, isso não mudava o fato de que aquela reunião reunia algumas das entidades mais terríveis já existentes neste mundo.
"Ver Agares aqui só confirma… a Noite dos Pesadelos trará algo de arrasar o mundo desta vez," murmurou Marvas, antecipando o momento em que o Primeiro chegaria e revelaria o motivo de chamá-los todos… e que tipo de notícia seria tão importante a ponto de reunir todos os Assentos Altos.
"Parece que ainda há tempo para isso," observou Izalith. "Duvido que Crimson apareça antes que todos os assentos estejam presentes."
"Acho que você tem razão."
"Enquanto isso," disse Izalith, com um sorriso astuto nos lábios, "por que não falamos um pouco sobre você, Senhor Marvas?"
Os olhos rubros do Quinto Assento se voltaram para ela, desconfiados.
"Ouvi dizer," ela prosseguiu, "que você ainda não superou sua fase de treinamento. Será que atingiu seu limite?"
A expressão de Marvas escureceu instantaneamente.
"Cuidado, Izalith. Gosto das nossas conversas — mas saiba até onde pode ir."
"Ah… me desculpe," ela disse de leve, percebendo o quanto aquele assunto o irritava.
Marvas — o mais antigo de todos os demônios — permanecia preso na mesma etapa há eras.
A Quinta Etapa da classe SSS.
A Maldição da Imortalidade.
Um reino misterioso que poucos alcançaram. Mas, uma vez dominado e ultrapassado, a recompensa era imensa: um corpo repleto de poder infinito e vida eterna. Uma carne que não envelhecia mais, uma forma preservada para sempre no auge, força que desafia a própria decadência.
A Quinta Etapa sempre foi o muro intransponível. Apenas Vain e Agares conseguiram ultrapassá-la até a Sexta. E Crimson… o Primeiro… rompeu a sétima.
Ninguém mais tinha ido além da Quinta.
Entre eles, Marvas foi o que mais permaneceu lá.
Wesker também estava na mesma etapa — mas a diferença entre eles era enorme.
O Quarto nem tentava de verdade; estava consumido por seus esquemas e planos distorcidos. No entanto, atingiu a mesma altura de Marvas, que dedicara toda sua existência ao combate e ao treinamento.
Por um momento, parecia que Marvas era mais forte que Wesker. Mas quem tivesse olhos atentos sabia a verdade:
se Wesker realmente tentasse de verdade… seu poder até eclipsaria o da irmã Vain.
"Pois bem, Senhor Marvas," ela continuou, com um tom sedoso, "a razão de eu estar mencionando isso — mesmo sabendo o quanto soa grosseiro — é que talvez eu tenha encontrado uma maneira de ajudar você a atravessar essa barreira."
Aquilo fez Marvas levantar uma sobrancelha.
"Ah? E qual truque você acha que descobriu?"
Um método para romper a barreira?
Ela alegava algo que ele buscava há séculos. A ideia o irritava, mas ele sabia que a Feiticeira de Sangue não falava sem motivo.
"O método," ela explicou com suavidade, "é desafiar a própria lei da vida e da morte. Quem entender essas leis… e aprender a comandá-las… nunca terá dificuldades para ultrapassar essa fase."
Marvas franziu a testa. "E como exatamente você espera que eu 'desafie vida e morte'? Nem mesmo o Rei manda completamente nessas leis."
"Isso é simples."
Izalith se inclinou, sussurrando perto do ouvido dele.
"Você não precisa fazer isso sozinho. Basta contar com alguém que já tenha… e, por acaso, temos justamente a criatura certa para isso."
Ao ouvir suas palavras, os olhos de Marvas se acenderam.
"Masquith…"
"Exatamente."
Izalith assentiu, satisfeita.
Masquith… uma entidade estranha de origem desconhecida, com quem Agaroth gostava de conversar. O Rei lhe concedera um lugar em Helmond, tornando-o um dos Duques do Inferno.
Masquith era excêntrico, o criador da Semente Demoníaca… uma experiência que desafiava as próprias leis da vida e da morte.
Com sua ajuda, Marvas poderia, de fato, conseguir romper a barreira. Essa era a possibilidade que Izalith insinuava.
"Não entendo," disse Marvas com cautela. "Por que me contar isso, sendo você serva de Wesker?"
Izalith riu suavemente.
"Independentemente de nossas diferenças, estamos do mesmo lado… não se esqueça disso. Tornar você mais forte nos beneficia a todos nas guerras que virão."
Ela sorriu, e então, com olhar malicioso, acrescentou:
"Além do mais… vai tornar tudo muito mais interessante assim."
Suas últimas palavras revelaram sua verdadeira intenção muito mais do que as primeiras.
A Feiticeira de Sangue era tão perversa quanto seu aluna… talvez até mais.
Wesker, atualmente, tinha todas as vantagens, especialmente após descobrir a verdade sobre Sem Nome e tecer sua teia entre os humanos em constante evolução.
Comparado a ele, Marvas parecia estar ficando para trás.
Por isso, ela decidiu dar um empurrãozinho nele… para manter o equilíbrio.
E parecia aproveitar cada segundo disso.