O Ponto de Vista do Vilão

Capítulo 642

O Ponto de Vista do Vilão

No coração do continente dos Ultras — no ápice de suas terras desoladas…

um homem solitário movia-se como uma sombra, passando sorrateiro por tudo que estivesse à sua frente.

Chovia, raro naquela terra árida, mas as gotas começaram a cair em uma enxurrada.

Enquanto os pingos frios escorriam por sua pele, Frey Starlight sentiu uma sensação ameaçadora se aproximando.

"Quão longe ainda?" ele chamou, com voz baixa, mas firme.

"Muito perto... só alguns quilômetros a oeste e você chega lá," respondeu Seris imediatamente.

"Entendido."

Ele acelerou o passo. Com os demais ainda bem longe, ele seria o primeiro a chegar ao local onde seus aliados haviam desaparecido. Na sua velocidade atual, cada segundo encurtava a distância.

"Cuidado, Frey. Há uma grande chance de que o que estiver esperando seja uma armadilha," advertiu Seris.

"Tudo bem. Eu dou conta."

A chuva intensificava a cada passo... e, com ela, a pressão maléfica que pesava no coração de Frey.

"Enviei as coordenadas também para Snow Lionheart, mas ele vai atrasar... encontrou alguns obstáculos. A força principal está se movendo na sua direção agora," continuou Seris, visivelmente tensa.

Frey permaneceu em silêncio.

"Cuidado, Frey… seja… cuidadoso…"

A voz dela começou a tremer, como se algo estivesse bloqueando o sinal.

"Seris? O que aconteceu? Você me ouve?"

"F…re…y…a—…re…fu—…"

O som entrava e saía, até desaparecer completamente.

O cristal ficou escuro. Frey o lançou de lado.

"Vamos ver o que me espera desta vez."

Ele bateu com o pé no chão, avançou, e o destino prometido veio ao seu encontro. Passo a passo, ele se aproximava — até que, com Seris sumida, apenas a chuva ritmada preenchia seus ouvidos.

Sua missão era simples: encontrar as equipes lideradas por Ellen White e Frost Monlight. Sessenta ou setenta pessoas ao todo... nem eram poucas, nem muitas.

Após uma corrida árdua, ele parou. No meio da desolação erguiam-se uma cadeia tortuosa de pedra e, aos seus pés, abria-se a entrada de uma vasta caverna.

Uma caverna. Se estivessem em qualquer outro lugar, estaria lá dentro.

Ele ativou sua aura, varrendo o chão à sua frente, procurando por algum inimigo. Nada. Nenhum vestígio. Mesmo estendendo seu alcance até o máximo, não sentiu ninguém.

Então, entrou.

Em segundos, a escuridão o engoliu.

Silêncio. Apenas a chuva ao seu lado, um sussurro distante.

À medida que avançava, seus olhos se ajustaram; com Olho de Falcão, a escuridão deu lugar a detalhes... e então ele enxergou o que não esperava.

A caverna era enorme. E estava cheia.

Cheia de corpos.

Alguns ele nem reconhecia. Outros eram inconfundíveis... rostos que tinha visto horas atrás, iluminados pelo brilho de uma fogueira, vozes que trocaram palavras fáceis com ele.

Eles estavam mutilados, assassinados com crueldade grotesca: membros cortados, torsos esmagados, traços rasurados. Sangue impregnava a pedra.

A expressão de Frey permaneceu impassível. A morte não o surpreendia mais. Ele seguiu em frente.

Mais adiante, o caminho terminou... e ele entendeu o que tinha acontecido com os desaparecidos.

À sua frente pendia um corpo familiar.

Ele fora esfaqueado até a morte, o rosto irreconhecível, desfigurado. Quem tivesse feito aquilo, fez com cuidado extremo.

Frost Monlight jazia ali, morto e destruído. Sua lança, a Rimeshard, havia sido retirada dele e usada para transpassá-lo — seu corpo exposto nela, como um aviso.

Ao lado dele, estava uma garota que ele conhecia bem, encostada na parede. Todos os seus membros haviam sido cortados. Os olhos haviam sido arrancados... rios secos de sangue tingiam suas bochechas — e sua garganta, destruída, silenciando sua voz para sempre.

Seu cabelo branco agora estava enegrecido, como lama, sangue escorrendo dele. Ela já estava morta há algum tempo.

Ellen White.

Frey ficou observando-os por um instante. Então, soltou uma risada baixa, pesada.

"Que coisa estranha," murmurou. "Que absurdo."

Você fala com alguém um dia... e, no dia seguinte, o encontra assim.

A morte estava mais perto do que qualquer um imaginava.

Enquanto permanecia diante dos corpos, uma voz surgiu das trevas atrás dele... uma que ele não tinha sentido até o último instante, seus instintos explodindo em aviso.

"Você está rindo, Frey Starlight. Isso é decepcionante. Pensei que tinha feito um ótimo trabalho aqui."

A voz era grossa, áspera.

Seu dono era alto, com ombros largos... quatro chifres curvando a partir de seu crânio.

Um sorriso distorcido cortava um rosto deformado; olhos ametista brilhavam com um olhar predatório sob uma capa de aura negra, com chamas.

"Zibar," sussurrou Frey, virando-se para encarar o demônio de frente.

"Foi você quem fez isso?"

"Você vê alguém mais aqui?" Zibar retrucou, rindo zombeteiramente.

"Vejo… então, é hora de você entrar na guerra," disse Frey, com voz fria, avançando com passos cautelosos.

Zibar balançou a cabeça. "Não 'nós', apenas eu. Desobedeci às ordens, como pode ver."

"Entendido," respondeu Frey, de forma seca, enquanto Zibar o observava com interesse.

"Hm… mais tranquilo do que imaginei. Diga, Frey Starlight... aqueles insetos inúteis eram seus camaradas?"

"Eram."

"Não sente nada pela maneira como morreram? Assim? Eles gritaram bastante quando brinquei com eles... especialmente aquela garota curtinha."

"A voz dela era tão irritante que tive que rasgar sua garganta para calar ela. Quanto ao rapaz ao lado... era corajoso no começo — mas, quando sua lança não conseguiu me riscar, desabou. Muito divertido, na verdade. Quase não segurei o riso... hahaha!"

Frey o interrompeu. "Chega de provocações. A vida deles não vale muita coisa. Foram para a guerra e morreram na batalha porque eram fracos. É só isso."

Zibar fez uma pausa, deu uma risada e, então, comentou. "Entendo. Talvez eu devesse ter mirado em outros — mais próximos de você. Mas não sou especialista nesse tipo de jogo. Essa é a área do Wesker."

"Chega de papo. Você veio para lutar, não é?" A paciência de Frey começava a se esgotar.

"Vim para te matar."

"Ótimo. Então, vamos trocar de lugar... não quero lutar aqui."

"Lá dentro, lá fora... tanto faz. O fim será o mesmo. Mas faça do seu jeito, hee-hee... vá em frente, Frey Starlight."

Zibar seguiu enquanto Frey se virava e saía da caverna. O demônio caminhou atrás dele, divertido, enquanto Frey cerrava os punhos para manter o equilíbrio.

Mesmo com toda a calma, seu coração batia forte no peito. Como não poderia, quando o oponente era Zibar... demônio de décimo-ranking...

uma besta que carregava uma das habilidades de Agaroth?

Com um olhar de lado, Frey o avaliou. Antes não tinha sentido Zibar, mas agora, que o demônio se revelara, sua aura tinha um peso inconfundível... ainda que mais fraca do que na primeira vez, no início da guerra.

Comparando o que sentia com o que sabia dos Demônios Arqutepes, Frey concluiu que aquilo talvez fosse cerca de cinquenta a sessenta por cento do poder do corpo principal.

Meio-poder ou não, metade ainda era aterrorizante... muito além de Joseph Blattier.

"Não pense demais, Frey Starlight," disse Zibar, claramente saboreando os cálculos de Frey. "Pensar não vai te ajudar."

Eles entraram na área aberta. A chuva castigava a planície árida enquanto se encaravam.

"Lute com tudo o que tiver," disse Zibar, cruzando os braços. "Mostre tudo. Tente chegar até o fim... e me mostre do que realmente é capaz. Se não fizer isso, vou ficar decepcionado."

Frey sacou Balerion e Dark Sister.

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