
Capítulo 606
O Ponto de Vista do Vilão
Num passado distante…
A raça dos Portadores da Luz há muito tempo foi um farol que guiou as demais raças através das eras. Sempre que a escuridão se ampliava, seu farol cortava um caminho por ela. De todas as guerras gravadas na história, nenhuma foi mais implacável do que o confronto eterno entre Portadores da Luz e demônios—duas naturezas nascidas para se opor. Para seres como esses, a guerra era inevitável.
Os Portadores da Luz tinham como força de elite as Embarcações, enquanto do lado dos demônios, o Ducado do Inferno era o principal—nomes como Gael, o Pai do Abismo, ou Manus, o Primeiro Demônio. Os seres do Ducado eram terríveis, e suas atrocidades incontáveis.
Mesmo assim, os Portadores da Luz e as raças aliadas conseguiam até agora mantê-los à distância; campeões surgiam de ambos os lados, e o equilíbrio permanecia—sem vantagem duradoura para nenhum dos lados.
Esse equilíbrio foi destruído quando o impensável aconteceu—quando um fenômeno mudou tudo.
Em Duskreach, o berço dos Portadores da Luz, uma magnífica cidadela pairava acima das nuvens—uma maravilha de arquitetura que desafiava a crença. Lá, em um trono, um velho traçava linhas sobre uma pilha de relatórios que chegavam um após o outro. Diante dele, dois homens cuja simples presença liberava uma pressão aterradora, uma aura capaz de abalar o tempo e o espaço.
O velho permanecia imóvel diante de seu poder; toda sua atenção estava fixada nas páginas que segurava.
"Então, os demônios, uma raça dispersa por natureza, finalmente se uniram sob um rei?" ele disse, franzindo a testa, e jogou um relatório de lado. "É tão absurdo que chega a ser quase risível."
Seus olhos brilharam com um violeta profundo enquanto finalmente olhava para os homens. Esse era o mais antigo entre os Portadores da Luz, uma entidade que vivia há milênios e fora coroada para liderar seu povo—
O Rei Luminoso, um dos maiores Portadores da Luz na história registrada.
"Quão confiáveis são essas notícias malditas que você me traz?" ele perguntou. Um dos dois respondeu:
"Quase certo. Um Demônio estranho, diferente de tudo que já vimos, conseguiu conquistar sozinho o Ducado do Inferno, declarou-se Rei dos Demônios e formou uma nova ordem chamada Organização dos Sessenta e Dois Grandes Demônios."
Demônios sempre foram fragmentados—unidade ia contra sua própria natureza. Pela primeira vez desde o começo da história, um único ente quebrou essa regra e uniu toda a raça vil sob uma única bandeira. E, se os demônios talvez fossem a raça mais poderosa de todas, sua unificação era uma verdadeira catástrofe.
"Esse rei que vocês chamam—quão forte ele é?" o Rei Luminoso perguntou, com curiosidade marcada por determinação. Um silêncio pesado se instaurou entre as Embarcações. Elas eram as mais fortes a serviço dele, e já haviam entrado em combate com esse novo rei; suas próprias ações tinham mostrado o que ele era capaz de fazer.
A resposta veio carregada de gravidade.
"Se eu tivesse que resumir em uma palavra—catástrofe. Um monstro bruto que não pode ser deixado vivo, custe o que custar," disse o primeiro.
"Lutei contra demônios por milhares de anos," acrescentou o segundo, "mas nunca vi um assustar nossas tropas assim. Mesmo quando tentamos pará-lo, sobreviver a ele—essa foi a melhor coisa que conseguimos."
Cada palavra reforçava a seriedade do Rei Luminoso. Um demônio estranho cujo poder aumentava à medida que a batalha avançava; um inimigo que até as maiores Embarcações não conseguiam deter—sua fuga com a vida era seu maior feito. Um Rei Demônio que surgiu do nada e conquistou Helmund em questão de tempo, pondo-o sob seu calcanhar…
Todos os sinais de uma catástrofe pairavam sobre eles—uma escalada cujo alcance ainda não podiam compreender totalmente.
"Meu rei, peço-lhe—reúna todas as Embarcações e elimine esse monstro, antes que ele cresça ainda mais em poder," suplicou uma delas—a Embarcação Manifesto, a principal entre os cavaleiros na época. Ele tinha uma visão mais ampla; um único confronto tinha convencido-o de que o rei precisava ser morto antes que se tornasse algo incompreensível para qualquer um deles.
Ao ouvir, o Rei Luminoso recostou-se em seu trono, pensando profundamente.
"Esse rei… qual é o nome dele?" finalmente perguntou. A resposta veio de uma só vez:
"Rei Demônio—Agaroth."
"Agaroth, é…." O Rei Luminoso exalou. "Se ao menos aquela maldita Embarcação Lendária não tivesse nos abandonado… poderíamos ter acabado com esse monstro antes que ele se formasse."
Só a lembrança daquela mulher egoísta parecia tirar sua paciência. Ela fora sua esperança mais brilhante—mas fugira, recusando-se a obedecer ao Rei Luminoso, afirmando que faria somente o que quisesse.
Pior ainda, ela nem se preocupou em esconder-se. Quando ele tentou trazê-la de volta à força, ela o destruíu e seus fiéis mais fortes, tornando-se uma força incontrolável. Foram obrigados a deixá-la seguir seu caminho, para que ela não se virasse contra eles.
A Embarcação Lendária era seu maior arrependimento—uma mancha em seus registros.
Mas, recentemente, uma nova Embarcação nasceu—mais pura do que todas as anteriores, uma centelha que reacenderia a esperança do Rei Luminoso de reparar seus erros do passado.
"Quais são as notícias da Embarcação Pura?"
O velho rei perguntou a seus seguidores, esperando uma esperança em meio a tantos relatórios sombrios.
Ao ouvir "Pura", os olhos dos cavaleiros brilharam instintivamente.
"Ele é fenomenal. A Embarcação Pura dominou tudo que tentamos ensiná-lo—na primeira tentativa, por sinal. Ainda está treinando em Fellwyn, e pretendemos integrá-lo à ordem assim que alcançar seu potencial máximo."
"Excelente," o rei assentiu, satisfeito.
"Garanta que ele esteja preparado antes de nossa próxima batalha contra o Rei Demônio. A Embarcação Pura pode se tornar nossa maior arma nesta guerra."
Talvez o nascimento de Pura fosse uma tentativa de equilibrar a ascensão daquele chamado Rei Demônio—como se a própria natureza tivesse oferecido um presente para manter as coisas em equilíbrio.
Agaroth ainda estava no início de seu reinado, e o mundo ainda não compreendia a extensão da catástrofe que se aproximava. O Rei Luminoso atendeu ao conselho de seus seguidores; os Portadores da Luz começaram preparativos imediatos, determinados a usar as estrelas e destruí-lo antes que ele se firmasse.
Rumos sobre Agaroth proliferaram. Batalha após batalha sem parar—e cada combate o tornava mais forte. Um monstro verdadeiro, uma entidade vil que escavou sua ascensão a uma velocidade que desafiava o senso comum.
Tudo aquilo corroía o Rei Luminoso, um antigo que conhecia os segredos enterrados nos registros mais antigos.
"Uma besta que cresce a cada batalha… uma calamidade que ninguém conseguiu vencer…"
A ideia soava de mau presságio—como algo de uma era amaldita que ele tentava não lembrar. Só de pensar nisso, ele já tinha dificuldade para dormir.
"Pelo luz… estamos à beira de uma nova Odin?"
Um pressentimento frio se enraizou. Ainda mais motivos para destruir esse novo rei imediatamente—e grande parte dessa esperança dependia do "vaso perfeito" que o destino lhes havia dado.
Ele não podia imaginar que, assim como a Embarcação Lendária antes dele, a Embarcação Pura estava prestes a tentar o proibido—uma fuga de Fellwyn que apenas aprofundaria as tempestades vindouras.