
Capítulo 605
O Ponto de Vista do Vilão
As mesmas palavras vazias—palavras que sempre soaram como uma zombaria. Mas naquela noite, seu eco foi diferente, e o Pote Quebrado, sangrando no chão, finalmente entendeu o que estava por trás delas.
O Puro Vaso tinha ficado sozinho por maior parte da vida. Era tratado como uma relíquia nobre, mantido à distância dos colegas, a ponto de nunca ter aprendido a se expressar adequadamente.
"Você está bem?"
Não era zombaria, nem uma frase vazia. Carregava peso.
Era o Puro, preocupado que seu único amigo pudesse não conseguir mais acompanhá-lo.
Como se estivesse perguntando: "Você consegue seguir em frente? Ainda consegue correr comigo? Ainda está aí?"
Sim—O Puro se importava. A presença do Quebrado importava na sua vida. Isso era o que o Quebrado não tinha visto.
"Assim como eu continuava levantando a cabeça para o céu, perseguindo suas costas... você continuava virando a cabeça, olhando para o abismo atrás de você—procurando por mim."
No começo—ao subir aquela longa escadaria de poder—sempre que o Quebrado levantava o olhar, via as costas do seu amigo. E o Puro, olhando por cima do ombro, o encontrava bem perto dele.
Mas, eventualmente, à medida que a distância aumentava, eles não podiam mais se enxergar—e por isso o Puro continuava fazendo aquela pergunta, que o Quebrado interpretava como um insulto. Ele pensava que o Puro estava zombando dele e de toda sua luta.
Na verdade, o Puro tinha valorizado-o—e o reconhecido como amigo—há muito tempo.
Ao perceber tudo isso, o Quebrado baixou o braço sobre o rosto, com uma expressão amarga.
"Droga... você é péssimo em se expressar, seu filho da p*ta. Como é que algo que as pessoas chamam de 'perfeito' pode ser tão ruim nisso? Não faz sentido—ha... ha..." Ele soltou uma risada seca, e o Puro Vaso respondeu com um sorriso gentil.
"Eu não sou perfeito... Sou bem mais quebrado do que você."
Desde o princípio, o Puro Vaso foi criado em uma forja brutal, destinada a transformá-lo em uma arma de guerra. Carregava as esperanças de toda uma raça. Sim, era monstruosamente forte—mas em todos os outros aspectos da vida, era mais incompleto do que qualquer um.
"Sua existência realmente me salvou, Quebrado... então não ouse se afundar naquele abismo imundo."
Lá naquela instalação fria de Fellwyn—o poço que os Vasos viam como um abismo que engolia seus sonhos—o Puro fez esse pedido ao seu amigo. O Quebrado explodiu numa risada.
"Isso não é justo, Puro... me pedir uma coisa dessas."
O que o Puro queria era que ele continuasse perseguindo, tentando igualar-se a ele. E, para isso, o Quebrado teria que trabalhar muitas vezes mais do que já trabalhou, se quisesse alcançar a sombra daquele monstro de potencial assustador.
Forçando-se a ficar de pé, o Quebrado levantou novamente, banhado de sangue, e olhou para cima, onde o Puro estava sentado.
"Me assista, Puro. Eu não vou apenas sair desse abismo—vou te superar e voar mais longe do que você jamais irá. Sou o Pote Quebrado em que ninguém espera nada!"
Ele gritou... e depois caiu de joelhos novamente.
O Puro apenas assentiu, com aquele sorriso calmo e nobre de sempre. O sorriso que sempre havia irritado o Quebrado—mas que, de alguma forma, hoje, não fazia mais.
O Puro Vaso era a garrafa que carregava as esperanças de toda uma raça.
O Quebrado era o vaso que carregava as esperanças do Puro.
De maneira estranha, o peso das expectativas de uma pessoa era mais pesado do que o da Luz dos demais.
E assim, os dias passaram, um após o outro, e os dois continuaram avançando—juntos. Os treinos se tornaram infernais, mas o Quebrado resistiu até o fim, perseguindo a sombra daquele amigo extraordinário.
Então, um dia, enquanto estavam encostados em uma parede, o Quebrado teve uma ideia ousada.
"Escuta, Puro… que tal fugirmos daqui?"
Disse do nada—até o Puro ficou surpreso.
"Fugir?"
Pure nunca tinha cogitado algo assim na vida. Escapar do abismo de Fellwyn—será que isso era mesmo possível?
"Como vamos escapar? E pra onde vamos?"
Soou completamente irreal, mas o Quebrado tinha chegado ao seu limite.
"Não aguento mais ficar nesse lugar maldito, meu amigo. A escuridão desse abismo ficou pesada demais pra mim."
Fellwyn—o abismo que forjou os vasos mais ferozes—era um lugar amaldiçoado onde, por mais que a luz brilhasse, a escuridão a devorava. Os Vasos viviam suas vidas na escuridão total, incapazes até de ver os rostos uns dos outros. Seja Pure ou Quebrado, nenhum deles conhecia as feições do outro; na escuridão, eram apenas duas chamas de luz vagando, procurando seu caminho.
"Me diga, Puro—você já ouviu falar da Taça Lendária?" perguntou o Quebrado. Pure, confuso, respondeu:
"Taça Lendária?"
Ele não reconhecia o título—passara a maior parte da vida em isolamento—mas o Quebrado era diferente.
"A Taça Lendária era uma mulher notável. Dizem que a sua nascimento causou um tumulto semelhante ao seu, Puro. Muitos a chamam de a vasca mais forte da história. Pessoas depositaram nela esperanças e expectativas sem fim—mas você sabe o que ela fez? Jogou tudo no lixo e decidiu fazer o que quis. Acredita nisso?"
"Ela foi a única que ousou tentar escapar de Fellwyn—o lugar considerado inescapável—e conseguiu. Eliminar quem estivesse no seu caminho e saiu dessa escuridão rumo ao mundo real. Ela está lá fora agora, fazendo o que bem entende—tanto que até abandonou o nome que o Sol lhe deu, escolhendo um por ela."
No profundo das sombras de Fellwyn, havia uma Vaso que não apenas fugiu, mas rebelou-se contra tudo—até contra seu próprio nome. Ela desafiou o próprio Sol, a presença maior.
Ao ouvir essa história impossível, o coração do Puro bateu forte, como se algo estranho reverberasse lá dentro. Ele foi tocado de uma forma que não esperava.
"Essa mulher… qual é o nome dela?"
Pure queria muito ouvir o nome que ela escolheu—uma prova de que tinha conquistado sua liberdade e quebrado suas correntes.
O Quebrado apenas balançou a cabeça.
"Não sei. Falar o nome dela aqui é proibido. Tudo o que podemos chamar é de Taça Lendária—a única que conseguiu o que acreditávamos ser impossível."
Se levantando, o Quebrado estendeu a mão para o Puro.
"Vamos sair daqui e encontrá-la juntos, Puro. Depois, podemos perguntar qual é o nome dela pessoalmente!"
"Somos fortes—passamos nossa vida treinando nesse lugar amaldiçoado. Vamos quebrar nossas correntes e entrar no mundo, meu amigo!"
Ele convidou o Puro—e, para o Puro, aquelas palavras despertaram um desejo que estava enterrado há muito tempo.
Liberdade.
De estar livre das correntes das expectativas que outros lhe colocaram—e fazer apenas o que ele quisesse.
Era um egoísmo puro—egoísmo que começou a se espalhar pelo Puro Vaso, inflamado pelo amigo, o Pote Quebrado. Esse tipo de egoísmo encheu o Puro de uma alegria silenciosa. Ele segurou a mão do amigo.
"Vamos fazer isso."
Juntos, partiram para tentar conquistar o que a Taça Lendária havia conseguido—uma empreitada que exigia fazer o impossível possível.
Foi o ponto de virada que mais do que qualquer coisa moldaria o Puro Vaso que o mundo passaria a conhecer.