O Ponto de Vista do Vilão

Capítulo 610

O Ponto de Vista do Vilão

No Vale do Fim, por um tempo, três dos mais poderosos Portadores da Luz fizeram daquele lugar seu lar.

Três Vasos que abandonaram seus nomes de batismo e decidiram viver de acordo com suas próprias regras, deixando para trás os pesos que lhes tinham sido impostos.

O Vaso Lendário—Audrey, como se autodenominava—era a estrela-guia tanto para Snow quanto para Orsted: uma mulher que fazia o que bem entendia e tinha força suficiente para tornar isso possível. Aos olhos deles, ela era deslumbrante.

Por bastante tempo, Snow e Orsted a seguiam por onde ela fosse, implorando para que aceitasse torná-los seus discípulos, e toda vez ela rejeitava... depois de ter os espancado até ficarem roxos. Parecia dura, mas essa não era a verdade. Ela os deixava permanecer no Vale do Fim, protegendo-os dos Portadores da Luz que os caçavam.

Ela não os ensinava, mas os três passavam horas incontáveis juntos—caçando, comendo, conversando sobre o mundo e suas eras. Audrey, especialmente, tinha um conhecimento profundo. Ela contava a eles sobre os Grandes – os moldadores da história, a lenda de Odin, e a primeira aparição de demônios e Portadores da Luz.

Audrey era um enigma, e a princípio Snow e Orsted não conseguiam entender o que ela buscava. De vez em quando, ela saía do Vale por longos períodos e voltava do nada.

Durante esses períodos, Snow e Orsted treinavam dia e noite, tentando ficar fortes o suficiente para chegar ao nível dela.

Ela nunca interferia, apenas observava de longe... seu olhar se concentrava especialmente em Snow. O Vaso Puro vivia à altura de todos os rumores: um talento monstruoso que ela só tinha visto uma vez na vida. O portador da Alma da Luz... a força mais destrutiva que um Portador da Luz poderia manejar. Se ele amadurecesse corretamente, Audrey sabia que ele a alcançaria... e talvez até a superaria.

Ele implorava repetidamente para que ela fosse sua professora, mas ela recusava a cada vez; tinha seus próprios planos e não tinha tempo a perder com Snow.

Eles não sabiam qual era o objetivo dela... até que um dia, durante uma de suas ausências, eles se aproximaram do lugar onde ela passava a maior parte do tempo, buscando desvendar seu segredo.

O que encontraram os chocou: pilhas de mapas e registros espalhados por toda parte—anotações sobre cada canto do vasto cosmos e todas as raças que nele habitavam. Esses registros não poderiam ter sido coletados da noite para o dia; Audrey claramente dedicou anos para reuni-los.

Não era difícil entender por quê. Suas anotações eram esclarecedoras: Audrey procurava por algo—ou melhor, alguém.

Ela confirmou isso posteriormente, quando os três se aproximaram mais dela. Ela não dizia muita coisa, apenas que ele era importante para ela—mais importante que qualquer coisa. A maneira como ela falava parecia indicar amor. Ela dizia que ele existia lá fora, em algum lugar do universo infinito, e ela tinha certeza disso.

Então ela continuava buscando. Quão fortes esses sentimentos devem ser, para gastar uma vida inteira vasculhando o cosmos por uma única pessoa?

Seu objetivo parecia impossível. O mundo era vastíssimo demais para ser medido. Mas nem Snow nem Orsted tinham coragem de menosprezar isso. Para eles, ela era sua inspiração—e sua salvadora. Graças a ela, escaparam dos Portadores da Luz e dos comandantes dos Vasos. Isso, por si só, já era suficiente.

E para Audrey, os dois eram os únicos companheiros que ela havia realmente escolhido como Portadora da Luz.

Com o tempo, os três passaram a tratar uns aos outros como família, e Snow e Orsted se tornaram muito mais fortes.

Tudo parecia como deveria ser. Talvez esses fossem os dias mais felizes na vida do Vaso Puro... os dias em que viveu sob o nome Snow.

Dois anos se passaram assim, tempo suficiente para Snow e Orsted acreditarem que sua liberdade conquistada e seus dias tranquilos durariam para sempre. Mas numa noite sombria, sem estrelas, a vida mostrou que nenhuma alegria dura para sempre.

Em um vale que abrigava apenas três almas, apareceu uma quarta.

Uma presença maléfica—uma calamidade que surgiu do nada.

Audiery estava ausente naquele dia. Restaram apenas Snow e Orsted, treinando como sempre. Eles não o perceberam até o último instante—até que ele se posicionou bem diante deles.

Um olhar nos olhos vermelhos, e ambos compreenderam: a desgraça havia chegado.

"Que surpresa," a voz do demônio ressoou em seus ouvidos. "Nunca imaginei que os Vasos fossem tão descuidados a ponto de deixar o portador da Alma da Luz vagando sozinho... sem escolta, como se me odiassem e desejassem que eu mesmo fosse até lá matar ele."

Eles se prepararam para lutar.

"Quem é você?" Snow gritou, colocando toda sua força nos músculos sob a pressão do invasor.

De início, a figura vestia um manto negro comprido. Um instante depois, o manto se rasgou, revelando uma armadura rubra—e uma arma estranha que parecia uma espada num momento, e uma lança no seguinte.

O demônio que, na época, ocupava o quinto assento entre os Demônios Anciões—a Lua Vermelha, Crimson.

"Os Portadores da Luz só me deram tédio."

"Quanto a você, Vaso Puro—aquele de quem todos falam—espero que consiga fazer um show melhor."

Crimson, a Lua Vermelha—um demônio condenado que surgia ao lado do Rei Demônio, Agaroth.

Um monstro colossal com potencial aterrador, ele subiu na hierarquia dos Setenta e Dois Demônios Anciões mais rápido que qualquer outro.

Uma catástrofe ambulante, e a batalha virou um pesadelo acordado.

Dizem que o riso de Crimson ecoava por quilômetros, e cada confronto entre sua enorme lança, a Matadora de Reis, e a espada de Snow provocava desastres naturais que remodelavam o Vale do Fim.

Orsted apoiou seu amigo, mas mesmo juntos estavam completamente sobrepujados. A luta era desigual.

À medida que o combate brutal avançava, Snow e Orsted recebiam ferimentos gravíssimos; a morte se aproximava... especialmente Orsted, bem mais fraco que Snow. A desesperança os levava de volta às suas origens, enquanto Snow tentava extrair mais força da Alma da Luz que carregava.

Ele conseguiu uma luta digna—feriu Crimson até—mas a diferença de poder bruto era demasiada.

O inevitável aconteceu. Snow mal podia se proteger, quanto mais salvar Orsted.

Num instante escuro, completamente negro... que fez os olhos de Snow se abriram de medo, enquanto o riso de Crimson retumbava pelo vale—Snow viu aquela lança terrível, a Matadora de Reis, atravessar o peito de Orsted. Seu único amigo... aquele que sempre esteve ao seu lado.

O golpe foi fatal, carregado de uma aura que destruía tudo que era vivo. Orsted morreu em segundos, sem conseguir dizer uma palavra. O sangue de Portador da Luz escorreu pela lança e se espalhou por Crimson, que nele se banhou.

" Tic-tac, tic-tac, Orsted tá conta-gotas! E você, Vaso Puro, parece que só fala!"

O deboche de Crimson e a morte de Orsted romperam algo dentro de Snow. Com um uivo de dor e raiva, ele se lançou novamente contra Crimson, lutando com tudo o que tinha.

Foi uma luta amarga—uma guerra de resistência desesperada.

A Luz se chocou com a sombra de Crimson, que se aprofundou num tom vermelho escuro. Auras subiam ao céu e colidiam como uma enxurrada.

Milagrosamente, o Vaso Puro conseguiu extrair um poder além de seu limite... mas o resultado não mudou.

Derrotado e ensanguentado, Snow ficou inconsciente. Crimson o levantou pela garganta com uma mão. O demônio tinha sofrido alguns golpes, mas sua estranha armadura rubra tinha engolido a maior parte do que Snow lhe lançou, deixando-o em condição bem melhor. Snow, por outro lado, era uma ruína.

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