
Capítulo 613
O Ponto de Vista do Vilão
Na véspera da batalha mais decisiva na história dos Portadores da Luz e dos demônios, o Vaso Puro visitou Audrey no Vale do Fim.
Já haviam se passado muitos anos desde o último encontro deles, mas eram seres que viviam por muito tempo; o passar dos anos pouco deixava marcas neles. Sua conversa fluía com a naturalidade de quem passou apenas alguns dias ao lado de Orsted, que há muito os tinha abandonado.
Aquele dia, o grande Vaso Puro revelou sua fraqueza para a única pessoa com quem conseguiu se abrir de coração aberto.
"Tenho a sensação de que o próprio destino está me conduzindo para aquela batalha… Acho que não vou sair vencedor lá, Audrey. Nessa guerra—nesse confronto—você vai me ajudar?"
Ao pedir sua ajuda—Audrey provavelmente era a única pessoa a quem o Vaso Puro se sentia à vontade para confiar. Talvez fosse uma das fissuras que se formaram após anos fingindo perfeição diante dos Portadores da Luz e dos outros Vasos.
Audrey já foi chamada de Vaso Lendária, e não seria errado dizer que, junto com o Vaso Puro, ela estava entre os Portadores da Luz mais fortes da história.
Ela era a única a quem o Vaso Puro podia recorrer para pedir ajuda; ele sentia que, se lutassem juntos, tudo poderia ser possível. Naqueles breves momentos, ele parecia mais com a Snow que conhecia do que com o grande Vaso Puro reverenciado pelo mundo.
Audrey não respondeu de imediato. Ela ficou em silêncio, perdida em seus pensamentos.
O Rei Demônio, Agaroth.
Ela nunca tivera confronto direto com ele, e sabia pouco de sua verdadeira força, mas os rumores e histórias sobre ele eram aterrorizantes. Sem dúvida, era uma entidade terrível que ostentava o auge do poder. Da mesma forma, o atual Vaso Puro era o ápice do que sua espécie podia alcançar—bastante forte para ter eliminado o então Segundo Lugar entre os demônios com facilidade.
Apesar de sua força, veio pedir ajuda, confessando sua inquietação diante da batalha fatídica que se aproximava.
Naquele momento passageiro no Vale do Fim, Audrey puxou algo de dentro de suas vestes.
Era a primeira vez que o Vaso Puro via o objeto frágil que ela escondia e cuidava há tantos anos: um medalhão de ouro envelhecido, desgastado e marcado por arranhões e rachaduras. Em sua superfície esburacada, uma inscrição simples estava gravada:
"Minha Família… Meu Tudo."
Ela abriu o medalhão e olhou para o que havia lá dentro.
Uma foto rasgada, como se fosse tirada há muitas—muitas—eras.
Nela estavam três pessoas: um homem mais velho, um jovem sorridente e, ao lado dele, uma garota sentada numa cadeira de madeira, usando o mesmo sorriso radiante.
Aquela única imagem significava o mundo para Audrey; era seu único laço com as memórias distantes que a impulsionaram durante todo esse tempo.
O Vaso Puro observava-a em silêncio.
Seus sentidos eram sobre-humanos; mesmo enquanto Audrey tentava esconder, ele conseguia enxergar claramente a fotografia. Os rostos eram indistintos, mas nenhum deles era Portador da Luz. Mesmo assim, Audrey, de pé diante dele, se parecia incrivelmente com a garota da foto—o que, claro, era estranho.
Ele quase falou, mas parou, um sorriso tenue tocando seus lábios.
Uma olhada no rosto de Audrey lhe dizia qual seria sua resposta.
"Parece que você já tomou sua decisão," disse o Vaso Puro.
"Sinto muito," ela respondeu, com um olhar dolorido cruzando seu rosto.
Ele não achou necessidade de pedir desculpas.
Ela lhe importava—disso ele não tinha dúvida—mas a pessoa que ela buscava tinha ainda mais valor. Ela finalmente tinha encontrado um fio que poderia levá-la até ele; não ia deixar essa chance escapar.
O Vaso Puro compreendeu. Mesmo de cabeça baixa, não guardava ressentimentos.
Sabendo que a batalha que se aproximava poderia ser sua última, ele passou aquela noite conversando com Audrey—sua única amiga ao lado de Orsted. Por simples curiosidade, perguntou que tipo de pessoa era aquele homem pelo qual ela tinha passado tanto tempo viajando pelo cosmos para encontrá-lo.
Ela respondeu de forma vaga, mas disse que ele era alguém muito importante—não só para ela, mas para muitas outras pessoas também.
Quando ela falava dele, Audrey se transformava—fixa, distante de seu jeito frio habitual.
O Vaso Puro realmente desejava um dia poder conhecê-lo. Mas, lá no fundo, ele sabia que provavelmente nunca aconteceria.
E assim, continuaram conversando até que o sol despontasse com sua luz pálida no céu e outro dia começasse.
Audrey partiu em sua última jornada, decidida a encontrar aquela pessoa de uma vez por todas, para acabar com aquela busca longa e exaustiva.
Quanto ao Vaso Puro, colocou-se a caminhar em direção à batalha fatal que o aguardava.
Eles se separaram novamente, como se nunca tivessem se encontrado.
Depois veio a grande guerra que a história registraria como a Guerra da Cisão.
Um confronto decisivo entre os demônios e uma coalizão de muitas raças, foi a primeira vez que quatro das Sete Grandes Potências lutaram lado a lado.
Estava o Vaso Puro, classificado como o mais forte deles naquela ocasião;
o Rei dos Ghoul, que empunhava um estranho escudo de ouro que lhe concedia força tremenda;
com eles, Kalman, o Primeiro, considerado o maior espadachim do mundo;
e Rhaenys, a feiticeira mais poderosa de todas, célebre por sua presença avassaladora no campo de batalha.
Cada um carregando o poder completo de seu povo—os Portadores da Luz e sua energia que enfrentava os demônios, e a própria Alma de Luz do Vaso Puro em destaque.
Com Lucarianos—que dominavam magia superior e feitiços de destruição em massa—os Ghoul, com seu vigor físico avassalador e regeneração assustadora—e a raça híbrida de Kalman, incomparável em combate corpo a corpo e com artes de espada temíveis…
Todos eles se colocaram frente a Agaroth, o Rei Demônio; seus Dez Assentos Elevados; e o Ducado do Inferno que marchava ao seu lado.
Por um momento, a vantagem parecia totalmente com as raças aliadas: quatro Potências Grandes presentes, e seus exércitos eram aterrorizantes—suficientes para acabar com qualquer civilização, não importando sua força.
Porém, a realidade não era nada como todos imaginavam. Naquela guerra, o mundo conheceu o verdadeiro horror dos demônios—especialmente os Dez Assentos que Agaroth próprio forjou.
A batalha virou um inferno vivo, um pesadelo tornado real.
Cada uma das Sete Grandes Potências lutou bravamente com tudo o que tinha; seus povos não hesitaram. Mas, naquele campo de batalha... travado na superfície de um planeta morto... o que os aguardava era só desespero.
Primeiro resistiram, mas à medida que as Potências caíam uma a uma, o equilíbrio se virou cruelmente em favor dos demônios.