
Capítulo 590
O Ponto de Vista do Vilão
No entanto, apesar do sofrimento, Snow não hesitou. Ele absorveu tudo — por Frey.
Tremendo, ele cambaleou de volta à posição de pé, exibindo um sorriso vazio, manchado de sangue e dor. Um sorriso que mal conseguia esconder a ferida dentro dele.
“Estamos morrendo, Frey… Desculpe, mas acho que não há saída para isso. Hahaha...” Snow riu fracamente, levantando Frey mais uma vez, forçando seu corpo a se mover, dando passos vazios enquanto voltava a usar a Técnica do Vácuo na direção do horizonte.
“Não adianta. Não podemos sair da ilha,” disse Frey com um sorriso cansado, quase zombeteiro, indiferente à dor que o dilacerava por dentro.
Ele tinha razão. Mesmo que Snow usasse a Técnica do Vácuo até os extremos, encontraria apenas a borda da ilha. Fugir era impossível.
“Eu sei... mas prefiro tentar do que ficar aqui esperando a morte,” respondeu Snow, carregando Frey às costas. Mas a aura opressiva que sentia atrás dele deixou claro — correr nunca seria suficiente.
“Talvez tivéssemos chances de sobreviver se o Dawn estivesse aqui... Com o poder de Sobrevivente dele, nem Blattier conseguiria matá-lo,” sussurrou Frey, fraco, a partir dos ombros de Snow, referindo-se ao companheiro que haviam deixado para trás.
“Hahaha... Sim. Seria ótimo,” concordou Snow, forçando-se a continuar avançando.
Porém, finalmente, seu corpo sucumbiu. Ele não conseguiu mais seguir em frente. Sabia que Blattier estava logo atrás dele.
Snow parou por um instante. Então, um sorriso suave se espalhou pelo seu rosto.
“Desculpe, Frey... e obrigado por tudo. Foi uma honra lutar ao seu lado — até o último instante,” disse, sussurrando essas palavras no ouvido de Frey.
E, no instante seguinte, ambos tiveram seus olhos escurecidos — quando a lança de Blattier os impalou brutalmente, fazendo sangue jorrar em torrentes.
A lança atravessou as costas de Snow, rasgando tudo pelo caminho, perfurando também Frey.
Blattier levantou lentamente sua lança e, com ela, os dois corpos se ergueram, impalados e indefesos.
“Este é o fim.”
Sem mais truques. Sem mais surpresas.
“Apenas a morte.”
Com um movimento ágil, ele lançou-os de lado, deixando buracos ensanguentados e abertos em seus peitos.
E assim terminou de forma tão simples. Frey e Snow derrotados, sem forças diante do grande sacerdote que saiu vitorioso.
Blattier tinha vencido. E seu grande triunfo… era apenas o começo.
O amanhecer de uma nova era. O nascimento de uma nova Igreja. E não poderia haver início melhor.
Naqueles momentos fugazes de vitória, Blattier se viu virando — sem entender o porquê — em direção à árvore de ouro.
Ela brilhava mais intensa do que nunca, como uma lanterna divina iluminando o céu.
A luz dela engoliu toda a ilha, incluindo Blattier, que permaneceu parado, imóvel sob seu brilho fulgurante.
…
…
…
Longe do campo de batalha, nos minutos finais da perseguição implacável de Blattier a Snow e Frey…
Uma garota vinha observando.
Uriel Platini.
Seu corpo estava torcido, marcado por símbolos de sangue e cicatrizes perforadas deixadas por tubos. Manquejando, apoiando-se na parede para não cair, ela se arrastava lentamente, tentando alcançar um lugar onde pudesse ver a batalha com seus próprios olhos.
Uriel — normalmente tão alegre — agora exibia uma face torcida pela exaustão, dor e desespero.
Com o peso da culpa e do remorso esmagando-a, ela havia rasgado seu próprio rosto bonito com as unhas sem perceber, deixando uma expressão sangue, lamentável.
O pensamento de acabar com sua própria vida tinha atormentado ela nos últimos minutos. Contudo, ela não conseguia fazê-lo — ainda não.
Não quando Frey e Snow haviam sofrido por sua causa. Não quando ela carregava a responsabilidade pelo poder monstruoso que o alto sacerdote agora usava.
Indiretamente, Uriel tinha matado milhões. Ela ajudara a gerar essa catástrofe que ameaçava destruí-los a todos.
“Eles vão morrer por minha causa…”— sussurrou, de pé na beirada desmoronada da grande cidadela onde a Árvore do Mundo ainda se erguia imponente.
Daquele ponto, ela pôde ver a batalha se desenrolando ao longe. Mas chamá-la de “batalha” era um exagero—Frey e Snow pouco podiam fazer além de fugir desesperados, enquanto Blattier os caçava como presa.
Observando de longe, Uriel sentiu seu coração partido afundar ainda mais na escuridão.
Ela sempre se perguntara — por que Frey lutou com tanta ferocidade na batalha final contra Blattier?
Certamente tinha seus motivos. Mas o que ela mais lembrava era da promessa que ele fizera para ela…
A promessa de que viria salvá-la quando chegasse a hora.
E esse momento havia chegado.
Frey nunca tinha falado disso em voz alta, mas pelo jeito que lutava, era claro que aquela promessa tinha um lugar especial em seu coração.
“Se ao menos eu tivesse sido mais corajosa naquela época… Se ao menos tivesse coragem de ficar ao lado dele… tudo isso não teria acontecido.”
Uriel desabou lentamente, incapaz de se manter de pé por mais tempo. Os rituais intermináveis a tinham esgotado — especialmente o sacrifício final ao qual ela contribuíra contra sua vontade.
O sentimento de impotência só aumentava a culpa esmagadora que carregava em sua alma.
Ela se arrependeu de muitas coisas.
De esconder seus verdadeiros sentimentos por trás de um sorriso falso a vida toda.
De fazer Frey Starlight prometer algo tão pesado.
E, acima de tudo… de não ter ficado com ele quando a Igreja chamou ela e Yurasha para longe.
A Santa sempre foi algo sagrado para a Igreja — a virgem que caminhava ao lado do herói.
Ela era considerada um vaso abençoado do próprio Senhor da Luz, sua presença sempre vista como essencial.
Mas, desde o sacrifício do Primeira Herói, Kazis Valerion, a primeira Santa desapareceu sem deixar rastros. Rumores corriam — alguns diziam que ela morreu na guerra, outros cochichavam que fugiu e se suicidou na solidão. Mas a verdade nunca foi revelada.
O que a Igreja ainda guardava, no entanto, era seu sangue — preservado ao longo dos séculos.
O sangue da primeira Santa continha um vasto reservatório de poder sagrado, frequentemente utilizado para curas.
Com o tempo, tornou-se o único vestígio que permanecia dela. Assim, para manter sua posição, a Igreja começou a procurar jovens — meninas puras, intactas, com uma afinidade natural pelo poder sagrado — às quais injetariam esse sangue.
Assim nasceram as Candidatas a Santa. Meninas retiradas de suas famílias, adotadas pela Igreja, transformadas em vasos.
O sangue da primeira Santa por si só não era suficiente, então era diluído com as águas sagradas da fonte da Árvore do Mundo. O resultado criava uma nova Santa a cada procedimento.
Porém, esses experimentos e o peso de um poder tão grande eram esmagadores para crianças tão jovens e inocentes.
Mesmo se uma Santa surgisse com sucesso, seu corpo nunca suportaria verdadeiramente esse peso, nem poderia manejá-lo adequadamente.
Nenhuma superou a classificação SS+ desde a primeira Santa. E a maioria morreu antes dos trinta anos, suas carcaças frágeis colapsando sob a pressão.
Yurasha foi a última delas, até que seu poder foi transferido para Uriel Platini — condenando-a a um destino semelhante.
“Yurasha… ela foi quem me ensinou a sorrir. Como encarar esse mundo sem mostrar minha dor.”