O Ponto de Vista do Vilão

Capítulo 591

O Ponto de Vista do Vilão

Uriel Platini tinha apenas seis anos quando o Sumo Sacerdote Platini a adotou, arrancada dos pais que ela mal se lembrava.

Desde aquela idade, seu corpo era marcado por símbolos sangrentos gravados na pele. Dentro de suas veias, eles haviam injetado o sangue do primeiro Santo — para que ela pudesse carregar a chamada bênção do poder sagrado.

Mas a bênção de Uriel não passara de sofrimento.

Ela conhecia a dor desde pequena. Dor sem esperança, pois todo Candidato a Santo compreendia que a morte era seu destino final.

Alguns se agarravam à fé cega e aceitavam seu destino. Outros sabiam que algo estava profundamente errado, mas não podiam fazer nada.

Uriel enfrentava a vida com uma força silenciosa, dominando a arte de sorrir enquanto sangrava por dentro.

Por um tempo, viveu como se fosse normal, e seus anos no templo foram suas memórias mais felizes.

Lá, fez muitos amigos. Lá, aprendeu o que era sorrir de verdade em vez de apenas usar uma máscara.

E ao final daqueles anos… ela conheceu Frey Starlight.

O menino estranho que apareceu do nada, carregando fardos mais pesados do que os dela.

Assistir ao sofrimento dele, ver a maneira como lutava, fez com que Uriel quisesse ajudá-lo. Ela sentiu uma conexão entre eles.

Mas a diferença era clara. Frey escolheu lutar contra seu destino amaldito. Uriel não fez nada além de esperar silenciosamente pela morte.

Ele tinha travado batalhas muito piores do que a que ela nascera para enfrentar. E, mesmo assim, Frey sempre havia saído vencedor. Nunca tinha se quebrado.

Ver-o lutar com tanta desesperação deu a Uriel uma tênue esperança.

Ela via nele uma força que lhe faltava, e, sem perceber, agarrou-se a ele — egoisticamente, imperdoavelmente — pedindo que a salvasse.

"Mesmo sabendo o sofrimento que ele enfrentava… sofrimento muito maior que o meu, EU ainda me atrevi a arrastá-lo comigo, implorando que me salvasse…"

Seus olhos já estavam secos há muito tempo; ela não tinha mais lágrimas a perder.

Frey Starlight e Snow Lionheart… ambos estavam prestes a morrer por causa dela.

Se pudesse ter se sacrificado para salvá-los, faria isso sem hesitar. Mas não tinha força para isso.

"Deveria ser eu a ser a Saint agora… Carrego o poder dos meus antepassados, esses runas de sangue amaldiçoadas gravadas na minha carne!" gritou Uriel, ergueu as mãos — em direção ao lugar onde Snow e Frey estavam.

"Poder sagrado… anjos… qualquer coisa!"

Ela já fora capaz de comandar todos os anjos deste mundo. Ainda carregava um fragmento daquele poder em seu corpo. Por isso, tentou desesperadamente invocá-lo — pelo bem deles.

"Por favor… imploro — me dêem força para salvá-los!"

Seus runas sangraram enquanto ela tentava ativá-las.

"Senhor da Luz… meus antepassados… concedam-me seu poder!"

Mesmo um único anjo, mesmo a faísca mais tênue — não importava. Ela entregaria sua vida sem hesitar, se isso pudesse salvá-los.

Ela chamou pelo Senhor da Luz. Invocou os nomes dos Santos cujo sangue e poder corriam dentro dela.

Rezou e rezou, mas nada respondeu.

Por mais que tentasse, ninguém veio.

Sua luta desesperada durou apenas alguns minutos antes de seus olhos captarem uma cena que despedaçou o que restava de seu espírito.

A visão da lança de Blattier perfurando Snow e Frey ao mesmo tempo, apagando a luz em seus olhos com um golpe impiedoso.

Era o fim. Não havia mais nada a salvar.

"Não…" A palavra saiu de seus lábios como um sussurro vazio, abafada pelo riso triunfante de Blattier, que ecoava pela ilha após derrubar seus inimigos.

Uriel desabou no chão, lágrimas invadindo seus olhos, mesmo achando que estavam secas há muito tempo.

"Não consegui fazer nada… até o último instante, não fiz nada…"

Incapaz, impotente — ela tinha perdido tudo.

"Matei-os… com essas mãos… acabei com eles…"

Seus braços banhados de sangue tremiam enquanto ela se culpava por tudo — pela catástrofe, pelas mortes.

E assim, decidiu acabar com a própria vida.

"Frey… Snow… a todos… sinto muito."

Sua desculpa foi um sussurro para os mortos, enquanto as runas ao seu redor começavam a brilhar.

Ela só queria a morte agora, acabar com o tormento que não podia mais suportar.

Perdera todos que ela amava. Carregava uma culpa grande demais para que alguém pudesse suportar. A morte, pensou ela, seria sua libertação.

Mas até a morte lhe foi negada. O poder dentro dela se recusou a obedecer — recusou-se a conceder a misericórdia de um fim.

Percebendo isso, Uriel, dominada pela raiva e pelo desespero, arranhou sua própria garganta, rasgando-a selvagemente, desesperada para acabar com sua vida com as próprias mãos.

A loucura tomou seus últimos momentos; o fardo que carregava era demasiado para uma só alma.

Ela rasgou seu pescoço com violência selvagem, quase se matando…

Mas então uma estranha luz dourada irrompeu, interrompendo sua mão antes que pudesse dar o golpe final.

A luz não apenas a segurou, mas curou sua carne desfeita, ajoelhando-se suavemente, preenchendo-a com uma calorosa presença alienígena.

"Isso não foi sua culpa."

Junto à radiância dourada veio uma voz suave e ternurenta, sussurrando ao seu ouvido. Uriel virou-se na direção da fonte — em direção à Árvore do Mundo dourada atrás dela.

E lá, ela viu algo que jamais imaginara ser possível.

De dentro da árvore, uma aura pura jorrou, entrelaçando-se até formar uma figura — a de uma mulher.

Uma senhora nobre, resplandecente com uma presença sagrada como nada que Uriel já tinha visto. Seus longos cabelos dourados caíam como raios de sol, seu rosto etéreo, com apenas o nariz e lábios sorridentes visíveis. Seus olhos estavam velados por um tecido preto bordado com um símbolo dourado que Uriel não conseguiu compreender.

Ela vestia as vestes de uma freira da Igreja, e em sua aparência, Uriel viu um reflexo de si mesma.

Porém, a autoridade que exalava era inimaginável — maior até do que a de Frey ou Blattier. Talvez, maior do que os dois juntos.

Com seu brilho sagrado, a mulher iluminou a ilha, atraindo todos os olhares para ela.

Poder divino. Aura nobre. Uriel não sabia quem ela era, mas podia imaginar.

"A… Santa?"

Pois não poderia haver dúvida.

Esta era ela, ninguém mais do que a Primeira Santa — aquela que foi apagada da história, esquecida pelo mundo por muito tempo.

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