
Capítulo 516
O Ponto de Vista do Vilão
"Para ser honesto com você," finalmente disse Iris, "vim aqui porque não quero que você volte para aquela cela."
"Sou ouvinte," respondeu Frey, ainda com aquela expressão indecifrável... como se já tivesse previsto o rumo da conversa.
"Acabei de terminar de reunir sua equipe... aqueles que sobreviveram à sua loucura e à investida suicida."
"E?" perguntou Frey, encorajando-o.
"Todos são malucos," suspirou Iris. "Não sei que tipo de feitiço de lavagem cerebral você usou neles, mas todos querem lutar ao seu lado novamente."
"Todos eles... exceto Uriel Platini."
Uriel — aquela que talvez tivesse a chave para libertá-lo de sua maldição — não queria mais ficar ao seu lado.
"Entendo a posição da minha equipe," disse Frey. "Agora quero saber a minha. O que vai acontecer comigo?"
Evitedo completamente o assunto Uriel, Frey insistiu na verdadeira razão da visita de Iris.
"Obviamente, você continuará lutando nesta guerra. Você é uma força valiosa demais para se perder... mas de agora em diante, lutará como um soldado.. não como comandante."
"Você será designado para a unidade de outro líder e deverá seguir as ordens dele. Seus membros de esquadrão irão junto... mas só porque pediram por isso. Parece justo, não é?"
Mas Frey ficou intrigado com quão brandamente tudo soava. Tirar dele um título sem sentido era a única punição?
"Tudo bem... Enquanto estiver na linha de frente, não tenho queixas."
"Ótimo. Só não vá se lançar na frente sozinho de novo."
"Então?" perguntou Frey finalmente. "Quem é o comandante sob quem vou ficar?"
"Você vai descobrir assim que chegarmos."
"Sempre o fã de surpresas, não é?"
"Você não gosta de surpresas, Frey Starlight?"
"Minha história com ela é... bem complicada."
Durante toda a vida, toda surpresa que ele viveu esteve relacionada a uma experiência quase mortal ou à morte de alguém próximo.
Nunca houve um resultado diferente.
"Não precisa ficar tão pessimista — e não se diminua, Frey Starlight. Você é a principal razão da nossa vitória até aqui."
Atualmente, a taxa de abates era de um para seis — talvez sete — a favor do Império contra os Ultras.
Nosso lado ganhou uma vantagem enorme, e tudo graças aos esforços de Frey.
"Isso é só o começo. O que conquistamos até agora... é apenas uma vitória."
A mensagem de Frey era clara. Mesmo tendo massacrado inimigos incontáveis e derrotado muitos dos seus guerreiros mais fortes...
Ele ainda não tinha desferido um golpe de impacto real. Exceto Gvardiol... cuja morte ainda era incerta... ele não tinha conquistado nenhuma "grande presa".
"Mesmo que seja só uma vitória... ela servirá de base. Agradeço pelo que você conquistou, Frey Starlight. Mas espero que não se acostume demais com sangue e mortes. Acima de tudo, lembre-se de que você é humano — não se perca."
Esse conselho fez Frey sorrir involuntariamente.
Um sorriso amargo.
Foi um conselho bom... verdadeiramente, mas Frey já não tinha mais o luxo de segui-lo.
O caminho que ele trilhava estava encharcado de sangue, e obrigaria-o a matar de novo e de novo, independentemente do que desejasse.
No final desse caminho... Frey não fazia ideia do que se tornaria.
"Agradeço o conselho, velho. Gostaria de segui-lo... assim que essa guerra acabar."
A Guerra das Sombras mal tinha começado.
E tanto Frey quanto Iris sabiam isso muito bem.
O percurso de volta ao acampamento foi completamente silencioso, cada um imerso em seus próprios pensamentos.
Um era um velho carregando o peso de dezenas de milhares de vidas.
O outro, um jovem cujos ombros suportavam uma pressão suficiente para esmagar a vontade até dos homens mais fortes.
…
…
…
Aquela noite passou sem incidentes.
E na manhã seguinte…
O acampamento estava vibrante de atividade. Alguns soldados treinavam duro. Outros estavam dormindo. Ainda outros estavam agrupados, planejando cada detalhe e estratégia.
Entre eles...
A futura santa, Uriel Platini, permanecia isolada dentro de sua modesta tenda.
Ela havia colocado uma barreira sagrada ao seu redor, impedindo que outros chegassem perto — para que ninguém a perturbasse.
Sentada em uma cadeira de madeira ao lado da cama, arrumava-se em silêncio.
Seus belos olhos azuis... apesar de tudo — piscavam frequentemente em direção a partes específicas de sua pele exposta.
Cicatrizes. Cicatrizes feias e dolorosas.
Esculpidas profundamente na carne dela, como marcas de uma adaga amaldiçoada mergulhada em sangue.
Elas a machucavam terrivelmente... a enchiam de autodesprezo... e traziam uma coceira insuportável, como uma erupção que nunca passa, devido a uma doença amaldiçoada.
Uriel tinha se acostumado à dor.
Nunca falava sobre isso. Nunca reclamava. Ela aceitara seu destino há muito tempo.
Mas mesmo assim... só por um momento passageiro...
Ela permitiu-se acreditar em milagres.
Milagres que poderiam reescrever o próprio destino.
E esse milagre tinha um nome — Frey Starlight.
Ela desejava mais tempo.
Mas parecia que o tempo tinha acabado.
Sem aviso, alguém mais entrou em sua barreira sagrada — como se ela nem estivesse lá.
De fora da tenda, entrou uma mulher.
Uma mulher que conhecia sua dor demasiado bem.
Santíssima Eurasha.
"Senhorita..."
Uriel rapidamente vestiu suas roupas e se levantou para cumprimentá-la.
Seu rosto estava calmo. Composto.
Mas aos poucos... sua máscara começou a se rachar.
As duas eram tão parecidas... que estranhos frequentemente as confundiam como irmãs.
Entre elas, não havia necessidade de segredos.
Por isso...
Eurasha acabou desabando nos braços de sua sucessora.
"Sinto muito... Desculpe-me, querida Uriel..."
Ela chorou nos braços de Uriel.
Desapareceu a santidade silenciosa e reverenciada que o mundo conhecia.
O que permanecia ali era apenas uma garota — esmagada pelo peso de tudo aquilo.
Eurasha ainda era jovem. Menos de trinta anos.
Sempre havia carregado uma maturidade muito além de sua idade.
Mas não agora.
Não assim.
"Desculpe... Cheguei ao meu limite. Não aguento mais isso. Não posso mais carregar essa maldição..."
Ela continuou a se desculpar, repetidamente, para Uriel... que não disse nada.
Ela apenas ficou ali, parada, tentando processar tudo.
"Queria ter te dado mais tempo. De verdade, queria. Mas eu..."
Eurasha voltou a soluçar.
Mas Uriel a interrompeu.
"Está tudo bem, senhorita. Eu entendo."
Com um sorriso dolorido... disse as palavras.
"Sou grata por todo o tempo que me deu. Foi muito mais do que eu merecia."
Uriel falou isso para consolar Eurasha... e a si mesma.
E naquele momento, ela compreendeu...
Chegou a hora.
A Santa agora precisava enfrentar seu destino.