
Capítulo 506
O Ponto de Vista do Vilão
Ao Leste do Continente das Ultras.
…
Em algum lugar no interior, a centenas de quilômetros da costa…
Uma determinada unidade lutava contra as forças inimigas.
Este era o décimo quarto dia desde o início da segunda fase da guerra.
Frey Starlight e seus companheiros haviam avançado bastante… mas, a cada avanço assustador que faziam,
o número deles diminuía drasticamente.
De mil homens, restavam apenas umas dezenas.
As decisões imprudentes do comandante… suas escolhas estranhas e implacáveis…
Tenho levado muitos a fugir, e a maior parte já estava morta após os confrontos anteriores.
Agora, Frey e os remanescentes de sua equipe estavam profundamente no território inimigo.
Eram atacados continuamente, dia e noite.
De frente, de trás, pela direita, pela esquerda…
A brutalidade dos Ultras os caçava sem parar de todos os lados.
Frey Starlight era um verdadeiro monstro.
Apesar de estarem em uma situação desfavorável, ele matava qualquer inimigo no final — não importava quantos fossem.
Ao final de cada batalha, nenhum Ultra tinha sobrevivido… essa era uma verdade inegável.
Mas, mesmo com sua força esmagadora, ele ainda era apenas um homem.
Ele não podia parar tudo sozinho.
Muitos soldados morriam antes mesmo de Frey chegar com sua lâmina.
Nem mesmo os mais fortes do grupo conseguiam salvá-los a tempo.
Após cada luta, Frey ordenava o sepultamento de todos os camaradas caídos.
O processo muitas vezes levava bastante tempo, pois seus corpos se misturavam aos dos inimigos… tornando a tarefa exaustiva e indesejável.
Mesmo assim, Frey fazia isso pessoalmente… para que ninguém pudesse contestar.
Quando terminavam, descansavam apenas por uma noite… antes de marchar novamente sob as ordens do comandante.
Esse ciclo se repetia incessantemente…
De modo que alguns começavam a perder a cabeça, tentando desesperadamente acompanhar seu ritmo implacável.
Tanta sangue…
Era o que a Candidata a Santa, Uriel Platini, pensava enquanto observava tudo com seus olhos azuis claros.
No final de mais uma batalha brutal — uma que havia ceifado muitas vidas…
Uriel vagava entre os corpos, após curar todos os que ainda permaneciam vivos.
Naquele campo de morte e sangue… ela muitas vezes tinha que conter a náusea que subia em seu peito.
Ela não estava acostumada com cenas assim… embora tivesse esperado, de certa forma, que acontecessem, a realidade e a imaginação nunca eram iguais.
Uriel sempre caminhava entre os corpos ao final de cada batalha, fazendo-se testemunha de tudo o que acontecera.
Era sua maneira de se adaptar… de seguir em frente como se nada tivesse ocorrido.
Como Frey. Como Sansa. E como os outros da louca equipe que os seguia.
Eles podiam matar sem hesitar. Prosseguir sem que seus corações vacilassem.
Mas, por mais que tentasse… Uriel não conseguia fazer o mesmo.
Perceber isso, apenas o começo, tornava tudo ainda pior.
— O que exatamente você está tentando provar aqui… Frey? —
Para onde ele os estava levando?
Uriel Platini… ela era a garota escolhida para se tornar a próxima Santa.
Ela entrou na guerra seguindo os passos de sua predecessora — a atual Santa, Eurasha.
Depois, quando chegou a hora, Uriel fugiu… seguindo Frey.
Ela já tinha a vaga ideia de que ele faria tal movimento.
Foi por isso que veio com ele.
— Com você… senti que poderia fugir. Fugir deles —
Mas agora, ela se via presa nesta terra de sangue e morte…
Parecia que tinha escapado de um destino sombrio, apenas para cair em algo ainda mais escuro.
Lá, entre os corpos, Uriel se afundava em seus pensamentos… apertando fortemente as mangas da roupa, tentando conter a dor crescente que vinha piorando ultimamente…
Perdida demais em seu mundo interior, só foi trazida de volta à realidade ao ouvir uma voz próxima…
— Ó Hollow One antes de toda criação,
Conceda-me o silêncio, e mergulhe-me na amnésia.
Deixe minha sombra me consumir,
E deixe meus olhos não verem nada além do fim.
Alguém recitava uma oração… uma daquelas que Uriel conhecia bem — uma que só era pronunciada pelos fiéis da Igreja.
Sem perceber, seus pés a levaram na direção da origem.
O homem que a recitava… era alguém que ela tinha visto muitas vezes nos últimos dias.
Um homem com traços assustadores, que o diferenciavam de outros humanos.
Nunca tinha visto alguém com tamanha quantidade absurda de músculos…
Com mais de dois metros de altura, sem camisa, com o torso coberto de cicatrizes, ele se sentava tranquilamente recitando preces diante de corpos de aliados e inimigos.
Uriel o reconheceu como um dos Oito Desconhecidos que seguiam Frey — o herege, Grim.
Grim percebeu sua presença e interrompeu as orações para cumprimentá-la.
— Ah… Santa Platini. Que honra —
Disse isso com um sorriso repulsivo que lhe gelou a espinha.
— O sol logo vai se pôr, e com ele, as almas desses pobres vão se perder. Alguns encontrarão o paraíso… outros, tormento. Santa Platini, vamos orar por eles juntos —
Ele sorriu ao convidá-la, mas Uriel não conseguiu dizer nada. Sua língua travou.
Ainda assim, por algum motivo, ela nunca se sentiu à vontade perto daquele homem.
Grim, o herege… ex-servo da Igreja… especificamente da Inquisição.
Haviam sido excomungado há muito tempo e proibido de entrar novamente na Ilha Sagrada, após causar uma carnificina que deixou dezenas de mortos.
Entre suas vítimas, havia, aparentemente, crianças… nem mesmo dez anos de idade.
Crianças, homens, mulheres… todos brutalmente massacrados.
Quando questionado sobre seus motivos, mais tarde, afirmou que apenas seguia as ordens do seu chamado deus… o Senhor da Luz.
Foi rotulado de insano, condenado várias vezes… mas sempre conseguia escapar.
De alguma forma… agora, ele liderava a linha de frente da guerra.
— O que houve, Santa Platini? — Grim perguntou.
Uriel respondeu com um sorriso tênue.
— Perdão, estive distraída por um momento —
Sentada ao lado dele, começou a recitar suas próprias preces, fazendo Grim sorrir ainda mais e se juntar a ela.
Não levou muito tempo, mas, quando terminaram, a noite já havia caído.
Enquanto Uriel recuperava o fôlego, seus olhos se voltaram para Grim, que permanecia em profunda oração…
Por um momento, ele parecia um verdadeiro devoto.
Mas ela não pôde deixar de se lembrar da verdade… da verdade do monstro que esmagava cabeças de inimigos com as próprias mãos nos dias passados.
Grim, o Herético… conhecido por sua força física e agarre de ferro.
Nunca perdia seu sorriso, mesmo ao espatifar cérebros.
Em termos de número de inimigos mortos, Grim tinha matado mais do que qualquer outro, ficando em segundo lugar apenas para Frey Starlight.
Mas o que distinguia suas vítimas… era o estado horrível em que as deixava.
Parecia uma besta que realmente gostava de sangue e de carnificina.
E essa mesma besta agora se sentava ao seu lado, orando pelas almas de suas vítimas.
Aquele homem… era tudo menos normal.
Quando terminou, ele também se levantou.
— Obrigado, Santa Platini. Vamos continuar purgando este mundo do mal e seguir os passos do herói, Frey Starlight —
— Ah… claro —, Uriel sorriu, fazendo uma ligeira reverência. Mas ela não pôde ignorar um detalhe.
— Talvez eu tenha entendido errado… mas você acabou de dizer ‘o herói Frey Starlight’? —
A palavra "herói" pode ser interpretada e usada de várias formas. Qualquer pessoa neste mundo poderia ser chamada assim.
O que Grim havia dito não era necessariamente estranho.
Porém… para os seguidores da Igreja, essa palavra tinha um significado bem específico.
Não era usada de brincadeira — referia-se a uma única pessoa: o Herói Prometido, alguém escolhido pelo Senhor da Luz.
Para um devoto da Igreja, usá-la para descrever Frey… era impensável.
Grim, com os olhos ainda fechados e aquele sorriso sombrio, virou-se de volta para Uriel.
— Frey Starlight não é um herói deste mundo?
— Como assim? — Uriel perguntou, confusa. Mas Grim continuou:
— O Senhor da Luz é aquele que nos concede bênçãos e graças. Ele nos guia. Ele nos dá força para seguir em frente.
Frey Starlight nasceu com dons incríveis… um poder além da compreensão. E esse poder só poderia vir do próprio Senhor da Luz.
— Heróis nem sempre são radiantes… às vezes, nascem na escuridão —
Grim falou com convicção absoluta, completamente fascinado pelo homem que seguia.
— Ele é o carrasco enviado pelo nosso Senhor para cortar as cabeças de todos os hereges. Mesmo que negue, Frey Starlight é um dos heróis escolhidos pelo Senhor… um verdadeiro, que traz justiça com sangue e fogo —
Grim estava completamente cativado pela imagem de carnificina que Frey havia pintado.
Ele realmente acreditava que tal poder avassalador não poderia surgir do nada… que era um presente divino do seu chamado deus.
Por isso… Grim escolheu seguir Frey… porque, para ele, Frey era o verdadeiro carrasco.
Uriel escutava esse loucura em silêncio, apenas confirmando ainda mais o caráter distorcido da equipe que seguia Frey.
O próprio homem nunca acreditou no Senhor da Luz, nem uma única vez… mas Grim insistia que ele era um dos heróis do Senhor.
Grim não era um devoto. Era apenas um lunático… um que se deleitava na morte e no sangue.
Uma besta que justificava suas atrocidades em nome do deus que dizia seguir.
Standando ao lado de tanta imundície, lembrando-se da visão que teve no passado…
Uriel não pôde deixar de se perguntar — que futuro os aguardava?
E o que exatamente Frey Starlight tentava alcançar?
Por ora… ele seguia caminhando adiante.
Lentamente, silenciosamente, ele trilhava um caminho que o levaria a uma raça de monstros completamente diferentes.