
Capítulo 504
O Ponto de Vista do Vilão
Quando saí da tenda simples que tinha hospedado nossa conversa, percebi que o céu já escurecera.
A noite tinha caído.
Após oito dias consecutivos de batalha, o número de soldados que me seguiam tinha diminuído drasticamente.
De mil que comecei, restava pouco mais de cem.
Já não era mais um exército.. apenas uma pequena companhia que se perdeu pelo território inimigo.
Os demais tinham fugido… ou morrido em batalhas anteriores.
Sua vidas e mortes… minhas decisões claramente tiveram um papel nisso. Fui eu quem os arrastou até aqui.
Talvez suas almas encontrassem descanso na minha consciência.
Talvez seja por isso que sinto esse peso crescente nos meus ombros—essa carga e pressão estranhas.
Enquanto vagava pelas poucas tendas que restaram em nosso acampamento rudimentar…
Um sorriso amargo cruzou meu rosto.
“De que adianta agora? Já suportei cargas muito maiores que essa.”
Esse era o preço que tinha que pagar.
Ao contrário do passado, o número de almas ligadas a mim tinha crescido imensamente.
Desta vez, não estava apenas assombrado pelos rostos de meu pai, Clana ou Danzo…
Os rostos que agora apareciam diante de mim eram de pessoas que nunca cheguei a conhecer.
“Mais escuro que a própria escuridão.”
Tão perdido na minha solidão, tinha me esquecido de que não estava sozinho.
Já tinha caminhado longe o suficiente do acampamento, agora fora do alcance da visão… longe o suficiente para ela emergir.
“Você tem estado tão quieta ultimamente, que quase esqueci que você estava aqui.”
Aquelas palavras eram dirigidas à demônio que saiu das sombras.
“Senti que era o momento certo de aparecer de novo,” disse Sansa, com um sorriso gentil.
Suas palavras me fizeram recordar algo que ela tinha dito antes.
“Mais escuro que a própria escuridão… O que exatamente você quis dizer com isso?”
Perguntei, enquanto caminhávamos juntos pelas terras áridas dos territórios dos Ultras.
O céu acima de nós era a única coisa viva neste lugar morto.
Com as mãos nos quadris, Sansa assumiu a liderança. Eu a segui sem hesitação.
Ela demorou a responder.
“Você se lembra do que te disse há muito tempo? Quando te desafiei e aos outros na nossa brincadeira de duelo?”
Ela respondeu minha pergunta com outra pergunta.
Para ser honesto, não me lembrava com clareza.
Mas após refletir… percebi que ela se referia àquela partida que perdi junto com Snow e Demônio.
“É uma lembrança bem antiga que você trouxe à tona. Se não me engano… seus cabelos ainda eram loiros naquela época.”
Ela ainda era a princesa humana, cuja ligação comigo eu não conseguia definir exatamente.
E eu ainda buscava algum significado na minha vida após vencer a Victoriad.
Isso eu me lembrava.
Mas as palavras exatas que ela pronunciou naquela época escaparam de minha memória.
“Sua escuridão é morna e fraca. Essas foram minhas palavras para você.”
Sansa não me deu tempo de responder. Ela mesma continuou.
“Mas agora… está mais escura que a própria escuridão. O abismo dentro de você cresceu tanto… que temo que um dia possa te consumir.”
Isso… eu já sabia.
“Não sei exatamente o que seus olhos demoníacos veem, mas nada mudou. Nem agora, nem no passado… e nem no futuro.”
Aquele abismo só cresceria… até que sua sombra se estendesse por toda parte.
“Você consegue sequer carregar esse peso?” ela perguntou.
“O que eu sei é que vou carregá-lo… seja qual for minha força ou fraqueza. Ah, relaxa, não vou desabar ou algo assim.”
Pisquei para ela, sorrindo.
“Você está aqui, afinal de contas.”
Ao ouvir isso, ela assentiu.
“Por isso mesmo escolhi aparecer agora.”
À medida que me aproximava dela, percebi o quão importante era ter Sansa ao meu lado.
Não tinha certeza do que exatamente sentia por ela.
Mas, seja lá o que fosse… ela era como um sedativo.
Uma droga potente que me afastava da realidade, mesmo que por um instante…
Algo que fazia eu esquecer de todo o peso que esmagava meus ombros.
Pode parecer cruel dizer isso, e talvez injusto com Sansa, que estava disposta a fazer tanto por mim.
Mas isso era o que eu sentia por ela neste momento.
Não poderia chamá-la de amor. Como disse antes…
Ela era mais como um narcótico de sabor doce… Um que me ajudava a me manter de pé, só mais um pouco.
Era assim que a via.
E, pelo jeito… ela já sabia disso.
E aceitou.
Talvez, junto aos seus próprios sentimentos, ela também tenha desenvolvido a mesma visão distorcida sobre mim.
Talvez eu fosse a sua droga…
Sua fuga das sombras da vida.
Ela entendeu seu papel.
Por isso apareceu na minha frente neste momento.
Sansa… meu sedativo suave.
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—CONTINENTE ULTRAS—
No coração do continente, na principal área que abrigava as forças mais fortes dos inimigos do Império, ficava a base central dos Sangues Superiores.
Uma cidade engolida por terras desoladas, como muitas outras… mas ainda em condição bem melhor do que as demais.
Com muralhas imponentes e luzes deslumbrantes que a faziam brilhar no meio do deserto—
Esta cidade era o símbolo do esforço de guerra dos Ultras.
Era conhecida como Nitheos.
A maior parte das forças dos Sangues Superiores estava presente.
Ela estava sempre viva.
Sua chama nunca se apagava, nem de dia, nem de noite.
Enquanto soldados marchavam por suas ruas incessantemente…
Dois homens observavam tudo do topo de um dos prédios mais altos da região.
De pé lado a lado, olhavam para os próprios homens que haviam escolhido seguir cegamente.
O primeiro era um velho bêbado, vestido com trapos rasgados. Nada nele se destacava—exceto pela espada amaldiçoada nas costas.
O segundo era seu oposto.
Um homem calmo e elegante, cuja única semelhança com o bêbado era o fato de também empunhar uma arma flamejante.
O silêncio pairou entre eles por um bom tempo…
Até ser quebrado por Mergo, cujos olhos nunca desviaram dos rostos dos soldados lá embaixo.
“Novos rostos aparecem todo dia… e os antigos desaparecem.
Engraçado como logo me esqueço deles.”
Ao ouvir isso, Gavid Lindman respondeu de forma seca, sem sequer olhar para ele.
“Normal.
Eles vão para a luta.
Além disso, duvido que um velho senil como você lembre de rostos de verdade, no começo.”
Mergo nunca pareceu especialmente sã para ninguém.
O bêbado sorriu lentamente.
“Guerra, hein?
Você realmente acha que é isso que estamos lutando?”
“Você acha que estamos brincando então?” Gavid resmungou, claramente irritado…
Assim era toda conversa com o velho.
“Talvez sim, Lindman…
Porque pra mim, tudo isso parece um grande espetáculo…
Não uma guerra.”
Isso fez Gavid se virar para encará-lo.
“Uma peça para alguns,
Uma guerra para outros.
Tudo depende de como você vê as coisas.”
Uma guerra entre correntes opostas…
Ou um teatro sem que ninguém saiba ao certo o roteiro.
Para Mergo, não havia muita diferença entre os dois.
Mas uma coisa ele tinha certeza.
“Estamos morrendo, Lindman…
Morrendo lentamente.”
Suas palavras carregavam muitos significados.
Principalmente, as mortes recentes de tantos de seus homens no campo de batalha.
“Fechamos um acordo com o diabo,” murmurou o bêbado.
Gavid assentiu.
“Sim… com mais de um.”
Ambos sabiam…
Que não havia mais volta agora.
Desde o dia em que criaram aquele portão que permitiu a entrada dos demônios.
“Fico me perguntando…
Será que tomamos a decisão certa?”
“Não sei,” disse Gavid.
“Mas sei de uma coisa…
Pelo menos, se eu morrer desta vez…
Vou morrer pelas minhas escolhas.
Não por causa de alguém mais.”
Mesmo que tudo termine em ruínas e mortes.
Pelo menos desta vez…
Foram eles quem controlaram seu próprio destino.
Gavid Lindman, o homem que já quebrou seu contrato demoníaco e virou as costas a seres como Astaroth…
Ele sempre lutou pelo que chamava de liberdade.
E para alcançar seus objetivos distorcidos, fez acordo após acordo…
Acordos que transformaram essa guerra em um palco sombrio.
Apesar de saber muito mais do que a maioria, ele e Mergo ainda estavam completamente no escuro sobre como tudo terminaria.
Seja um pacto com um demônio execrável, um príncipe estranho ou uma entidade sem nome…
Não havia mais volta agora.
Pelo menos,
eles tinham o direito de escolher o lugar onde morreriam.
Ou pelo menos…
Foi essa a crença que escolheram.