O Ponto de Vista do Vilão

Capítulo 442

O Ponto de Vista do Vilão

Capítulo 442: Ponto de Virada (2)

E eu achava que tinha aprendido a controlar minhas expressões perfeitamente.

Estava completamente enganado.

Eu ainda era a mesma pessoa, afinal.

Por mais que eu sofresse, por mais que me tornasse mais forte, por mais que entendesse do mundo ao meu redor...

Nada havia mudado.

Na verdade...

Só tinha ficado mais difícil.

Diante de Ghost, abri a boca e pronunciei algumas palavras.

E naquele momento, os olhos de Ghost se arregalaram de choque.

Sua expressão se torceu, incrédula.

Pela primeira vez, vi o rosto do Ghost se desmanchar em uma emoção tão pura.

Incapaz de aceitar o que acabara de ouvir de mim, ele perguntou novamente.

"Você está falando sério agora?"

Em resposta, assenti com a cabeça.

"...Sim."

Baixando a cabeça, continuei.

"Não há outro jeito. É a única coisa que podemos fazer."

Falei com uma voz calma e tranquila.

E isso parecia deixar Ghost ainda mais furioso.

Ele avançou e me acertou um soco forte no rosto.

O golpe me fez tropeçar para trás, batendo na parede fria atrás de mim.

Mas ele não tinha terminado.

Ghost me derrubou no chão, agarrando minha gola enquanto rolávamos na neve, completamente ensopados com minhas roupas.

Ele tava realmente bravo.

"...Eu não te entendo, Frey. Acreditei que entendia uma vez. Mas agora percebo o quão errado estava."

"..."

Devagar, uma fina linha de sangue escapou do canto da minha boca, consequência do soco de Ghost.

Saboreando o ferro amargo do sangue, sentindo sua força apertar minha gola, olhei para ele em silêncio... incapaz de responder.

A reação dele vinha do que eu tinha lhe contado antes.

Eu tinha pedido a ajuda dele.

A Guilda Dragão Prateado estava protegendo Danzo, então, se eu quisesse tirá-lo de lá sem que ninguém percebesse, precisaria da habilidade de Ghost como assassino... e da influência do Tribunal das Sombras.

Com sua ajuda, poderíamos tirar Danzo sem alarmar ninguém.

E, uma vez longe o suficiente...

Eu acabaria com isso.

Eu terminaria com tudo.

Eu o mataria.

Para ser sincero...

Eu poderia simplesmente teletransportar diretamente para o quarto de Danzo. Mas fazer isso teria o risco de ativar o poder demoníaco adormecido nele, desencadeando uma catástrofe.

Por isso, eu precisava levá-lo a um lugar remoto e isolado, onde ninguém fosse atingido pelas consequências.

E isso...

Era algo que Ghost não podia aceitar.

"Você não disse que faria de tudo para salvá-lo? Que faria qualquer coisa que fosse necessária? Essa é sua especialidade, não é? Transformar o impossível em realidade..."

"Sobrevivendo à Família Moonlight, conquistando a Victoriad, viajando para Londor, permanecendo vivo sozinho no continente dos Ultra quando todos acharam que você estava morto... derrotando a mil homens de um só golpe... Você sempre encontrava uma maneira de vencer, não importava o quê."

"Então, o que mudou agora?!"

Ghost gritou, sua voz rouca e aos trancos, algo que eu raramente, se é que alguma vez, tinha ouvido dele.

Sua relação com Danzo tinha sido complicada inicialmente. Eles discutiam sem parar.

Mas com o tempo, Ghost passou a respeitá-lo, a vê-lo como um amigo.

Por isso, não conseguia aceitar o que eu dizia agora.

Ele tinha visto muitas pessoas morrerem na sua frente antes, mas desta vez... era diferente.

"Eu tentei..."

Falei baixinho.

"Tentei com todas as minhas forças.

Fiz tudo o que pude..."

Mas no final, fracassei.

Subestimei a Semente do Demônio—tratando-a como uma maldição comum.

Mas havia uma razão pela qual sobreviver a ela era impossível.

A pessoa que criou a Semente já transcendeu a Lei da Vida e da Morte.

Ele tornou a Semente uma criatura viva por si só.

Separá-la de Danzo era impossível.

Elas se tornaram uma só.

Para salvá-lo, eu precisava de um poder que também pudesse ultrapassar a Lei da Vida e da Morte—algo que existia nas memórias do Nameless.

Mas adquirir esse poder era totalmente impossível.

Porque eu era humano.

Para obter esse poder, teria que fazer como o Nameless fez... passar incontáveis vidas estudando todas as espécies e criaturas, exterminando um número incalculável de seres só para completar sua louca pesquisa.

E mesmo tendo um corpo imortal e tempo infinito como ele... duvidava que pudesse alcançar o que ele conseguiu.

Eu não sou o Nameless. Não tenho sua sabedoria, tampouco uma fração de seu poder.

Então, como poderia esperar adquirir tal poder, quando só me sobravam algumas horas até o final da Missão Final?

Você não consegue derrotar uma habilidade que quebra o mundo sem ter outra habilidade que também quebre o mundo, de igual ou maior intensidade.

Foi isso que o Engenheiro me falou.

Era impossível desde o começo. Meu fracasso era inevitável.

Talvez houvesse outro caminho—algo que eu poderia ter descoberto se ainda tivesse uma pergunta para o Sistema.

Mas eu usei isso há muito tempo.

Foi por isso que o Engenheiro disse que eu me arrependeria.

Era isso o que ele quis dizer.

"...Tudo o que acontecer com Danzo agora, é minha culpa. Ninguém mais."

Ao ouvir isso, Ghost ficou em silêncio por um tempo, antes de falar novamente, sua voz carregada de amargura.

"...Por que, de todas as pessoas, o Danzo?"

Mesmo que a Semente do Demônio fosse real...

Ele não conseguia entender por que ela tinha caído nas mãos dos Ultra.

Uma Semente Demoníaca completa era rara. Extremamente poderosa.

Sua presença aqui na Terra não fazia sentido.

E, entre todas as pessoas do mundo... acabou nas mãos do Danzo.

"Por quê?!"

Ele não era especial.

Era apenas um humano comum.

Nada mais, nada menos.

"...Provavelmente, eu sou também a razão disso tudo."

Eu pensei que fosse só azar.

Mas eu estava enganado.

Coisa dessas não acontece por acaso.

Quer fosse o Engenheiro, o Rei Demônio...

Ou alguém mais puxando as cordas nos bastidores...

Isso foi planejado.

E a razão de Danzo ter se tornado o alvo foi porque... ele era próximo de mim.

É só isso.

Foi uma conspiração cuidadosamente arquitetada, uma que quis manter essa forca apertada ao meu pescoço. E eles conseguiram.

Chegamos ao ponto do no retorno.

Ghost me encarou por um longo tempo, uma tempestade de emoções misturadas em seus olhos. Estava furioso.

Ele queria me chamar de mentiroso.

Acusar que tudo que eu dizia era besteira—que não havia prova de que a Semente sequer existisse.

Mas então...

Ele se lembrou.

De todas as fenômenos estranhos que testemunhou ao ficar ao meu lado.

E ele soube.

Que eu não diria algo assim sem motivo.

Vi um traço de desprezo nos olhos dele... passageiro, nascido na febre do momento.

Naqueles becos desolados, sobre o chão coberto de neve fria, ficamos em silêncio por um longo tempo, engolidos por um vazio de onde nenhum de nós podia fugir.

Pois então, após alguns momentos, Ghost se levantou e virou as costas para mim.

"Vou te ajudar."

Suas palavras me pegaram desprevenido.

Não esperava que ele concordasse tão facilmente.

"Ghost..." chamei, sem conseguir me conter.

Mas ele continuou, sua voz calma de novo.

"Eu escolhi ser sua sombra há muito tempo.

Por isso, vou dividir esse peso com você. Vou carregar esse pecado."

Porém, Frey...

Virando-se para me encarar, sua resolução silenciosa retornou.

"Você sabe o que vem a seguir, não é?

Depois que cruzarmos essa linha, não há volta.

Carregaremos as consequências, enfrentaremos a punição quando chegar a hora.

Está preparado para isso?"

Em resposta, assenti.

"Estou."

...Mas eu realmente conseguiria viver comigo mesmo depois?

Depois de matar Danzo com minhas próprias mãos?

Olhei para eles... imaginando seu sangue manchando minhas mãos.

E toda vez que eu pensava nisso, a imagem me despedaçava. Não suportava encará-la.

Não sabia o que aconteceria comigo ao fazer isso.

Mas tinha certeza de uma coisa...

Eu não seria mais o mesmo.

Procurei não pensar nisso. Mas o fim se aproximava.

Era só uma questão de tempo agora.

Ghost via através do meu tormento, mas não disse uma palavra.

Ele simplesmente virou-se e começou a se afastar.

"Vou encaminhar seu pedido ao Tribunal das Sombras. Vou liderar a operação pessoalmente.

Fique onde está até eu te contatar.

Quando chegar a hora... prepare-se para sujar as mãos de sangue."

"..."

Eu não respondi.

Ghost desapareceu, como se nunca tivesse estado ali.

E eu fiquei sozinho, deitado na neve fria.

Queria partir, mas meu corpo não se movia.

Tudo o que podia fazer era ficar ali, em silêncio, esperando.

"Os fracos não têm direito de decidir nada neste mundo."

Somente os fortes podem moldar suas vidas como querem.

Somente eles têm o poder de decidir o destino dos outros.

Eu era fraco.

Pavorosamente fraco.

E essa fraqueza...

É por isso que os poderosos se aproximaram de mim, controlando minha vida como bem entenderem.

É por isso que meu pai morreu me protegendo.

Por isso tantos outros pereceram.

E agora, por isso, eu estava prestes a matar Danzo.

Tudo isso... porque eu era fraco demais.

Mas...

"Que força seria necessária para quebrar essa gaiola?"

Eu teria que me tornar um monstro sem coração, como Nameless?

Ou um tirano, como Agaroth, com um poder esmagador?

Se essa fosse a resposta...

Qual preço eu teria que pagar para alcançá-la?

E eu conseguiria suportar isso?

"Não sei..."

Eu realmente não sabia de nada.

Sempre fui assim.

E no final, nada tinha mudado.

"Persistir não garante sucesso."

Por mais que você lute, por mais que tente,

o sucesso nunca é uma garantia.

Essa é a vida.

Ela te atira para onde quer, nunca onde você escolhe.

"Que mundo cruel..."

Esperando pelo momento da verdade.