
Capítulo 308
O Ponto de Vista do Vilão
- Perspectiva de Frey Starlight -
Existem algumas coisas na vida que você simplesmente não consegue acreditar... mesmo vendo com seus próprios olhos.
Essa é a melhor maneira de descrever meu estado de espírito enquanto tentava processar aquelas memórias.
O sem nome...
Apenas vislumbrei fragmentos de sua lenda... um ser que viveu por milhares de anos. Uma figura que se esforço ao máximo, dedicando tudo ao crescimento e à evolução... e nada mais.
Ele atingiu alturas tão monumentais que se tornou uma divindade, venerada por inúmeros seres de todas as raças.
Já escrevi um romance inteiro—A Terra da Sobrevivência—uma história que retratava este mundo com detalhes vívidos.
Construí a narrativa, os reviravoltas, o próprio mundo... e ele virou minha realidade.
Mas nunca—nem nos meus sonhos mais loucos—imaginei presenciar, com meus próprios olhos, alguém poderoso o bastante para enfrentá-lo...
Para desafiar Agaroth.
Só de pensar nisso, tudo que eu acreditava saber parece desmoronar.
O sem nome. O Engenheiro. E o séquito que os acompanhava.
Nunca escrevi sobre nenhum deles. O que só reforçou o que eu já começava a suspeitar há tempos... isso não era o romance que eu criei. Era algo completamente diferente.
A vida dele—de começo ao fim—foi inspiradora, mesmo pelos meus padrões... e eu já vi mais do que a maioria.
O sem nome. Agaroth. Gigantes entre gigantes, vivendo em um nível que eu nem ousaria sonhar alcançar.
De verdade, o sem nome era... uma lenda.
Mas então me perguntei—o que tudo isso tinha a ver comigo?
Um rei reverenciado, seguido por milhões. Quem já foi a própria defesa do mundo contra a morte encarnada: Agaroth.
Então, por que eu?
Quando obtive algumas respostas... comecei a fazer uma série de novas perguntas.
Por quê eu?
Sou só uma pessoa comum. Um humano frágil.
Mesmo com o poder do aura, teria sorte de viver um pouco mais de cem anos.
Então, o que eles poderiam esperar de mim?
Sofri sem parar... física e mentalmente.
suportei todas as formas de tormenta imagináveis para me tornar mais forte, mas... eles realmente querem que eu me torne algo como aquele monstro?
Um monstro à altura de Agaroth?
Não pude deixar de rir da absuridade de tudo isso.
"Se é isso que vocês querem de mim, Olhos Azuis, sinto muito, mas vou decepcioná-los."
Vocês estão pedindo o impossível.
Eu não tenho a qualificação—nem o desejo—para tentar.
Mesmo com a máscara que contém todo o conhecimento do próprio sem nome...não consigo. Não consigo sequer usá-la por mais de um minuto.
Ou seja... você falhou, Engenheiro.
Disse cada palavra, sorrindo com uma aceitação triste.
Mas aquele sorriso desapareceu... quando uma lembrança específica voltou à minha mente.
Aquele lunático sem nome... manipulando almas pelo aura como se fosse a coisa mais simples do mundo.
Ainda lembro da imagem dele despejando aquilo dentro daqueles vasos.
Vasos... almas...
E naquele momento, o alerta do meu pai voltou à tona—suas palavras ressoando de algum lugar profundo dentro de mim.
A compreensão me atingiu com uma clareza assustadora.
Não exagerei. Não depois de tudo que passei.
Mas, no fundo, me perguntei:
"Quem eu realmente sou?"
Será que... eu sou só um vaso?
Como o Raivoso... o Sorridente... o Triste...
Sou igual a eles?
Uma versão mais avançada? Mais expressiva? Mais viva?
Mas ainda assim... apenas um vaso... criado para hospedar aquele que chamavam de sem nome?
Dentro daquele reino subconsciente... o lugar onde todo aquele conhecimento e memória tinham sido jogados... ri de novo.
"Eu não esperava desabar tão facilmente..."
107 vezes... suportei cada um daqueles ciclos. Até meus cabelos ficarem brancos.
Minhas lágrimas secaram. Minha determinação se fortaleceu.
Eu realmente acreditava que nunca mais seria abalado.
Mas isso... isso foi demais.
Incapaz de dar uma resposta coerente, percebi o quão cruel a sorte tinha sido comigo.
Toda aquela dor. Toda aquela luta através do pântano do desespero, levando sempre ao mesmo ponto, repetidamente... só para me dizerem que sou um vaso?
Um corpo emprestado. Uma vontade temporária—feita exclusivamente para abrir o caminho ao verdadeiro rei?
"Isso é cruel."
(Cruel demais.)
E sabendo que eu nem mesmo tinha o direito de protestar...
Aceitei meu destino.
Enquanto o mundo ao meu redor... desaparecia em trevas.
...
...
...
"Frey!"
Quando acordei novamente, estava deitado no chão frio de uma sala escura.
Rostos familiares ao meu redor.
Feridos, mas vivos.
Ao meu lado esquerdo e direito, eles me olhavam em silêncio, embora seus olhos dissessem mais do que palavras poderiam.
Devagar, levantei a parte superior do corpo, sentando-me ao lado deles e instintivamente levando as mãos à cabeça, que ainda pulsava de dor.
"Quanto tempo faz?"
Fui o primeiro a quebrar o silêncio, falando com voz calma.
"Acabamos de acordar..."
Snow respondeu, com tom cansado e meio atordoado pela derrota recente.
Só por esse jeito, percebi—ele havia perdido para o Raivoso, mesmo usando a Forma do Rei da Guerra.
Com um leve tapinha no ombro dele, ofereci um gesto de conforto e me levantei.
"Está tudo bem. Essa derrota era inevitável. Afinal, ele é da classe SSS."
Falei de modo casual, passando por Snow... que ficou visivelmente surpreso com minhas palavras.
Desde o começo, o Raivoso brincou com a gente como um adulto brinca com crianças, mostrando apenas um pouquinho de seu poder verdadeiro.
E como eu sabia disso?
A resposta estava bem na minha mão.
Levantei lentamente, encarando o objeto repousado na palma da mão.
A máscara metálica preta, imóvel e silenciosa—não emanava nem mesmo o mais tênue sinal de energia.
Quem imaginaria que esse artefato aparentemente comum guardava conhecimentos tão vastos que poderiam preencher o universo?
E eu tinha acabado de receber uma fração disso...
"Vamos."
Chamei meus amigos com um sorriso, e ambos me seguiram sem hesitar.
"Para onde?"
"Para saquearem esse castelo."
Respondi de forma simples.
Desde que acordamos aqui, não havia sinal do Raivoso nem daquele idiota do Engenheiro.
Tinha certeza de que eles ainda estavam por perto... nos observando, capazes de me alcançar a qualquer momento. Mas não podia fazer o mesmo com eles.
Então, decidi fazer a única coisa que ainda podia.
Parte do conhecimento que adquiri anteriormente continha tudo sobre esse castelo.
Agora que compreendia seus mecanismos internos, percebi o quão importante esse lugar era.
Aprofundando-me, comecei a abrir passagens secretas com tamanha facilidade e precisão que até Ghost—o assassino—ficou visivelmente impressionado.
Eventualmente, nos encontramos dentro de uma sala imensa.
Snow e Ghost ficaram visivelmente maravilhados com o que viram.
Um cômodo do tamanho de uma arena, repleto de tesouros dourados tão deslumbrantes que poderiam cegar quem olhasse por muito tempo.
"Peguem o que quiserem, pessoal. Ghost, acho que vai achar aqui uma arma que combina contigo."
Falei com um tom indiferente, como se fosse minha propriedade.
Mas os olhos dos meus amigos nunca desgrudaram de mim.
"Que foi?" Perguntei com um sorriso. "Tenho algo na cara?"
"Tá tudo bem, Frey? Você parece meio...”
Snow hesitou nas palavras, mas Ghost não.
"Você parece outra pessoa completamente."
Eles não estavam errados. Um simples olhar no meu reflexo dizia tudo.
Se antes eu parecia um príncipe malvado com aquele cabelo branco...
Agora eu parecia mais um rei tirano—senhor de um reino antigo, esquecido pelo tempo.
Ironicamente, essa entidade sem nome também tinha cabelo branco.
De algum jeito, acho que vou acabar parecendo cada vez mais com ele...
"Estou bem, pessoal. Obrigado pela preocupação."
"Mas—"
"Já chega."
Cortei Snow, que parecia prestes a insistir mais um pouco.
"Disse que estou bem. Então, deixa pra lá, ok?"
Realmente, fiquei grato pela preocupação deles.
Sério, fiquei.
Mas não tinha encontramento para demonstrar isso naquele momento.
Não quando aquela figura sem nome ainda ocupava meus pensamentos...
Por sorte, Snow e Ghost não eram do tipo que não leem o humor. Eles deixaram passar.