O Ponto de Vista do Vilão

Capítulo 303

O Ponto de Vista do Vilão

Felicidade. Alegria. Encanto.

Dor. Tristeza. Desespero.

Não passam de termos relativos—rótulos que atribuímos às condições mutáveis da vida.

Cada pessoa tem seus momentos. Momentos em que sente que alcançou o auge da existência, de pé no topo de tudo o que sempre desejou conquistar.

E depois, há os momentos em que despenca… bem fundo, na escuridão total do abismo do desespero.

Esses altos e baixos definem a experiência humana. Impulsionados pelo peso esmagador das emoções que carregamos.

Porém, para a maioria, esses momentos—sejam de alegria ou tragédia—são passageiros.

Eles passam.

Às vezes, deixam cicatrizes que nunca se apagam de verdade, mas a vida, de uma forma ou de outra, continua.

Mas e quanto à… anomalia?

Aquela, rara e terrível,—

quando a vida vira de cabeça para baixo no exato momento em que você atingiu sua maior alegria…

e arrasta você, gritando, para as garras do desespero e da morte?

Um pesadelo que a maioria jamais ousaria imaginar—

quanto mais viver.

E se esse pesadelo se tornasse real?

E não uma vez só.

Nem duas.

Mas várias… e várias vezes?

Segundos viraram minutos.

Minutos, horas.

Horas, dias, meses…

E, finalmente—anos.

Preso em um ciclo que se recusava a acabar,

Frey Starlight se viu suportando o próprio inferno.

Toda vez que alcançava o auge da felicidade, era brutalmente derrubado às profundezas do desespero.

Então, suas memórias desapareciam.

E o ciclo recomeçava.

E novamente.

Em certo momento,

sua alma cansou.

Exausta.

Suas lágrimas secaram há muito—de tamanho que, por vezes, chorava sangue.

As memórias se esvaneciam, mas o coração nunca esquecia.

Frey convivia com aquele vazio dentro do peito…

um vazio que cresceu tanto que virou um buraco negro, devorando-o por dentro.

Emoções colidiam—alegria e tristeza, esperança e luto, risos e lágrimas.

-Ciclo 100-

Frey Starlight permanecia de pé, olhando para os cadáveres de sua família…

pela centésima vez.

Despedaçados.

Transformados em pedaços.

O sangue deles encharcava o cômodo.

O cheiro de morte grudava em seus sentidos.

O demônio estava diante dele, sorrindo como sempre.

E Frey…

ele sorriu de volta.

Só de leve.

"Você está diferente,"

disse o demônio, com um sorriso divertido.

Por um momento, quis perguntar—Quem é você?

Será que você é realmente o Frey Starlight?

Ele parecia jovem… mal na casa dos vinte anos.

Mas aqueles olhos fundos e sem vida, as olheiras sob eles…

pareciam mais um sinal de alguém que viveu tempo demais.

Alguém cansado da própria vida.

Seu cabelo tinha voltado a ficar completamente branco—

mas diferente da primeira vez, quando era apenas um sintoma da Maldição do Coração Congelado, da linhagem da Luz da Lua…

agora era a idade.

Frey envelhecera, ciclo após ciclo,

até que o peso de tudo estivesse gravado em sua alma.

Ele já não conseguia chorar.

Com a cabeça baixa,

olhou para o chão ensanguentado com um sorriso cansado.

"Agora entendo."

Sua voz saiu pesada.

"Finalmente entendi o que você quer de mim."

Depois de ser despedaçado pelo torturante sofrimento psicológico,

sua alma fragmentada, incapaz de se manter unida, começou a entender o significado de tudo aquilo.

O propósito do sofrimento sem fim.

Por que foi forçado a reviver a mesma dor várias vezes.

Mas, nesta fase, até mesmo a perda de memória já não era suficiente para protegê-lo.

As simulações não traziam mais alegria—apenas desespero absoluto.

"Ele quer que eu me acostume com isso…" 

Quem quer que estivesse por trás de tudo—

o de olhos azuis… ou o Engenheiro, quem quer que fosse de verdade—

queria que Frey se tornasse insensível.

Que fosse capaz de ficar de pé sobre os corpos daqueles que mais amava…

e não sentir nada.

De novo… e de novo….

"Quer que eu veja eles morrerem cem vezes… mil…

sem jamais mostrar uma reação."

Esse era o nível que desejava que ele atingisse."

Frey deu passos lentos e pesados—

passando pelo demônio sem sequer reconhecer sua presença,

como se ele fosse um nada.

De joelhos diante dos corpos de sua família,

Frey falou novamente, com aquele sorriso quebrado e cansado.

"Tudo que tenho que fazer… é me acostumar."

Sua mão tocou o sangue, já frio—

uma confirmação silenciosa de que eles realmente tinham ido.

"É fácil, não é?"

Não devo sofrer.

Não devo agir com raiva.

Não devo sentir nada quando eles morrerem.

Se eu conseguir ficar calmo,

vou conseguir passar por isso…

Ele continuou sorrindo, sussurrando para si mesmo.

"É fácil… né?"

Era só isso que precisava para acabar com seu sofrimento...

"Fascinante,"

murmurou o demônio, com os olhos fixos em Frey.

Frey havia virado as costas para o demônio, que soltou uma risada sinistra.

"É fácil, Frey. Você consegue… Certo?"

A voz do demônio ecoou zombeteira, e os ombros de Frey tremeram.

Alcançar o ponto em que a morte deles não causasse mais dor…

Manter-se calmo, completamente imperturbável, enquanto os vê serem despedaçados…

enquanto o cheiro de sangue enche seus pulmões,

e seus corpos ficam gelados sob suas pontas dos dedos…

ele realmente era capaz disso?

Uma pulsação escura surgiu violentamente do peito de Frey, quebrando a calma. Ele levantou a cabeça para o céu e gritou com toda força que tinha:

"Como se eu pudesse aceitar algo assim!!!"

Uma onda de aura negra explodiu para fora, agitando todo o reino.

"Como você espera que eu me acostume a isso?!"

BUUUM!!

O mundo explodiu enquanto Frey avançava em direção ao demônio.

"Aceitar a morte deles?"

BUUUM!!

"Fingir que não significa nada?!"

BOOOM!!

Em uma fúria implacável, Frey destruiu tudo ao seu redor…

até o que restava dos corpos de sua família—

até que tudo o que permaneceu intacto foi o demônio, sempre sorrindo.

Calmamente, o demônio estendeu a mão mais uma vez.

"Mais uma vez."

E o tempo zerou.

Mas desta vez…

Frey não resistiu.

Enquanto caía pelo túnel espiralado do tempo, permaneceu imóvel.

A cena se reformou.

Mesmo com suas memórias apagadas,

seu corpo—sua própria alma—ainda se lembrava.

-Ciclo 101-

Sua família morreu de novo.

"Pai… mãe…”

Quantas vezes ele as tinha visto morrer?

"Você me criou para ser o homem que sempre quis que eu fosse."

De joelhos diante deles, Frey chorou com uma voz despedaçada.

"Olhem só no que me tornei…

Olhem o quanto caí."

Apontando para si mesmo, soltou uma risada vazia.

"Acho que estou ficando louco.

Não consigo pensar direito mais.

Deus só sabe como estou falando coerentemente agora..."

Muitas coisas mudaram.

"Quero destruir tudo.

Este mundo maldito que me aprisionou assim—quero destruí-lo.

Quero morrer.

Quero…

e quero…

mas não recebi nada."

"Perdi a cabeça."

Colapsado, incapaz de chorar mais,

a escuridão floresceu violentamente do peito de Frey outra vez.

"Mas, mesmo na minha loucura… eu ainda não consegui fazer isso."

Sua voz tremeu, engolida pelas sombras que o consumiam.

"Não consegui me acostumar a perder você.

Por mais que tente."

Nenhuma insanidade poderia anestesiar a dor.

"Eu te amo."

E com esse último pensamento,

a escuridão devorou completamente Frey,

lançando-o para o alto.

"Eu te amo mais do que tudo nesta vida."

Essas foram suas últimas palavras

antes de mergulhar na loucura total,

destruindo tudo ao seu redor em uma fúria cega…

…e mesmo assim,

ele não conseguiu tocar o demônio.

"Mais uma vez."

A maldita invocação voltou…

tão cruel e inevitável quanto a morte.

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