O Ponto de Vista do Vilão

Capítulo 254

O Ponto de Vista do Vilão

Por mais que eu olhasse fixamente, além da escuridão em seus olhos,

ainda parecia ela mesma.

A mesma Sansa.

Ela, junto com Abraham Starlight, eram os únicos personagens sobre os quais eu nunca escrevi nada concreto.

E de alguma forma,

presença dela era algo que eu não queria perder.

Depois de decidir isso, deixei o assunto de lado e continuei conversando com Sansa como costumava fazer no passado, ignorando a escuridão que silenciosamente girava ao seu redor.

Nesses momentos, conversas sem sentido, leves e descontraídas, eram mais do que bem-vindas.

Afinal, não é isso que amigos fazem?

E assim, perdemos o senso do tempo.

"Você tem olhado bastante para mim ultimamente."

Sua voz veio do nada, e ela se virou em minha direção com um sorriso brincalhão.

"Não sei do que você está falando," respondi, desviando com uma negação casual.

Ela terminou com uma risada suave.

"Tudo isso não combina contigo, Frey. Será que… você se apaixonou por mim?"

"Você sabe que não é isso."

Quer dizer, ela consegue literalmente captar emoções pelas expressões faciais... então, qual seria a justificativa para perguntar?

"Sei," ela assentiu.

"Mas você sabe?"

"O que você quer dizer?"

"Que tipo de sentimento você acha que eu tenho por você, Frey?"

Ela se levantou do banco, os olhos fixos nos meus... aqueles olhos profundos e sombrios dela.

Não havia uma resposta clara para a pergunta dela.

Eu não tinha a habilidade dela, então tudo o que podia fazer era adivinhar.

"Tenho medo que, se eu disser 'amor', você tente me matar."

"Você é mais idiota do que pensei." Sansa balançou a cabeça. [1]

"Eu nunca conseguiria me apaixonar por alguém que quebra suas promessas."

…Uma promessa.

Eu me lembro dela ter mencionado algo assim antes…

uma promessa feita ao outro Frey, aquele que viveu antes que eu renascesse.

Embora, sinceramente, eu nem tinha certeza se éramos pessoas diferentes de verdade.

"Pra ser honesto… esqueci dessa promessa."

Então, contei a ela a verdade… direta e sem filtros.

Ela assentiu, sem demonstrar reação.

"Sabia."

O silêncio caiu entre nós.

Ficamos nos olhando por um tempo.

"E aí?" perguntei. "Não vai me contar qual era a promessa?"

"Não. Já não faz mais diferença se você esqueceu."

Sansa virou-se para ir embora, mas olhou para trás com um sorriso sutil.

"Mesmo que você não lembre, Frey… você a cumpriu perfeitamente o tempo todo.

Acho que esse é o seu jeito de ser."

Suas palavras mexeram comigo.

Mas, se ela não ia me contar, achei melhor deixar assim… por enquanto.

Ela foi a última a chegar, e a primeira a ir embora.

O sol já começava a se pôr.

"Tá ficando tarde."

"Sim…"

"Você deveria voltar para o seu quarto agora, não acha?"

"Vou ficar mais um pouco."

Sansa tinha tomado a decisão de partir, quase como se algo a estivesse forçando a isso.

Então, não tentei impedi-la.

Com um último olhar para ela, lembrei de como ela era uma das poucas que ficaram ao meu lado…

mesmo quando outros clamaram pela minha execução.

"Obrigad… Sansa. Por tudo."

Talvez eu não tivesse sobrevivido se não fosse ela.

Então, dizer "obrigado" era o mínimo que podia fazer.

Sansa sorriu.

"Não precisa agradecer. Você salvou minha vida, lembra?"

"Então estamos quites."

Fiz um gesto de despedida, e ela fez o mesmo… desaparecendo do meu campo de visão.

Sansa…

Sim. Eu definitivamente não quero te matar.

Devagar, o sorriso desapareceu dos meus lábios, substituído pelo meu jeito frio de sempre,

enquanto eu recebia mais uma visitante indesejada.

"Por quanto tempo planeja observar daí de cima?"

Nem me dei ao trabalho de me virar.

O príncipe loiro aplaudiu enquanto dava um passo à frente.

"Sensores impressionantes, como sempre… Frey."

"Aegon."

O príncipe, sorrindo como de costume, olhou primeiro para mim, depois na direção onde sua irmã tinha desaparecido.

"Vejo que seu relacionamento com minha irmã vai bem."

Ele comentou com um sorriso maroto. Respondi de forma direta:

"Melhor do que meu relacionamento com você, pelo menos."

"Ai, isso dói, sabia?"

Ele fingiu se ofender, depois se aproximou e sentou exatamente onde Sansa estivera poucos momentos atrás.

"O que você quer?"

Perguntei, já com a paciência no limite.

Meu relacionamento com ele nunca foi amistoso.

Mas Aegon também era bom… bom demais em esconder seus verdadeiros pensamentos.

Relacionar-se com essa família real era uma dor de cabeça constante.

"Não se preocupe, Frey. Você não é mais uma prioridade para mim."

"Sério? Difícil de acreditar."

Aegon não era do tipo que deixa um peão desgovernado vagando pelo tabuleiro espalhando caos.

"Não posso te culpar. Normalmente, eu eliminaria peças como você… mas você é teimoso demais pra morrer. E matar você dá um trabalh."

"Vou considerar isso um elogio," notei com uma risada seca.

Ele riu também.

"Foi um elogio. Deve estar orgulhoso."

"Na verdade, sinto é repulsa."

"Que cruel."

Aegon deu de ombros, depois olhou para o céu.

"Agora tem muitos olhos e mãos ao seu redor, Frey…

Pra ser honesto, não sei se lidar com eles é melhor do que lidar comigo.

Você pode até achar que sou mais charmoso em comparação."

Não dava pra saber exatamente o que ele quis dizer… ou quem quis dizer.

Mas ele não estava errado.

Talvez essa fosse sua conclusão depois de tentar me matar mais de uma vez.

Senti um prazer leve, olhando para o chão.

"Vou descobrir as coisas… como sempre."

"Então, continue jogando no tabuleiro do jeito que quiser. Por enquanto."

"Você parece muito calmo. Se fosse eu, estaria sentindo uma pressão doida agora."

Sansa já não era mais uma adversária tão fácil assim."

Joguei uma provocação, e ele só riu.

"É assim que você realmente pensa, Frey Starlight?"

"…"

Aegon se levantou, e, pela primeira vez,

vi seu rosto verdadeiro… seu sorriso verdadeiro.

"Minha luta com minha irmã acabou há muito tempo."

"Do que você está falando?" perguntei.

Mas Aegon já estava se afastando, sorrindo ainda.

"Já ganhei. Está acabado. Sansa se destruiu com as próprias mãos."

Suas palavras confirmaram algo:

ele sabia de coisas que os outros não sabiam…

e, ao contrário de mim, não precisava de uma visão do futuro para perceber isso.

"Prepare-se para o espetáculo que começará nos próximos dias. Tenho certeza de que vai gostar."

Ele acenou e desapareceu,

exatamente como sua irmã também havia feito.

Sorri e fiquei sentado.

"Que tipo de espetáculo…?"

E que sangue eu teria que derramar desta vez?

Com esse pensamento me consumindo,

levantei-me e deixei o jardim enquanto o céu ficava mais escuro acima de mim.

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