O Ponto de Vista do Vilão

Capítulo 240

O Ponto de Vista do Vilão

Para alguém que passou a maior parte do tempo recente preso numa cela, meu primeiro dia fora passou voando.

Logo de cara, vi Ada. Minha irmã ficou realmente feliz ao me ver novamente... e tinha desenvolvido aquela característica irritante de agir como se fosse minha mãe.

Fiquei particularmente chocado ao abrir a janela de status dela…

Nome: Ada Starlight

Pontos de Afeição: 99

O número era assustadoramente alto. Eu achava que o limite fosse 50.

Ao contrário da janela de Phoenix, a página de status de Ada era absurdamente longa... parecia que poderia perfurar o chão se eu deixasse ela continuar.

Com uma afeição tão alta, eu podia ver tudo sobre ela. Seus pensamentos, suas habilidades, o que ela gostava, o que ela odiava…

Cada detalhe, numa clareza esmagadora.

Foi aí que comecei a me questionar...pra que mesmo eu tinha essa habilidade?

Ah, e devo mencionar... tentei usar a visão em Terceira Pessoa na Ada.

Funcionou. De forma assustadoramente precisa.

Realmente me senti como um jogador, assistindo a ela por trás.

Pra falar a verdade, foi um alívio perceber que essa habilidade só funcionava na Ada.

Se não... quem sabe o que eu poderia acabar fazendo com alguém?

Sim, a Ada era a única.

…Ou pelo menos eu achava que era.

"Qual é esse olhar na sua cara? Se continuar distraído assim, vou te fazer voltar ao foco."

Um punho bateu contra minha espada, me obrigando a recuar um passo.

"…Desculpa."

"Ficar preso por tanto tempo atrofiou seus instintos de combate... Vamos continuar até seu corpo se lembrar de como se mexer de novo."

Carmen estalou os dedos, os olhos brilhando enquanto me focava.

Em resposta, assumi minha postura, segurando Balerion, e murmurei baixinho:

"…Por que ainda estou lutando? Qual é o sentido de recuperar esses instintos?"

Ignorando meus comentários ociosos, Carmen avançou, lançando ataque após ataque, na esperança de tirar a ferrugem de mim antes de eu voltar ao Templo.

Entendi. Ela fazia isso por mim... mesmo que não dissesse. E eu era grato, especialmente por ela sempre ter protegido a Ada.

Sem falar… no momento em que abri a janela de status dela, senti-me completamente à vontade.

Nome: Carmen Starlight

Pontos de Afeição Atuais: 50

Rank: SS-

Estilo de Combate: Stardust

Essa pessoa confia em você e te vê tanto como aliada quanto como alguém importante.

Seu nível de afeição era alto o bastante para revelar muita coisa. E, aparentemente, não subiria além de 50 a não ser que eu fizesse algo a respeito—

Algo que eu acidentalmente fiz com a Ada.

Até agora, eu ainda não entendia completamente como essa nova funcionalidade do sistema funcionava.

Passei uma semana inteira na mansão Starlight.

A residência onde ficamos era isolada do resto da capital, tranquila e silenciosa.

A Ada não saiu do meu lado nenhuma vez durante toda aquela semana. Ela grudava em mim o tempo todo.

E, curiosamente… não me importava.

De alguma forma, comecei a vê-la como uma verdadeira irmã.

Nunca pensei que algo tão simples pudesse mudar tanto nossa relação.

Continuava lembrando da surpresa e da alegria nos olhos dela quando comecei a tratar ela como família, depois de todos aqueles muros antigos entre nós terem desabado.

Família... isso tinha sido tudo pelo que lutei até então.

E agora, essa família estava bem aqui... manifestada na Ada Starlight.

Aquele calor que senti… talvez fosse isso que meu pai quis dizer quando me disse para viver.

Isto.

Esse tipo de vida... talvez fosse tudo o que ele sempre quis para mim.

No fundo, torcia para que essa fosse a resposta.

Desejava um futuro gentil o bastante para permitir que esse tipo de vida florescesse.

O tempo realmente voa.

Antes que percebesse, já estava de volta ao Templo.

O lugar não tinha mudado nada.

E, estranhamente, percebi que tinha criado muitas memórias aqui ao longo do último ano… desde meus primeiros dias e lutas amargas, até a batalha final da Victoriad.

Agora, eu não era mais um calouro. Tinha oficialmente entrado na turma de elite do segundo ano.

Só percebi quando tentei entrar na minha antiga sala no primeiro andar e encontrei uma garota mais jovem do lado de dentro.

De forma desajeitada, tive que subir as escadas, chamando atenção indesejada e causando uma confusão que poderia ter evitado.

E naquele instante… percebi como os outros me viam agora.

Vi ódio nos olhos deles… desgosto.

Para eles, eu era um criminoso. E, para ser justo, eu tinha acabado de sair da prisão.

Mas, além do desgosto, eu vi outra coisa…

Medo.

Receio.

Sem que eu percebesse, meu nome começou a carregar peso.

Muito mais do que quando eu era só o “Frey, o cara que tentou estuprar a filha de um nobre”.

Nem que isso importasse. Eu nunca liguei muito para o que as pessoas pensavam de mim.

Subi as escadas, degrau por degrau, rumo ao segundo andar… marcando mais um nível de avanço na minha vida no Templo.

E então, vi alguém vindo na direção do mesmo lugar que eu.

Aquela postura larga… cabelo loiro platinado… uma estrutura musculosa e imponente que era difícil de esquecer.

Algum tempo atrás, havíamos lutado até às portas da morte.

Agora, ele olhou de lado para mim, um olho dourado brilhando com intensidade pura.

"Ora, ora… Frey Starlight. Decidiu aparecer ao final?"

Daemon virou-se completamente para mim, o temperamento tão explosivo quanto sempre.

"Daemon. Você sendo a primeira a cruzar comigo aqui… O que houve? Se perdeu e acabou entrando na classe de elite sem querer?"

Sorri de jeito, preparado para nossa típica troca de provocações.

Porém Daemon respondeu com frieza.

"Hmph. Vocês vão me ver bastante a partir de agora."

Ele puxou um cartão preto, gravado em ouro, revelando sua nova designação:

Classe de Elite – Rank AB-11

Olhei de perto, e percebi que o uniforme dele não era daquele da classe Abyss.

"AB-11?"

Estranhei, e Daemon explicou:

"Significa que agora faço parte de ambas as classes de elite."

Faz sentido.

O único motivo de ele ter sido colocado na classe Abyss inicialmente era por causa das disputas políticas entre o príncipe e a princesa.

Para manter a neutralidade, ele não podia estar em nenhuma das duas classes.

Mas agora, com a ameaça de guerra se aproximando, essa neutralidade foi abandonada.

Daemon foi oficialmente incluído na classe de elite... embora de uma forma bem estranha, como membro de ambas as classes A e B.

Contudo, receber rank 11 em ambas as classes… era uma afronta clara para ele.

Ele leu meus pensamentos instantaneamente, sorrindo enquanto apontava para meu próprio cartão.

"O que foi? O Número Um está tendo pena de mim agora?"

Justamente como ele disse… meu rank na Classe B tinha mudado desde a última vez.

Frey Starlight – Classe B-1

Ao que tudo indicava, desde a Victoriad, eu tinha me tornado o número um.

Suspirei, respondendo a Daemon.

"Números não significam nada."

"Verdade."

Ele concordou, e seguimos subindo as escadas juntos.

Fiquei surpreso com o quanto ele estava sendo civil comigo. Ainda lembrava de como tinha sido hostil antes.

"Você parece que tem muita coisa na cabeça," ele comentou.

"Tenho, sinceramente. Desde quando podemos trocar mais de três palavras sem brigar?"

Perguntei, confuso, e Daemon levantou uma sobrancelha.

"O quê? Você preferiria que eu começasse a te insultar de novo?"

Honestamente… achei que sim.

"Não. Só achei que você me olhava com desprezo."

"Olho mesmo."

Ele respondeu rápido, mas não parou de caminhar.

"Eu desprezo quem luta por coisas inúteis... pessoas que fingem que conquistaram algo quando não conquistaram nada. Esse tipo de orgulho superficial os torna superficiais."

Assenti.

Essa era a filosofia de Daemon Valerion… sua guerra de princípios exposta na cara.

Ele virou um pouco para me olhar.

"Mas você é diferente, Frey Starlight."

"Huh?"

"Nunca vi alguém lutar com tanta desesperação… do jeito que você lutou. Essa fome bruta… esse impulso de que perder seria pior que morrer. Como se fosse realmente o fim."

Daemon fez uma pausa, lembrando da nossa semifinal.

"Quem luta assim… é um verdadeiro guerreiro."

Palavras dele me deixaram com uma sensação estranha.

Daemon Valerion… o leão obcecado por combate da Casa Valerion… tinha acabado de me reconhecer.

Sabia que o que ele dizia não deveria importar.

Era algo sem sentido, de fato.

Mas, por algum motivo, não consegui pensar em nada para responder.

Minhas ideias travaram.

Então, as primeiras palavras que saíram foram:

"Um verdadeiro guerreiro? Eu sou só um assassino."

Quis dizer mais como um insulto a mim mesmo do que qualquer outra coisa.

Porém Daemon apenas riu enquanto caminhava na minha frente em direção ao quarto dele.

"Um assassino? Abre os olhos, Starlight. Você está cercado por pessoas que já mataram pelo menos uma vez."

Matar neste mundo, nesta era, já não tinha o peso de antigamente.

A verdadeira razão do pânico de todos na época não era quem eu tinha matado… era como eu tinha feito.

O perigo que eu representava.

Os que me julgavam por meus “crimes” eram pessoas que tinham massacrado milhares também.

Nunca foi questão de moralidade.

E Daemon entendia isso… diferente dos estudantes comuns, que me odiavam por isso.

"Estou ansioso para nossa próxima luta, Frey Starlight. Esteja preparado."

E com isso, ele terminou a conversa e desapareceu no quarto.

Eu sorri também, depois me virei para o meu próprio.

"Estou ansioso por isso." murmurei.

Por puro instinto, não consegui evitar de dar uma olhada na janela de status do Daemon.

E o que vi me pegou de surpresa.

Nome: Daemon Valerion

Pontos de Afeição: 30

Rank: B

Estilo de Combate: Portal do Dragão

Essa pessoa te respeita e te considera um rival.

Eu precisava parar de tratar os estudantes da classe de elite como personagens de alguma história.

De muitas maneiras, eles eram mais reais do que eu.

Eu ainda não tinha certeza do que deveria fazer a seguir…

Ou como deveria viver.

Até a missão final do meu sistema ainda estava em branco.

Mas, independentemente da resposta…

eu tinha certeza de que a encontraria aqui, dentro das paredes do Templo.

E assim… começou meu segundo ano no Templo.

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