
Capítulo 249
O Ponto de Vista do Vilão
—Ponto de Vista de Frey Starlight—
Melina estendeu a mão. Eu a agarrei com esforço, usando-a para me levantar do chão, meu corpo ainda doía após a surra que acabara de levar.
—Você lutou bem—disse ela.
Vindo da infame mestre de espadas, aquelas palavras soavam estranhamente fora de lugar... especialmente com sua enorme claymore ainda repousando perto da minha garganta.
—Devo interpretar isso como um elogio?—perguntei.
—Nem de perto—respondeu ela, balançando a cabeça. —Sua resistência já é prova suficiente de que consegue ficar de pé.
Não foi exatamente reconfortante, mas Melina nunca disfarçava a verdade. Essa talvez fosse a sua forma de elogio elevado.
Tínhamos lutado exatamente quinze minutos... o limite de quanto tempo eu podia manter a Forma de Sangue com Balerion, ampliada pelo surge de aura de Dark Sister.
E, mesmo assim, mal consegui acompanhar a tempestade de ferro que era Melina.
Naturalmente, assim que aqueles quinze minutos terminaram, a batalha acabou.
Durante toda a luta — e até agora — havia algo estranho nos olhos dela. Um olhar que eu não conseguia identificar exatamente, mas que não podia mais ignorar.
—Hm... algo está errado?—perguntei.
—Você…—ela respondeu sem hesitar. —Nunca imaginei que veria alguém empunhando duas Armas Antigas ao mesmo tempo.
—Isso é mesmo uma grande coisa?—perguntei.
Sabia que ninguém tinha empunhado duas das Sete Espadas Lendárias ao mesmo tempo. Mas, no fim, elas ainda eram apenas armas... qualquer um poderia, tecnicamente, encontrá-las.
Aparentemente, eu estava errado.
O olhar penetrante dela mostrava o quanto eu ainda compreendia pouco.
—Espadas de classificação SS não são armas comuns. Nem todo mundo consegue manejá-las.
Fazia sentido, embora eu ainda não tivesse tido dificuldades com nenhuma delas até então.
—Existe... alguma exigência ou algo assim?—perguntei.
Não me lembrava de ter lido algo nesse sentido na lenda... além de Vermithor, a espada da Snow.
Felizmente, Melina teve paciência suficiente para explicar.
—Essas espadas não são apenas aço forjado—disse ela, passando a mão suavemente pela sua claymore dourada. —São fragmentos de enigmas, moldados em lâminas. Às vezes, é a espada que te conduz... e não o contrário.
Elas não eram feitas para se encaixarem na categoria de armas comuns.
—Você deve ter sentido também... aqueles momentos em que a espada parece viva. Quando ela age não como uma ferramenta, mas como algo... senciente.
Olhei para Balerion.
A ameaça negra estava comigo desde os tempos da Seita Sombria. Havíamos passado por muita coisa juntos.
E, sim... existiam momentos. Momentos em que ela se mexia ou agia de formas que iam além da minha compreensão.
—Entendi. Você também sentiu isso—disse ela.
—Mais ou menos…—respondi.
—É como uma possessão—disse ela.
—Uma sutil, talvez—respondi.
—Possessão?—perguntei.
—Sim. Às vezes, a própria essência da espada te influencia... uma sede de sangue, uma onda de emoção, ou até algo mais direto... como a lâmina se mover por conta própria.
—…—não consegui dizer nada.
—Quero dizer que essas espadas têm uma vontade própria. Elas testam seus portadores antes de se entregarem completamente.
Um teste...
Seria aquilo que aconteceu na Seita Sombria o julgamento de Balerion? E e quanto à Dark Sister? Ela veio comigo desde o começo... isso significa que eu já havia passado no teste dela?
—Frey Starlight, por terem vontade própria, essas espadas, aos poucos, vão consumindo quem as empunha. Elas influenciam constantemente—disse Melina—. Por isso, manejar duas delas ao mesmo tempo é quase impossível.
—Quem tenta, acaba morrendo ou enlouquecendo—completou ela.
A maioria mal consegue manejar uma só. Acrescente outra, e deveria ter me esmagado. E, ainda assim, as próprias espadas tinham orgulho... recusavam-se a ser empunhadas juntas.
—Mas aqui estou—disse ela, dando uma volta lenta ao meu redor, os olhos examinando cada detalhe de mim.
—Carregando duas espadas em chamas como se fosse algo trivial.
—Seu corpo aguenta golpes destinados a alguém da classe SS, e você está no B, no máximo—disse ela.
Mesmo com Dark Sister e Balerion impulsionando meu poder enormemente, aquilo ainda não explicava essa lacuna tão grande.
—Sua base é mais importante. Tudo o que vem depois é só reforço—afirmou Melina.
—Tem algo... diferente em você—ela acrescentou.
Suas palavras... não estavam erradas.
—Não vou negar—respondi com um sorriso suave. —Nem eu me entendo completamente.
Minha vida tinha mais caos do que eu poderia compreender.
—Posso te perguntar uma coisa?—ela pediu. —Por que você luta?—.
—…Como assim?—perguntei.
—Todo mundo que vem ao templo tem alguma razão. Um desejo ou uma ambição que os motiva a lutar—explicou ela.
Coisas como poder, fama... ou até algo trivial, como querer fazer amigos ou viver melhor.
—Qual é a sua, Senhor Starlight?—perguntou ela.
No momento em que ela perguntou, percebi... ela tinha me visto através de mim.
Ela era do tipo que estuda um adversário com apenas algumas trocas de golpes.
—Um motivo para lutar... eu tinha um. Não faz muito tempo. Mas agora... não tenho mais—respondi.
—Meu objetivo era claro... distante, sim, e o caminho até lá era árduo, muitas vezes parecendo impossível—disse eu. —Mas sempre existiu. Eu sabia exatamente o que queria. Essa clareza me ajudou a lutar além dos meus limites. Mas agora... minha mente está turva demais.
—Muito aconteceu recentemente. Então, por que devo lutar agora? Devo queimar o que ainda tenho em busca de vingança contra um inimigo distante, inalcançável? Ou procurar por outras verdades escondidas por trás do véu? Ou, quem sabe... tudo seja bem mais simples do que parece?—perguntou ela.
—Não sei mais—respondi.
Não fazia ideia do que Melina via em mim. Ou do que ela sentia ao perceber o vazio nas minhas palavras, a nulidade nos meus olhos.
Porém, ela estendeu a mão suavemente, colocando a mão no meu ombro.
Era uma mão delicada... condizente com uma mulher. Mas a firmeza do toque mostrava o contrário.
Era a mão de alguém que dedicou tudo à lâmina.
—Está tudo bem—disse ela suavemente. —Você pode preencher essa vazio, pouco a pouco, e descobrir quem você realmente é com o tempo. É justamente por isso que o templo existe.
Talvez ela estivesse me dizendo... para confiar nela. Que ela me ajudaria.
Não consegui entender completamente suas verdadeiras intenções, mas, por ora, decidi aceitar a mão que ela me oferecia.
—Vou aguardar por isso—respondi.
Ela concordou com um único movimento de cabeça. Depois disso, ficamos em silêncio, discutindo minha nova forma de lutar.
Ainda não dominava totalmente o uso de duas armas, mas, segundo ela, tinha talento para isso. O que eu precisava agora era fortalecer minha base e compreender realmente minhas próprias capacidades.
Isso incluía dominar o primeiro estágio de Adaptação Sombria, que finalmente havia alcançado.
No fim das contas, percebi que ainda tinha um longo caminho pela frente.
—Então, até amanhã, Senhora Melina—disse.
—Sim—respondeu ela.
Encarei a espada da guerreira de cabelos vermelhos e parti em direção à saída.
Enquanto caminhava, olhei para aquela irritante janela do sistema que às vezes surgia na minha frente.
Ding!
Melina Maiden
Nível Atual: SS
Pontos de Afeição: 15
A portadora da Claymore demonstra curiosidade sobre você.
– Mais informações não podem ser exibidas devido ao baixo nível de Afeição –
…
Curiosa por mim, hein?
Bom, acho que isso é melhor do que ela me odiar.
Com esse pensamento, deixei o campo de treinamento. Enquanto isso, Melina ficou para trás, com os olhos fixos em mim, ponderando o que tinha acabado de acontecer... e o que se passara no dia anterior.
Depois de ter certeza de que estava completamente sozinha, Melina levantou sua espada para o céu, com o olhar fixo na lâmina.
—Que geração estranha—disse ela.
Seus olhos rubros refletiam na borda dourada da claymore.
—Ontem, o Campeão da Igreja veio me procurar daquele jeito estranho. E hoje, o Campeão de Victoriad empunha duas espadas em chamas.
O mais estranho de tudo... ambos conseguiram resistir às suas golpes.
—Estou começando a enferrujar?—pensou ela.
Naquele momento... dizem que alguém ouviu o som de uma espada cortando o ar... a quilômetros de distância.