
Capítulo 219
O Ponto de Vista do Vilão
O diretor voltou-se para a mulher que permanecia observando a situação.
"Você também não conseguiu tirar nada dele, hein."
Ivar, claramente irritado, ficou diante das telas que monitoravam Frey.
"Que informações temos até agora?"
A mulher ao seu lado ajustou os óculos e, com calma, começou a resumir as conclusões às quais chegaram.
"Primeiro, não se trata de um contrato demoníaco. A Santa Guerreira Yorasha estava presente naquele dia por seu dever de acompanhar o herói, e não detectou nenhum rastro de aura demoníaca."
A única explicação lógica já havia sido descartada.
"Em segundo lugar, ainda não sabemos a quantidade exata de aura que o garoto liberou. Mas não há dúvida de que seu ataque atingiu o rank SS."
Um ataque que apenas um punhado de indivíduos em todo o Império conseguiria reproduzir.
De um simples garoto classe C+.
"Em terceiro, com base em algumas imagens capturadas do incidente, podia-se ver uma espada negra ligada à mão dele. Após cruzar essa informação com nossos arquivos, encontramos algo semelhante registrado há mais de 300 anos..."
A mulher fez uma pausa, claramente consciente de quão insano parecia tudo aquilo, mas prosseguiu:
"Aquela espada é suspeita de ser uma arma de rank SS, a Black Dread : Balerion, que um dia foi empunhada por um dos mais fortes humanos da história. Ela desapareceu... até aparecer na mão daquele garoto."
Os olhos de Ivar se arregalaram ao ouvir aquilo.
"Uma das espadas lendárias."
E uma das mais enigmáticas também.
Talvez essa fosse a única pista que fazia até um pouco de sentido no caos que tudo aquilo se tornara.
Mas mesmo com Balerion...
"Ainda assim, isso é impossível. Mesmo com uma arma tão poderosa quanto essa, como alguém com talento de mero A-rank poderia liberar uma aura tão avassaladora?!"
Ivar bagunçou os cabelos, frustrado, sentindo uma forte dor de cabeça pulsando nas têmporas.
Porém, a mulher ao seu lado o olhou por mais um instante antes de falar.
"Senhor... há algo mais que você precisa saber."
"E agora?!"
A palavra saiu em tom de impaciência.
Ivar se preparou, esperando ainda mais loucura, mas as revelações ainda não haviam acabado.
"Após várias avaliações, o resultado sobre o talento dele revelou-se completamente diferente do que inicialmente nos foi passado."
"O quê?"
"É S."
Ela respirou fundo e repetiu com mais clareza:
"O talento dele é S."
Ivar ficou boquiaberto.
"Ele mexeu no teste de talento?"
Parecia a explicação mais razoável.
Mas a mulher balançou a cabeça firmemente.
"Eu também pensei assim no começo... mas olhe isso."
Ela colocou uma esfera de cristal negro ao lado deles e conectou várias fios a ela, projetando uma grande quantidade de dados na tela.
"Esta é a mesma esfera que Frey Starlight usou na primeira avaliação de talento ao entrar no Templo. Felizmente, ela ainda mantém um vestígio de sua aura."
Ao analisar a aura residual, os resultados eram irrefutáveis.
"Não importa quantas vezes eu testei... o resultado era A."
"Mas agora, é S."
A mulher virou-se para Ivar, que permanecia imóvel, com expressão de profunda preocupação.
"Senhor, a não ser que tenhamos esquecido de algo crucial, podemos estar lidando com uma situação sem precedentes na história do Império."
Ivar, totalmente atônito, murmurou baixinho:
"Um Despertado... capaz de elevar seu próprio talento."
Sabia o quanto essa ideia parecia louca, mas e se fosse verdade?
Um ser capaz de romper seus limites inatos... capaz de continuar crescendo sem parar.
Esse pensamento fez seu corpo estremecer, fazendo-o se apoiar na parede em busca de suporte.
Isso significaria que Frey Starlight... era um monstro cujo crescimento não tinha limites?
As possibilidades eram aterrorizantes.
Como eles poderiam lidar com alguém como ele?
O comportamento recente de Frey já tinha mostrado que ele era uma ameaça para todos eles.
Então, deveria matar esse monstro agora, antes que ele se tornasse ainda mais forte?
Porém, a Família Starlight pressionava fortemente a seu favor... se Ivar o matasse, uma das Grandes Casas viraria contra eles.
Numa época em que estavam à beira de uma guerra contra os Ultras.
De repente, Ivar compreendeu a verdadeira gravidade da situação.
"A vida dele... ou a morte."
Ivar Valerion fechou os olhos pesadamente.
"Qual a decisão correta?"
Esse dilema... foi levado até o próprio Imperador Maekar Valerion naquela mesma manhã.
Os chefes das casas nobres.
Os líderes da Igreja.
As grandes figuras do Império.
Cada um tinha sua própria opinião sobre esse assunto sem precedentes.
Quando Ivar perguntou ao seu irmão mais velho Maekar sua opinião, o Imperador, apoiado casualmente em seu trono, respondeu de forma simples, quase como se fosse algo trivial.
"O valor dele... determinará seu destino."
Se ele se tornaria uma bênção para o Império...
Ou sua maior maldição.
Maekar não pretendia interferir diretamente na questão.
Pelo contrário, deixou a decisão completamente nas mãos das principais forças do Império.
As chances não estavam a favor de Frey.
Após compreender a situação, a Igreja foi a primeira a pedir sua execução... lamentando as vidas inocentes e temendo as catástrofes que Frey Starlight poderia desencadear no futuro.
A Família Moonlight inicialmente não tomou uma posição clara, mas também se inclinava contra Frey.
As grandes guildas e a maior parte das forças influentes dentro do Império votaram esmagadoramente por sua execução.
Os únicos que o apoiavam eram sua família...
apenas os Starlight.
Durante dias, Ada Starlight lutou para proteger seu irmão, enfrentando de forma firme a maré de pedidos por sua morte.
Ela usou tudo o que tinha como líder de uma Grandes Casas.
Mas o medo dominava os corações de muitos... medo do que haviam testemunhado naquele dia.
Alguns viam isso como uma oportunidade para eliminá-lo.
Outros simplesmente queriam destruí-lo antes que ele se tornasse ainda mais forte.
Incontáveis forças uniram-se, buscando sua cabeça.
E nos bastidores, mãos ocultas se moviam...
Guiadas por ninguém menos que o Príncipe Aegon Valerion.
Ele orquestrava tudo habilmente nas sombras, e Ada se viu completamente encurralada.
No começo, resistiu bem, mas assim que entrou em confronto com as forças ocultas do Príncipe, percebeu o quão sobrepujada ela estava...
Assustada, sem conseguir sequer identificar quem era seu verdadeiro inimigo.
Nesse momento, dentro do grande castelo da Família Starlight, Ada segurou a cabeça com desespero, buscando desesperadamente uma saída.
Nessa velocidade... ela seria forçada a assistir à cabeça do irmão cair diante de seus olhos.
Só de imaginar aquilo, sentia seu mundo desmoronar ao redor dela.
"O que eu faço?"
Como ela poderia salvá-lo?
Como tirá-lo dessa catástrofe?
Frey havia atravessado uma linha proibida desta vez...
A situação dele era desastrosa.
A mente de Ada ficou vazia, tomada pelo desespero.
Nessa velocidade, ele realmente morreria.
Quando ela finalmente perdeu toda esperança, a porta se abriu abruptamente, e uma voz poderosa ecoou pelo cômodo.
"O que está fazendo, Senhor Starlight? É hora de desmoronar agora, se acabamos de começar?"
Virando a cabeça...
Ada encontrou um ancião com barba de fogo, confiante e sorridente, vestido com um terno luxuoso.
Logo atrás dele, Phoenix brilhava com seu habitual esplendor.
"Você..."
Quando eles tinham chegado?
A mente de Ada correu para recordar... ela tentara diversas vezes buscar ajuda deles, convidando-os a se aliarem a ela, mas a Família Sunlight manteve-se neutra até agora.
Por que eles apareceram agora, justamente neste momento?
"Levante-se, Ada Starlight.
Um Senhor não cai tão facilmente."
"Por quê... por que vocês chegaram?"
Perguntou Ada, com uma expressão de desânimo, seu coração já sem esperança de algo melhor.
O ancião da Sunlight entrelaçou as mãos, dando uma rápida olhada primeiro para Phoenix, e depois de volta para Ada.
"Ouvi tudo... sobre seu irmão."
Como ele virou um monstro cujo limite ninguém podia prever.
E como o mundo agora queria sua morte.
"Todo mundo vê Frey Starlight como um monstro destinado a destruir tudo."
E essa ideia fazia todo sentido...
pois ele já tinha provado isso uma vez.
O velho Iris Sunlight olhou para a garota à sua frente, memórias surgindo de um homem que uma vez se ergueu com força diante dele...
"As pessoas temem os monstros que não entendem.
Odeiam-nos... desejam nossa morte, simplesmente porque não conseguem compreendê-los."
Houve um monstro assim uma vez.
Um monstrão chamado Abraham Starlight.
Iris Sunlight... reconhecido como o mais forte entre as Grandes Casas... lutou ao lado daquele homem.
Não foi o Imperador quem liderou a guerra final.
Nenhum dos outros grandes líderes.
Foi Abraham.
Aquele que lutou sozinho contra os Quatro Lords dos Ultras.
Aquele que derrotou o Imperador Maekar Valerion em um duelo um-contra-um.
Aquele que matou o demônio humano Dragoth.
Abraham Starlight foi o monstro que ninguém conseguiu entender.
"Frey Starlight ainda é uma criança, nem mesmo tem dezoito anos...
apenas uma semente nascente com potencial aterrador...
potencial que um dia poderá lançar uma sombra sobre todos ao seu redor."
Iris fechou os olhos por um momento antes de continuar.
"Ainda é apenas uma criança.
Nosso dever, como a geração mais velha, é apoiá-lo e guiá-lo... não destruí-lo."
Talentos como esse deveriam conduzir o Império ao futuro.
Assim como Abraham Starlight um dia fez.
Frey Starlight um dia alcançará o mesmo nível.
"E com o Império à Beira de uma guerra total...
quais argumentos teríamos para abandonar um talento que pode decidir o próprio sorte do futuro?"
Ada ouviu as palavras de Iris em silêncio, incapaz de compreender totalmente a gravidade do que dizia.
Enquanto isso, Phoenix assentia, satisfeito.
"Você falou tão bem, tio... não tenho nada a acrescentar."
Phoenix declarou com orgulho:
"A Família Sunlight apoiará os Starlight."
Essas palavras eram exatamente o que Ada queria ouvir desesperadamente.
Palavras que reacenderam a esperança.
Então, Phoenix se virou em direção às portas atrás dele, onde mais convidados haviam acabado de chegar.
"E não estamos sozinhos."
A Família Sunlight permanecera em silêncio até então porque já se preparavam para este momento.
Particularmente Phoenix, que trabalhou incessantemente para que tudo se encaixasse.
Da entrada, duas figuras entraram...
Ambas na mesma idade de Frey.
Um era um garoto de cabelo branco e olhos dourados.
Outro era uma garota com cabelos dourados radiantes e olhos agora escurecidos por um preto intenso.
Ada as reconheceu instantaneamente.
Ambos já eram nomes famosos.
"O Herói, Snow Lionheart... E a Princesa Sansa Valerion."
Phoenix apontou para elas.
"Essas duas irão nos ajudar...
e talvez sejam o fator decisivo."
Snow Lionheart...
o Herói da Igreja.
"Farei tudo o que puder."
Portador da Espada Vermithor, executor da Vontade do Senhor da Luz.
A influência de Snow na Igreja era enorme.
Se ele apoiá-lo, a Igreja será obrigada a seguir...
pois opor-se seria desafiar a Vontade de seu Deus.
Após a batalha devastadora na final do Victoriad, Snow vislumbrou isso.
Assim como Frey viu uma reflexão de si mesmo em Snow...
Snow também viu uma reflexão de sua luta desesperada em Frey.
Ele podia senti-lo...
Compreendia, mesmo que um pouco, a dor imensa que aquele menino carregava.
Alguém como Frey...
Snow queria crescer ao lado dele.
Quer que ele lute novamente.
Quer lutar ao lado dele...
Um guerreiro digno de seu respeito.
Enquanto isso, Sansa lançou um breve olhar para Iris Sunlight.
A relação deles não era exatamente amistosa, especialmente porque a Família Sunlight já tinha apoiado seu irmão na batalha pelo trono.
Iris era do tipo que seguia o caminho que acreditava ser correto, independentemente de quem estivesse no seu caminho.
Por isso, também não deu sinais de recuar hoje.
Porém, o encontro de hoje tinha uma causa diferente.
Frey Starlight...
Ele era alguém precioso para ela...
alguém que já tinha perdido tudo.
A única pessoa que alguma vez a tratou como um ser humano de verdade...
Mesmo quando tudo dentro dela gritava o contrário.
Alguém como ele...
Nunca permitiria que ele morresse.
"Farei tudo que puder para ajudar."
Todos concordaram de uma só vez.
Phoenix se virou novamente para Ada.
"Vamos lá... vamos salvar Frey."
Ada não conseguiu encontrar palavras.
Ela mal conseguiu segurar as lágrimas...
pois, finalmente, algo que ela tinha perdido nesses dias de angústia voltou.
A esperança.